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Cinco continentes é o programa da Rádio Observador em que analisamos o que está a marcar a atualidade a nível global, dos conflitos ao jogo político, da geoestratégia às relações comerciais. É o espaço de análise do historiador e colunista do Observador, Bruno Cardoso Reis. Bruno, bom dia.
Olá, bom dia. Tudo bem, Miguel.
Hoje vamos falar muito de Donald Trump e será um pouco por tudo aquilo que referi anteriormente, conflito, jogo político, relações comerciais, geoestratégia. E isto passa também pelo plano de paz ou pelo conselho de paz muito recentemente criado por Donald Trump. É difícil dizer que alguém pode estar contra a paz, mas é possível estar contra este conselho, isso já foi detalhado ao longo desta semana. Que conselho é este que pode efetivamente servir e se Trump está aqui a entrar ou não num conflito também com as Nações Unidas.
De facto, é esse o receio de muitos países, ou seja, é evidente que ninguém à partida está contra a paz, até os maiores conquistadores preferem ocupar um território pacificamente do que pela guerra. É evidente que a generalidade dos europeus, que têm muito a perder, vivendo em uma das zonas mais prósperas e mais livres do mundo, também querem a paz. Certamente não foi por iniciativa da Europa ou da Ucrânia, ao contrário do que diz a propaganda russa, por exemplo, que começou a guerra russa contra a Ucrânia. Mas realmente, no caso deste conselho para a paz, ele foi mandatado por uma resolução das Nações Unidas especificamente para lidar com a questão de Gaza. E realmente estava toda a gente muito desesperada por haver algum tipo de paz em Gaza, com a ideia de que era melhor quase qualquer tipo de paz do que a continuação, de facto, daquele conflito, daquela situação terrível, quer para os reféns israelitas, quer para a população civil de Gaza. Agora, o que Trump fez foi, pegou nisso, realmente, e transformou isto numa espécie de teatro da vaidade, num projeto pessoal. Portanto, quer dizer, para deixar aqui claro quais são alguns dos problemas deste conselho para a paz de Trump, tal como ele o definiu. É um conselho que é presidido por ele, mas presidido por ele a título pessoal e vitalício. Ou seja, não é o presidente dos Estados Unidos que preside a este conselho, é Donald Trump que preside a este conselho enquanto assim o entender. Tem direito de veto, mais do que um Estado tem, pode nomear ou afastar os países que quiser. E depois, sobretudo, esta questão que é, em vez de se focar apenas na questão de Gaza, que já não é propriamente simples, aparentemente a ideia é fazer uma coisa, digamos, para lidar com a paz no mundo, ou seja, algo que iria competir diretamente com as Nações Unidas, com o próprio Conselho de Segurança. E, portanto, o resultado disso é que aquilo que vimos em Davos foi o próprio Donald Trump a dizer: "Bem, eu geralmente quando há estas cimeiras, estas coisas assim institucionais, há muita gente que eu não gosto, mas aqui não, aqui gosto de toda a gente." Pois, realmente não é de espantar, ou seja, basicamente era um clube de amigos de Donald Trump, de amigos políticos de Donald Trump a nível global, e, portanto, não estavam nenhumas das grandes potências, nem a China, nem a Rússia, não estavam as grandes democracias, não estava o Brasil, não estavam nenhumas das democracias europeias também, a única exceção era a Hungria, a Órban, que é obviamente muito próxima de Trump. E, portanto, o que tínhamos era o presidente do Azerbaijão, que é um país que Trump nem consegue dizer o nome exatamente, era o ministro dos Negócios Estrangeiros da Jordânia, o presidente do Cazaquistão, do Kosovo, o primeiro-ministro do Paquistão, o presidente do Paraguai, o presidente da Argentina, claro, Milei, o presidente do Uzbequistão, o primeiro-ministro da Mongólia. E tudo isto depois foi caracterizado por Donald Trump como sendo, digamos, os homens mais poderosos do mundo. Portanto, realmente, temos todas as razões para pensar que este conselho começa mal. Aquilo que os europeus, contestadamente, enfim, com estas exceções habituais, fizeram foi dizer, se for só sobre Gaza e se isso ficar clarificado, e se houver no fundo aqui garantias de que não vai haver uma competição desleal com as Nações Unidas, então podemos vir a ponderar fazer parte. Mas acho que fizeram muito bem realmente em não saltar para este barco, que não dá nenhumas garantias de que faça aqui uma navegação segura em termos de realmente promover a paz no mundo, promover em particular a paz também em Gaza, que era supostamente o seu objetivo principal.
