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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Pedro Nuno Santos vai conseguir convencer o país?
Nós falamos para todos os portugueses. Na minha intervenção inicial, falei para muitos: para os jovens, para os mais velhos, para as mulheres, para os trabalhadores, para os empresários. Nós falamos para todos os portugueses, nós queremos respostas para todos os portugueses. Confunde-se radicalismo com ter convicções. Essa é uma confusão que nós vamos assistindo muito em Portugal. Eu fui dizendo muitas vezes nos comícios que eu não sou nem radical, nem moderado, sou socialista, isso é um fato.
Ao fim de cerca de 20 minutos de discurso, Pedro Nuno Santos abriu um período de perguntas e respostas aos jornalistas que se estendeu por mais 20 minutos, na noite em que venceu as eleições no PS. O antigo líder da Juventude Socialista, antigo secretário de Estado e ex-ministro, chegou onde há muito ambicionava. É agora secretário-geral do PS e poderá vir a ser primeiro-ministro. O que podemos esperar de Pedro Nuno Santos no partido e no país? Vou conversar com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de segunda-feira, 18 de dezembro. Bem-vindo, Rui Pedro.
Olá, Ricardo.
Rui, vamos começar pela noite de sábado. A vitória de Pedro Nuno Santos foi inequívoca.
Sim, não foi uma vitória de Pirro, como chamaria Mário Soares, mas também não foram favas contadas. Eu acho que é inequívoca a partir do momento em que são 62% dos votos e o adversário está quase 30 pontos percentuais, 18 das 21 federações e 23.430 votos contra apenas 14 mil do principal adversário. Portanto, dizer que isto não é uma vitória, por exemplo, não é possível. É uma vitória, não foi esmagadora, mas foi uma vitória clara, isso podemos dizer.
Mas é mais ou menos do que aquilo que Pedro Nuno Santos estava à espera?
Eu acho que é menos do que ele estava à espera. Ele não definiu metas e obviamente que as coisas às vezes em campanha complicam-se, os adversários têm trunfos e estávamos a falar de um ministro em funções, com apoios importantes, Fernando Medina, de Augusto Santos Silva, de várias outras figuras do partido. Mas o que é certo é que a esquerda conseguiu fazer alguma moça e, portanto, se calhar Pedro Nuno Santos estava a apontar para os 70, falava-se muito ao início entre os 70 e os 80%. Ficou com 62, não é mau, mas eu diria que é um bocadinho abaixo do que ele estaria à espera. Não se pode encarar isso como uma falha nos objetivos.
Vamos olhar para o discurso de sábado à noite, o discurso da vitória. Já explicamos, teve à volta de 20 minutos, depois foram mais 20 minutos de perguntas e respostas. O que te pergunto, Rui Pedro Antunes, é se o discurso que ouvimos de Pedro Nuno Santos foi eficaz e revelador ao mesmo tempo, ou não?
Eu acho que por um lado, foi mais um discurso de vitória e um bocadinho mais virado para dentro e também um discurso de alguma indefinição. Parece que Pedro Nuno Santos está um bocadinho no meio do caminho e não sabe muito bem naquilo que se vai transformar. E também foi revelador, por exemplo, da falta de propostas que ainda tem para as mais variadas áreas.
Acho que já chega, por já. Vamos ter muitos meses de campanha, temos um programa eleitoral para redigir, para apresentar aos portugueses.
Ele diz que vai criar um grupo que há de fazer um programa eleitoral, mas foi mais revelador da personalidade, ou seja, é um político mais político do que propriamente um político programático. E nesse aspecto, acho que o discurso mostrou um bocadinho daquilo que é a imagem que as pessoas já vão tendo de Pedro Nuno Santos, ou seja, muito descontraído, com alguma, se me permites a expressão, bazófia pelo meio, mas um bocadinho a ver onde é que ideologicamente ainda vai. Insiste na questão da social-democracia, mas não sabemos, por exemplo, o que ele assumiu de propostas, falou do salário mínimo, etc, são coisas que já vêm de António Costa, não há uma proposta nova.
E agora, Rui, o PS vai ficar unido em torno do novo líder? No Congresso de Janeiro, vamos ver socialistas unidos ou podem ficar feridas por sarar desta contenda eleitoral?
Olha, a sede do PS é em Lisboa e há uma música que diz que uma rosa a florir na Tapada cheira bem, cheira a Lisboa. Eu acho que uma rosa a florir no PS, que é a cor e a flor que é associada ao PS, cheira bem quando cheira a poder e, portanto, não há maior cola, não há maior cimento para unir um partido do que haver lugares para distribuir, haver a possibilidade de continuar no poder. E nesse aspecto, Pedro Nuno Santos tem à sua mão uma série de instrumentos para poder conseguir unir o partido, desde logo, abrir e estender os braços aos seus adversários. Diz que são circunstanciais, para dizer que foi só neste momento que foi inimigo deles ou se quisermos adversário deles, e já não será mais.
