Retirou os cravos do meio das rosas brancas, ostensivamente ali deixados por uma deputada da extrema-esquerda, e só depois André Ventura começou o discurso dele sobre o 25 de Novembro na Assembleia da República. Uma precaução de higiene pública. Os cravos são “apenas” simbólicos? Com certeza. Simbolizam a apropriação do 25 de Abril pela esquerda. Simbolizam, portanto, a interpretação histórica, intelectual, social e política imposta pela esquerda e corrompida para servir as conveniências da esquerda. Ventura, ao afastar os cravos, afastou tudo isso e mostrou coragem perante um país de mediocridades conselheirais. Representou quem votou nele.
Os circuitos do jornalismo activista apontaram-lhe o dedo por falta de maneiras. No mundo fantástico da informação, os pivots, os analistas, os comentadores, todo o cão e todo o gato que se agita nos canais televisivos, instruíram-se nos mistérios da política estudando aplicadamente manuais de etiqueta. O que os tem induzido em erro, já que a “boa convivência democrática” obriga a garantir eleições universais e a participação da extrema-esquerda na vida política nacional, submetida às regras da lei e regimentos e através do princípio da livre expressão representativa. Não obriga a aceitar os símbolos da extrema-esquerda nem a enfiar as falsificações históricas da extrema-esquerda pela garganta abaixo. Mais um passo lógico e, no entender dos intérpretes da moderação educada, a “convivência democrática” obrigava os deputados a discursar em cima de uma foice e um martelo. Lamento, mas perante amores totalitários, ainda que “apenas” impostos na decoração protocolar da Assembleia da República, junto a minha rudeza à rudeza de Ventura. Se a esquerda quer dizer coisas esquerdistas, espere pela sua vez e diga-as no púlpito, dentro do tempo dela.
Mas não, os senhoritos do regime não se conformaram. Agora, estava-se mesmo a ver, durante uma semana “não se falaria de outra coisa”, em vez de se discutir “assuntos sérios”. Espero que tenham razão. Se André Ventura conseguir pôr o país a falar disto, não desce a um assunto menor. Desce ao concreto de um assunto fundamental que o regime anda há 50 anos a evitar. O 25 de Novembro abre a discórdia?, divide o país ao meio? Sim, abre e divide. Ainda bem. Põe os democratas de um lado e os totalitários do outro. Não há discussão mais relevante do que esta. É isso que fazem os símbolos, traduzem conceitos em sinais. Partir dos sinais para voltar a discutir os conceitos é próprio de quem os reconhece.
De resto, a concórdia é muito bonita aos olhos dos ditadores. Para concórdias, de representação e de protocolo, já tivemos os anos do Estado Novo e a retórica do dr. Salazar. O melhor que o 25 de Abril ofereceu a Portugal foi a possibilidade da discórdia. A discórdia insanável. E o debate ordeiro de todas as discórdias, mesmo (e sobretudo) as mais profundas. Essa possibilidade esteve em risco nos anos do PREC e só foi reposta no 25 de Novembro. Neste sentido, o discurso e o gesto de André Ventura foram a maior homenagem ao 25 de Abril, à democracia, e ao significado mais poderoso do 25 de Novembro, que o regime, talvez por excesso de boas-maneiras, insiste em não compreender inteiramente. Quando o regime resmunga que Ventura põe o país a falar dele, engana-se outra vez. Ninguém fala de Ventura, nem ele próprio. O que Ventura consegue é pôr o país a falar dos assuntos do país. Convinha que o regime se interessasse em compreendê-los.