Vamos ver que futuro terá este conselho de paz criado esta semana. Certo é que há negociações para a paz em diferentes conflitos, um deles o conflito na Ucrânia, com um encontro tripartido, Estados Unidos, juntamente com Ucrânia e Rússia a negociarem uma solução de paz para este conflito. Acontece nos Emirados Árabes Unidos. A questão aqui é que a Ucrânia já está a apontar para ataques da Rússia durante esta noite e a apontar para uma forma de pressão, ataque cínico. Podemos esperar algo concreto destas negociações? Já vimos muitas rondas negociais entre estas três forças, mas também já vimos muitas reuniões a envolver a Ucrânia e a Rússia. Pode sair daqui alguma coisa em concreto?
Eu acho que claramente o que não saiu, o que não sai, é nenhum tipo de cessar-fogo, mesmo temporário, para criar melhores condições para se negociar a paz. Foi algo que os europeus sempre defenderam, mas que os americanos não tiveram interesse em defender e que a Rússia nunca teve também nenhum interesse em aceitar. Portanto, isso é um mau sinal à partida. O mais frequente quando se está a negociar uma paz é, entretanto, fazer-se um cessar-fogo, até para evitar que haja desenvolvimentos no terreno que compliquem isso. Esse é um ponto importante e realmente não só isso, mas a Rússia não mudou sequer, pelo contrário, as suas táticas de ataques indiscriminados contra a população civil, de tentar criar condições absolutamente impossíveis para a vida das pessoas, para os civis, no contexto do inverno nesta região. Apesar de tudo, como tu dizias, houve muitas negociações, houve inclusive negociações entre delegações ucranianas e russas com a mediação da Turquia nos anos iniciais da guerra, que não levaram a nada. Há aqui alguma coisa de diferente nestas negociações? O que há de diferente é que realmente são as primeiras negociações trilaterais, ou seja, com o mediador, os Estados Unidos e com as duas partes diretas, portanto, neste formato, agora com os Estados Unidos, não com a Turquia e sobretudo com delegações dos dois lados com pessoas que parecem ser próximas realmente dos decisores e nomeadamente Putin. No caso das negociações da Turquia, basicamente Putin enviava uma figura de terceira categoria no Estado russo, uma espécie de propagandista. Eu fui sempre dizendo também, e tento ser coerente na análise, mesmo que falhe ou não, mas eu fui sempre dizer também que um dos sinais de que estas negociações estavam longe de estar num ponto decisivo era que nem sequer se conseguia fazer uma reunião em que estivessem as duas partes, os dois beligerantes na mesma sala a negociar. Parece que estamos aí. Isso, do meu ponto de vista, significa que estamos a entrar numa fase mais decisiva das negociações. Não quer dizer de todo que eu esteja convencido ou que esteja seguro ou que ache que alguém pode estar seguro, que isso quer dizer que vai haver, se quisermos fumo branco, vai haver garantidamente aqui um acordo de cessar-fogo, porque me parece que há pontos-chave, de acordo com as informações que vamos tendo, que continuam a ser incompatíveis entre a posição da Ucrânia e a posição da Rússia.
Nós na segunda parte vamos falar também muito da parte da Gronelândia e daquilo que aconteceu também, do discurso do Trump em Davos, daquilo que acontece agora ao território europeu e de como fica essa questão. Antes disso, falar também de um aspecto na Ásia, até porque já não há guerra nem ditadura, neste caso no Mianmar, antiga Birmânia. Há eleições este domingo. Queria perceber contigo se isto é de facto um bom sinal e o que é que podemos esperar destas eleições no Mianmar.
