Há uma ideia que se instalou silenciosamente em Portugal (e, atenção, em toda a Europa) nas últimas décadas: a de que a cidadania se basta a si mesma. Que nasce espontaneamente, sem esforço, sem mediação, sem instituições que a moldem. É uma ideia confortável, embora profundamente errada.
Observar o afastamento entre a sociedade civil e as Forças Armadas como um dado estatístico ou como consequência inevitável da profissionalização é redutor. É, por isso, importante observar como se se tratasse de um sintoma. Um sintoma de um país que deixou de saber como formar cidadãos para além da escola e, em muitos casos, nem sequer dentro dela.
O programa “Defender Portugal”, agora proposto pelos Grupos Parlamentares do PSD e do CDS-PP, deve ser lido à luz desta realidade. Não como uma medida isolada, nem como uma resposta técnica ao défice de efetivos nas Forças Armadas Portuguesas, mas como uma tentativa incipiente de recuperar algo que se perdeu: a ligação entre uma geração e o seu país.
Durante demasiado tempo, a Defesa foi tratada como um domínio distante. Digo, jocosamente, que, para alguns, a Defesa é aquilo que os militares comentam interminavelmente nos canais de televisão. O cidadão comum deixou de se sentir parte de um esforço coletivo que também o inclui. E quando essa perceção desaparece, desaparece também uma dimensão essencial da vida em comum: a ideia de que há algo que nos ultrapassa e que, ainda assim, nos convoca.
É precisamente essa convocação que o programa tenta reintroduzir, com prudência, é certo, mas também com ambição. Ao propor um modelo voluntário, curto e incentivado, reconhece algo que muitos discursos ignoram: a geração atual não responde a imposições, mas pode responder a desafios claros, concretos e exigentes.
Dir-se-á que três a seis semanas pouco significam. Mas essa objeção parte do equívoco de que a formação cívica depende apenas da duração. Depende, sobretudo, da intensidade, do enquadramento e do exemplo. Um momento exigente, vivido em camaradagem, marca mais do que anos de abstração.
O essencial, contudo, não está apenas na componente militar, mas principalmente na dimensão cívica. Na experiência de disciplina, de responsabilidade, de cooperação com outros que não escolhemos. Numa conjuntura em que tudo tende a ser personalizado, imediato e reversível, há valor em confrontar os jovens com estruturas que exigem permanência, esforço e adaptação.
Isso não diminui a liberdade. Dá-lhe, sem dúvida, conteúdo.
Há, naturalmente, riscos. O primeiro é o da superficialidade: transformar o programa numa formalidade sem exigência, numa espécie de certificado de participação desprovido de significado. O segundo é o da instrumentalização, usando a iniciativa como resposta fácil a problemas mais profundos. O terceiro é o do ceticismo automático, tão comum entre nós, que rejeita qualquer tentativa de mudança antes mesmo de a compreender.
Mas há um risco maior: continuar a fingir que nada disto é necessário.
Um país que não encontra formas de envolver as suas gerações mais novas na vida comum está, lentamente, a abdicar de si próprio. Não há instituições fortes sem cidadãos comprometidos. Não há cidadãos comprometidos sem experiências que os formem nesse sentido.
O programa “Defender Portugal” não resolve este problema. Não o poderia fazer. Mas reconhece-o. Reconhecer, na política, é um dos passos mais importantes.
Num tempo em que tantas propostas se limitam a gerir o presente (como costumo dizer, na “crónica da urgência permanente”), esta tem o mérito de olhar para a formação do futuro. Não como uma abstração, mas como uma responsabilidade concreta.
Retenho este ponto: a cidadania não é um estado passivo, é uma construção exigente. Se o Estado deixou de a promover, não deve surpreender-nos que a cidadania se tenha esvaziado.
Recuperá-la não será rápido, nem linear. Será, contudo, cada vez mais, inevitável.