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Guerra traduzida na Rádio Observador. Já sabe que é aqui que analisamos tudo o que se escreve na imprensa russa e também na imprensa ucraniana sobre os acontecimentos na guerra da Ucrânia. Hoje contamos com a curadoria do jornalista André Maia, que esteve a folhear a imprensa russa e também a ucraniana. André, seja muito bem-vindo. Vamos começar por onde?

Vamos começar pela imprensa ucraniana.

Vamos então ir por um artigo do jornal Ukrinform. É um dos destaques do dia de hoje, uma reportagem que mostra que a Rússia está a falsificar relatórios de crimes para tentar difamar soldados ucranianos.

Exatamente, José. Tudo começa no Telegram, uma rede social de troca de mensagens, e diz esta notícia que canais russos do Telegram estão a circular capturas de ecrã fabricadas, ou seja, com manipulação de imagem feitas em Photoshop, outro tipo de softwares, que supostamente mostram estas reportagens, estas notícias ucranianas, dos jornais ucranianos, que estão a ligar um soldado da 22ª Brigada Mecanizada a crimes contra a mãe, contra familiares. Estamos a falar até crimes de abuso, tentativas de esfaqueamento e até mesmo mortes contra familiares. Esta notícia é falsa, claro. Diz o jornal Ukrinform que este caso é mais um caso de propaganda russa, que inventou estas histórias manipulando três reportagens criminais de jornais ucranianos, que essas sim, são verdadeiras, mas que não estão de todo relacionadas com militares, nem com a guerra na Ucrânia. Eram reportagens separadas de uma crônica policial local e que a única coisa que foi alterada foram mesmo algumas palavras, nem mesmo as fotografias que estavam nas reportagens foram alteradas, porque eram fotografias genéricas, imagens de stock. A única coisa que foi alterada nesta manipulação russa foram algumas palavras. Por exemplo, a palavra homem foi substituída pela palavra soldado. Numa outra história, a palavra morador de Kharkiv foi substituída também pela palavra soldado, e aí acaba por se desencadear uma campanha russa de tentar desacreditar os militares ucranianos. O objetivo, diz o jornal Ukrinform, é semear a desconfiança por entre os vários ucranianos, também provocar a hostilidade entre os moradores da Ucrânia, a população da Ucrânia, em relação aos seus próprios soldados, em relação aos seus próprios militares. Na realidade, estes crimes, diz o jornal Ukrinform, aproveita para deixar aqui uma resposta bastante direta. Diz o jornal Ukrinform, e estou a citar: "Na verdade, este tipo de crimes são é muito mais comuns entre soldados russos que regressam da guerra contra a Ucrânia". E o Ukrinform dá um exemplo em Orenburg, um ex-mercenário do grupo Wagner terá assassinado a mãe de um amigo e também terá ferido um vizinho. Mas cá está, é também uma forma depois dos jornais ucranianos, pode não ser muito bonito e muito ético jornalisticamente, mas acaba por também deixar esta resposta, mas faz este fact-check a estas notícias de militares ucranianos que terão cometido crimes brutais.

André, vamos ao jornal Pravda, que nos traz uma história inesperada, Woody Allen. Por que o cineasta e ator está a ser tão falado esta semana na imprensa?

Porque participou num festival, na Semana Internacional do Cinema de Moscovo, e aqui a questão é que o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia não gostou e lançou mesmo um comunicado contra Woody Allen e, neste caso, contra a presença de Woody Allen neste festival. Diz o comunicado que o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia condena veementemente a participação do cineasta americano Woody Allen na Semana Internacional de Cinema de Moscovo. Isto está no comunicado, é o próprio ministério que diz: "Isto é uma vergonha e um insulto à memória dos atores e cineastas ucranianos que foram mortos ou feridos por criminosos de guerra russos durante a agressão russa contra a Ucrânia". Diz também que ao participar neste festival, é um festival que reúne também vários apoiantes, porta-vozes de Putin, Woody Allen está deliberadamente a fechar os olhos para com as atrocidades que a Rússia está a cometer na Ucrânia. A comunicação social russa tinha noticiado já há alguns dias que Woody Allen tinha participado nesta Semana Internacional do Cinema de Moscovo. Foi uma participação à distância. Atenção, Woody Allen não foi mesmo à Rússia, não foi a Moscovo, foi uma participação por videoconferência, e na qual Woody Allen terá refletido sobre o futuro do cinema, por exemplo, também muito à luz daquilo que é a inteligência artificial. Também teceu alguns elogios ao cinema russo, diz que sempre gostou. Ora, quem não gostou foi o Ministério das Relações Internacionais e Externas da Ucrânia, que deixou então este comunicado contra Woody Allen.