Podia-se pensar que já não havia realmente nem guerra nem ditadura no Mianmar, Birmânia. Mianmar é o nome que a ditadura militar deu ao país, a Birmânia é o nome que a maior parte dos birmaneses e a oposição continuam a dar ao país e que é o nome tradicional em português, mas na Birmânia realmente estamos longe de não ter guerra nem ter ditadura. Portanto, a real questão é por que é que se vai fazer essas eleições e que credibilidade é que merecem. A Birmânia é um campeão dos conflitos esquecidos, que nós falamos aqui muitas vezes, ou seja, destas guerras muito pouco visíveis, às vezes quase invisíveis. É talvez o conflito armado mais longo, basicamente desde a independência, desde os anos 40, desde 1947, 1948, que há guerra civil mais ou menos intensa, mais ou menos alargada, com muitos movimentos separatistas. Os militares têm dominado também através de mão de ferro, ditadura à vida do país de forma indireta desde a independência, de forma mais direta a partir de 1958, 1962, que é o primeiro governo militar, depois o primeiro golpe militar. Deram um novo golpe em 2021, que era suposto resolver todos estes problemas, só os agravou, só intensificou a guerra civil, só alargou mais áreas. É verdade que nos últimos meses, a China, em particular, tem imposto uma série de cessar-fogo, obrigou parte das forças da oposição que estavam a ter grandes avanços, inclusive em cidades importantes na zona de fronteira, a recuar, a voltar a entregar esses territórios ao governo central. A China parece estar aqui apostada em estabilizar a situação, em legitimar este governo militar, que agora basicamente nas eleições procura essa legitimação e o que podemos dar como certo é que realmente as eleições vão ser ganhas pelos militares, pelo partido criado pelos militares. Isso quer dizer que não podemos garantir que haja realmente condições para uma paz, muito menos por uma paz justa no país. O fator aqui que parece estar a pesar no sentido de dar alguma vantagem ao governo central e de impor alguns limites à guerra civil e a estas dificuldades crescentes, e inclusive falava-se da possibilidade de haver quase que um colapso do governo central, isso realmente parece ter sido travado pela China.
São eleições para acompanhar e o que acontece neste período de guerra civil. Já apontando para aquilo que vamos falar também sobre a Gronelândia, lançar já este tema de Davos, marca certamente esta semana o Fórum Econômico Mundial de Davos. E fica também esta dúvida, isto é um fórum que é sempre muito conhecido pela discussão econômica, é óbvio que vai tendo sempre a presença de líderes importantes e discursos importantes Mas acabou por ficar muito pouco de economia, sendo que Trump foi a Davos de certa forma evitar um conflito e apontar pra uma solução econômica, mas não parece que foi um Fórum de Davos um pouco diferente do habitual?
Foi. Como tu dizes, sempre houve discussões também de dimensão mais política, mas realmente aqui o nicho da Suíça, que é a economia globalizada, os serviços financeiros, etc. Portanto, este encontro corresponde a uma iniciativa muito inteligente da Suíça marcar a agenda internacional, ganhar alguma centralidade pra um país pequeno em termos internacionais, em termos globais nesta área da economia política internacional. Agora, a grande questão é que a economia internacional está, e eu acho que isso é bastante revelador, este encontro foi revelador, está completamente dominado pela política. Aquilo que mais se fala é esta questão do risco político, do risco geopolítico, e um dos principais riscos é Donald Trump. Trump encarna em pessoa essa enorme incerteza, é ele próprio um fator de enorme incerteza. Os Estados Unidos costumavam ser um pilar da ordem global ao nível económico e de segurança, transformaram-se numa potência revisionista radical com Donald Trump e altamente imprevisível em muitos aspectos. Realmente tínhamos mais de 60 chefes de Estado e de governo, mais de 800 empresários, mas o grande discurso foi realmente o de Donald Trump e perceber se ia ou não haver escalada nesta questão da Gronelândia, como disseste, já iremos falar. Apesar de tudo, eu acho que Trump ficou bastante irritado porque, na verdade, a ribalta acabou por ser um pouquinho roubada por Mark Carney, ou seja, pelo primeiro-ministro do Canadá, que disse que o rei vai nu, ou seja, deixou claro que realmente estamos confrontados com uma situação de ruptura da ordem internacional, que essa ruptura é desejada por grandes potências que têm uma agenda claramente agressiva, inclusive predatória, sem nunca referir, aliás, os Estados Unidos, o que é curioso. Eu diria que Mark Carney pode facilmente dizer a qualquer crítica de Donald Trump: "Se queres enfiar o barrete, quer dizer que te identificas com este retrato-robô de grandes potências agressivas, predatórias." E realmente acho que desse ponto de vista foi um discurso bastante acertado e no timing certo. Muita gente já tinha dito isso, o próprio Carney já tinha dito isso, que era um erro tentar sistematicamente apaziguar, ceder perante este tipo de postura, que isso só ia levar a mais ameaças, mais pressão, mais chantagem econômica, que era crucial diversificar relações. Portanto, isto também era um pouco uma crítica ou um alerta diplomático aos líderes europeus. E penso que o que também é significativo é que os líderes europeus parecem ter percebido e concordado. Parece ter realmente havido aqui uma quebra e uma viragem naquilo que tem sido a postura da maior parte dos líderes europeus em relação a Donald Trump, mas enfim, sobre isso falaremos mais na segunda parte.
