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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o aliado de Putin que vai estar à frente de uma Europa em convulsão.
A Hungria assume a presidência rotativa da União Europeia esta segunda-feira. Alguns eurodeputados em Bruxelas interrogam-se sobre se o primeiro-ministro populista Viktor Orbán utilizará o cargo para continuar a contrariar o consenso geral da União Europeia.
"Tornar a Europa grande outra vez" é o mote da presidência húngara da União Europeia. Já o deve ter ouvido em algum lado. É praticamente igual ao slogan de Donald Trump nos Estados Unidos. A Hungria assume agora a presidência rotativa até o final do ano, e o primeiro-ministro Viktor Orbán há muito que é uma espécie de pedra no sapato da União Europeia. Os parceiros europeus apontam-lhe a falta de respeito pela democracia e pelos direitos humanos dentro do país. Na Europa, é visto como um desestabilizador que bloqueia ou atrasa decisões. Para além disso, é conhecido por ser o grande aliado europeu de Vladimir Putin e assume a presidência da União numa altura em que a extrema-direita saiu reforçada depois das eleições europeias e pode mesmo chegar ao governo em França. Tendo tudo isto em conta, o que esperar desta presidência húngara? O que é que Viktor Orbán pode mesmo fazer e que consequências, não só para a Europa, mas também para a Ucrânia? São questões para a conversa com Madalena Mayer Resende, especialista em assuntos europeus, professora no Departamento de Estudos Políticos da Universidade Nova de Lisboa. Eu sou o João Santos Duarte e esta é a história do dia de quarta-feira, dia 3 de julho. Bem-vinda, Madalena Mayer Resende.
Viva, João.
Madalena, vamos começar talvez por contextualizar. Como é que funciona a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, e não confundir com o Conselho Europeu, que tem sido muito falado agora por causa da nomeação de António Costa, mas como é que funciona esta presidência rotativa e, na prática, que competências ou que poder tem o país que está na presidência?
A primeira coisa a dizer é que, de facto, esta presidência rotativa é obviamente exercida semestralmente pelos Estados-membros e, durante este período de seis meses, o país que tem a presidência preside às reuniões a todos os níveis do Conselho. Mas a verdade também é que desde o Tratado de Lisboa que esta presidência rotativa tem muito menos competências ao ter se criado este lugar de presidente do Conselho Europeu, que vai ser agora tomado por António Costa, e os países ficaram com muito menos capacidade de influenciar a União.
Estamos aqui a falar de uma figura, podemos dizer polêmica, no contexto da União Europeia, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. Que temas é que acha que tentará trazer para a agenda nos próximos meses?
A primeira coisa a notar é, de facto, este novo slogan que ele trouxe, "Make Europe Great Again", sounds familiar. Há uma tentativa de se equiparar a Trump na sua fórmula de trazer para a Europa este slogan Trump. Depois, é óbvio que Orbán tem vindo a tentar usar esta presidência como uma forma de diminuir e até tentar reverter todas as fórmulas que a União Europeia encontrou para punir a Hungria em relação aos problemas do Estado de Direito. Isto vai ser, obviamente, um dos temas que ele vai tentar trazer para Bruxelas, é realmente trazer esta nova agenda de uma Europa livre desta burocracia, uma Europa que é mais respeitosa, que tem mais respeito pelos Estados e pelas nações. Apesar de tudo, ele está um bocado limitado, porque estas presidências são sempre trios. Há sempre três países, o país anterior e o país seguinte. Formalmente, o que está em cima da mesa na sua agenda é a defesa, é a competitividade, é a agricultura, etc., mas eu penso que ele vai tentar usar isto como uma fórmula de trazer para Bruxelas a sua agenda nacionalista e autoritária.
E com esta presidência húngara, existe algum risco de bloqueio na tomada de decisões ou pelo menos de atraso, por exemplo, de algumas decisões?
Eu penso que o papel destas presidências hoje em dia é um papel, como já disse, bastante diminuído e é um pouco de mestre de cerimônias.
É mais trazer temas para a agenda, será isso?
Exato, e fazer uma certa publicidade ao país e, neste caso, à própria visão de Orbán para a Europa, da visão nacionalista e uma visão de que quer modificar a Europa por dentro. Também outra coisa a notar é que, de facto, a presidência da Hungria estava a ser preparada por Judit Varga, uma ex-ministra que estava a liderar toda esta operação. Ela saiu do seu cargo ministerial em 2023. Ela era casada com o novo opositor de Orbán, Péter Magyar, só que ela, aqui há uns meses, foi afastada por estar ligada a um escândalo de encobrimento de pedofilia De certa maneira, este lugar ficou vazio e esta presidência da Hungria perdeu muito o seu gás e a sua organização. Eu penso que não vai passar muito daquele slogan de dizer que nós e os nossos amigos polacos estamos a ser perseguidos por Bruxelas. Acontece também que houve eleições na Polónia e o PiS perdeu as eleições, portanto, Órban ficou, de certa maneira, sozinho nesta liderança e a próxima presidência vai ser exatamente liderada por Donald Tusk, que é o anti-Órban, como sabemos.
Mas de qualquer forma, esta presidência húngara também acaba por acontecer num contexto em que a extrema-direita acabou por sair reforçada das últimas eleições europeias. De resto, no passado domingo, Órban anunciou a formação de uma nova aliança de partidos populistas europeus, chamou-lhe Patriotas pela Europa. Qual será o objetivo deste novo passo?
