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Nova viagem pelos cinco continentes na Rádio Observador. Ao sábado temos encontro marcado com o Bruno Cardoso Reis para analisar os assuntos que estão a marcar a geopolítica internacional. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Bruno, sê muito bem-vindo.

Olá, obrigado.

Como é que foi a tua semana? Tranquila?

Foi boa, mas a tua foi mais interessante, não é? Umas férias fora.

A semana passada, já passou, não é?

Exato.

Já terminaram, mas pronto, a vida segue. Estamos aqui mais uma vez reunidos e com muito para analisar. Vamos começar no Médio Oriente. Começo por te perguntar como é que estão as coisas por lá, numa altura em que se fala num risco de escalada do conflito com o Irão e de um alargamento à região. E numa outra vertente, perguntar-te se este foco de tensão pode também impactar o preço do petróleo e afetar também a nossa economia.

Sim, pode afetar realmente a nossa economia e em certo sentido já está a afetar. Ou seja, nesta última semana, o preço do petróleo subiu quase 10%. E isto tem uma explicação, que é: não é tanto a questão do Irão em si, como produtor ou exportador, até porque está bastante sancionado, é mais o impacto destabilizador na região, em particular num ponto aqui crítico. Na geopolítica, nós falamos muitas vezes dos choke points, dos pontos de estrangulamento, que são coisas como estreitos ou canais, o Canal do Suez ou o Estreito de Áden. E obviamente também o Estreito de Ormuz. Aliás, os portugueses foram pioneiros em desenhar uma estratégia de controle naval a partir do controle destes pontos de estrangulamento. É o Afonso de Albuquerque que famosamente conquistou Ormuz no início do século XVI. Mas realmente o Irão controla Ormuz. E de facto esse estreito é crucial pra economia global, em particular pra o mercado de energia, porque à volta de 25% do petróleo e dos produtos petrolíferos do mercado global e à volta de 20% do gás natural do mercado global passam pelo Estreito de Ormuz, porque obviamente estamos a falar não apenas da produção do Irão, mas do Iraque, do Kuwait, do Qatar, da Arábia Saudita, dos Emirados. Tudo isso tem que passar pelo Estreito de Ormuz pra sair do Golfo Pérsico ou do Golfo Arábico. E a estratégia militar naval do Irão está muito orientada para ameaçar de forma credível poder bloquear esse estreito. Aliás, eles já fizeram isso com minas na década de 1980, a chamada Guerra dos Petroleiros, no contexto da Guerra Irão-Iraque, mas agora têm meios muito mais avançados para conduzir uma espécie de guerrilha naval, de guerrilha marítima, uma guerra assimétrica, como nós dizemos, do gênero daquela que a Ucrânia está a fazer com muita eficácia contra a Rússia no Mar Negro, ou seja, usar drones, usar lanchas rápidas, usar drones aéreos e navais. E realmente nós sabemos que, por exemplo, os militares norte-americanos, ainda há tempos um colega especialista na estratégia naval estava a sublinhar isso, os norte-americanos estão muito preocupados, a Marinha norte-americana está muito preocupada com esses desenvolvimentos e com o risco de ataques com uma espécie de enxame de drones aéreos e navais que possam eventualmente fazer com que mesmo os sistemas de defesa mais avançados, e não há dúvida que a Marinha americana tem isso, e este reforço dos meios muito significativo, dos meios navais norte-americanos na região, tem a ver também com isso, mesmo um sistema de defesa muito avançado possa ficar saturado e eventualmente um ou outro desses drones, dessas lanchas poderem passar e provocar estragos, como aconteceu, por exemplo, com o USS Cole, que era um destroyer também altamente avançado no Estreito de Áden há 25 anos. Realmente há esse risco de alargamento também à região, ou seja, o Irão tem sido muito claro a ameaçar não só o Estreito, mas também que aliados dos Estados Unidos que permitam a utilização de bases para atacar o Irão serão visados.

Serão considerados hostis, não é? Essa é a referência.

Exatamente. E isso significa potencialmente atacar o Qatar, atacar a Arábia Saudita, atacar os Emirados, atacar eventualmente meios militares, mas pode ser também atacar refinarias, atacar os terminais nos portos pra exportação de petróleo. Tudo o que seja destabilizar esta região realmente poderá ter um impacto muito grande na economia global, no preço do petróleo. Já está a ter, só a ameaça. Agora, se se concretizar e sobretudo se o conflito for prolongado, uma coisa foi aqueles ataques, por exemplo, contra o programa nuclear, que foi uma coisa que terminou em poucas horas e depois houve uma retaliação também limitada iraniana que também terminou em poucas horas. Se for uma coisa desse gênero, não é previsível que haja um impacto significativo, porque há uma inflação momentânea, mas isso não chega a ter grande impacto nas bombas e no abastecimento. Mas realmente, se for um conflito mais prolongado, pode ter. E como eu digo, também há estas ameaças a Israel, uma espécie de retaliação ao grande aliado dos Estados Unidos, já que o Irão não consegue retaliar diretamente contra os Estados Unidos, e isso também arriscaria um envolvimento israelita, uma retaliação, por sua vez, israelita, e tudo isso aumentaria muito significativamente o perigo de escalada. Eu não estou com isto a dizer que o conflito é inevitável, acho que é mais provável, tendo em conta esta concentração de meios. Claramente, no entanto, os Estados Unidos estão a exigir muito ao Irão, mas não estão a exigir o fim do regime, que era aquilo que parecia quando Donald Trump prometeu apoiar os manifestantes. Claramente, esse barco já passou, infelizmente, estamos a falar de muitos milhares de mortos, talvez de dezenas de milhares de mortos. Há estimativas entre 6 ou 7 mil até 30 mil Claramente houve um enorme banho de sangue que os Estados Unidos não fizeram nada para travar. Não estou a dizer que fosse fácil, mas Donald Trump, de facto, não devia ter feito aquelas declarações a encorajar isso. Agora, aparentemente, as declarações que temos vão todas no sentido de focar-se no acordo nuclear, na questão da limitação também à ação do Irão na região em termos de apoiar grupos armados. Vamos ver se no regime há suficiente pragmatismo e se a ameaça é vista como suficientemente credível para se poder conseguir chegar aqui a algum tipo de acordo que evite uma ação militar. Mas, de facto, não podemos ter a certeza nem que Donald Trump vai concretizar as ameaças. Já o fez algumas vezes, outras vezes não.