Já vamos à segunda parte deste "Cinco Continentes", onde vamos naturalmente falar da situação na Gronelândia. Já voltamos à conversa com o Bruno Cardoso Reis. A Gronelândia entrou no topo da atualidade nas últimas semanas, muito por causa dessa intenção de Donald Trump de adquirir o território, anexar o território. Podemos utilizar diferentes palavras para referir aquilo que Donald Trump procura para a Gronelândia, mas em Davos, de certa forma, recuou na possibilidade de colocar tropas e de iniciar um conflito armado por causa desse território que pertence ainda à Dinamarca. Bruno Cardoso Reis, nesta segunda parte do "Cinco Continentes", vamos falar um pouco desta questão da Gronelândia. O que vimos esta semana no discurso de Donald Trump em Davos foi, de facto, um recuo face às intenções militares na Gronelândia. Foi pressionado a isso? Como é que se explica também, porque parece que passámos de um possível conflito para uma possível compra.
Ele tinha falado sempre nessa questão da compra. Que estava disposto a pagar. O problema aí, realmente, e isto ilustra bem também o problema da tática ou da postura que foi muito praticada no primeiro mandato e que foi muito recomendada em relação a este segundo mandato, que o speaker, o presidente da Câmara Baixa, da Câmara dos Representantes, o Mike Johnson, voltou agora a repetir, que é esta ideia de se levar Trump a sério, mas não literalmente, que eu também não percebo bem o que isso quer dizer, parece-me haver aí uma contradição, mas o problema realmente é a reação em relação à ideia de comprar a Gronelândia ou de anexar o Canadá. Foi sempre inicialmente de achar que era um pouco uma brincadeira, uma provocação, etc. Até que isso se tornou impossível, ou seja, a insistência de Trump nesse tema foi de tal ordem, a insistência de que ele estava realmente a falar a sério, esta ideia de que poderia invadir um país aliado, que poderia estar a planear uma guerra de agressão contra um país aliado se ele não cedesse às suas, entre aspas, ofertas de compra. Uma espécie de oferta mafiosa, que é uma oferta que não se pode recusar, quando a definição de uma oferta é que à partida pode ser recusada. Portanto, realmente aquilo que me parece evidente é que o que mudou certamente não foi esse tipo de táticas de apaziguamento, de bajulação do Donald Trump. Eu vejo agora alguns relatos nesse sentido, não foi certamente Mark Rutte que resolveu o problema. Aliás, aquilo que saiu de um encontro entre Rutte e Trump é mais uma vez extremamente nebuloso e temos versões contraditórias sobre do que é que se trata. Sabemos que, lamentavelmente, a Dinamarca e a Gronelândia não estiveram presentes, portanto, desde logo isso é um problema muito sério. A Dinamarca e a Gronelândia continuam a insistir que seja em bases, seja em que termos for, não vai haver cedência de soberania. Isso é uma linha vermelha em que eles não vão ceder e têm o apoio da maioria dos países europeus, com a habitual exceção do Órban em relação a isso. Mas portanto, o que aqui mudou certamente não foi esse método de bajulação, de cedência, procurar um compromisso a qualquer preço com o Donald Trump. O que mudou foi que a Dinamarca e a Gronelândia, com grande coragem, deixaram claro que havia aqui uma linha vermelha que não ia ser ultrapassada. Podem negociar muita coisa, mas isso não vão negociar, não vão vender a Gronelândia, não vão vender pessoas que não querem ser vendidas aos Estados Unidos. A maioria dos países europeus tomou uma posição firme de apoio à Dinamarca, deixando claro que inclusive se fosse preciso regressar a uma guerra econômica com os Estados Unidos, ia-se para uma guerra econômica com os Estados Unidos. O que mudou foi que os mercados americanos entraram em queda, os custos da dívida subiram substancialmente, as taxas de juro vão aumentar e portanto, aquela ala pragmática que ainda resta na administração Trump, que é a parte da economia, começou a chamar a atenção para isso. A ala política começou a chamar a atenção que estamos a meses das eleições intercalares de novembro. Os números de Trump e do Partido Republicano são péssimos em termos da opinião pública, também falaremos disso. E portanto, de facto, havia aqui o risco de se criar uma crise completamente desnecessária, com custos enormes, porque realmente finalmente os europeus decidiram fazer frente a Donald Trump. Portanto, parece-me evidente que o que mudou foi isso, foi que mostrou-se alguma firmeza, alguma força do lado europeu e Donald Trump recuou. Recuou nas ameaças de guerra comercial, recuou nas ameaças de invadir a Gronelândia e portanto acho que isso mostra que realmente a forma de lidar com Donald Trump é com firmeza, é com força. Basta ver a forma como ele se refere geralmente aos aliados europeus, que ele por regra despreza como democracias fracas, etc., fáceis de pressionar, e a forma como se refere a ditadores como Putin, como Xi, ou até àquele monarca comunista da Coreia do Norte.
