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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A varíola dos macacos é preocupante e pode ser a nova pandemia?

Quando há contato muito próximo com uma pessoa infectada, um contato prolongado e, nomeadamente, contato com gotículas respiratórias ou com as lesões cutâneas que caracterizam esta situação.

Margarida Tavares é médica. É a especialista escolhida pela Direção-Geral da Saúde para coordenar a equipe que está a vigiar a varíola dos macacos. Portugal, Espanha e Reino Unido lideram a lista de 16 países de todo o mundo onde foi detectada a doença. As autoridades de saúde apelam a que se dê atenção aos sintomas.

Caracterizada por sintomas gerais, nomeadamente com febre, mialgias, cefaleias e que se acompanha por lesões cutâneas, normalmente desperta a nossa atenção. Cutâneas e mucosas. Portanto, essas pessoas devem recorrer aos cuidados de saúde.

É uma doença comum nalguns países. É endêmica na designação oficial, mas Portugal não é um deles. Não é a primeira vez que por cá se registam casos, mas agora o número de doentes faz soar as campainhas. Além disso, há casos detectados em 16 países, da Austrália ao Canadá. O que se passa com a varíola dos macacos? Devemos estar especialmente preocupados e vamos ter nova pandemia? Vou conversar com a jornalista do Observador, Marta Leite Ferreira, sobre esta doença. Bem-vinda, Marta.

Obrigada, Ricardo.

No episódio de sexta-feira estivemos a falar de Covid-19 e da forma como a doença está a voltar em força. E hoje vamos falar da varíola dos macacos. Marta, isto já não é a história do dia, isto já parece o vírus do dia.

É verdade.

Com a Marta Leite Ferreira. Não temos direito a uma trégua, não é?

Não temos. Aliás, vivemos tempos muito estranhos, porque houve a hepatite aguda nas crianças, houve casos de gripe A, que é tão temida. Lembro-me no início da Covid-19 de ouvirmos Bill Gates dizer que nos tinha avisado sobre a pandemia de Covid-19 e que a próxima podia estar para breve e que até podia ser pior. Pode ser que ele não tenha razão sobre esta.

Esperemos que não. Vamos, então, aqui desde o início. Marta, que doença é esta?

Nós dizemos varíola dos macacos, mas o nome científico é infecção pelo vírus monkeypox. Monkeypox porque foi descoberta pela primeira vez em colônias de macacos usados em investigações científicas. A doença parecia varíola, que em inglês diz smallpox, mas eram macacos, que em inglês é monkey, e portanto ficou monkeypox. É um vírus que é primo do que é responsável pela varíola humana, uma doença considerada erradicada em 1980, mas é zoonótico, ou seja, saltou de animais, neste caso primatas, para os humanos.

E se é vírus, tem variantes, tem linhagens. Esta que agora foi detectada em Portugal é mais ou menos grave?

É menos grave. Há duas variantes deste vírus, pelo menos descobertas, são duas clades, é assim que se chamam os subtipos destes vírus. Uma que circula sobretudo na África Central e outra que se encontra mais regularmente na África Ocidental. Por cá, o Instituto Ricardo Jorge, que foi a primeira entidade do mundo a sequenciar o genoma deste vírus, descobriu que os casos são da variante ocidental, da África Ocidental, que é a menos agressiva, de facto.

Pelo menos o ponto positivo. E esta é uma doença perigosa, Marta?

Nós, neste caso, temos de pensar tal e qual como pensávamos, e ainda pensamos, com o SARS-CoV-2 e a Covid-19. Há pessoas que podem suportar melhor uma infecção por este vírus e outras que vão sofrer mais se forem infectadas. As pessoas que estão mais vulneráveis, caso fiquem infectadas, costumam ser as crianças com menos de cinco anos, porque a imunidade delas ainda está a ser construída.

Claro.

As grávidas, porque durante a gravidez o sistema imunitário baixa um pouco a guarda a favor do feto, e as pessoas com doenças ou em tratamentos que diminuem a resposta do sistema imunitário, como pessoas que passaram por transplantes ou pessoas que estão a fazer quimioterapia ou radioterapia.

Exatamente.

Podemos pensar também nos idosos, por exemplo. A mortalidade desta variante.

Era isso que te ia perguntar, como é a mortalidade?