Até porque tantas vezes avança como recua.

Nem que o Irão irá recuar ou não. Em todo caso, aquilo que parece evidente é que uma ação militar dos Estados Unidos desta vez teria de ser provavelmente mais ambiciosa do que estas operações muito limitadas, que foi o que aconteceu no passado recente, por exemplo, na Venezuela, aquele raide contra Maduro e mesmo o ataque ao programa nuclear foi relativamente limitado. Aqui à partida, se a ambição, no fundo, é forçar o regime a mudar de política, provavelmente teriam de se procurar atingir alvos importantes do regime, bases da guarda revolucionária, etc. Ainda assim, eu diria que o mais provável é que não seja um ataque em grande escala e que Donald Trump tente, de alguma forma, limitar a possibilidade de escalada ou de alargamento à região. Mas lá está, vamos ver se acontece e se acontece, em que termos, com que limites. Mas realmente o risco de conflito e um conflito mais alargado é real.

Vamos ficar atentos a estes focos de tensão. Trump, que também está implícito no próximo assunto, até porque vamos falar de mais um acordo histórico para a União Europeia. Depois do acordo com o Mercosul, surge agora com a Índia, também depois de muitos anos de negociações. Há também o reforço da parceria com o Vietname. Mas perante este acordo, Bruno, importa perceber as relações históricas da Europa com esta região e claro, a resposta de Trump. Será que estava à espera deste entendimento, uma vez que, no fundo, temos um desafiar de Trump à Europa e agora a resposta da União Europeia com dois acordos históricos e consagrados, que demoraram imenso tempo até chegarmos a esse entendimento, não é?

Sim, em particular com a Índia, não são os 25 anos do Mercosul, mas são 18 anos. De facto, pode ser que historicamente o interesse da Europa pela região é comercial, começa por ser comercial. Enfim, o que o Vasco da Gama diz quando chega à Índia, segundo os relatos que temos: "Eu vinha à procura de cristãos e de especiarias". Portanto, basicamente esta ideia de encontrar novos produtos, novos mercados para importação, para exportação, isso foi o grande motivador da expansão naval portuguesa, mas depois de outras potências europeias que seguiram esse exemplo muito lucrativo de Portugal para esta região. Portanto, há vários séculos podemos dizer que é esta uma questão prioritária para a relação entre Ásia e Europa. Mas é realmente um acordo extremamente significativo. Ursula von der Leyen, utilizando uma linguagem, uma retórica um pouco quase trumpista, veio chamar a mãe de todos os acordos comerciais e realmente é factualmente o maior acordo comercial do mundo neste momento, portanto, ultrapassou o do Mercosul. Estamos a falar de 25% do PIB global, à volta de 24 trilhões na linguagem americana, biliões na nossa linguagem, destas economias combinadas, um mercado combinado de quase 1900 mil milhões de pessoas, portanto, quase 2000 milhões de pessoas. Obviamente, a Índia é o maior país do mundo neste momento, à volta de 1.4 mil milhões, e depois temos os 450 milhões da União Europeia. Estamos a falar de um terço do comércio global e de que no prazo de 10 anos, há uma transição que vai variando de setor para setor, 90% das tarifas vão baixar, algumas para zero, outras para valores substancialmente mais baixos. Por exemplo, no caso do azeite, que é um produto que interessará potencialmente para a exportação portuguesa, passará de 40% para zero. É um acordo que tem a vantagem em relação à Índia de não ter muito impacto na dimensão agrícola. O agronegócio não é muito forte na Índia, é muito forte na América do Sul e, portanto, não choca com este setor muito poderoso, o setor agrícola, que é muito poderoso, politicamente poderoso, mobilizado na Europa. Já agora, aqui um parêntese, eu acho que é muito importante que a Europa tenha capacidade de produção agrícola mínima. Em termos de segurança alimentar, isso é muito importante.

Garante essa sustentabilidade.

Garante essa sustentabilidade. Agora, objetivamente, é um setor economicamente que pesa pouco e que tem um peso completamente desproporcionado. Já agora, também em relação ao acordo do Mercosul, estão previstas cotas em relação a coisas como a carne, os cereais, etc, que poderiam afetar certos setores e há outros setores que beneficiariam muito, em particular os que nos interessam, no caso de Portugal, coisas como o azeite ou o vinho, que também é importante aqui. Mas no caso da Índia, realmente essa questão não se coloca. E portanto, é um exemplo, como disse também von der Leyen e António Costa, que exibiu também o seu passaporte. A Índia também tem, como Portugal, esta coisa de dar passaportes a descendentes de pessoas com origem no subcontinente indiano. Obviamente, António Costa, como sabemos, a família do pai é goesa e portanto, ele também jogou essa cartada e conseguiu ali grandes aplausos de ter muito orgulho de ser um europeu, mas também um indiano europeu, vamos dizer assim, alguém que tem origem na Índia.