De facto, há aqui também casos, situações um pouco caricatas de Donald Trump, por vezes a falar da Gronelândia, vai falando da Islândia. Há também parece algumas intenções norte-americanas ou vai-se apontando a isso em relação à Islândia. Há ou não razões para a Islândia estar preocupada neste sentido e sobre estes aspetos?
Eu sei que a Islândia, desculpa, porque realmente às vezes esses erros acontecem, mas eu já vou à diferença com o Donald Trump. E realmente acontece, inclusive aqui no programa, às vezes eu acho que estou a dizer China e estou a dizer Rússia ou coisas desse gênero. Portanto, isso acontece-nos a todos. Mas realmente, aqui foi por um lado um erro repetido, foi dito umas três vezes. Mas qual é que é o problema com Donald Trump e o que é que leva a que a Islândia esteja realmente preocupada? E eu sei que está preocupada, porque um colega americano estava há uns dias a dizer-me que veio uma delegação da Islândia à capital americana falar com o Congresso, falar com os think tanks, precisamente pra tentar perceber até que ponto é que deviam estar preocupados ou não. E a razão para isso é porque basicamente a Islândia está nas mesmas circunstâncias ou piores do que a Gronelândia, porque a Islândia tornou-se independente da Dinamarca a seguir à Segunda Guerra Mundial, não tem um exército. Durante muito tempo, aliás, era muito elogiado e até apresentado como um exemplo aqui na Europa, de que se podia não ter um exército. Claro, não tem um exército porque a sua segurança é assegurada pelos Estados Unidos. É um país apenas de 300 mil habitantes, bastante rico, mas apenas 300 mil habitantes, não faz parte da União Europeia e portanto está muito mais isolado, desprotegido, tem muito menos argumentos para contrariar qualquer tipo de pressão de Donald Trump do que propriamente a Gronelândia. Aparentemente, felizmente, não tem recursos minerais, pelo menos não na mesma escala que tem a Gronelândia, mas realmente há essa preocupação. E por que é perigoso este erro do Donald Trump? E o que é que faz a diferença em relação aos erros que eu cometo? É que eu não sou presidente dos Estados Unidos e sobretudo é que com Donald Trump não pode haver erros. Ou seja, o Donald Trump nunca admite um erro. E pior, o culto político em que se transformou o Partido Republicano também não admite que Donald Trump possa estar errado. E portanto, o risco aqui é que ele realmente tenha cometido um erro honesto. Pode ter sido que seja, digamos, um lapsus freudiano e portanto que ele estivesse também a pensar na Islândia e começou já a falar isso. Mas pode simplesmente ser confundir uma ilha com gelo com outra ilha com gelo. Agora, o problema é que se lhe começam a dizer "você esteve errado, isso foi um erro", a resposta de Donald Trump pode muito bem ser: "Não estive não, isso foi de propósito. E portanto, agora vamos falar da Islândia." E portanto, esse é realmente o risco. E já agora, se começar a falar da Islândia, eu acho que começamos a aproximar perigosamente dos Açores, ou seja, lá está, o mesmo tipo de argumentos que são usados em relação à Gronelândia, sobretudo em relação à sua importância pra segurança dos Estados Unidos, também podem ser utilizados em relação aos Açores. Portanto, acho que é prudente realmente começar-se a pensar nesses termos. Não sei se aquela reação exagerada do governo português em relação àquele post satírico no X, em que supostamente o primeiro-ministro português oferecia os Açores a Donald Trump, realmente não será um pouco uma reação nervosa, mas que reflete uma preocupação real do governo português, que eventualmente isso até pode vir a dar ideias a Donald Trump. Como eu digo, acho que a reação foi excessiva, podia-se deixar claro, até com algum humor, que realmente aquilo não era verdade para os mais distraídos, porque há muita gente distraída na internet que publica como sendo verdade coisas que são evidentemente satíricas, mas acho que realmente, no fundo Todas estas ilhas no Atlântico podem potencialmente transformar-se no alvo das ambições perigosas de Donald Trump.