Também depende da variante para que olharmos, mas neste caso, aquela variante que está em circulação em Portugal, a mortalidade é mais pequena, é de 1%. Ou seja, em cada 100 pessoas infectadas pelo vírus monkeypox, uma não resiste e morre. E a esmagadora maioria das pessoas até recupera sem o tratamento muito complexo. Normalmente, tratam-se diretamente os sintomas. Usa-se medicação contra a febre, porque a pessoa tem febre ou contra lesões cutâneas, se a pessoa tiver aquelas feridas que caracterizam a varíola. Portanto, apesar de tudo, isto é controlável para este tipo de linhagem. A estimativa, se olharmos para todos os casos de varíola dos macacos, independentemente da variante, a mortalidade é de 10%.

Aí é superior.

Sim, mas é preciso notar que a maioria dos casos ocorrem em países africanos com sistemas de saúde mais fragilizados, com uma população geneticamente muito diferente da nossa também e com outro estilo de vida. Por isso, estes números têm que ser interpretados com cautela. Se calhar, se estes casos fossem identificados noutros países, a estimativa da mortalidade seria também diferente.

"For the broader population, the likelihood of spread is very low"

However, the likelihood of further spread of the virus through close contact, for example, during sexual activities among persons with multiple sexual partners, is considered to be high.

E nos últimos dias também ouvimos várias referências ao fato dos doentes detectados em Portugal serem homossexuais. Esta é uma doença que, no entanto, e vamos aproveitar para esclarecer isto também mais uma vez, não tem nada a ver com a orientação sexual.

Não, não tem mesmo nada a ver. Neste caso específico, é mesmo preciso fazer esta ressalva. A própria comunidade científica não assume que todos os casos estejam a ocorrer entre homossexuais. O que diz é que em Portugal e na esmagadora maioria dos casos, todos eles são de homens que fizeram sexo com outros homens. São coisas diferentes e nisto as ciências médicas devem ser sensíveis também às ciências sociais, porque as duas andam de mãos dadas neste caso particular.

Provavelmente foi uma coincidência ter havido esse contacto como fonte inicial, digamos assim, porque até normalmente o que acontece há sempre uma origem animal, ou seja, um primeiro caso em humano que depois consegue transmitir a outro humano, terá partido do contacto com um animal.

O fato de todos os casos estarem a ocorrer entre homens que fizeram sexo com outros homens só significa que foi nesta comunidade que o surto começou. Por coincidência. E digo coincidência porque, no limite, todos os infectados podiam ter em comum o fato de terem olhos verdes ou serem de outra orientação sexual qualquer. Neste caso, a informação de que são homens que fazem sexo com outros homens só importa de um ponto de vista epidemiológico para compreender a evolução do surto, isto é, como é que começou, onde, e para compreender como é que está a acontecer o contágio, mas nada diz sobre a orientação sexual de ninguém.

E Marta Leite Ferreira, já sabemos quem é o paciente zero?

Não sabemos, mas desconfia-se de algumas características que deve ter. Como a maioria dos casos detectados em Portugal e também no estrangeiro, nos outros países ocidentais com surtos, está a acontecer entre homens que fazem sexo com outros homens, na faixa etária entre os vinte e os sessenta anos, mais ou menos, o mais provável é que o paciente zero também seja assim. Normalmente, estes surtos acontecem porque o vírus salta dos primatas para um humano, que depois passa para outros humanos. O que as autoridades de saúde internacionais teorizam é que a transmissão pode ter sido aumentada pela participação de uma pessoa infectada, que pode ser o paciente zero ou algum com quem ele tenha tido contacto, num evento em massa, como um concerto, por exemplo. Mas voltemos um pouco atrás àquela questão dos homens que fazem sexo com outros homens. Lá fora, os investigadores europeus dizem que os surtos de infecções sexualmente transmissíveis nesta comunidade podem estar relacionados com viagens ao exterior, com a participação em eventos sociais em massa. E exemplificam que um desses eventos pode ter sido uma marcha de orgulho gay, porque tem havido muitos pela Europa e são muito comuns na primavera e no verão. E aliás, houve um há pouco tempo, ainda este mês, na Gran Canária, mesmo aqui ao lado. Isso explicaria o motivo pelo qual o surto evoluiu, sobretudo entre homens que fazem sexo com outros homens. Talvez o paciente zero tenha participado num desses eventos.

Mas vamos aproveitar então para perceber melhor como se dá o contágio, Marta.

