Estamos em janeiro de 2026 e o que nos é dado observar no âmbito das relações internacionais é, deveras, preocupante. Estamos perante um novo paradigma das relações internacionais que cruza três variáveis críticas da maior relevância, a saber, economia, tecnologia e segurança, numa convergência de geometria variável que marcará todo o século XXI. Na perspetiva da União Europeia qual é, então, o estado da arte no princípio de 2026?
- Em primeiro lugar, está próximo o fim anunciado do primado normativo da ordem internacional do pós-guerra: as instituições das Nações Unidas, a aliança transatlântica, o direito internacional em geral, cedem ao direito da força, ao uso da política de potência transacional e à formação de blocos e áreas de influência; estamos, gradualmente, a transitar da globalização para a blocalização e à procura de uma nova economia política da segurança geoeconómica.
- Em segundo lugar, a concentração do poder económico e financeiro nos grandes conglomerados tecnológicos americanos e chineses tornou-se excessiva e quase obscena, face ao número crescente de estados falhados, populações pobres, refugiados ambientais e exilados de guerra; em consequência, crescem os fluxos migratórios erráticos e, também, um pouco por todo o lado, a economia de guerra, do crime organizado e do terrorismo internacional que são instrumentalizadas para arregimentar estados falhados e permitir a predação de terras raras e materiais críticos; estamos claramente necessitados de uma política externa e de segurança comum que reequacione os bens públicos globais e a natureza da cooperação internacional.
- Em terceiro lugar, cresce o sentimento e o reconhecimento de que os mercados só por si não são suficientes para restabelecer os equilíbrios fundamentais da economia internacional, isto é, que é necessário um consenso pós-neoliberal para restituir e restaurar a dignidade do trabalho e das pessoas e a coesão territorial das regiões que o neoliberalismo deixou para trás; a cooperação económica externa e a coesão territorial no plano doméstico são as duas faces da mesma moeda e não devemos sacrificar uma delas para mitigar os problemas da outra.
- Em quarto lugar, no âmbito das grandes transições e desta mudança paradigmática da ordem internacional já não é suficiente uma economia de sustentabilidade fraca baseada em mecanismos regulatórios e ambientais; agora, precisamos não só de uma aliança renovada entre a economia dos bens públicos, dos bens privados e dos bens comuns no quadro europeu, como, sobretudo, de uma economia de sustentabilidade forte que faça convergir no mesmo comprimento de onda a economia, a tecnologia e a segurança; estamos a reclamar uma política industrial neokeynesiana ou pós-keynesiana no quadro europeu, vez que as políticas regulatórias e ambientais convencionais já não são suficientes para reconsiderar as cadeias de valor no quadro de uma eventual blocalização.
Esta distinção entre sustentabilidade fraca e sustentabilidade forte é aqui muito relevante, porque é na conexão eficaz e eficiente das suas diferentes graduações e respetiva interoperabilidade que reside o segredo do sucesso de uma economia política da segurança económica e, logo, também, de uma economia dos bens comuns e dos bens públicos globais. Sabemos bem que em tempo de atrito geoestratégico e geopolítico há uma escassez adicional de recursos e, também, um acréscimo de instabilidade e insegurança, pelo que nenhuma organização consegue enfrentar isoladamente os desafios globais que se apresentam. Nenhuma empresa descarboniza sozinha a sua cadeia de valor e na globalização das trocas não podemos ser ingénuos ou condescendentes ao ponto de beneficiar o infrator. Acresce que, na ordem multipolar em formação, a noção de sustentabilidade não é entendida de forma homogénea ou convergente pelos principais protagonistas. A regulação das cadeias de valor globais no sentido da sua sustentabilidade torna-se, assim, uma tarefa quase impossível, embora todos saibamos que a fragmentação custa caro, enquanto a coordenação e a regulação criam valor acrescentado.
A sustentabilidade forte é, portanto, uma infraestrutura crítica da economia e da sua segurança. Estamos a falar de uma política industrial europeia e nacional de natureza quase federal que contempla avultados investimentos públicos e privado transversais como as hiperligações energéticas, as tecnologias multiusos como a eletrónica, a computação avançada e a inteligência artificial, as matérias-primas críticas, a cibersegurança e as tecnologias espaciais, as indústrias de defesa, a economia azul e as ciências do mar, a economia verde, o restauro dos ecossistemas e a biodiversidade. Agora que a prioridade geoestratégica à defesa e segurança abre um campo imenso de discussão à volta das economias de escala e aglomeração, dos seus impactos e externalidades, portanto, da sua sustentabilidade forte, não se trata aqui de privilegiar um alinhamento militarista, mas, antes, de proteger a evidente fragilidade das democracias nacionais perante a exposição ao risco das suas infraestruturas críticas e cadeias de valor, muito em especial no campo da ciberguerra e cibersegurança. Esta é, também, a razão pela qual se percebe, agora melhor, a importância nuclear de uma entidade como a União Europeia, na gestão comum dos impactos multirrisco das grandes transições, na regulação da extraterritorialidade, na organização de redes de euro-regiões e euro-cidades e na provisão mínima dos principais bens públicos globais, como, por exemplo a vacinação global, ajuda humanitária, descarbonização, missões de paz e segurança, acolhimento de refugiados, cibersegurança, sem os quais será, doravante, muito difícil manter a casa comum da humanidade e a sua sustentabilidade.
