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Vamos viajar pelos cinco continentes com Bruno Cardoso Reis, que está de regresso. Nos próximos minutos olhamos para o conflito militar na Ucrânia, também vamos à Espanha, a Camp David e à América do Sul, guiados pelo Miguel Viterbo Dias.
Bem-vindo de volta, Bruno Cardoso Reis. Começamos por esse ponto de situação sobre a guerra na Ucrânia. Podemos falar de um impasse no terreno? Isso será resultado de erros por parte das forças militares ucranianas?
Bom dia, Miguel. Eu acho que é legítimo discutir essa questão, mas do meu ponto de vista, pode-se especular sobre diferentes opções. Por exemplo, eu próprio muitas vezes falei aqui da questão de Bakhmut, ou seja, será que valia a pena investir tanto na defesa de Bakhmut, que à partida era uma região relativamente difícil de defender? Havia alternativas melhores próximas, portanto os ucranianos podiam ter optado por retirar e fazer, se calhar, uma defesa menos custosa, com menos empenhamento de forças veteranas bem equipadas. Também se pode discutir, por exemplo, no contexto da atual ofensiva, se os ucranianos não deveriam já ter optado por uma linha principal de avanço. Aparentemente, a ideia foi fazer ataques exploratórios, mas continua a haver uma certa dispersão. Agora, é importante ter em conta, por um lado, que estamos a falar, já agora e comparando com Bakhmut, os ucranianos já recuperaram à volta de 300 km² com estas ofensivas. É mais do que aquilo que a Rússia conseguiu com a sua grande vitória em Bakhmut. Agora, é evidente, e aqui temos que ser coerentes, eu chamei sempre a atenção que a ocupação russa de Bakhmut não alterava no essencial os dados no terreno, porque não levou a uma ruptura das linhas defensivas ucranianas, a um colapso da defesa ucraniana que permitisse depois um grande avanço, uma grande alteração dos dados no terreno, um grande avanço russo, e isso também não aconteceu até agora com esta ofensiva ucraniana. Podemos falar aqui de erros? Bem, em relação a todas essas opções, também há contra-argumentos que a Ucrânia utilizou, por exemplo, em relação a Bakhmut, a ideia de que era preciso fixar ali forças russas, que se os russos ficassem libertos de ocupar Bakhmut, podiam depois empenhar essas forças e também os seus meios de artilharia noutras regiões e noutras cidades que ainda não estavam destruídas. Nesta questão agora da ofensiva, pode-se dizer bem, deviam optar, mas é evidente que isso não é garantia depois de sucesso nesse avanço. Portanto, seria muito mais fácil se estes ataques exploratórios já tivessem revelado aqui fragilidades da defesa russa ou levado até a um colapso da vontade ou da capacidade de resistência russa, que não aconteceram. E para ser muito claro, numa guerra de trincheiras, que é o que nós estamos a assistir agora e que não víamos basicamente desde a Primeira Guerra Mundial, um certo impasse é a situação normal, se não houver grandes erros de ambos os lados, se não houver grandes falhas de ambos os lados. Eu acho que aqui o dado fundamental que alterou um pouco as coisas foi que os russos deixaram de subestimar os ucranianos, já há bastantes meses atrás. Passaram a ter objetivos muito mais realistas e concentraram-se em defender apenas uma pequena porção do território que eles inicialmente ocuparam, uma pequeníssima porção daquilo que realmente queriam ocupar, que basicamente era o conjunto da Ucrânia, ou pelo menos no essencial o território ucraniano, incluindo a própria capital, mudar o regime. Portanto, em todos esses objetivos a Rússia falhou e aquilo que a Ucrânia conseguiu é muito significativo, sobretudo se tivermos em conta, porque também podemos falar de erros a esse nível, será que os países ocidentais deviam ter fornecido mais equipamento? Deviam já estar a fornecer F-16? Eu próprio defendi isso há meses atrás. Mas vamos ser claros, mesmo que também se possa falar de alguns erros ocidentais, eu acho que há aqui algumas linhas vermelhas, por exemplo, no fornecimento de equipamento, que me parecem artificiais, dispensáveis, sem qualquer mais-valia em termos estratégicos, porque, por exemplo, os países ocidentais não fornecem algum equipamento mais longo alcance com a ideia de que ele poderia ser utilizado para atacar a Rússia. Ora, a Rússia passa o tempo todo a dizer que o Ocidente já a está a atacar, portanto, não há nenhuma vantagem em termos de política internacional, de ganhos diplomáticos para o Ocidente com esta postura. Mas mesmo que o Ocidente fornecesse muito esse equipamento, inclusive os F-16, equipamento que é, por regra, bastante melhor que o equipamento que a Rússia tem, mas é sempre uma quantidade relativamente limitada e terá de ser, porque os países ocidentais também não se podem desarmar completamente. E portanto, estamos sempre a falar de equipamento ocidental muito melhor para compensar aquilo que na base é uma enorme assimetria de poder que favorece sempre a Rússia em relação à Ucrânia, a começar pela própria população, ou seja, pela base, por exemplo, do recrutamento de tropas. Portanto, tudo isto, no fundo, aponta para uma situação em que mesmo sem erros, o natural será um certo impasse. A grande questão é o que é que se fará a partir desse impasse, por exemplo, também em termos diplomáticos.