Sim. Normalmente, o contágio acontece através de um contacto muito próximo com uma pessoa ou com um animal infectado. A forma clássica de infecção é pelo contacto com uma ferida aberta na pele. Mas a ferida também não tem que ser grande, não é preciso um acidente, pode ser algo invisível ao nosso olhar, um pequeno corte na pele. Também pode acontecer por contacto com as mucosas: olhos, nariz, boca e genitais também, e por gotículas expelidas pelo sistema respiratório. Como durante um ato sexual, tudo isso pode acontecer, isso justifica porque é que essa tem sido a principal via de transmissão nesses casos.

E o que os infectados devem fazer?

Em Portugal, quem testa positivo ou quem desconfia que está infectado, está a receber recomendações para se abster de qualquer contacto com terceiros. Está a fazer um isolamento. E também não pode partilhar objetos com outras pessoas. Talheres, roupa, nada disso. E tem de ser acompanhado por um médico assistente para monitorizar os sintomas e a severidade da doença.

Mas é obrigatório ficar em casa?

Não é obrigatório, é uma recomendação forte. Eu coloquei esta pergunta à infectologista Margarida Tavares e o que ela me diz é que os doentes ficam num regime como os de quem está infectado com o coronavírus.

Há uma recomendação muito clara que é dada a cada pessoa que foi diagnosticada ou que tenha essa suspeita, de que se abstenha de contacto próximo com outras pessoas Todo o tipo de contacto próximo com outras pessoas, nomeadamente pele a pele, uso de máscara se estiver a conviver com outras pessoas, até à resolução das lesões cutâneas. Não é necessariamente 21 dias.

No caso da varíola, a pessoa não tem alta até que os sintomas passem. E na Covid-19 sabemos que há um tempo determinado e que esse tempo só é prolongado por indicação médica. E também porque não há ninguém realmente a monitorizar os infetados com monkeypox. Não há a possibilidade de um agente da PSP ou um militar da GNR ir bater à porta de uma pessoa para confirmar se está a cumprir quarentena. E é preciso lembrar que isso acontecia, sobretudo no início da pandemia de Covid-19. Também não há multas ou consequências legais imediatas para estes casos em particular.

Já percebemos que este é um vírus que vem dos macacos para os homens. É transmissível também a outros animais, por exemplo, aos animais de estimação e através dos animais de estimação?

Sim. Aliás, foi o que aconteceu no último grande surto de varíola dos macacos no mundo ocidental. Aconteceu em 2003, nos Estados Unidos, quando se importaram roedores africanos que estavam infetados e passaram o vírus a cães da pradaria norte-americanos. Aqui não estamos mesmo a falar de caninos, estamos a falar de roedores que se chamam cães da pradaria. E eles, por sua vez, passaram aos seus donos e criou-se aí um surto. Mas vamos pensar em gatos, por exemplo. Não sei se tens gato, Ricardo.

Não, atualmente não.

Não tens nenhum animal de estimação.

Não.

Imagina que tens um gato e que esse gato está infetado. E esse gato te lambe a cara, porque é um gato extremamente amistoso.

E sabemos que os gatos gostam de fazer também umas marradinhas de vez em quando.

Exatamente. Bastava que tu tivesses uma ferida no rosto por teres feito a barba, que era possível que o gato, que tinha o vírus na saliva, te tivesse passado o vírus através da ferida e aí podias ter um contágio. E o contrário também pode acontecer. Pelo menos o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças, o ECDC, emitiu ainda esta semana uma recomendação para que os infetados se afastem dos animais de estimação, porque a passagem dos humanos para esses animais é teoricamente possível.

Há registo de casos em vários países, como em Portugal. Portugal já teve casos desta varíola dos macacos, deste monkeypox, mas casos em 16 países ao mesmo tempo não é normal.

Não é. Pontualmente têm aparecido casos ou pequenos surtos num ou outro país. Aconteceu nos Estados Unidos, como acabamos de falar, também em Inglaterra, relativamente recente, mas nada desta dimensão. Nunca se tinham registado surtos em múltiplos países ao mesmo tempo. E aqui nem sequer estamos a contar com aqueles em que a doença é endémica. Estamos a falar de países onde encontrar casos de monkeypox simplesmente não é normal, como a própria OMS aponta. Os cientistas ainda estão a tentar perceber o que aconteceu para de repente termos esta conjunção de surtos no mundo, se foi o vírus que mudou, entrou em mutação e de repente conseguiu ser mais transmissível ou se o nosso comportamento também mudou.