Mas há, de facto, uma mudança de fundo relativamente a Trump na Europa. Os discursos têm ficado um pouco mais quentes. De facto, Davos atenuou um pouco a situação. Mas já temos visto também, por exemplo, reações irritadas por Trump ter desvalorizado o contributo de tropas da NATO no Afeganistão. Vimos toda esta situação na Gronelândia. Como é que fica, de facto, esta relação entre Trump e a Europa, Trump e outros países da NATO? Não parece estar a ir por um bom caminho.
Eu sou um grande defensor da aliança com os Estados Unidos e acho que há uma real convergência de interesses, infelizmente menos de valores, pelo menos com a atual administração, como eles aliás deixam bastante claro nos seus ataques constantes à Europa e ao suposto estado de decadência da civilização europeia. Portanto, eu acho que obviamente não se deve andar à procura de conflitos com os Estados Unidos. Agora, sempre me pareceu que era errado não perceber, de facto, como é que funciona Donald Trump, esta ideia de que fazer compromissos quase a qualquer preço, constantemente ignorar declarações inaceitáveis da parte dos Estados Unidos, era uma forma certa de responder a Donald Trump. Parece-me que finalmente há cada vez mais líderes europeus a ter também esse entendimento e a assumir uma postura consequente. Ou seja, vimos Carney, mas vimos um discurso também com referências explícitas aos Estados Unidos, por exemplo, do chanceler Merz, que também já fez declarações um pouco nesse sentido, mas voltou a fazê-las, vimos Macron. E sobretudo, eu queria aqui destacar, pela primeira vez vimos o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, que eu recordo não está na União Europeia, portanto está numa posição um pouquinho mais frágil, uma Grã-Bretanha cujo eixo da sua política externa desde a Segunda Guerra Mundial é a proximidade, a importância vital da aliança com os Estados Unidos. Isso ainda foi reforçado depois daquela crise do Suez de 1956. A lição disso para os britânicos foi nunca podemos entrar num choque em termos de política externa com os Estados Unidos, foi a conclusão oposta à dos franceses, que é temos de criar aqui autonomia estratégica pra poder entrar em choque quando é preciso. E Keir Starmer, pela primeira vez, em resposta a estas declarações, que causaram uma indignação enorme na Grã-Bretanha, que ele fez em Davos à Fox, de que os aliados foram lá pro Afeganistão, mas aquilo foi mais um passeio, estavam muito longe da linha da frente. Enfim, Keir Starmer disse, e vou aqui citar: "São declarações insultuosas e francamente chocantes ou inaceitáveis", a palavra inglesa é appalling, "do presidente Trump." E realmente era o líder mais pró-americano de todos os países europeus, provavelmente, exceto o Ármos Órban, que está na mesma linha de Trump. E realmente isso parece-me que é bastante significativo. A principal revista alemã, Der Spiegel, tem uma capa, que nunca foi propriamente uma revista anti-americana, a dizer "chega" ou "basta", ou "já estamos fartos", em relação a Donald Trump. E parece-me que realmente parece haver aqui uma mudança de atitude de grande parte dos líderes europeus, e esta ideia de que realmente é preciso começar a fazer frente a Donald Trump, pelo menos nalguns casos. É preciso dar resposta, deixar claro que há aqui coisas que são ditas que são inaceitáveis. Agora, ao mesmo tempo, temos sempre esta questão, também surgiu em Davos pela boca de Zelensky, de forma pouco diplomática, se calhar, não estou certo se tenha sido a pessoa certa para dizer isso.
Sim, algumas críticas à Europa, não é?
