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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A crise política pode beneficiar o PS e/ou o Chega?

Numa palavra, se os partidos da oposição não assumem a legitimidade política do Governo para governar, mais vale dois meses de suspensão da estabilidade política do que um ano e meio de degradação e paralisia.

Luís Montenegro joga o futuro nas eventuais eleições de maio, mas não fica sozinho. Também PS e Chega têm aqui uma oportunidade e os resultados podem ditar a sorte de uns ou de outros. Em plena crise política, vou conversar com as jornalistas Inês André Figueiredo e Rita Tavares, da seção de política do Observador. A Rita Tavares acompanha a vida do PS e a Inês André Figueiredo a do Chega. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de sexta-feira, 7 de março. Bem-vindas, Inês e Rita.

Olá, Ricardo.

Olá, Ricardo.

Rita, vamos começar esta conversa por ti e pelo Partido Socialista. Começando pela estratégia de ameaçar o primeiro-ministro com uma comissão parlamentar de inquérito, que no fundo desencadeou esta situação em que estamos agora, o PS sabia que poderia levar a este desfecho, tinha essa noção?

Era uma hipótese, tendo em conta que Luís Montenegro levantou a possibilidade de uma moção de confiança no sábado e Pedro Nuno Santos também lembrou, no mesmo sábado, que a posição de princípio do PS era a que era conhecida já do dia 10 de março do ano passado, noite eleitoral, em que Pedro Nuno diz que não ia criar obstáculos a um programa do governo, mas que também aconselhava o governo a não apresentar moções de confiança, porque o PS as chumbaria. Portanto, aqui já não havia novidade. Nessa noite também se começou a notar que no Partido Socialista havia uma tentação e uma exigência de trazer Luís Montenegro ao escrutínio parlamentar de alguma maneira. Dias depois avançaram com a proposta de uma comissão parlamentar de inquérito e dentro do partido, essa decisão já estava a ser vista como possivelmente desencadeadora de uma moção de confiança por parte de Luís Montenegro, que no PS alguns elementos com quem fomos falando naqueles dias adivinhavam que não estaria muito interessado em ficar nessa posição de estar ali durante meses a ver escrutinado um negócio de família, com audições de empresários com quem tinha relações mais ou menos próximas, com eventualmente membros da sua família a serem ouvidos também nessa comissão parlamentar de inquérito. O PS tinha a ideia de não chamar ou pelo menos de tentar fazer com que as audições fossem à porta fechada quando se tratassem de membros da família.

Nada disso era garantido.

O PS tinha maioria para garantir algumas destas coisas, é verdade, mas não deixaria de estar a acontecer, não deixaria de ser um desgaste enorme para Luís Montenegro, que diga-se de passagem, era aquilo que o PS queria que acontecesse. Dava-lhe tempo para se organizar, dava tempo para que não houvesse eleições antes das autárquicas e dava tempo também para conseguir ainda escavar um pouco mais na imagem de Luís Montenegro, fragilizando o primeiro-ministro e tentando até que o próprio PSD começasse a ter dúvidas sobre esta liderança e essa fragilização era claramente aquilo que o PS procurava.

O senhor primeiro-ministro escolheu não o fazer, evitou, não respondeu às nossas perguntas no debate da moção de censura, continuou sem responder uma semana depois. Nós tivemos de ir para a Comissão Parlamentar de Inquérito e o que o senhor primeiro-ministro faz é evitar a Comissão Parlamentar de Inquérito ao dar respostas.

E agora o PS mantém a ideia da Comissão Parlamentar de Inquérito? E já agora, se sim, isto também não é admitir que a AD vai ganhar as próximas eleições, as eventuais eleições?