E há vacina?

Há, e é uma vacina muito especial, porque a vacina contra a varíola em humanos foi a primeira a ser desenvolvida no mundo. E quem a apanhou ou quem teve a doença e recuperou, tem alguma proteção contra este vírus também. Eu não consegui perceber que percentagem da população portuguesa está vacinada contra a varíola ou teve varíola e recuperou, mas pude perceber que deve ser uma porção considerável. Em 1980, a OMS recomendou a descontinuação da vacinação rotineira contra a varíola, porque a doença foi considerada erradicada. O último caso de varíola humana foi detetado em 1977. Por cá, pelo menos até 1973, que foi quando houve o último caso de varíola em humanos em Portugal, ela era distribuída em massa. Por isso, também segundo a infeciólogista Margarida Tavares, porta-voz da DGS para este assunto, é provável que quem tenha nascido antes dessa data ainda tenha apanhado a vacina e tenha alguma proteção.

Mas Marta, eu nasci em 1974.

Não tenho a certeza se foste vacinado contra a varíola ou não, mas há um truque para saberes. Se ainda tiveres a aplicação do SNS24 no telemóvel, daqueles tempos em que era preciso mostrar certificados por causa da Covid-19, entra nela, clica em boletim de vacinas e procura lá pela vacina contra a varíola. Eu não a tenho, já fui ver, não a tenho, mas eu nasci em 1994, por isso não é de estranhar.

E a pandemia, Marta, e este é o grande tema ou a grande pergunta que nos traz aqui. Estamos aqui perante uma nova pandemia?

Para já, há indicações disso. Uma doença só se torna pandémica quando se espalha por todo o globo e isso está longe de acontecer. Aqui a questão é que está mesmo à nossa porta e, portanto, parece uma coisa muito iminente, mas não temos a certeza se a doença tem potencial para chegar a todo o planeta. Na verdade, pandemias há muitas. Ainda temos a da SIDA por resolver. Temos a gripe todos os anos e a Covid-19 ainda está cá. E ainda não podíamos ter a certeza se a varíola dos macacos se vai juntar a este rol de doenças. A verdade é que esta continua a ser uma doença rara e a sua transmissibilidade não é comparável com a do SARS-CoV-2. Isso pode-nos descansar um pouco mais.

Que é mais difícil, não é?

Simplesmente é mais difícil passar de pessoa para pessoa. E também descansa o facto de algumas pessoas terem realmente imunidade ao vírus, nem que seja pelo fato de terem sido vacinadas contra a varíola humana. De qualquer modo, a DGS está a preparar-se para um cenário um pouco mais catastrófico. Não sabemos se há reservas da vacina contra a varíola. Sabemos que há vacinas mais modernas do que aquelas que eram distribuídas até 1980 mundialmente. E então o que a DGS está a fazer, em parceria com as outras autoridades de saúde em Portugal, é tentar perceber se vale a pena adquirir mais vacinas e distribuí-las em massa.

Está a ser equacionado, juntamente com as autoridades europeias, essa possibilidade.

A OMS acredita que é possível conter estes surtos de varíola dos macacos sem vacinação em massa, nada parecido àquilo que tivemos com a Covid-19.

E Portugal é, nesta altura, um dos três países mais afetados.

Sim, é. Dos 16 países ocidentais onde já foram encontrados casos de infecção pelo vírus monkeypox, Portugal é o terceiro, com 39 casos até agora. O surto mais preocupante neste momento é o do Reino Unido. Lá há 56 casos confirmados. E depois vem Espanha, mesmo aqui ao lado, com 41. Temos de ter em mente que isto são apenas os casos confirmados. Nós sabemos que há mais casos suspeitos e que há aqueles que nem sequer estão sob vigilância. Nem diagnosticados, nem sequer debaixo do olhar das autoridades de saúde. É preciso ver que os vírus circulam sem a nossa permissão, portanto, pode haver outros casos que estão a passar despercebidos às autoridades de saúde. Quantos são é que ainda não sabemos, porque o índice de transmissibilidade ainda não está completamente calculado.

Obrigado, Marta.

Obrigada, Ricardo.

Marta Leite Ferreira é jornalista do Observador. Vale a pena ler com atenção a entrevista que fez a Margarida Tavares, a especialista escolhida pela Direção-Geral da Saúde para acompanhar estes casos. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.