Hoje é um dia feliz para quem, há décadas, vota no PSD — e também, não raras vezes, no CDS-PP. Pela primeira vez desde o consulado de Cavaco Silva, o partido dispõe de condições reais para governar com estabilidade. Ficam fora da equação, naturalmente, os tempos de austeridade de Ferreira Leite — que enfrentou um défice herdado — e o governo de Pedro Passos Coelho, limitado por uma conjuntura internacional extraordinária.
Por isso, Luís Montenegro — um cavaquista do século XXI — tem razões legítimas para estar satisfeito. Tendo chegado discretamente à liderança do PSD, foi no último ano que consolidou um perfil político governativo robusto, o que permitiu à AD aumentar significativamente a sua votação e distanciar-se do segundo lugar, fosse ele o PS ou o Chega. Esse reforço traduziu-se num ganho de nove deputados, número que poderá ainda subir para onze após o apuramento dos círculos da emigração.
Lembro que, há apenas dois anos e meio, em dezembro de 2022, a revista Sábado fazia capa com António Costa, de perna cruzada, a sugerir que nos habituássemos à sua presença até 2026. Duas eleições depois, o PS perdeu quase metade do seu eleitorado (de 2.300.000 para 1.300.000 votos) e mais de metade dos seus deputados (de 120 para 58). Como bem disse Nuno Melo, é uma lição importante — mas também um alerta preocupante para o regime: o partido que mais vezes governou desde o 25 de Abril pode agora ficar atrás de uma força criada em 2019. Recorde-se que, em 1985, o PRD de Hermínio Martinho teve apenas menos 200.000 votos do que o PS de Almeida Santos — um choque político que muitos ainda têm presente.
Alguns afirmam que este é o pior resultado do PS em quarenta anos. Atrevo-me a ir mais longe: é o pior resultado da sua história. Está praticamente empatado com um partido sem ideias — como disse Francisco Rodrigues dos Santos, referindo-se a André Ventura, “um esquadrão de cavalaria à desfilada na sua cabeça não esbarra contra uma ideia”.
Durante os tempos de Mário Soares, o PS foi uma barreira à utopia marxista do PCP e de outras forças comunistas — forças que a minha geração, felizmente, apenas conhece dos livros. A derrota do PS nestas eleições é uma lição clara: o partido deve regressar a esse papel moderador. Os discursos em defesa do proletariado de Pedro Nuno Santos — representante por excelência da esquerda caviar — são um desvio gritante da tradição europeísta e reformista do socialismo democrático português.
O PS, o PSD e o CDS-PP são partidos estruturantes do regime democrático. A sua coesão mínima — ainda que crítica e alternante — é essencial à estabilidade política. Só assim se poderá enfrentar a ascensão de um partido como o Chega, que cresce sem apresentar com clareza os seus candidatos ou propostas. Como escrevi anteriormente, no meu distrito de Santarém, os nomes nas listas do Chega não eram conhecidos nem politicamente nem civicamente. Assemelham-se a simples figurantes para aplaudir as barbaridades venturianas no Parlamento. Ainda assim, o Chega manteve os seus três deputados no distrito, ao passo que a AD conquistou um ao PS — prova de que muitos votaram em nomes que não conheciam, o que é profundamente alarmante.
Importa, porém, reconhecer esses votos e combatê-los de forma democrática e institucional. E para isso devemos olhar para trás e perceber o que nos trouxe até aqui:
Em 2015, quando António Costa quebrou a norma não escrita de que “quem ganha governa”, aliando-se às forças marxistas da esquerda, feriu gravemente o nosso sistema político. Primeiro, retirou-se a garantia de que a força mais votada poderia formar governo. Depois, legitimou-se a proximidade com partidos que Mário Soares sempre combateu. Esse gesto abriu caminho a lideranças como a de Pedro Nuno Santos, cuja visão utópica e radical afastou o PS da sua base moderada, empurrando muitos eleitores para os extremos.
Os efeitos são visíveis: moderados que abandonaram o PS em protesto; conservadores e indecisos que, sem alternativa clara, se refugiaram no Chega — mesmo que esse partido, do ponto de vista ideológico, seja uma nulidade.
Dito de outro modo: enquanto António Costa e Pedro Nuno Santos lideraram o partido, também o PS se tornou, em muitos aspetos, uma força antirregime, recusando normas e consensos essenciais ao equilíbrio democrático.
Como então travar o avanço do Chega? Dir-se-á que é estranho um não-socialista indicar o perfil do futuro líder do PS, como um agnóstico que opina sobre o próximo Papa. Mas não o faço em nome do PSD — faço-o em nome do regime. O PS precisa de reencontrar a herança de Mário Soares: o equilíbrio institucional, a moderação democrática, a contenção ideológica. Não deve abdicar do seu papel de oposição — isso seria antidemocrático —, mas deve respeitar a vontade popular que confirmou Luís Montenegro como Primeiro-Ministro. Deve viabilizar orçamentos e garantir a governabilidade por quatro anos. Não para proteger o governo, mas para proteger o regime. Tal como o SPD alemão, mesmo em crise, soube viabilizar o governo de centro-direita liderado por Friedrich Merz, em nome da estabilidade, também o PS português deve saber estar à altura do momento.
Este governo não pode ter medo de enfrentar os grandes temas: imigração, SNS, habitação. Não pode ser um governo de gestão. Deve aplicar o seu programa com clareza e ambição.
E o PS deve deixar governar. Porque só assim poderá, um dia, voltar a ser alternativa — e evitar que Portugal resvale para a idiocracia.