Fica aqui explicado por que Woody Allen é tão falado na imprensa neste país. E André, vamos fechar com a versão ucraniana da guerra traduzida de hoje, que traz uma reportagem do jornal Kyiv Independent, faz manchete do jornal do dia de hoje e tem um protagonista que não se deu muito bem com o Zelensky num dos encontros deste ano, é J.D. Vance, o vice-presidente dos Estados Unidos. Por que este destaque ao vice-presidente norte-americano e por que esta versão ucraniana da guerra traduzida não é tão boa como a nossa?

É ótima, mas sim, não chega aos calcanhares da nossa. Não, neste caso, é uma reportagem de Chris Yorke, que em primeiro lugar, é preciso deixar aqui este asterisco. É o editor de operações de notícias do Kyiv Independent, e que é britânico. Antes já tinha estado também no Kyiv Post, fez parte do HuffPost UK por mais de 10 anos. Ou seja, estamos a falar de alguém que tem este conhecimento também europeu, vamos dizer, mais ocidental da coisa, e que escreve pro Kyiv Independent. Neste caso, este artigo é uma análise de Chris Yorke sobre o porquê de J.D. Vance estar completamente errado, e é mesmo este o título, o porquê de J.D. Vance estar errado sobre as concessões russas nas negociações de paz na Ucrânia. Chris York faz aqui, nesta reportagem, é pegar em várias citações de J.D. Vance ditas no programa Meet the Press da NBC News, que passou já no último dia 24, ou seja, no dia de ontem, e o que Chris York faz é um fact check, como disseste, às várias declarações de J.D. Vance. Há uma primeira em que J.D. Vance diz: "Eles, a Rússia, reconheceram que não seriam capazes de instalar um regime fantoche em Kiev e essa, claro, era uma grande exigência no início". Ora, aqui o que diz Chris York é que esta concessão não é uma concessão propriamente, porque a Rússia já concedeu isto há muitos anos. Diz Chris York que esta esperança de Moscou de poder instalar um regime fantoche em Kiev já terminou há mais de três anos e, portanto, não é propriamente uma concessão feita pela Rússia neste momento. Outra frase de J.D. Vance é que o que eles concederam, eles a Rússia, neste momento, é o reconhecimento de que a Ucrânia vai ter integridade territorial depois da guerra. Chris York diz praticamente o mesmo do ponto anterior: a Rússia já foi forçada a ceder neste ponto há muito tempo, há muitos anos, logo no início da invasão em grande escala, quando as forças ucranianas impediram que a Rússia ficasse com o controle do país por inteiro.

E há ainda uma terceira.

É isso, há ainda uma terceira frase de J.D. Vance, em que ele diz: "A Rússia reconheceu que vai ter algumas garantias de segurança para com a integridade territorial da Ucrânia". Ora, Chris York diz que reconhecer as garantias da segurança da Ucrânia, na verdade, não custa nada à Rússia. Aqui a questão é mesmo a Rússia concordar com elas. E isso é que é uma história completamente diferente. Diz que a parte difícil vai ser fazer não que a Rússia as reconheça, mas sim que concorde com essas garantias de segurança. É um artigo muito extenso de Chris York no Kyiv Independent, muito interessante pra percebermos também de que forma é que os ucranianos, neste caso é um britânico, mas de que forma é que a imprensa ucraniana está a ler aquilo que é dito também pelos principais líderes norte-americanos.

E fica por aqui a guerra traduzida versão Ucrânia. Como sempre, estivemos a analisar o que é escrito na imprensa da Ucrânia.