Críticas à Europa que são todas elas justificáveis. Esta ideia de que a Europa adora falar do futuro, mas no presente faz muito pouco, que não tem realmente a rapidez e a robustez que é necessário para responder a este mundo muito mais perigoso. E aquilo que vimos, inclusive, foi no Parlamento Europeu, por um lado, a suspensão do acordo comercial com os Estados Unidos, que é um gesto de força que foi importante, mas ao mesmo tempo uma votação absolutamente lamentável, que mostra também os problemas da polarização e da divisão na Europa, que juntou a extrema-esquerda, digamos, os idiotas úteis ecologistas e depois a extrema-direita, para, na prática, bloquear ou tentar bloquear o acordo entre a União Europeia e o Mercosul, mandando pras calendas judiciárias, mandando pro Tribunal Europeu, na esperança de que isso demore uns anos a resolver. Quer dizer, como é que é possível, por exemplo, seguir a linha de Carney, de diversificação de relações, quando ao mesmo tempo temos constantemente estes bloqueios, estes vetos, esta autossabotagem? Aliás, Carney dá ele próprio uma solução, que é aquilo que me parece vai cada vez mais acontecer, mas por exemplo, no comércio externo isso é muito difícil, porque somos um mercado único, mas é esta questão de coligações mais curtas, mais pequenas, de países realmente determinados a agir com objetivos concretos e com interesses partilhados, o que nós chamamos muitas vezes o minilateralismo. Mas isso coloca problemas, porque obviamente, por exemplo, um país como Portugal, Portugal tem as capacidades, tem também o ativismo diplomático necessário pra estar presente nessas coligações, pra influenciar essas agendas, ou vamos ficar aqui marginalizados. Embora, diga-se também, enfim, ficar nas margens num mundo muito mais conflituoso pode não ser mau, desde que consigamos escapar aos conflitos. Se de repente darmos um alvo, aí já se torna muito mais perigoso.
Vamos tentar abordar aqui outros temas, afastar-nos um pouco do Donald Trump, até porque ainda vamos tentar falar dele um pouco mais à frente, mas falar do Vietnã é um dos temas que quero abordar hoje, é um país também em destaque. Que dados e datas se destacam a par da reeleição do líder comunista?
Exatamente. É um país bastante interessante, é um dos gigantes da ASN. Geralmente está no top três, quatro, seja em termos de tamanho da economia. Aí está à partida no quinto lugar, tem em primeiro Indonésia, Cingapura e Tailândia. Isto é aquele mercado regional, uma espécie de União Europeia do Sudeste Asiático, desta zona-chave da Indochina, que controla ou bloqueia o acesso entre a Índia e a China, entre o Pacífico e o Índico. Mas temos, por exemplo, em termos de economia, em primeiro lugar a Indonésia, de longe, destacada, é sempre em primeiro lugar a Indonésia, o gigante da região, mas por exemplo, o Vietname, que estava tradicionalmente em quinto lugar, segundo algumas estimativas, este ano pode ter passado para terceiro, pode ter ultrapassado as Filipinas e a Tailândia. Tem tido um crescimento excepcional, à volta de 8% do PIB. Em termos de território também aparece-nos aqui em quarto lugar, à volta de 330 mil km², à volta de 3 mil km de costa. Faz fronteira obviamente a norte com a China, depois a leste com o Laos e com o Camboja. Em termos de forças armadas, até por causa dessa proximidade perigosa com a China, é o país com mais tropas, com o exército maior nesta região do Sudeste Asiático, quase 500 mil soldados, depois umas reservas também significativas, portanto um exército muito capaz. O que é interessante aqui nesta eleição e depois recuando um pouquinho. Por um lado, realmente, o Vietname é um daqueles regimes comunistas que sobreviveram graças a seguirem o modelo chinês de leninismo de mercado, portanto a adoção das reformas capitalistas a partir de 1986. Mas o Vietname não está a seguir, não quer seguir e não se quer aproximar demasiado da China. Não está a seguir o modelo chinês atual, uma espécie de neomaoísmo, de voltar a concentrar todo o poder num líder vitalício, no presidente Xi. Realmente, no Vietname, o que temos, e houve aliás a morte do presidente em 2024, portanto, este líder comunista To Lam, que foi agora reeleito, assumiu temporariamente a presidência e pôs-se a questão: "Será que vamos ter aqui uma espécie de modelo chinês também, de concentração dos poderes?" E aquilo que aconteceu não foi isso, ou seja, há a ideia, que até foi formalizada, de liderança coletiva dos chamados cinco pilares. O Vietname tem um líder comunista, que é a figura mais importante, porque no fundo é o partido que manda no Estado, mas depois tem um presidente com poderes mais simbólicos, depois tem o primeiro-ministro e depois tem até um vice-líder do partido. Portanto, há realmente aqui a ideia de manter uma liderança coletiva e não concentrar poder na mesma figura. E isto corresponde também, do meu ponto de vista, a este equilíbrio que é central