José Inácio Faria, deputado pelo MPT à Assembleia Municipal de Lisboa, fala de assuntos importantes sobre os quais mais ninguém fala. A pobreza, por exemplo. Ou o envelhecimento da população, não em termos demográficos e abstractos, como é costume falar-se para efeitos da periclitante viabilidade da segurança social ou do Serviço Nacional de Saúde, mas em termos da dignidade de quem envelhece. Na sessão de ontem, apresentou uma proposta de recomendação à Câmara “Pela criação de uma Bolsa de Voluntários Seniores Especializados para os museus municipais da cidade de Lisboa”. Agradeço a José Inácio Faria.
Em Portugal, temos ainda pouca experiência de conviver colectivamente com pessoas mais velhas, já reformadas, mas que ainda têm pela frente muitos anos de vida passados em plenas capacidades físicas e mentais. Esta realidade, entre nós, é relativamente recente quando comparada com países mais ricos. Tem a ver com a esperança de vida. Ela só se tornou longa em Portugal há poucas décadas. Naturalmente, ainda não conhecemos bem a melhor maneira de lidar com o assunto.
De facto, à medida que envelhecemos não nos tornamos todos iguais. Nem parecidos. A idade não faz de nós um bloco uniforme, homogéneo, tratável como uma substância espessa e coerente, com meia dúzia de características próprias. Creio que sucede o oposto: a idade apura os nossos traços individuais. Por isso as velhas e velhos se tornam personagens únicas, atávicas. Tudo neles é diferente: têm fragilidades diferentes, capacidades diferentes, condições intelectuais diferentes, graus de instrução diferentes, vidas e experiências diferentes, interesses diferentes, sabedorias e burrices diferentes.
Mas a solidão é provável e, quase sempre, real. E o sentimento de inutilidade que vem a reboque da reforma. Todas as pessoas gostam de sentir que são úteis, que há um papel para elas. Numa certa canção, Billy Joel diz-nos para “slow down” porque “Vienna waits for you”. Viena, na canção, é a maturidade e depois a velhice. Foi em Viena que ele viu uma velhinha a varrer (salvo erro) um jardim; não que ela precisasse do emprego; nem que o jardim precisasse desesperadamente de ser varrido; nem que ela fosse a única pessoa que a comunidade encontrou para varrer o jardim. Mas porque as pessoas do bairro compreenderam que ela podia varrer, e porque ela, dessa maneira, sentia que era útil aos outros.
Em Lisboa, 23,5% da população tem 65 anos ou mais. José Inácio Faria lembrou-se que algumas destas pessoas podiam trabalhar como voluntárias nos museus do município, “em actividades como a conservação e restauro, a catalogação e digitalização, a investigação, o atendimento, a gestão da programação ou as visitas guiadas”. A esquerda protestou, claro. Neste caso, os voluntários iriam, achava a nossa querida esquerda, tirar postos de trabalho e substituir “meios humanos” (eles chamam “meios humanos” às tropas deles). Se a ideia é boa, a esquerda protesta contra a ideia. Dar aos mais velhos a possibilidade de auxiliar nos museus é uma ideia boa.