Não necessariamente. O que o PS disse foi que a Comissão Parlamentar de Inquérito se mantém, mesmo que esta legislatura acabe. A notícia foi dada pelo Observador e quando o PS foi questionado sobre isso mesmo, se a Comissão Parlamentar de Inquérito se mantinha com o PS à frente em eleições ou perdendo as eleições, a resposta foi que sim, que ganhasse quem ganhasse, a Comissão Parlamentar de Inquérito era para manter. Ou seja, se Pedro Nuno Santos perdesse as eleições, o desejo era que esta proposta de uma comissão parlamentar de inquérito potestativa, portanto, que nem precisava de ir a votos no plenário, que o PS teria condições para apresentar, pudesse continuar e que houvesse esse escrutínio a Luís Montenegro na mesma, reeleito primeiro-ministro, mas que o PS tinha essa intenção de a manter. Agora, se isso seria mesmo assim no cenário de rota para o PS, de onde até pode sair uma eventual troca de liderança, isso já são outros quinhentos.

Exatamente, Rita. Esta crise pode ser uma oportunidade para Pedro Nuno Santos ou poderá ser o canto do cisne para Pedro Nuno Santos?

Pois, é uma de duas. Porque é verdade que mesmo que uma derrota possa não ditar uma saída imediata do líder do PS, até porque o PS tem autárquicas logo a seguir e o quadro político pode não ser muito mais claro do que aquele que temos atualmente, a verdade é que uma segunda derrota em legislativas, mesmo com uma vitória de europeias no meio, vai moer e provavelmente começarão a surgir cobranças internas no Partido Socialista e aí já será um líder do PS muito fragilizado e para quem ainda seria mais complicado liderar e ser um líder forte para a oposição. Se ganhar, a verdade é que Pedro Nuno Santos também pode não ter uma vida muito simples. Vocês lembram-se da noite eleitoral e das piadas que se fizeram sobre a pressa que o PS teve em assumir a derrota. Nunca se tinha visto ninguém tão aliviado a assumir uma derrota como Pedro Nuno Santos naquela noite, porque o quadro parlamentar era tão complexo que se ele tivesse ficado à frente, a diferença de 50 mil tivesse sido vantajosa para o PS, sem uma maioria de esquerda para apoiar um governo socialista, Pedro Nuno Santos também não teria propriamente vida fácil. E a questão, neste momento, é saber se desta vez será diferente. A expectativa socialista é que sim, mas a esta altura também estou convencida que mesmo que fosse uma perspectiva péssima, ninguém o assumiria. Estamos muito em cima de eleições e não dar armas ao adversário, não dar nenhum sinal, por mais mínimo que seja, de fragilidade, é obrigatório na arte desta guerra.

E já que falamos de eleições, estas legislativas inesperadas ou eventuais legislativas inesperadas podem prejudicar as autárquicas e as presidenciais no campo do PS?

Essa contaminação é provável que aconteça. O presidente da República parece estar a fazer os possíveis para afastar o mais possível os planos, mas nas autárquicas há pouco a fazer, porque a máquina já começou a andar e já está tudo em movimento nos partidos. É uma eleição muito importante para as estruturas partidárias. Nas presidenciais, as contas de quem ainda não avançou podem ter mudado à luz dos acontecimentos recentes. Não interessa a ninguém, diria eu, estar no terreno já. Se há candidatos que ainda não avançaram, ainda não formalizaram a sua candidatura, provavelmente agora acham que podem resguardar-se mais uns meses, deixarem de estar no foco, não terem de falar de muitos dos temas que se vão colocar nos próximos dois meses. E agora acho que também já todos percebemos porque é que estávamos tão alegremente com esse debate presidencial. É porque era muito mais divertido do que isto agora.

Já voltamos à conversa com a Rita Tavares e com a Inês André Figueiredo, jornalistas da secção de política do Observador. Afinal de contas, quem poderá ganhar no meio disto tudo? Estamos de regresso à conversa com a Rita Tavares e com a Inês André Figueiredo, jornalistas da secção de política do Observador. Inês, o Chega estava a viver uma crise na sequência de casos polêmicos, como o do deputado Miguel Arruda ou do deputado municipal de Lisboa, Nuno Pardal Ribeiro. Esta crise política foi como nos jogos de computador, quando encontramos um cogumelo que nos dá uma vida extra?

