As sondagens lá vão afinando o compasso da esperança nacional, e entre curvas de margem de erro e percentagens redondas, desponta o retrato de uma corrida digna de sainete político. Luís Marques Mendes e o Almirante Gouveia e Melo surgem à cabeça — o primeiro em biquinhos de pés, o segundo em bota de canhão.

Marques Mendes, pequenino em estatura, mas não em ambição, é o exemplo acabado de que a política portuguesa continua a confundir eloquência televisiva com liderança nacional. Há quem o veja como um “homem de Estado”; outros, como o eterno comentador de domingo, sempre pronto a explicar o país sem nunca o ter governado. Bem sei que os homens não se medem aos palmos, mas há alturas que a estatura moral e política também se encurta. Um Presidente da República deve ser mais do que uma opinião com gravata.

Do outro lado da trave olímpica, o Almirante Gouveia e Melo — herói de vacinas e memes, disciplinado como um desfile naval — tenta navegar águas desconhecidas. O povo gosta do perfil: farda mental, voz de comando, olhar fixo no horizonte. Mas governar uma nação não é o mesmo que comandar uma fragata. E ser alto não é, por si só, estar à altura. Falta-lhe lastro político, esse instinto que distingue o gesto firme do gesto cego. E, convenhamos, a política é um oceano de tubarões — e o Almirante ainda parece acreditar que basta nadar direito.

Em terceiro lugar, a voz do trovão: André Ventura. O homem que grita mais do que diz, que invoca Salazar como quem cita um santo. O candidato do ressentimento, alimentado a indignação e microfone. Grita pelo povo, mas raramente o ouve. A democracia, para Ventura, é uma espécie de campo de futebol: ganha quem berra mais alto. E o problema é que, num país cansado, a gritaria soa a verdade.

E há ainda António José Seguro, figura quase esquecida, sombra discreta de uma esquerda que o próprio PS varreu para debaixo do tapete. Paradoxalmente, é talvez o mais equilibrado dos nomes: sensato, educado, institucional. Mas em Portugal, o equilíbrio raramente vence eleições. Falta-lhe o dramatismo, a lágrima ao canto do olho e o punho erguido — virtudes essenciais na política mediática. Seguro é o homem certo, mas para um tempo errado.

Entre o pequenino, o gigante, o gritão e o esquecido, Portugal prepara-se, mais uma vez, para escolher não o melhor Presidente, mas o menos incómodo. A Presidência, esse cargo que já foi símbolo de ponderação e visão, tornou-se palco de egos e vaidades. E no meio desta feira, até o pretendente da coroa, se o houvesse, perfilaria melhor.

Talvez o problema não sejam os candidatos, mas o país que os produz. Um país que confunde notoriedade com competência, decibéis com ideias, e altura com autoridade. Falta-nos grandeza — da que não se mede à régua nem ao microfone.

Venha daí o próximo Presidente da República.

Mas venha depressa — antes que a dignidade se canse de esperar.