E Bruno, quanto à saída para este fim do conflito, uma saída diplomática começa a ganhar força ou não?
Eu acho que como resultado exatamente daquilo que eu estive a descrever, sim, e é expectável e é normal que haja uma pressão crescente para se tentar uma saída negociada do conflito. No Ocidente, desde logo, a nível global, desde o início, aliás, houve pressão, mas é normal com o continuar do conflito, o acumular dos custos, que não são só para os beligerantes, são também mais amplos, por exemplo, em termos da economia mundial, que haja pressões crescentes. Agora, o meu grande problema aqui é qual é o desenho, qual é o modelo para essas negociações, que razões é que nós temos para acreditar que desta vez a Rússia vai respeitar um compromisso que assine com a Ucrânia, vai respeitar as novas fronteiras que eventualmente, por exemplo, viessem a ser definidas? A Rússia, desde 1991, que assinou sucessivos acordos a reconhecer as fronteiras ucranianas, que depois não respeitou. Em 2014, quando Putin anexou a Crimeia, fez um discurso a dizer: "Não é verdade aquilo que dizem no Ocidente, isto não é o início de uma nova expansão da Rússia. A Crimeia é um caso muito especial, nós não temos outras ambições territoriais". O próprio Putin deixou muito claro, até se deu ao trabalho de assinar um longo ensaio a explicar que a Ucrânia, na verdade, não existe, que não tem legitimidade para existir como um Estado independente. E é muito claro também que Putin, e ele é muito explícito nisso, está muito preocupado com o seu legado e o seu grande modelo político são os grandes czares, os grandes imperadores russos expansionistas. Portanto, basicamente ele considera que o seu legado vai ser medido em função da quantidade de território que ele acrescentar à Rússia. Não temos nenhumas razões para acreditar que um compromisso fosse respeitado, pelo menos pelo atual regime russo. E mesmo em relação ao Ocidente, não temos nenhuma razão para pensar que se a Rússia estivesse mais livre, em vez de estar tão concentrada em tentar manter o território que ocupou na Ucrânia, em combater a Ucrânia, que não voltasse a fazer aquilo que estava a fazer no período anterior a este conflito, que era fazer ataques híbridos contra países ocidentais. Não estamos só a falar, por exemplo, de ciberataques, inclusive alguns resultaram em mortes no Reino Unido, com envenenamento, ainda que aparentemente involuntário de britânicos, para eliminar dissidentes russos. Por exemplo, num ataque também a um paiol na República Checa, que também resultou em mortos. Portanto, eu percebo, acho que toda a gente na Europa quer a paz, eu certamente também quero a paz, mas acho que temos que ter a noção de que isso não quer dizer que isso seja fácil ou realista. É muito possível que este conflito termine como muitos outros. Eu recordo sempre aqui, por exemplo, o conflito entre a Palestina, entre o mundo árabe e Israel. Acho que ninguém questiona que os palestinianos e os árabes foram múltiplas vezes derrotados por Israel, no entanto, continuam a preferir não ceder, não fazer um acordo que ceda formalmente as perdas que tiveram. Isso é ainda mais impressionante no caso dos palestinianos. E a Ucrânia está muito longe de estar numa situação de derrota militar e não vejo razões para acreditar que haja grande interesse da parte da Ucrânia chegar a um compromisso que a obrigue a ceder território que entretanto perdeu militarmente e que eventualmente pode não conseguir recuperar militarmente, pelo menos não no curto prazo.
Guerra que vai atingindo um ano e meio. Entretanto, em Camp David, cenário de férias do presidente norte-americano, os Estados Unidos promovem uma cimeira com a Coreia do Sul e o Japão. O que é que resultou deste encontro, Bruno?