Dito isto, a reindustrialização europeia e a economia política da segurança já estão em marcha na União Europeia. Refiro, apenas a título de exemplo, o programa SAFE na área das indústrias de defesa, o programa STEP na área da inovação em tecnologias estratégicas, o regulamento europeu sobre matérias-primas críticas (nº2024/1252) e o acordo de comércio livre com o Mercosul assinado a 17 de janeiro de 2026, que deixa perceber uma nova diplomacia comercial e económica para diversificar relações e contrariar os riscos de blocalização.
Hoje, como sabemos, não faltam soluções inovadoras, pragmáticas e utilitárias de gestão do capitalismo verde, por exemplo, a agricultura de precisão, a produção de energias alternativas, a mobilidade urbana, a bio climatização, a economia circular, a silvicultura preventiva, as métricas de sustentabilidade, ou seja, tudo o que o sistema comporta no interior das suas fronteiras e não altere substancialmente as relações de poder pré-existentes, mesmo que, para lá do sistema, reine o caos, o desastre e a colisão iminente. Estas são as grandes contradições do capitalismo verde, cada vez mais confinado e isolado, enquanto, à sua volta, tudo parece querer desmoronar-se. Na sustentabilidade forte a economia necessita de ser filtrada pela noção de segurança em sentido amplo. Para tal desiderato é necessária uma abordagem muito mais eclética. Desde logo, no plano individual, a promoção de uma sociologia dos comportamentos ambientais pela observação de boas práticas. Depois, uma economia da circularidade dos recursos, por via de métricas fiáveis de sustentabilidade. Em terceiro lugar, o reconhecimento de uma 4ª geração de direitos ambientais, depois dos direitos civis, políticos e humanos. Em quarto lugar, a mutualização europeia dos grandes riscos e o apoio à infraestruturação tecno-digital das comunidades de risco. Em quinto lugar, a prioridade aos serviços de ecossistema e ao restauro dos ecossistemas e da biodiversidade como base primordial de uma nova e mais robusta ecologia humana. Finalmente, uma maior atenção às políticas públicas de ambiente e justiça ambiental em matéria de bens públicos e bens comuns.
Os acontecimentos recentes mostram como a sustentabilidade fraca está, cada vez mais, à mercê de muitas interferências nas políticas comerciais, no transporte e segurança marítima e no bom funcionamento das cadeias logísticas, e sujeita à pressão dos lobbies, ao jogo da desinformação e aos atos de corrupção, que, em conjunto, provocam quebras profundas de produtividade e competitividade nas fileiras produtivas. Os impactos diretos já aí estão: muito ruído de fundo, externalidades positivas e negativas, défices de coordenação, burocracias de validação e certificação e novas falhas de mercado que atingem desigualmente os agentes económicos. Produtividade, sustentabilidade e competitividade, este será o triângulo estratégico do nosso modelo de desenvolvimento no futuro próximo. Daí a importância de uma arquitetura de segurança para a sustentabilidade forte que não só reduza a exposição ao risco, mas, também, dissuada, sem hesitação, a privatização do benefício e a socialização do prejuízo que é, hoje, uma verdadeira jaula de ferro das nossas sociedades. Daí, também, a necessidade absoluta de evitar a compartimentação e fragmentação da informação estratégica da guerra híbrida e as lacunas da governação multirrisco e multiníveis.
A política de potência, os blocos e as áreas de influência, o direito da força, vão acabar por legitimar uma economia política da segurança de largo espetro. Não me surpreenderia que esta eventual blocalização tivesse uma resposta ou agenciamento de geometria variável, com a formação de coligações de vontades e uma diplomacia de contenção ajustada a cada caso, seja na Ucrânia, no Ártico, no Mercosul, no Mediterrâneo ou nas relações comerciais com os EUA. No final, há só uma terra, uma só saúde e uma só economia, por isso, na sua extrema fragilidade, os bens comuns e os bens públicos globais são a expressão mais autêntica dessa herança tão genuína que é a casa comum da humanidade e a economia da esperança. A Gronelândia (que tanto se discutiu no Fórum de Davos) é um exemplo eloquente do que acabo de dizer, de uma noção de segurança multirrisco como infraestrutura crítica de uma economia política da sustentabilidade forte que só a União Europeia está em condições de prosseguir.