A ressalvar as suas origens.

Portanto, também marcou aí pontos essa diplomacia do presidente do Conselho Europeu. Mas o que aqui realmente é de sublinhar é a relevância estratégica disto, no sentido de dizer que era a Índia que levou com 50% de tarifas por causa de uma birra de Donald Trump com Modi não lhe reconhecer o papel na paz com o Paquistão. E a Europa, no fundo, podendo dizer aos Estados Unidos: "Se vocês se querem fechar, se vocês querem hostilizar aliados e clientes, há outras alternativas. Nós vamos procurar outras alternativas e temos outras alternativas, e quem fica a perder, a prazo, serão os Estados Unidos." No caso do Vietname, é também muito relevante, porque de facto o Vietname é um grande exportador. Era já o terceiro maior exportador, por exemplo, para os Estados Unidos, depois dos países vizinhos, muito como alternativa também à China E para a Europa isso também interessa. O Vietname está muito aflito com estas restrições tarifárias de acesso ao mercado americano, que se tornou um mercado muito importante para o Vietname, e precisa de alternativas. A Europa precisa de alternativas em relação aos Estados Unidos, mas também em relação à China. O Vietname, desse ponto de vista, é ideal. Já agora, também é, a par do Brasil, o país que está em segundo lugar em termos de reservas de terras raras, estas matérias-primas cada vez mais críticas para as novas tecnologias. Mais uma vez, é esta ideia de uma situação de vantagem mútua, win-win. O oposto exatamente da visão de Donald Trump, que é: se alguém está a ganhar, eu tenho que estar a perder. O comércio internacional é um exemplo clássico desta ideia do win-win. Se o comércio aumentar, à partida, toda a gente vai ganhar mais, uns ganham mais nuns setores, outros noutros, mas à partida, toda a gente vai ganhar mais. De facto, são acordos muito significativos, sobretudo no contexto atual. Vamos ver se não há surpresas em termos da ratificação do acordo com a Índia. Será menos complicado com o Mercosul? Eu imagino que sim, mas nada pode ser dado como garantido.

Vamos ter de esperar até lá. Temos ainda três minutos até o final da nossa primeira parte. Destaque para a visita de Keir Starmer à China. É a primeira de um primeiro-ministro britânico desde 2018 e teve grande visibilidade na China. Starmer, que já falou e garantiu que este é um bom momento para reforçar as relações com a China nesta visita a Pequim. Trump avisou que era má ideia. Bruno, o que é que vai sair daqui?

Isto joga perfeitamente com o que acabamos de falar. Neste caso é a Grã-Bretanha, que já não faz parte da União Europeia, portanto, tem de assinar os seus próprios acordos, fazer o seu próprio esforço de diversificação também.

Esse trabalho de diplomacia é mais difícil por ser sozinha, neste caso, não é?

Supostamente, tem mais autonomia. Na prática, aquilo que os britânicos estão a descobrir é que isso não lhes facilita a vida. Pelo contrário, perdem peso, obviamente peso relativo, e ficam numa posição um bocadinho mais fragilizada. O ponto aqui é que esta é a primeira visita, como dizias, desde 2018. O próprio Keir Starmer veio dizer que foi demasiado tempo. Isso correspondeu a um período de uma crise muito acentuada nas relações, sobretudo a partir de 2020, por causa de Hong Kong, que foi uma antiga colónia britânica, como Macau foi portuguesa, mas como sabemos, houve uma repressão muito dura nos últimos anos. Os britânicos fizeram muita questão de criticar publicamente isso. Depois, houve também a proibição da Huawei participar no 5G, em linha com aquilo que era a pressão norte-americana. Houve aqui, sobretudo no caso da Grã-Bretanha, isso é muito evidente, mas aconteceu com outros países europeus, inclusive Portugal, algum aumento das tensões com a China por causa do alinhamento com os Estados Unidos, dos aliados europeus com os Estados Unidos. Ora, isso obviamente mostrou ser um disparate, porque os Estados Unidos acham que os aliados não interessam para nada quando o Donald Trump faz os acordos que entendem com a China, entram em guerras comerciais com os seus aliados europeus. Neste momento, a China passou a ser um parceiro comercial mais previsível, pelo menos. Não quer dizer que não tenha práticas muito duvidosas, dumping, protecionismo, por outras vias que não simplesmente a das tarifas, etc, do seu mercado. Mas a verdade é que realmente os europeus estão todos a pôr em questão esta ideia de um alinhamento automático com os Estados Unidos e há aqui um esforço de normalizar relações. Foi nesses termos que Starmer apresentou a questão. Agora, é significativo que Trump tenha reagido assim. De facto, não lhe agrada esta ideia de que se os Estados Unidos fecham, os aliados dos Estados Unidos podem procurar alternativas noutros países, mas é evidente que é isso que vai acontecer. Não lhe agrada esta ideia de que se os Estados Unidos hostilizam os seus aliados europeus, então eles podem não alinhar automaticamente com os Estados Unidos, porque se a aliança não interessa nada, dizem os Estados Unidos, então por que nós devemos estar a assumir aqui um conflito com a China bastante custoso por solidariedade com os Estados Unidos, que não mostram nenhuma solidariedade com a Europa. A viagem teve muito destaque na imprensa chinesa, no telejornal chinês. A principal repórter correspondente à BBC na China queixava-se de uma forma bem-humorada: "Eu só tive três ou quatro minutos no telejornal da BBC, no telejornal chinês foram quase 20 minutos sobre a visita". Mas isto também é importante para a China realmente mostrar que é neste momento uma potência incontornável e que o alinhamento automático com os Estados Unidos não faz sentido. Aliás, no diálogo que foi público entre Xi e Keir Starmer, Xi Jinping sublinhou precisamente esta ideia de que o próprio Keir Starmer tinha reconhecido que a China se tinha tornado uma potência incontornável a nível global. Para a China, isso também é importante mostrar que tem papel central no palco global e que é má ideia hostilizar a China, que faz mais sentido procurar manter boas relações com a China.