É um encontro importante, é a terceira no último ano, embora seja a primeira exclusivamente destes três. As outras foram sempre em paralelo a par de outros encontros, por exemplo, do G7. Isso em si mesmo é importante. E saiu daqui um acordo no sentido realmente de uma maior institucionalização deste formato trilateral, ou seja, vai passar a haver cimeiras pelo menos anuais dos líderes e de vários ministros setoriais e vai passar a haver um reforço da cooperação militar, também com exercícios anuais multidomínio. Isto é muito importante por três razões. Primeiro, porque mostra que há aqui uma crescente convergência, muito como resultado da ameaça da Coreia do Norte e também, sobretudo, da China. Isso levou, sobretudo o Japão e a Coreia, que historicamente, por razões da história colonial, da ocupação pelo Japão da Coreia, tinham e têm alguns diferendos. No fundo, este contexto geopolítico de crescente ameaça por dois vizinhos, um deles bastante instável, bastante imprevisível, a Coreia do Norte, e outro cada vez mais poderoso, a China, levou-os realmente a ultrapassar essas barreiras a uma maior cooperação. A segunda é que é evidente que o alvo principal é realmente a China. Ela é criticada em várias das declarações da cimeira, a par da Coreia do Norte, e obviamente a China sabe isso e deixou também clara a sua insatisfação com este desenvolvimento, veio falar na criação de uma NATO no espaço do Extremo Oriente, e isso na linguagem política chinesa é a crítica máxima que se pode fazer. Em terceiro lugar, um aspecto interessante é que apesar, obviamente, do grande foco das declarações, das decisões ser nesse espaço do Extremo Oriente, do Indo-Pacífico, a verdade é que não deixou de haver referências também à Ucrânia, embora estes dois países tenham sobretudo dado aqui um apoio mais indireto. E eu acho que é interessante nós perguntarmos se isso não será o mais provável também, no caso de haver uma crise séria de segurança nesta região, por exemplo, em relação à Europa. Se a Europa também não dirá: "Bem, então nós faremos o mesmo que vocês fizeram quando foi da guerra na Ucrânia, vamos dar um apoio essencialmente indireto, não nos vamos envolver diretamente".
E entretanto, no Equador, as eleições presidenciais ficam marcadas pelo assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio. Escutamos aqui em fundo um som da Associate France-Presse, desta agitação nas ruas depois da morte deste candidato presidencial. E que implicações é que isto acaba por ter neste processo eleitoral, Bruno?
Eu acho que teremos de ver. Vamos ver se tem algum impacto, por exemplo, em termos de o seu substituto. Foi permitido a esta organização política apresentar um novo nome para substituir o Fernando Villavicencio. É também ele um jornalista, como era este candidato, muito ligado ao combate à corrupção, à denúncia da corrupção e também do peso crescente dos gangues, da violência organizada, do crime organizado. O Equador era visto como um relativo oásis no contexto da América do Sul, em que os grandes problemas estavam muito mais na Colômbia e no Peru, que são os dois vizinhos do Equador. Infelizmente, muitas dessas organizações viram no Equador cada vez mais uma espécie de elo mais fraco e começaram a avançar nos últimos anos para o país, encontrar parceiros locais e houve aqui um explodir do nível de violência no Equador. Isto mostra realmente como a questão da violência, do crime organizado É uma questão cada vez mais dramática por toda a América Latina e mesmo os casos que eram vistos como relativamente excepcionais cada vez menos o são. Este candidato aparecia muito influenciado pelo modelo de El Salvador, que nós também já falamos aqui, que é no fundo mão dura para os gangues, tomar medidas excepcionais para tentar controlar a violência. Eu acho que isto é muito sintomático de uma crescente impaciência realmente da população, que já tem outras dificuldades, por exemplo, econômicas com este fenômeno. Em termos de implicações mais amplas e em termos das eleições, no fundo aqui a grande questão é saber se há um retorno ou não do partido do presidente Rafael Correa, ou seja, de um partido populista, esquerdista, relativamente anti-americano, próximo da linha do Hugo Chávez. E obviamente se isso vier a acontecer, e para já a candidata dessa força política continua a liderar, isso obviamente significaria que o Equador provavelmente teria uma postura mais hostil em relação aos Estados Unidos, se aproximaria mais um pouco da Rússia e da China no contexto desta segunda Guerra Fria e também significaria que o presidente Maduro da Venezuela voltaria a ter mais algum apoio na região.
Ainda na América do Sul, Javier Milei, um candidato da extrema-direita, lidera as eleições primárias na Argentina. Isto é ou não surpreendente?
