É possível que os santos padres da Igreja que, em Nicéia (325), na Calcedónia (451) e em Latrão (1123 e 1139) votaram o celibato sacerdotal e exigiram aos pares que se abstivessem “da procriação de filhos” — é possível que tivessem na ideia as palavras de Paulo quando, na sua primeira epístola aos Coríntios, diz: “o homem solteiro está preocupado com as coisas do Senhor [mas] o homem casado está preocupado com as coisas mundanas, como agradar à sua esposa, e os seus interesses estão divididos” (1 Cor 7:32-3). É esse pelo menos o argumento principal que continua a ser dado para defender o celibato na Igreja. Mas é provável que os santos padres estivessem também a fazer um cálculo político: num tempo em que o império de Roma se desmoronava e vidas e haveres voltavam a estar à mercê de senhores da guerra e bandos de salteadores, manter as propriedades da Igreja indivisas e os homens unidos por destino e sentimento (eles diziam “devoção”) era condição de sobrevivência e poder. O celibato permitia travar a dispersão do património da Igreja por filhos de bispos e abades e garantir a fidelidade de homens que não estavam amarrados por vínculos de sangue.

Fosse qual fosse a ordem dos factores, a verdade é que a vontade de evitar a dispersão do património, numa lógica semelhante à do morgadio, e uma aspiração, porventura sincera, a uma comunhão mais exclusiva com Deus, juntaram-se na Europa há mil anos e produziram a mais formidável estratégia de sobrevivência de uma organização de que há memória.

Aquilo que o celibato deu à Igreja foi a possibilidade de construir uma elite sem nepotismos, seleccionada entre todos os membros da Igreja e não apenas entre os filhos dos seus príncipes. Não é acidente que a lei canónica considere que o voto de celibato é quebrado quando o padre casa mas não quando tem relações sexuais. Não é o sexo que o celibato proíbe e sim a descendência. Basta, ainda hoje, ver quem são os pais da maioria dos bispos e das pessoas que decidem na Igreja — camponeses, pequena burguesia, gente eminentemente periférica — e comparar essa realidade com a realidade das grandes corporações económicas e das academias universitárias, para perceber que funcionou e continua a funcionar. Ao longo dos séculos a Igreja foi capaz de montar um sistema eminentemente meritocrático de recrutamento e de recompensas que lhe permitiu escolher e guardar para si os melhores, os mais inteligentes e os mais ambiciosos.

O problema do celibato é, claro, ameaçar directamente concepções de vida hedonistas, baseadas na satisfação imediata dos apetites e na desistência de prosseguir objectivos de longo prazo. Exige a maior dádiva de todas: nada guardar para si, nem sequer aquilo que toda a gente preza mais: a descendência, filhos, a herança de sangue, a continuação da linhagem. É um preço muito alto, que cada vez menos gente parece disposta a pagar. Isso é um problema para a Igreja.

Dizem: “o celibato não é matéria de dogma”. Pois não. Mas é útil, é eficiente e é, talvez,
essencial. Raramente se considera quão extraordinário que a Igreja Católica leve já dois mil
anos de existência ininterrupta. Dois mil anos durante os quais foi responsável pela
preservação e transmissão do conhecimento do mundo antigo e, dessa maneira, pelo
renascimento da ciência e da Razão. A verdade é que a Igreja Católica é responsável pela
existência dos seus próprios detractores, que não existiriam e não saberiam pensar sem ela.

Em rigor, acabar com o celibato poderá ser um pecado contra o Espírito Santo. Sem o celibato, a Igreja Católica será invadida pelo nepotismo que aflige todas as outras organizações humanas. Os bispos passarão a ser filhos de bispos. Não voltará a haver Papas nascidos de pastores. Quantos cérebros decisivos ficarão por florescer?