na história do Vietname. O Vietname está muito próximo da China, inclusive em termos culturais, mas quis se libertar da China. Ou seja, durante mil anos, mais ou menos desde o início do Império Chinês até à volta do ano 1938, o Vietname do norte, a parte norte do Vietname, foi realmente uma província chinesa. Depois a partir daí, a grande prioridade da política externa vietnamita nos últimos mil anos foi realmente manter essa independência em relação à China, enfrentando várias guerras, invasões, por exemplo, do Império Mongol da China, invasões dos Ming. A última invasão é em 1979, portanto nós, em termos da história mais contemporânea do Vietname, pensamos sempre muito na Guerra do Vietname. Na verdade, houve não uma, mas duas, mas três, ou seja, a guerra da independência em relação à França. Esta zona do Vietname foi ocupada gradualmente pela França a partir da década de 60 do século XIX, tornou-se uma colônia francesa a partir de 1885, mas depois em 1945 começa uma guerra, 46 se quisermos ser mais rigorosos, começa uma guerra de independência. Os Viet Minh ou Ho Chi Minh são o líder dessa luta independentista. Em 1954, a grande derrota francesa de Diên Biên Phu, que vai ter, aliás, um enorme impacto global, vai influenciar muito, por exemplo, a luta pela independência nas colônias portuguesas. Temos muitos líderes independentistas que dizem que esse foi o grande modelo. O Vietname é dividido em dois, o Vietname comunista a norte, como resultado dessa derrota francesa, mas a França consegue garantir um Vietname pró-ocidental no sul. E depois temos, a partir daí, a Segunda Guerra do Vietname, em que os Estados Unidos se vão envolver diretamente. Indiretamente estiveram sempre, mas diretamente a partir de 1965 até 1975, quando cai o Vietname do Sul e se unifica o Vietname sob este regime comunista. Mas logo em 1979, por isso é que eu digo uma, duas, três guerras, temos uma invasão chinesa do Vietname, porque realmente houve aqui tensões, a ideia de que o Vietname estava a dominar excessivamente esta região, o Laos também e o Camboja, a ameaçar o papel hegemônico da China. Isso levou inclusive a que nos anos 90, não houvesse apenas uma normalização de relações com os Estados Unidos, mas uma reaproximação, inclusive em termos de cooperação militar, naval, por exemplo, com os Estados Unidos, para reequilibrar, para contrabalançar o poder chinês. Portanto, o Vietname vai claramente manter esta linha do que eles chamam de diplomacia do bambu, vergar mas não quebrar, e de manter esta postura de contrabalançar a China com o apoio dos Estados Unidos, da Índia e de outras potências, mas sem nunca alinhar em nenhum bloco, mantendo sempre a sua independência.
Vamos ainda falar um pouco de África e de um acordo comercial entre o Quênia e a China, e também a renovação pelo Congresso de AGOA, o tratamento comercial preferencial para a África nos Estados Unidos da América. O que tens a dizer sobre este assunto, mas principalmente este acordo comercial que consegue o Quênia com a China?
É muito significativo, porque o Quênia, como nós falamos aqui várias vezes, era um dos grandes parceiros, a par da Nigéria, por exemplo, na África Ocidental, o Quênia era o grande parceiro dos Estados Unidos na África Oriental. À custa disso, por exemplo, o Quênia enviou polícias pro Haiti, que é um país nas Caraíbas, portanto muito mais próximo dos Estados Unidos, embora seja a primeira república negra, se quisermos. Foi muito controverso lá no Quênia, mas era um sinal dessa proximidade. Foi em resposta a um apelo norte-americano. Isso também se traduzia, de facto, em relações econômicas preferenciais. Mas com toda esta incerteza criada por Donald Trump, realmente a China vê aqui uma oportunidade e está claramente a aproveitá-la. E a generalidade dos aliados, dos parceiros dos Estados Unidos, na Europa, no Canadá, mas também em África, o que pensam é: "Bem, temos de diversificar relações". Quer dizer, se os Estados Unidos não querem fazer assim tanto negócio conosco, temos de diversificar relações. Não por acaso, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China começou o ano a fazer um périplo de países africanos. Portanto, é bastante importante, à partir da isentaria da maior parte das taxas "alfandegárias", à volta de 95% das exportações do Quênia, embora depois haja outras barreiras na China. Possivelmente em reação a isso, e portanto contrariando aquilo que parecia ser a tendência, o Congresso acaba por aprovar a renovação deste acordo de relações preferenciais, talvez por perceber que se não fizer alguma coisa, realmente vai entregar, se quisermos, o ouro ao bandido ou se quisermos, mais propriamente, as matérias-primas, por exemplo, estratégicas que abundam em África, ainda mais ao investimento chinês.
Bruno Cardoso Reis, chegamos ao final desta edição dos "Cinco Continentes". Marcamos novo encontro para a próxima semana. Um forte abraço.
Obrigado.