A arquitetura de relações internacionais está prestes a receber o golpe de misericórdia com a reabilitação russa apadrinhada pelos Estados Unidos à custa da Ucrânia e dos restantes países europeus.

Criada após a Segunda Guerra Mundial, sob hegemonia norte-americana, com instituições como a ONU a garantir algum equilíbrio, ela já não reflete o mundo atual, mais multipolar, com potências emergentes como a Índia e Brasil a terem uma palavra cada vez mais relevante.

Moscovo e Pequim queriam essa alteração da ordem internacional. Há muito que a China mina por dentro a ONU, criou até outras organizações internacionais, como o fórum de Xangai. Quando à Rússia, o seu comportamento foi sendo crescentemente disruptivo: as suas milícias ativas em África e no Médio Oriente são disso exemplo. Já para não referir as intervenções militares na Síria, Geórgia e Ucrânia.

Ironicamente, é Washington quem acelera agora a recomposição internacional com o seu novo imperialismo, que não é contraditório com o protecionismo do “América First”. Veja-se a quase extorsão exigida a Kiev pelo apoio norte-americano, uma proteção a troco do acesso às riquezas do subsolo ucraniano.

Com Donald Trump, os EUA e a Rússia aproximam-se e, ao mesmo tempo, a sempre frágil unidade europeia dá de si.

A imposição de tarifas comerciais, a chantagem militar na NATO e o apoio a forças eurocéticas são parte dessa estratégia. Elon Musk e J.D. Vance já o testaram na Alemanha.

Neste novo quadro, a economia mundial já não gira exclusivamente à volta do Ocidente. E os europeus, enfraquecidos por divisões internas, arriscam ser os grandes derrotados. Se não encontrarem uma estratégia comum, poderão ver-se isolados entre uma América imprevisível, uma Rússia reabilitada e uma China cada vez mais dominante.

A Europa tem de decidir se quer ser um jogador ou apenas uma peça no tabuleiro.