Nas últimas eleições, ficou evidente um fenómeno que há muito vinha a crescer: o divórcio entre uma certa elite e o povo português. Uma fratura que, longe de ser apenas ideológica, é geográfica, cultural, geracional e sobretudo emocional. Confesso que isto me entristece — e entristece-me por uma razão ainda mais triste: essa elite, que tanto gosta de falar em progresso, diversidade e inclusão, separou-se por completo da realidade portuguesa.
Uma das causas mais evidentes deste afastamento é o Twitter — ou, como agora se chama, X. Não deixa de ser irónico que se chame “X”, como se fosse uma incógnita de matemática. Porque de facto é um mundo à parte, uma bolha dentro da bolha lisboeta. Ao contrário de outros países — onde o Twitter serve para jornalistas, cidadãos e políticos trocarem ideias com o país real —, cá é um pequeno clube de gente urbana, licenciada e barulhenta. Um salão de chá com emojis, tendo os nomes acompanhados de bandeiras de Israel, da Palestina, da Ucrânia e de Portugal.
Ali, os debates são acérrimos, a linguagem é afiada, mas a substância é mínima. Quem não alinha no vocabulário aprovado — é automaticamente excluído do clube. E se, por milagre, viver em Santarém, Viseu ou Beja, tem de pedir desculpa e declarar que estudou em Lisboa. Ou que pensa como se lá vivesse.
E depois vêm as consequências práticas: essa bolha tem cada vez mais peso fora do Twitter. Muitos dos seus membros tornaram-se deputados, assessores, comentadores, especialistas, cronistas. Basta olhar para os quadros de certos partidos: há lá um certo ar de Twitter transformado em bancada parlamentar. A Iniciativa Liberal, o Bloco de Esquerda, o Livre, e até o PS (na sua ala “nova”, “europeia” e urbanoide), vão buscar “ideias” (muitas aspas) e pessoas àquele pequeno mundo onde Portugal é só Lisboa, e Lisboa é só o Twitter.
Quem me ouve, sabe: tenho um ódio de estimação ao comentariado. Não por serem comentadores — Deus me livre de condenar quem fala para microfones —, mas porque a maioria não diz nada. Repetem-se uns aos outros. Discutem com base em memes. E sobretudo, falam de um país que não conhecem. Um país feito de brunches e eventos culturais em Entrecampos, na Gulbenkian ou no LxFactory. Quando há uma crise — como foi o apagão elétrico —, comentadores sugeriram que se usassem comboios a gasóleo. Uma proposta brilhante… O país, esse mistério, tem linhas para Évora, Faro, Valença. Em Vila Nova da Baronia, essa paragem do esquecimento, os comboios ainda passam a gasóleo — não por charme vintage, mas por atraso patológico.
Este desfasamento torna-se ainda mais gritante quando se discute — imaginem — a revisão constitucional. Ui, quantos constitucionalistas temos nós nas televisões. Ou melhor, nem isso: discute-se a possibilidade de, um dia, eventualmente, talvez e quiçá nesta legislatura se vir a discutir uma revisão constitucional. E, no entanto, a televisão está inundada de oráculos de ocasião e palradores profissionais a debater ferozmente com outros verborreicos de serviços sobre um projeto que… não existe. A analisar propostas que… ainda não foram escritas. A prever consequências de alterações que… ninguém propôs.
E é aqui que os progressistas revelam a sua alma profundamente conservadora. Ao primeiro sussurro de mudança, sobem ao púlpito e gritam: “Não toquem na Constituição!” Tornaram-se os verdadeiros velhos do Restelo. Modernos, sim — mas só na indumentária. Usam sapatilhas e camisolas de mangas curtas e falam em “narrativas disruptivas”, mas tremem perante qualquer possibilidade de mudar uma vírgula ao texto de 1976, que, entretanto, foi alterado em 1982, 1989, 1992, 1997, 2001, 2004 e 2005. Estão presos na reforma agrária. Meus caros, não caiam na armadilha dos tempos: isto que vivemos não é o auge civilizacional.
Temos então três grupos neste teatro do absurdo:
Os bloquistas, que se dizem progressistas, mas rejeitam qualquer alteração. Têm fé no texto como os fariseus na Lei. Obtiveram pouco mais de cem mil votos (a maioria no litoral), mas continuam a discursar como se fossem a vanguarda iluminada da nação. São os verdadeiros conservadores liberais desta história. A única forma de mostrar a sua força é através da televisão, onde se encontram sempre, não falhando a nenhum comentário pertinente sobre os destinos da nação.
Os comunistas. Esses, pelo menos, são coerentes. Estavam lá em 1976, escreveram a Constituição com as próprias mãos, e querem mantê-la como está. São os grandes guardiões. Se possível, reintroduzindo o Conselho da Revolução. Porque o país, claro, só avança com tanques e comissões.
Os cheganos e os liberais. Estes querem mudar tudo, mas escolhem o que há de mais ridículo para começar: o preâmbulo, a castração química, e outras pérolas do populismo constitucional. São como alguém que compra uma casa em ruínas e começa por pintar a caixa do correio.
Ora, sejamos sérios: a Constituição não é sagrada. É um texto político, produto do seu tempo. Um tempo que já não é o nosso. Desde 2005 — última revisão — o mundo mudou. O país mudou. As pessoas mudaram. Mas nós ficamos com 296 artigos, dos quais ninguém conhece um único. A maioria dos portugueses, se lhes perguntarem quantos artigos tem a Constituição, vai responder “não sei”. E com razão. E imaginem o conhecer o seu conteúdo.
É claro que há normas que já não fazem sentido. É claro que há coisas que podem — e devem — ser revistas. Mas isso exige trabalho, estudo, visão de país. Não se faz com hashtags nem com indignações fingidas em prime time. Não se faz com a elite a falar sozinha, em circuito fechado, convencida de que quem não os ouve é ignorante.
Se calhar, em vez de discutir a Constituição, devíamos primeiro rever-nos a nós próprios. Rever a forma como falamos uns com os outros. Rever a distância entre os decisores e os que vivem fora do radar da capital. Rever a ideia de que democracia é o que se diz na televisão. E depois, talvez, quem sabe… rever a Constituição.
Mas para isso, era preciso uma coisa que está em vias de extinção: contacto com o país real. E sendo o referendo constitucional proibido em Portugal — este país de traumas e de traumatizados, que ainda treme ao som das palavras “plebiscito” e “referendo”, como se estivéssemos em 1933 —, talvez os senhores deputados arranjem, vá lá, alguma forma de ouvir a população. Nem que seja por acidente.