Os Estados Unidos estiveram aqui como pano de fundo também nesta primeira parte. Vão estar em destaque na segunda, porque é o país em destaque e que trazes esta semana, Bruno. Vamos só fazer aqui uma curta pausa e já voltamos. De regresso para a segunda parte do Cinco Continentes, com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, na primeira parte faltou-nos tempo para falar da purga militar na China. Já conseguimos perceber melhor o que é que se está a passar neste momento e quais são as implicações disto?

Nós falamos aqui disso várias vezes, mas a nossa desculpa é que realmente é um tema importante. É uma forma de tentar perceber o que se passa num sistema político que é muito fechado, e portanto, aquilo que fomos dizendo também com base em vários analistas que se dedicam a estudar as Forças Armadas chinesas, é que era preciso algum cuidado, porque não era exatamente claro qual era o sentido que estava a acontecer. Eu acho que agora já percebemos melhor. Desde logo confirma-se esta questão que é de longe a maior purga de militares, certamente desde o fim do regime pessoal de Mao Tsé-Tung, desde que Mao Tsé-Tung morreu em 1966, e há alguns autores que dizem, eu penso que com alguma credibilidade, que provavelmente é das maiores purgas de sempre na história da China, porque mesmo no período do maoísmo mais revolucionário, da chamada Revolução Cultural, das poucas instituições, basicamente a única instituição que se manteve, que Mao não chegou a tocar da mesma forma, a purgar, da mesma forma que todas as outras, foi exatamente as Forças Armadas, por causa deste receio que isso pudesse enfraquecer a China, por exemplo, em relação à União Soviética. Houve uma guerra fronteiriça em 1969, e também para manter o mínimo de coesão interna. Estamos a falar de mais de 60 oficiais superiores, desde 2023, que foram afastados. Estamos a falar só no ano passado de oito generais, dois ministros da Defesa. E realmente esta purga culmina agora com o afastamento dos dois militares-chave que ainda restavam, do militar mais graduado das Forças Armadas, no fundo, seria uma espécie de equivalente do nosso CEMGFA, do nosso chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, este general Zhang Zhengshun, este general Zhang Yushi, que é filho deste outro marechal, Zhang Zhengshun, que foi um dos chamados 10 generais antijaponeses. Portanto, ele é, tal como Xi Jinping, o que se chama um princeling. Uma espécie de príncipe vermelho, um príncipe comunista. É filho daquela geração de líderes que fundou o Partido Comunista Chinês, depois combateu os japoneses, venceu a guerra civil em 1949 e fundou a República Popular da China. Isso dava-lhe realmente um estatuto especial. Era também um veterano da última grande guerra em que a China se envolveu, que foi a guerra com o Vietname em 1979, que também já falámos. Era visto como a ligação entre os militares, o partido e os veteranos, os anciões do partido, os antigos líderes, os líderes anteriores ao próprio Xi Jinping. Ele tinha aí um canal direto para isso, embora também fosse visto como próximo de Xi Jinping. E depois, a par disso, é afastado alguém que era o seu braço direito, que era o comandante, o responsável do comando conjunto, que é o comando operacional que é uma das grandes reformas que foi impulsionada por Xi Jinping e por este general Zhang Yushi, que é garantir que a China consegue realmente utilizar a Força Aérea, as Forças Navais, as Forças Terrestres, de uma forma conjunta como os Estados Unidos fazem, que é a chave realmente para a enorme eficácia militar dos exércitos mais avançados como os Estados Unidos, que era algo que a China não tinha. A grande tradição chinesa era de Forças Terrestres e depois de Forças Navais e Aéreas um pouco em apoio, mas um sistema muito desestruturado. E são essas duas figuras-chave que são agora afastadas e isto parece-me com acusações inclusive gravíssimas, não apenas de corrupção, que é a acusação habitual, mas inclusive de espionagem relativamente aos Estados Unidos. A mim custa-me a crer que isso realmente seja credível, ou seja, não estou muito a ver um veterano do partido, um destes príncipes vermelhos subitamente a estar empregado como espião dos Estados Unidos. Isto faz lembrar realmente as purgas, inclusive stalinistas ou maoístas também na sua justificação, já não é apenas a questão da corrupção. E isto realmente parece confirmar a ideia de que estamos perante uma afirmação do poder pessoal de Xi Jinping. Estamos perante a consolidação deste neo-maoismo, ou seja, do minar desta ideia de uma liderança coletiva, de um partido institucionalizado, em que há vários líderes, em que os líderes também têm mandatos limitados. Xi Jinping já acabou, aliás, com esse princípio dos mandatos limitados, ele pode continuar a ser líder até morrer, basicamente. E realmente há aqui uma consolidação também na China, deste personalismo de regimes cada vez mais sultanísticos, do poder pessoal nas grandes potências. Temos isso claramente na Rússia de Putin, temos isso nos Estados Unidos com Trump. Trump quer muito claramente concentrar poder nele próprio, mas também temos isso realmente na China, obviamente com variações muito importantes. Isto não quer dizer que os Estados Unidos, para já pelo menos, tenham deixado de ser uma democracia. Também há personalismo, se quisermos populismo personalista em regimes democráticos, embora à partida isso seja visto como minando um pouco as instituições democráticas, mas realmente parece-me que neste momento é claro essa concentração. Vamos ver se não há uma reação. E sobretudo em termos de implicações, eu diria, há aqui um debate. Há quem diga: "Isto quer dizer que é menos improvável ações militares mais ambiciosas, por exemplo, um ataque a Taiwan". Xi estabeleceu como objetivo público a China ter essa capacidade, ter essa opção a partir do próximo ano, a partir de 2027, à partida uma purga das lideranças militares tenda a afetar a eficiência, a eficácia operacional das Forças, sobretudo se significar a promoção de pessoas que não têm mérito, simplesmente por lealdade política ao líder, sobretudo se institucionalizar aqui um clima de desconfiança mútua, de receio de que estas purgas continuem. Tudo isso é verdade. Agora, eu recordo que, por exemplo, na Rússia, de facto, Putin também estabeleceu um sistema que o que recompensava pura e simplesmente era lealdade pessoal, em que o mérito não interessava para nada. Realmente, isso teve um impacto terrível na eficácia das Forças Russas, por exemplo, na invasão da Ucrânia, que estiveram muito longe de ter a eficácia que era esperada de uma grande potência militar como era a Rússia. Mas isso não impediu o ataque à Ucrânia. Pelo contrário, ou seja, o facto de repente o líder não ter ninguém que o contrarie, porque é evidente que se o contrariarem, rapidamente vão cair em desgraça e vão ser purgados, vão ter problemas muito sérios. Tudo isso, no fundo, pode levar realmente a que operações mais ambiciosas, mais arriscadas, de facto acabem por acontecer, opções mais perigosas acabem por acontecer, precisamente porque não há ninguém para dizer ao líder: "Isto é muito complicado, isto é muito perigoso, isto não tem resultados, não tem vitória garantida, pelo contrário". Portanto, eu penso que Isto não significa que a invasão de Taiwan esteja iminente. Significa que provavelmente as Forças Armadas chinesas estariam menos preparadas para o fazer com eficácia, mas pode tornar mais provável esse tipo de opções muito arriscadas.