Completamente. E no Chega considera-se até que foi mais do que isso. Como dizias, o Chega esteve mergulhado numa sucessão de casos e casinhos, viu na primeira moção de censura tempo e espaço para respirar, para ganhar fôlego, e agora há um sentimento dentro do partido de que tudo isto pode empurrar o Chega para um momento bom, para um momento que tem muito mais de positivo do que de negativo, quando ainda há umas semanas tudo parecia ir no caminho oposto.

Ou seja, Inês, o Chega consegue recuperar aquele discurso do são todos uns bandidos e andam todos feitos uns com os outros. É fácil para o Chega recuperar esse discurso agora perante o que está a acontecer. Mas afinal de contas, o que o Chega vai fazer agora? O partido já sabe o que vai fazer?

O que se passou nas últimas semanas, as suspeições sobre Luís Montenegro, as dúvidas que foram deixadas no ar relativamente à empresa familiar que foi criada por Luís Montenegro, as dezenas de publicações nas redes sociais dos partidos, as muitas manchetes de jornais e principalmente a atitude de Luís Montenegro face a isso tudo, ao ter, na maioria das vezes, preferido o silêncio às explicações, leva algumas fontes do Chega que fomos ouvindo nas últimas horas a resumir tudo desta forma, e vou citar porque acho que não há melhor forma de traduzir: "Isto vem provar o discurso do Chega e encaixa que nem uma luva no nosso discurso." Visto desta perspectiva, entende-se, obviamente, o entusiasmo. Parece que o guião foi escrito de forma a beneficiar um partido que vive ideologicamente deste tipo de casos, deste tipo de discursos e que, como sabemos no passado, já beneficiou deles. Lembrar que a bancada do Chega, com 50 deputados ou com 49 mais um, foi eleita depois da demissão de um primeiro-ministro.

Ó senhor deputado, o senhor deputado ainda vai ser conhecido como senhor deputado André Catavento Ventura, porque o senhor deputado está sempre a mudar de opinião, senhor deputado.

Eu também não quero dar a impressão Luís Jogador Montenegro, porque acho que não fica bem.

E perante esta possibilidade que se abre agora de novas eleições com uma eventual vontade de ir para o governo da AD, mantém-se por parte do Chega ou isto vai obrigar o André Ventura a algumas piruetas, ou ele tem sido, por outro lado Cuidadoso, mantendo sempre esse caminho aberto para um eventual entendimento, não vá o "não é não" de Montenegro cair por terra.

Não podemos dizer que nos últimos anos tenha havido muita coerência, mas são capítulos para os próximos episódios desta novela, porque isto ainda é tudo muito recente, mas destacaria uma ideia deixada por Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, no debate da moção de censura, agora o último, quando agradeceu a Luís Montenegro e a Hugo Soares, num tom muito efusivo, o "não é não" ao Chega, que impediu um acordo à direita, como sabemos, que impediu até a integração do Chega no governo. Agora, o que se diz neste momento não é obrigatoriamente o que André Ventura vai dizer num período pós-eleitoral, até porque se o panorama parlamentar não se alterar, pelo menos muito, continuará a haver uma maioria de direita no Parlamento e o presidente do Chega pode voltar a procurar algo mais para o partido, como fez no passado. Chegou a dizer algures: "Quase me humilhei para tentar uma solução à direita". Mas, e este é um grande mas, com tudo isto e com Luís Montenegro à frente de um próximo governo, que não sabemos se será assim, se o Chega seguir o mesmo critério que aplicou, por exemplo, a Miguel Albuquerque na Madeira, pode ser mais difícil procurar uma solução em que fica à vontade para integrar um governo liderado por Luís Montenegro.

Sendo o Chega um partido novo, e que estava a preparar autárquicas e nestas autárquicas é que era, era pelo menos o que prometia o Chega, estas legislativas podem também perturbar esse trabalho que já estava em curso?