É surpreendente no sentido que, por um lado, ele é um político extremamente novato. Por exemplo, se compararmos com o Bolsonaro, ele muitas vezes é comparado com o Bolsonaro. O Bolsonaro teve uma longa carreira de décadas, embora com uma posição relativamente marginal. Ele apenas foi eleito como deputado em 2021. Também é surpreendente porque não é peronista. Ora, o peronismo tem dominado a política na Argentina durante as últimas décadas, às vezes com candidatos peronistas mais à direita, outras vezes mais à esquerda, mas tem mostrado aqui uma enorme capacidade de se regenerar. Mas realmente parece confirmar-se nesse aspecto, não é surpreendente, a tendência na América Latina para quem está no poder ser castigado. E realmente quem está neste momento no poder é realmente o peronismo. É uma figura realmente bastante fora do baralho. Em termos de política externa, vou dar dois exemplos. Um, ele diz que vai se retirar do Mercosul, ou seja, do bloco regional da América do Sul, que junta a Argentina, o Brasil, o Uruguai, o Paraguai. Obviamente, isso criaria problemas, por exemplo, nas relações com a Europa, que está empenhada em tentar ratificar um acordo de comércio livre entre a União Europeia e o Mercosul. E depois também diz que vai rever completamente, aparentemente suspender praticamente as relações econômicas, comerciais e políticas com a China, portanto é extremamente hostil à China. Isso à partida até seria boas notícias para os Estados Unidos se fosse realista, parece-me que é pouco realista. O próprio Bolsonaro também teve muito essa retórica, mas depois a realidade econômica, a necessidade do mercado chinês para a exportação de matérias-primas, também da produção agropecuária do Brasil ou da Argentina é realmente um mercado indispensável, mas em todo caso sinalizaria aqui um distanciamento da China e eventualmente uma disponibilidade para se aproximar dos Estados Unidos, sendo que o seu modelo muito populista, muito à direita, talvez criasse algumas tensões pelo menos com o atual presidente americano, com o presidente Biden, que como sabemos é um democrata.
Vamos ainda fazer aqui uma passagem rápida por outros dois continentes. Em África, a situação no Níger vai marcando a atualidade, com o bloco econômico da África Ocidental a ameaçar com uma intervenção militar. O que é que podemos esperar?
Eu acho que realmente temos de esperar e eu acho que o problema é que essa ameaça não é muito credível. Ou seja, eu acho que há aqui ideia de que será talvez um pouco um blefe, porque embora a declaração desta semana tenha sido no sentido de dizer todos os países, excetuando aqueles onde já houve golpes desta comunidade que agrupa todos os países da África Ocidental, que são 15, e também Cabo Verde tem forças armadas muito pequenas, estão dispostos a intervir, mas sabemos que mesmo a Nigéria, que lidera no fundo aqui a facção que defende uma intervenção, o Níger é logo a norte da Nigéria, na verdade mesmo na Nigéria há também alguma oposição a essa intervenção. Portanto, acho que é sobretudo aqui uma forma de fazer pressão para se procurar algum compromisso para forçar os golpistas a procurar algum compromisso, mas os próprios golpistas também leem as notícias e, portanto, não sei se eles não continuarão no fundo a achar que é um blefe e portanto a manter aqui a sua postura de resistência a qualquer cedência e desafio à comunidade internacional e de apostar sobretudo numa viragem mais para a Rússia, para o grupo Wagner, que se tem distinguido por apoiar o golpismo nesta região de África.
E terminamos na Europa, onde a situação política de Espanha começa a definir se o PSOE ganha força para se manter no governo, Bruno.
No último programa que fizemos antes de férias, eu chamei a atenção que mesmo que as sondagens confirmassem e às vezes têm errado nestes tempos de transição política, bastante mais incertos que no passado, a diferença entre o PSOE e o PP não era assim tão grande, portanto era bem provável que o PP ganhasse, mas não com uma margem muito grande em relação ao PSOE e o PSOE mesmo perdendo tinha mais opções de aliança e parecia inevitável a necessidade de uma coligação do que o PP. E portanto parece confirmar-se isso agora na eleição da presidente do Parlamento Espanhol. Realmente o PSOE conseguiu uma ampla coligação, conseguiu uma votação com maioria absoluta do nome que desejava e o PP apesar de ser o partido com mais deputados no Parlamento ficou praticamente isolado e acabou por perder essa eleição. Portanto acho que o mais provável é realmente neste momento um novo governo do PSOE, mas mais fraco, mais frágil, mais dependente de apoios muito incertos e portanto também em termos internacionais mais frágil, mais fraco. Isto já teve uma consequência no campo da União Europeia que foi uma exigência para esta eleição da presidente preferida pelo PSOE foi que o governo espanhol requeresse à União Europeia que as várias línguas que existem em Espanha, o catalão, o basco e aparentemente até o galego, alguém deveria explicar que o galego é português, deviam ser também línguas oficiais da União Europeia. Isso terá enormes custos, não é garantido que os outros países da União Europeia concordem, mas já há aqui uma implicação direta desta crise política em Espanha na União Europeia.
Obrigado, Bruno Cardoso Reis. Para a semana voltamos, como sempre, a viajar pelos cinco continentes.
Rádio Observador