Escrevo este texto com a serenidade de quem sabe que o voto é um acto de consciência antes de ser uma escolha. Não me movem paixões instantâneas nem slogans de arremesso, mas sim a exigência de coerência entre aquilo em que acredito e aquilo que tento fazer.

Enquanto conservador, recuso o fascínio da ruptura fácil e dos amanhãs que cantam. O Estado, ensinou-nos Burke, é “uma associação não apenas entre os vivos, mas também entre os mortos e os que hão-de nascer”. É, portanto, um governo do tempo, da prudência e dos seus limites. Onde vejo a tentação de simplificar a condição humana em inimigos e salvadores, reconheço um atalho que sacrifica a liberdade no altar do imediatismo. E recuso-o, naturalmente.

Todas as pessoas têm uma dignidade anterior a qualquer poder, programa ou culto do Estado. A política deve proteger o que não criou: a vida, a família, a fé, a propriedade, as instituições que nos precedem e estruturam a sociedade em que vivemos.

Onde vejo desprezo pela pessoa, onde a linguagem rompe a caridade e o poder instrumentaliza a fragilidade, não posso acompanhar quem prefere refugiar-se na ditadura das putativas liberdades individuais como justificação para a barbárie ou indiferença.

Em sentido contrário, o populismo bacoco, os mimetismos forçados e a persuasão substituída pela intimidação são um sinal seguro de descaminho em que não me revejo e que mais não é do que um sinal de fraqueza dos que se dizem fortes.

Nas presentes circunstâncias não consigo, por isso, alinhar com a narrativa redutora que apresenta a escolha a que somos chamados no próximo dia 8 de Fevereiro como um confronto entre democracia e fascismo ou entre liberdade e opressão.

Essa dicotomia, explorada maioritariamente por quem tem passado as últimas décadas a fomentar rupturas e divisões – ficando a dúvida sobre se provém de uma ignorância atrevida ou mera desonestidade intelectual –, pode tranquilizar espíritos fatigados, mas não descreve o país real nem respeita a complexidade e, mais importante, a liberdade do acto de votar. Uma comunidade não se defende com caricaturas nem com narrativas preguiçosas de quem prefere a utilidade à exigência ou o pragmatismo à prudência.

Nas eleições presidenciais em curso, reconheço a um dos candidatos urbanidade, cultura institucional, decoro público e sentido de serviço, ao passo que no outro é evidente a energia combativa, um discurso que galvaniza, um apelo aos descontentes e uma capacidade rara de comunicação directa.

Mas também vejo no primeiro a adesão a um partido e ideologia que contribuiu para a estagnação do país, fraco crescimento, aumento das desigualdades, cultura de parca exigência, vulgarização da corrupção e abuso de poder.

E no segundo um primarismo político que degenera o debate, um populismo corrosivo que tenta simplificar o que é complexo e um discurso que fomenta o ódio e as generalizações abusivas.

Estive sempre do lado oposto no combate político ao que o primeiro representa e, apesar da aparente maior proximidade ideológica com o segundo, abomino a mistura de voluntarismo com desprezo pelos limites que protegem a liberdade.

Em eleições presidenciais, tenho para mim que o essencial reside na convicção dos valores que cada um defende – permitindo antecipar as decisões que serão tomadas quando os mesmos forem postos em causa –, a visão do regime, a compreensão dos limites e divisão do poder e o compromisso com a arquitectura constitucional que protege a comunidade do excesso do Estado, do excesso das paixões políticas e garante o equilíbrio entre autoridade e liberdade.

E é precisamente aqui que ambas as opções falham o essencial. Mas regressemos ao início.

A tradição conservadora representa, antes de mais, um método de contenção. Oakeshott lembrava que governar é navegar com prudência, sem confundir horizontes com portos de abrigo. Não convencem, por isso, os que fazem da política um plebiscito permanente às emoções, nem os que pretendem resolver o drama humano ou sofrimento por decreto.

Espero da política a aplicação de princípios duradouros às circunstâncias, necessariamente transitórias, com a consciência de que a tarefa de governar é sempre um exercício de prudência: preservar antes de reformar, reformar o estritamente necessário e nunca ceder à tentação de reconstruir a realidade a partir de abstracções ideológicas ou de impulsos momentâneos. Se os meios desmentem os fins ou se o discurso erode a dignidade que proclama, a coerência exige dizer não.

É por isso que não concebo votar em candidatos que, evitando debater o essencial, abusam de uma linguagem que degrada e desumaniza adversários, pretendem enfraquecer as instituições, arriscam promessas sem lastro que hipotecam as gerações futuras, soçobram no relativismo moral em temas como a protecção da vida, da família, da liberdade religiosa e da educação e tentam infantilizar os eleitores promovendo o culto do líder e transformando as emoções em programa político.

Tento votar a favor de princípios, não contra pessoas. E quando nenhum caminho cumpre a consciência, resta a “abstenção responsável”.