Talvez indo em dois passos. De facto, o timing da presidência húngara não podia ser pior. Estamos à porta de eleições francesas, onde a extrema-direita está a liderar. Não sabemos se vai conseguir formar governo, mas de qualquer maneira, o perigo é enorme e em aliança com Marine Le Pen, obviamente que Órban terá muito mais impacto na Europa. Ainda não podemos fazer previsões em relação a isso antes dos resultados no próximo domingo, mas sem dúvida que este crescimento da extrema-direita na Europa é bastante preocupante. Por outro lado, Órban, ao fazer este terceiro partido da extrema-direita, Patriotas pela Europa, está a admitir uma derrota, ou seja, a derrota do plano que ele tinha para unificar a extrema-direita dos europeus conservadores e reformistas de Giorgia Meloni e do Identidade e Democracia de Marine Le Pen. Essa junção falhou e Órban estava, de certa maneira, órfão, fora do Partido Popular Europeu depois da sua expulsão. Não encaixava nem no ECR nem no ID, portanto, esta nova formação é uma manifestação que a extrema-direita, apesar de tudo, está dividida ao nível europeu, que a sua ideologia nacionalista se expressa numa incapacidade de formar alianças transnacionais. E de certa maneira, eu acho que isso é um sinal de que Órban já não é o líder que era capaz de, em Bruxelas, comandar ou pelo menos ter um grande impacto por si só. Agora, Giorgia Meloni é, de facto, enfim, antes de sabermos quais são os resultados em França, a líder de direita com mais poder.
Já regressamos à conversa com Madalena Meyer Resende, especialista em assuntos europeus e professora no Departamento de Estudos Políticos da Universidade Nova de Lisboa. Na segunda parte, vamos falar também sobre o que a presidência húngara da União Europeia pode significar para a Ucrânia. Estamos de regresso à conversa com Madalena Meyer Resende. O primeiro-ministro húngaro visitou esta terça-feira a Ucrânia pela primeira vez desde o início do conflito e pela primeira vez em mais de 10 anos. Órban é conhecido pela proximidade à Rússia e tem tentado bloquear a aprovação de apoios à Ucrânia. Sabendo isto e tendo isto em conta, como é que podemos ler esta decisão de ir tão rapidamente a Kiev?
Não é fácil ler esta decisão. Começo por dizer isso. É sabido que Órban, tal como a política externa húngara tradicionalmente, não só em democracia, mas historicamente, é especialista em diversificar as suas apostas, ou seja, estar bem com o leste e com o ocidente. Isso ele foi especialista durante alguns anos, agora tem menos capacidade de fazer isto, mas aparentemente esta visita a Kiev, depois de dois anos a distanciar-se a todo o custo do apoio à Ucrânia e a fazer o jogo dos russos com o mantra da paz a todo o custo, a tentar apresentar a minoria húngara na Ucrânia como uma vítima de discriminação, é uma grande reviravolta e é estranho. Talvez tenha alguma coisa a ver com esta tentativa de criar este terceiro partido e atrair membros, partidos que não são anti-Ucrânia e, de certa maneira, demonstrar alguma boa vontade para com a política de Bruxelas. Acho esta uma decisão estranha e acho que, acima de tudo, Órban parece um pouco nervoso neste momento. Internamente, começou a criar instituições para perseguir os seus inimigos internos. Sabemos que esta oposição de Péter Magyar é a primeira séria oposição desde há muito tempo. Fechou o escritório da Transparência Internacional na Hungria. Isto é bastante preocupante, mas é também sinal de que há um nervosismo e eventualmente algum declínio de Órban como líder incontestado.
Esta presidência húngara da União Europeia pode ter algum impacto naquilo que tem sido a relação da União Europeia com a Ucrânia e o apoio, ou nem tanto?
Eu acho que no contexto deste momento político em que a França está a braços com um partido de extrema-direita com 34% de apoio, vem num momento particularmente mau. Não sei se será por causa da presidência húngara, não será com certeza uma relação direta com esse facto, mas se a Europa não consegue encontrar a sua voz numa fórmula de apoio à Ucrânia, que substitua eventualmente o apoio americano depois de uma eventual vitória de Trump nas eleições presidenciais, estaremos com certeza a ver uma Ucrânia claramente enfraquecida e uma Europa paralisada pela extrema-direita e pela dificuldade de França e Alemanha terem capacidade de iniciativa neste momento.
E para além de ser muito próximo da Rússia, Órban também tem intensificado as relações com a China, que de resto tem vários investimentos no país, e que vê de certa forma a Hungria também como uma das portas de entrada na Europa. A Hungria já anunciou que vai propor, durante este período da presidência, um pacto de competitividade para evitar, diz Órban, uma guerra comercial com países de leste, em específico a China. Qual o objetivo húngaro também aqui, qual poderá ser?
Sem dúvida que Órban tem beneficiado enormemente dos investimentos chineses no seu país, de investimentos diretos da China, e a economia húngara tem sobrevivido em larga medida através desses apoios, não só da China, como da Rússia. E, portanto, no momento em que a União Europeia quer tentar impor tarifas aos veículos elétricos que vêm da China, Órban vai tentar o mais que puder reverter esta decisão e, dessa maneira, servir os interesses chineses na União Europeia. Se vai conseguir ou não, é outra questão. As tarifas já estão decididas. Há também a oposição alemã a essas tarifas alfandegárias, mas é sem dúvida uma das principais prioridades da política externa húngara ter esse impacto na Europa de dividir os europeus ou aproveitar as divisões dos europeus para impedir uma ação conjunta e, eventualmente, esta tal guerra comercial, que também não interessa muito à Alemanha.
Obrigado, Madalena Meier Resende.
Muito obrigada.
Madalena Meier Resende é especialista em assuntos europeus e professora no Departamento de Estudos Políticos da Universidade Nova de Lisboa. Esta foi a história do dia. Na abertura deste episódio, usámos ainda um som da Euronews. A sonoplastia é do Diogo Casinha. A música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o João Santos Duarte. Até amanhã.