Ainda por cima se não há questionamento, como tu dizias.

Exatamente.

Vamos ao país em destaque esta semana, os Estados Unidos. E Bruno, que datas e também dados importantes é que queres recordar esta semana? Já falamos muito dos Estados Unidos, estão sempre aqui em plano de fundo.

Sim, no fundo é mais recordar alguns dados e recordar duas datas: um ano do segundo mandato de Donald Trump.

Há intercalares em novembro deste ano.

Vamos ter um balanço político muito importante e que também pode afetar o poder de Donald Trump, que é as intercalares de novembro deste ano, que já estão a começar, porque há que recordar, nos Estados Unidos há eleições primárias. Os candidatos já estão em campanha para virem a ser os candidatos ao Partido Democrata.

Já começa a surgir nomes, uma campanha mais acérrima.

Sim, estamos a entrar exatamente nessa fase. E realmente este ano vai culminar nessas eleições intercalares em novembro, que tudo indica que poderão levar realmente a uma alteração de quem é que controla pelo menos a Câmara Baixa, ou seja, até aqui os republicanos, a partir dos democratas, têm muito boas hipóteses, não só historicamente, porque geralmente as intercalares são eleições difíceis pra quem está no poder, mas em termos de percentagens de sondagens, vamos falar disso já a seguir, realmente os números não são nada favoráveis a Trump e ao Partido Republicano. Temos este primeiro ano de Donald Trump e temos os 250 anos da democracia constitucional mais antiga que nós temos no mundo, ou seja, 1776, a Declaração da Independência dos Estados Unidos. É verdade que a Constituição americana só vai entrar em vigor em 1789, portanto ainda faltam alguns anos pra os 250 anos da Constituição Federal norte-americana. Os Estados Unidos começam por ser uma confederação a partir de 1776, mas realmente são os 250 anos e portanto é também um ano muito importante. Por exemplo, a televisão pública norte-americana está a fazer um documentário magnífico, o Ken Burns, sobre a história da Guerra da Independência, todo esse processo. Isto é interessante porque realmente em muitos aspectos Trump desafia alguns dos pilares da democracia constitucional norte-americana. A questão da separação dos poderes, o respeito pelas ordens judiciais, a ideia de que o presidente não tem uma espécie de imunidade soberana. Foi exatamente contra isso que a revolução foi feita, porque obviamente o rei britânico tinha esse tipo de imunidade soberana. Mas sobretudo, em termos de dados, o que é que eu queria aqui recordar? Por muito que Donald Trump crie crises, problemas, que dificulte a vida dos empresários norte-americanos, de quem quer investir nos Estados Unidos, realmente os Estados Unidos têm uma enorme resiliência e continuam a ser uma potência absolutamente central. Podem estar a perder algum peso relativo, por causa, por exemplo, da ascensão da China ou da Índia, mas os Estados Unidos continuam a representar 26% da economia global, são de longe a maior economia global. A seguir vem a União Europeia, 18%, depois a China, 16%. Eu estou a falar aqui em números brutos, porque nisto do poder, o que interessa é os números brutos e não propriamente esta coisa da paridade de poder de compra. E por causa disso, os Estados Unidos conseguem, gastando menos de 4% do PIB, conseguem ser de longe a potência que mais investe em meios militares, ou seja, estamos nos 997 mil milhões, de dólares, quase um bilhão na nossa linguagem, um bilhão de dólares do orçamento militar dos Estados Unidos. Isto é 40% do gasto em despesa de todo mundo. Portanto, os Estados Unidos sozinhos gastam quase tanto como todos os outros países do mundo somados. O país seguinte é a China, que acabamos de estar a falar, que gasta um pouquinho mais de 300 mil milhões de dólares, e a Europa anda também por aí, a Europa no seu conjunto. Mas é quase três vezes menos.