Dizer-lhes que contamos, obviamente, com eles para trabalharmos a unidade que sempre caracterizou o PS. Nós fomos sempre capazes, ao longo da nossa história, de fazer debate interno, de ter confrontos internos, mas no dia que terminavam, nós estávamos unidos, éramos um partido inteiro. É um partido inteiro que nós queremos ali para frente.
Achei curiosa uma coisa, Ricardo. Durante o discurso, naquilo que estava escrito Pedro Nuno Santos disse sempre José Luís Carneiro e Daniel Adrião. Colocou-os no mesmo patamar. Eles não são iguais. Um teve 1% e outro teve 36%.
Teve 300 e tal votos, não é?
Exato, e o outro teve 14 mil. E portanto, eles não são de todo iguais. E Pedro Nuno Santos depois emendou o erro, mas foi depois de uma pergunta dos jornalistas, que se não existisse, não havia essa emenda, em que ele diz que não é um militante qualquer alguém que se candidatou ao cargo de secretário-geral. Mas nem sequer enalteceu ter sido ministro, nada disso. E portanto, não sei se não há aqui alguma definição de posição que pode, nos próximos tempos, dificultar aqui um pouco as negociações. Mas não há razões para isso. Ele tem todos os instrumentos à disposição dele para conseguir unir o partido verdadeiramente, basta que faça algumas cedências aos derrotados, neste caso.
E isso pode ser importante para o futuro também e para as eleições, e já vamos olhar mais em pormenor para as eleições. É importante na mensagem que passa para fora conseguir unir o partido? Isso é uma imagem de fraqueza, de cegueira ou de que é um líder forte?
Uma personalidade como Pedro Nuno Santos, se tiver o partido unido, para ele é muito melhor, porque ele está numa luta também para mostrar que não é uma pessoa instável, que consegue ter controle. Aliás, ele em determinado momento diz: "Eu sou o nono secretário-geral do PS, no mesmo período, o nosso principal adversário", neste caso o PSD, o principal adversário de Pedro Nuno Santos, "já teve 19". Portanto, ele quer mostrar muito que com ele o PS tem estabilidade e que não é um partido que anda de forma contínua em guerras internas e portanto, favorece, obviamente, o líder, que o partido esteja unido.
Já voltamos à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Será que a vitória de Pedro Nuno Santos no PS poderá ter paralelo nas legislativas? Estamos de regresso à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Rui Pedro, e qual será agora o papel de António Costa no PS e quiçá no país? Até que ponto é que isso pode ser um peso para o novo secretário-geral do Partido Socialista?
Bom, eu acho que Pedro Nuno Santos já disse que o queria ter na campanha, e eu percebo que António Costa, apesar destes processos em que está envolvido, ou do processo que está envolvido, é um grande ativo eleitoral.
Ainda não estamos nesse ponto, mas quer dizer, é um pouco óbvio que nós queremos António Costa na campanha e José Luís Carneiro. José Luís Carneiro é um militante do PS e não é um militante do PS qualquer, candidatou-se a secretário-geral do Partido Socialista. Nós queremos que ele esteja na campanha, como é óbvio.
E, portanto, Pedro Nuno Santos quererá sempre tê-lo por perto. Nós vimos, por exemplo, nas europeias de 2019, que quase ninguém queria saber de Pedro Marques e António Costa apareceu sete, oito vezes na campanha e Pedro Marques venceu as eleições. Muita gente atribui esse mérito a António Costa. Pedro Nuno Santos tem este problema, que está na tua pergunta, Ricardo, é que ele também quererá ao mesmo tempo aproveitar esse valor eleitoral que é António Costa neste momento, mas também começar a afastar-se dele, a definir um caminho próprio.
Não quer ficar tapado.
Não quer ficar tapado e não quer ficar com aquela pressão permanente. Luiz Montenegro Passos, Pedro Passos Coelho já saiu do PSD há imenso tempo e continua ali pressionado. António Costa pode ser muito pior, até porque, se calhar, é mais consensual neste momento no PS do que é Pedro Passos Coelho no PSD.
E teve uma maioria absoluta.
Teve uma maioria absoluta. E nesse aspecto, Pedro Nuno Santos quererá começar a trilhar o caminho dele e António Costa será sempre uma sombra muito difícil de lidar. Eu acho que se Pedro Nuno Santos pudesse, marcava já o bilhete de António Costa para Bruxelas, para o Conselho Europeu ou para outro cargo qualquer, porque de facto não lhe dá muito jeito que António Costa ande por aí e ele gosta de andar por aí.
E agora, o que é que segue no PS? Vamos ter aqui formação de listas, depois congresso, como é que vai ser agora o trabalho nestes próximos meses?
O PS neste momento vai precisamente começar a preparar o seu congresso. Estas semanas calham a ser semanas festivas. Normalmente os políticos acabam por se resguardar um pouquinho.
É que aqui, literalmente, mete-se o Natal no meio.
