De vez em quando, aparece um iluminado da era digital a anunciar, com o fervor de quem descobre um evangelho novo, que as cidades do futuro serão “inteligentes”. Imagina-se um amanhã em que cada candeeiro regista o nosso mood, e o cidadão, pobre coitado, já não é guiado pela mão invisível do mercado, mas por uma ama invisível feita de sensores, servidores e notificações.
Tudo isto parece muito perspicaz, até nos lembrarmos de que as cidades existiam antes dos microchips. E que aquilo que mais estimamos nelas – a luz dourada a bater numa fachada antiga, ou o encontro inesperado com alguém que vagamente conhecemos – escapa a qualquer algoritmo. Não se mede, não se cataloga, não se preenche em tabela.
É nessa altura que o instinto conservador entra na sala, sem pedir licença. Um instinto à Scruton: não a velha caricatura anti-inovação, mas um ceticismo saudável que lembra que o progresso funciona melhor quando não arruína o que herdámos. A cidade, afinal, é um lar antes de ser um laboratório, e deve continuar a sê-lo.
O que seria, então, uma cidade inteligente antropocêntrica e conservadora? Seguramente algo distante dos renders futuristas que certas empresas adoram. Seria, isso sim, uma cidade que se recorda de si própria. Um lugar onde a tecnologia se comporta como boa mobília: sólida, útil, discreta, e nunca berrante.
Imagine-se uma cidade onde os sensores ajudam os idosos a orientar o seu dia sem os transformar em pontos num painel de controlo; onde os bairros históricos são cuidados com apoio digital, tal como um jardineiro que poda uma árvore com conhecimento do que cresce e do que não deve crescer; onde os transportes públicos melhoram sem expulsar o prazer de atravessar a pé uma praça onde as pedras foram gastas por séculos de passos. Uma cidade suficientemente inteligente para perceber que a beleza e o sentido de pertença não são entraves ao progresso, mas a sua própria condição de possibilidade.
Vandalizamos as nossas cidades sempre que construímos como se ninguém tivesse vivido antes de nós e ninguém viverá depois. Muito da “febre” das smart cities nasce dessa tentação: higienizar a vida urbana, convertê-la em dados e transformar cidadãos em meros comportamentos monitorizáveis.
A cidade inteligente conservadora não sonha em substituir tudo, mas em melhorar o que existe. Mantém os sons humanos – o riso, as discussões, os sinos das igrejas — porque sabe que é nessa acústica que a vida urbana respira. E não se trata de nostalgia: trata-se de reconhecer que inteligência não é sinónimo de sabedoria, e que esta última não se instala por update.
A tecnologia pode – e deve – ajudar na eficiência energética, prevenir fenómenos extremos, mitigar o calor que devora os verões mediterrânicos. Ótimo. Venha tudo isso. Mas que o faça sem calar a memória, sem sufocar o carácter, sem transformar a cidade numa aplicação.
Porque no final, uma cidade não é apenas a sofisticação das suas infraestruturas. É o lugar onde pessoas acordam todos os dias e decidem, com maior ou menor convicção, que ali pertencem. Se a promessa de uma cidade inteligente acaba por fazer com que os habitantes se sintam inquilinos de um software, então já não temos cidade – temos plataforma.
A cidade conservadora do futuro, se ainda tivermos juízo para a querer, é apenas isto: uma cidade que aprende a ser inteligente sem deixar de ser humana. O resto, como quase sempre, é marketing.