Sim, uma diferença abismal.

Realmente tudo isso significa que os Estados Unidos continuam a ser uma potência absolutamente central a nível global. Não vou aqui detalhar os números, mas desde a questão da inovação, as empresas tecnológicas, a inteligência artificial, e tudo isso traduz-se num enorme dinamismo da economia americana, apesar das dificuldades, apesar da inflação, apesar das queixas quanto ao custo de vida de muitos americanos, a verdade é que a economia americana continua a ser extremamente dinâmica. E portanto, isto significa que realmente Donald Trump pode ser aqui um fator, complica as coisas, cria mais imprevisibilidade, mas apostar contra os Estados Unidos ou entrar nesta ideia de que os Estados Unidos estão numa espécie de declínio inevitável, parece-me que é um erro. É verdade que se os problemas internos complicarem muito, se houver conflitos internos muito sérios, se esta polarização se descontrolar, isso pode realmente criar muitos problemas, por exemplo, à capacidade de atuação externa dos Estados Unidos. Mas é muito importante recordar, sublinhar este ponto, os Estados Unidos continuam a ser a grande potência global em todas as dimensões de poder.

E Bruno, importa perceber também como é que está a popularidade de Donald Trump. Por aqui na Europa, se calhar temos uma visão demasiado, como é que eu hei de dizer, que Donald Trump em si, neste momento, é um homem bastante impopular, mas nos Estados Unidos também funciona da mesma forma? Ou seja, Donald Trump está a perder popularidade face ao ano em que foi eleito, no ano passado. Que leitura que podemos fazer neste momento deste mandato do presidente norte-americano?

Eu vou deixar a minha leitura, eu tendo a ser crítico, como sabem, de Donald Trump, mas o que interessa aqui é a leitura da maior parte dos americanos e da maior parte dos europeus. E realmente é bastante negativa, é mesmo historicamente negativa. Os números das sondagens são péssimos, só são comparáveis com o primeiro mandato de Donald Trump. Nunca nenhum presidente norte-americano foi tão impopular nesta altura do seu segundo mandato como Donald Trump, tirando Donald Trump no primeiro mandato, está mais ou menos ela por ela. É em particular a destacar, e vou destacar aqui uma sondagem feita por um jornal de referência, mas conservador, da direita americana, o Wall Street Journal, que como o nome indica, interessa-se muito pela economia. É um jornal económico e também como o nome indica, não é propriamente um jornal marxista. Como eu digo, é um jornal de centro-direita de referência, mas que tem sido muito bom também em analisar crítica, mas sobrementa Donald Trump e portanto, o que eles perguntam é sobre economia. E comparando uma sondagem em julho de 2025 e agora em janeiro de 2026, os números são realmente impressionantes. No verão, o saldo negativo em termos da performance da política económica de Donald Trump era -4%. Portanto, 51% achavam que era mau, 47% achavam que era bom. Agora estamos nos -15%, ou seja, 57% dos americanos acham que ele está a fazer um mau trabalho na economia, só 42% é que acham que está a fazer um bom trabalho. E culpam sobretudo Trump pelo estado da economia também. 58% Trump, só 32% ou 31% é que culpam Biden. Em termos das sondagens para o Congresso, são muito importantes, como disseste, vamos ter eleições intercalares daqui a uns meses. Estamos a falar de uma margem positiva para os democratas à volta de 5%. É o mesmo que nas eleições intercalares de 2018, que os democratas também venceram folgadamente. E essa margem é ainda maior nos eleitores que estão altamente mobilizados. Há volta de 16% de vantagem para os democratas naquelas pessoas que dizem que vão mesmo de certeza votar. Ou seja, é fácil perceber que quer pelo lado da economia, quer questões como a forma como está a ser conduzida a política de deportação de imigrantes, episódios como o de Minneapolis realmente estão a mobilizar muito a oposição a Donald Trump.

E Trump, se formos avaliar, no fundo, pode ainda desgastar ainda mais a sua posição, tendo em conta que é o presidente, não é?