O Chega estava, e está, aparentemente, a apostar todas as fichas nas eleições autárquicas. Isto muda aqui um bocadinho a agulha, obviamente, porque o partido percebeu, através dos resultados das eleições legislativas, que podia conquistar câmaras municipais e juntas de freguesia em várias zonas do país. Há quatro anos, o partido era muito recente. Na altura que o Chega foi a votos pela primeira vez em autárquicas, Ventura ainda era deputado único e ainda assim teve um excelente resultado para as expectativas. Os problemas vieram depois, com muitas questões internas, autarcas a abandonarem os cargos ou a desfiliarem-se do partido e a ficarem como independentes. O Chega assumiu mesmo que houve erros de casting e o principal objetivo do partido era não voltar a falhar. Seja como for, estas legislativas podem obviamente ser um bom barómetro para o partido acertar aqui novamente a agulha e fazer apostas mais certeiras, investir mais nas autárquicas, sabendo que há sítios específicos onde pode, de facto, fazer essas conquistas importantes. Também aí acho que pode ser benéfico para o Chega.

Inês e Rita, convém e devo salientar que é um gosto poder ter as duas na História do Dia, ter esta conversa a três neste episódio da História do Dia. Aqui chegados, Inês e Rita, Rita, se calhar começo por ti, quem é que ganha no meio disto tudo, ou quem é que poderá ganhar mais ou perder menos?

Queres que cite Marco Paulo?

Quero.

Ninguém, ninguém.

Boa, pronto, o episódio acaba aqui. Ninguém, ninguém, Marco Paulo.

Mas quem é que ganha? Eu acho que nem sei se o esclarecimento, porque a campanha que vem aí vai ser uma campanha de ataques pessoais e políticos, uma campanha de ataques mais do que debate de ideias. Acho que isso vai ficando claro, porque o contexto em que se avança para estas eleições é um contexto complexo, com o primeiro-ministro estar na mira da oposição por várias suspeitas que têm vindo a público. Portanto, isso torna todo o combate político potencialmente mais violento. Mas acho que ainda pode ser pior o facto de degradar também muito as condições futuras de diálogo, porque estas figuras são as figuras que estavam, são as figuras que vão a combate e que são aquelas que no dia seguinte, perante os resultados eleitorais, que podem também continuar a ser de um parlamento fragmentado, podem vir a exigir acordos, negociações, diálogo. E se em 2024, no último ano, já foi tão difícil, nós lembramos das tensões durante a negociação para o orçamento do Estado de 2025, o que será depois de todas estas últimas semanas, de uma moção de confiança chumbada e de uma campanha eleitoral tensa e intensa em termos de combate político e de argumentos pessoais até utilizados para esse combate. É natural que tudo fique pior. Aqui estou a ser, se calhar, demasiado pessimista, não sei, mas diria que no dia seguinte às eleições pode ainda estar tudo muito pior do que esteve há um ano.

Inês.

Sem fazer grande futurologia, até porque a Rita fez aqui uma leitura do panorama geral, eu diria que, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, por altura do Orçamento do Estado, onde o Chega ficou claramente aliviado com o facto do PS ter viabilizado o Orçamento do Estado, neste momento, André Ventura tem a estratégia certa para voltar para a estrada. E não digo que estas eleições se possam transformar numa machadada, por assim dizer, para o partido, porque acho que dificilmente isso acontecerá. Dentro do partido, pelo menos, há uma leitura ambiciosa para estas eleições. Vamos ver, estaremos cá para assistir.

E manter, pelo menos o nível de votação, já será uma vitória para o Chega?

A ideia que nos foi transmitida é que manter é obviamente o mínimo, mas no Chega acredita-se que indo o PSD continuar a apostar em Luís Montenegro, isso pode dar mais força ainda ao partido e à ambição de subir.

Obrigado, Inês, e obrigado, Rita.

Obrigada, Ricardo.

Acho que temos que fazer isso mais vezes, juntar-nos todos.

Força.

Giro.

Inês André Figueiredo e Rita Tavares são jornalistas da secção de política do Observador. A Rita Tavares acompanha a vida do PS e a Inês André Figueiredo a do Chega. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música e do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.