Sim, sobretudo ele não mostra muitos sinais de estar a arrepiar caminho, embora seja verdade, por exemplo, no caso de Minneapolis, eles tenham sinalizado que iam mudar um pouco a sua postura. Em relação à Europa, realmente mais uma vez a mesma coisa. Trump é historicamente impopular. A queda no prestígio, na imagem dos Estados Unidos, na Europa, entre os aliados europeus, é absolutamente brutal. Há uma sondagem recente, de há poucas semanas atrás, desta nova revista francesa, Grand Continent, já citamos aqui uma sondagem anterior, mas eu estou aqui a olhar para os números, 51% dos europeus acham que Trump é um inimigo da Europa. Isto são números absolutamente sem precedentes. Depois 39% não sabem, ou melhor, acham que nem é bem inimigo, nem amigo, portanto, está aqui numa posição equívoca. Só 8% é que acham que é um amigo da Europa. Portanto, isto são realmente números historicamente baixos, sem precedentes mesmo, mostram bem o estado de crise que Donald Trump criou na aliança. Isto vai de par também com, e termino com esses números, à volta de 44% dos europeus acham que Trump se comporta como um ditador, 44% acham que tem tendências autoritárias, portanto, ainda não é bem um ditador, mas para lá caminha. E só 10% é que acham que ele realmente é um líder democrático. E portanto, isto provavelmente também ajuda a explicar os outros números, a par das ameaças à Gronelândia, que também aparecem nesta sondagem, em que mais de 80% dos europeus acham que isto é um ato de um inimigo, e que os europeus têm de unir, é no fundo uma ameaça à própria Europa e os europeus têm de unir a responder. Mas portanto, tudo isto mostra realmente o custo para a imagem dos Estados Unidos na Europa, do tipo de posturas que Donald Trump tem assumido.

Resta saber se ele se preocupa muito com esses dados também.

Imagino que não.

Se isso faz mossa ou não. Bruno, vamos olhar agora para o Fórum Econômico Latino-Americano do Panamá. Houve aqui reações à queda de Maduro, gostava de perceber contigo. E também tivemos aqui uma novidade que talvez tenha deixado Donald Trump agradado, o facto do México ter suspendido o envio de petróleo para Cuba, que Trump já assumiu que é um dos próximos alvos depois do ataque à Venezuela.

Sim, começando por aí, esse é um dado muito importante. Basicamente, Cuba estava a sobreviver em termos de petróleo, que obviamente é indispensável, até porque, por exemplo, para a produção de eletricidade, no caso de Cuba, ela está muito dependente de geradores, dependia muito da Venezuela e um pouco também do México, que também é um produtor e exportador de petróleo. Basicamente, essas duas fontes parecem ter secado. Os Estados Unidos ameaçaram pressionar o México, e o México muito pragmaticamente, é um governo de esquerda, de esquerda até populista, da Cláudia Sheinbaum, mas muito pragmaticamente, basicamente deu prioridade aos seus interesses, não quer comprar uma guerra comercial por causa disso.

Até porque também já percebeu, se calhar, as represálias que pode sentir, não é?

Exatamente. E isso significa basicamente que Cuba tem, segundo as estimativas dos especialistas, à volta de duas semanas de combustível, porque basicamente está a zero em termos de capacidade de importação. E portanto, isto significa que realmente estamos a chegar aqui a um ponto crítico também em relação a Cuba, sem sequer ser preciso algum tipo de ação militar. E portanto, acho que temos de estar muito atentos àquilo que poderá acontecer em Cuba, sendo que há aqui o risco também de problemas muito sérios, por exemplo, em termos humanitários, etc. Hospitais sem energia, obviamente, é uma catástrofe.

E a situação em Cuba já é complicada por si só, e tendo em conta estas condicionantes, ainda pior.

Em relação à questão deste fórum, que é conhecido como o Davos da América Latina, uma nota para sublinhar que o seu principal patrocinador é a El País, portanto, isto mostra como a Espanha tem uma influência, uma presença na América Latina, que não tem nada a ver, por exemplo, com o que Portugal consegue ter, por razões evidentes Depois, realmente estiveram presentes sete chefes de Estado e de governo, mais de 2000 empresários. E foi interessante, por exemplo, encontros entre Lula e o líder eleito do Chile, que é alguém muito à direita, o José Antônio Castro, mas que é muito pragmático também. Lula tentou passar essa mensagem, que é preciso voltar a apostar no regionalismo, é algo que ele repete há muitos anos, mas com muitas críticas, que eu acho que são justas, no sentido de dizer: "Fazemos múltiplas declarações que não levam a nada." A CELAC, que no fundo é a grande organização regional do conjunto da América Latina, está, na prática, paralisada. E nós, no contexto atual, realmente, ou conseguimos ter alguma coesão como bloco, ou vamos ter imensos problemas, vamos ser alvo de múltiplas pressões, coerções, ameaças. Inclusive, ele citou expressamente a questão do ataque americano contra Maduro. E portanto, apelou a uma cooperação pragmática para além das questões ideológicas, sendo que isto, em relação ao Lula, é significativo, porque o próprio Lula também muitas vezes parecia apostar nestas solidariedades mais ideológicas, embora para ser justo, o Lula sempre teve uma dimensão também pragmática. Isso pareceu ter algum eco noutros líderes, mesmo mais à direita, como este líder do Chile, o futuro presidente, já foi eleito, ainda vai tomar posse. E portanto, vamos ver se neste contexto, realmente a América Latina, ou pelo menos uma parte da América Latina, consegue ser um pouquinho mais pragmática. O presidente da Colômbia também afinou pelo mesmo diapasão, propôs uma negociação entre o Pacto Andino, no fundo, a América do Sul do lado do Pacífico, e o Mercosul. Portanto, acho que tudo isto é significativo de como, não apenas o Canadá ou a Europa, mas um pouco por todo lado, realmente há esta ideia de que as pequenas e médias potências ou conseguem criar blocos mais coesos ou vão ter enormes problemas neste mundo muito mais conflituoso, muito mais perigoso, muito mais dominado por grandes potências muito agressivas.

Estamos mesmo a chegar ao fim, Bruno, mas vamos ainda ao acordo comercial entre a Nigéria e a Turquia e um encontro bilateral com o chefe da diplomacia do Irão. Pergunto-te o que é que anda a Turquia a fazer em África e, no fundo, também na sua região?

A Turquia é um exemplo destas potências médias de que Mark Carney falou em Davos. Ou seja, é um país que tem uma dimensão, tem uma população significativa, estamos a falar de 700 mil quilômetros quadrados, de mais de 80 milhões de pessoas. É talvez a 18ª, entre a 18ª e 20ª economia, portanto, faz parte do G20. Tem as maiores forças armadas da NATO a seguir aos Estados Unidos, mais de 350 mil soldados. Já é, em termos de investimento na dimensão diplomática, a terceira potência, ou seja, vem logo a seguir aos Estados Unidos e à China em termos de número de representações diplomáticas, embaixadas, consulados, etc. Ultrapassou ligeiramente o Japão e a França. E realmente a Turquia tem estado a investir muito com esta ideia do neo-otomanismo, uma espécie de recuperação do Império Otomano. Há 100 anos atrás, é preciso recordar isso, a Turquia dominava grande parte do Médio Oriente e uma parte importante do Norte de África, ou uma parte ainda do Norte de África, nomeadamente a Líbia. E, portanto, Erdogan tem claramente esse objetivo de recuperar protagonismo no Médio Oriente, na sua vizinhança mais próxima, com resultados muito complicados. Criou, por exemplo, imensas tensões com o Egito depois da Irmandade Muçulmana, com quem ele se tinha aliado, ser afastada por Sisi. Mas, por exemplo, em África, nós não temos muitas vezes essa noção, mas a Turquia tem investido muito nos últimos anos e já é um ator muito importante em termos de comércio, de investimento, de cooperação. E realmente, para a Nigéria, isto também tem a vantagem que é um acordo que permite diversificar relações em relação aos Estados Unidos. A Nigéria é o grande parceiro dos Estados Unidos na África Ocidental, tem problemas militares também muito sérios, que levaram a ameaças norte-americanas, a questão do Boko Haram. E aí, realmente, este acordo é não apenas comercial, de investimento, mas também de defesa, troca de informações, intelligence. E, portanto, realmente isto mostra como a Turquia tem aqui uma mais-valia e aproveita estes espaços abertos pela conflitualidade, pela postura dos Estados Unidos de Donald Trump. Em relação ao Irão, a Turquia quer aparecer aqui como potencial mediador, porque apesar de tudo, Erdogan cultiva e tem boas relações pessoais com Donald Trump e portanto, no fundo, está aqui a propor-se como uma ponte para ver se, de facto, como resultado desta pressão militar, os Estados Unidos e o Irão conseguem algum tipo de acordo. Mas isto confirma realmente o papel da Turquia e o papel destas potências médias num mundo mais conflituoso.

Bruno, vamos fechar, como é habitual, com a tua recomendação. Pelo que sei, é sobre a história militar da China, não é assim?

Sim, é um livro muito recente e muito a propósito. Dois autores norte-americanos, o Joel Wuthnow e o Phil Saunders, são professores na National Defense University, na Universidade das Forças Armadas Americanas, na capital, em Washington, D.C. Publicaram este livro, China: Quest for Military Supremacy, há uns meses atrás. E basicamente é uma história muito detalhada das Forças Armadas do Exército Popular de Libertação Chinês, portanto, as Forças Armadas da China comunista. O que é que é interessante no contexto atual é com grande foco também na dimensão da organização, de como é que funciona esta Comissão Militar Central, como é que foi funcionando a relação entre o partido e as Forças Armadas em vários períodos. Por exemplo, eles destacam vários momentos de alguma tensão, de alguma dúvida sobre o grau de controle do partido sobre as Forças Armadas. E, sobretudo, sublinham este dado, eu destacaria aqui dois aspectos. Um é que, para já, a China tem sobretudo Forças Armadas com capacidade regional, na sua região, e não global. Por exemplo, não tem os aliados e as redes de alianças que os Estados Unidos agora estão a pôr em causa, mas que para já têm. E, em segundo lugar, é que realmente este sublinhar com muitos dados interessantes, que estas são as Forças Armadas do Partido Comunista Chinês, não são as Forças Armadas da China. E eles dão, por exemplo, este exemplo, em Portugal, em qualquer Estado normal, vamos dizer assim, as Forças Armadas geralmente juram lealdade à pátria e à Constituição, no fundo, ao Estado, e não a um partido. No caso da China, de facto, os militares juram fidelidade ao Partido Comunista Chinês, à parte da própria China, mas ao Partido Comunista Chinês.

Fica aqui esta tua sugestão, Bruno Cardoso Reis. Já sabe que se tiver perguntas para fazer ao Bruno, é muito simples, através do e-mail ouvinte@observador.pt. Pode também comentar no Spotify a cada novo episódio, por exemplo, este, ou então, ainda mais fácil, através do nosso WhatsApp 910024185. Bruno, um grande abraço. Temos encontro marcado no próximo sábado. Cá estaremos.

Obrigado. Boa semana a todos.