Mete-se o Natal. Se calhar, entretanto, mete-se o Natal. Mas há muito pouco tempo, ou seja, o congresso é logo no início, é logo 5, 6 e 7 de janeiro, pouco depois da passagem de ano e mesmo no final desse período festivo, o que obriga a que muitas das reuniões vão acontecer agora neste período. Portanto, aquilo que seria uma época menos ativa do ponto de vista das negociações partidárias, vai acabar por ser, porque não há já muito tempo para definir isso tudo, para se negociar quem é que vai em determinada lista para os principais órgãos, a Comissão Política Nacional. E tudo isso vai ser negociado e depois ainda em cima disto, um pouco mais para frente, vamos ter a definição das listas de deputados e eu não excluo que as negociações envolvam já isso tudo e até a lista das europeias.
Mas pós-congresso, é isso?
Sim, na verdade, para negociar que o congresso até possa correr bem a Pedro Nuno Santos, não ter oposição no congresso, vai ter que negociar tudo dessa forma, mas utilizar também os trunfos que tem na mão, como por exemplo, as listas de deputados no pós-congresso, até eventualmente convencer alguma figura que não esteja tão convencida com as europeias e colocando num cargo das eleições europeias. Terá que jogar com isso tudo para forçar a tal unidade interna, porque é assim que funcionam os partidos, o PS e os outros.
No discurso de sábado à noite, da vitória, Pedro Nuno Santos falou um pouco em tudo e em todos, do Serviço Nacional de Saúde, falou dos idosos, dos jovens, das mulheres. Este discurso que ouvimos no sábado poderá ser aquilo que servirá de base ao programa de governo que será apresentado por Pedro Nuno Santos? Agradar a todos?
Sim, eu acho que há uma parte que, por exemplo, na questão do Serviço Nacional de Saúde, há logo uma parte ideológica muito forte de que ele não pode ser complementado com o privado, como alguns dizem.
Não está tudo bem com o nosso Serviço Nacional de Saúde. Não está. Mas a nossa solução não é desistir dele, não é privatizá-lo ou, como dizem alguns, complementá-lo com o privado. Nós queremos mesmo salvar o nosso Serviço Nacional de Saúde.
Isto fecha uma porta de moderação de dar uma complementaridade com o setor privado ou até com o setor social ao Serviço Nacional de Saúde. E, portanto, o que temos aqui é mais umas ideias gerais que podem eventualmente dar pistas. Por exemplo, sobre a questão do aeroporto, quando critica o PSD e a ausência de decisão, podemos ter aqui a ideia de que há alguém que pode, de repente, de um momento pro outro, dizer que já não quer a comissão técnica, quer é decidir. E, portanto, é mais uma questão de termos uma base que dá algumas pistas. Por exemplo, quando ele diz que quer dar carinho e amor, como diz aí, aos idosos, é olhar pra eleitorado pensionista, mas também não percebemos por aqui se quer aumentar as pensões. Ou seja, está aqui só uma pista para aquilo que poderá ser depois esse programa eleitoral de Pedro Nuno Santos, que o irá comprometer, porque se depois for governo, tem que aplicar aquilo que está a prometer nesse mesmo programa.
E se nos socorrermos aqui de uma expressão usada por António Costa sobre aquilo que poderá sair das eleições de 10 de março, poderemos ter uma barafunda. Para atacar esta barafunda, a geringonça é definitivamente a receita de Pedro Nuno Santos?
Sem dúvida nenhuma. Pedro Nuno Santos já deixou claro que só quer o PSD pra acordos de regime. Voltou a elogiar a geringonça.
Eu não falei em geringonça nenhuma, aliás, termo que eu nunca usei muitas vezes, porque aquilo de geringonça não teve nada, aquilo foi mesmo estável e funcionou bem.
Aliás, se Pedro Nuno Santos fosse casado com a geringonça, estava muito bem, porque elogia todos os dias a geringonça e é isso que ele quer. Aliás, ele quer um casamento por escrito, já disse que era um acordo escrito. O Bloco de Esquerda, tivemos Jorge Costa, dirigente do Bloco, a dizer que também quer o acordo escrito.
Na Vixi Suave, aqui da Rádio Observador.
Na Vixi Suave. Correu sempre tudo bem quando estava escrito, que o Bloco de Esquerda é um parceiro preferencial. Apareceu-me na entrevista que também fizemos a Pedro Nuno Santos na Rádio Observador, que não tinha ligado a Paulo Raimundo, pelo menos ele não quis dizer se tinha ligado e se tivesse ligado, não havia problema. Confirmou que ligou à Mariana Mortágua, que estava bem com ela, que tinha confiança nela. Portanto, está tudo a encaminhar-se para que Pedro Nuno Santos, se tiver a possibilidade disso, fazer uma geringonça.
Mas viabilizar um governo minoritário do PSD, isso estará fora de questão?
Parece-me que está completamente, porque havendo um governo minoritário do PSD, se entendermos por minoritário que existe uma maioria à direita, creio que aí o PS votará sempre contra e irá lavar as mãos da eventualidade de o Chega viabilizar esse governo. Aquilo que António Costa fez em 2015 foi quase tirar de fora esta possibilidade. Parece agora já uma coisa muito longínqua destes partidos irem-se portando um ao outro. Obviamente que José Luís Carneiro abriu a porta a isso, mas Pedro Nuno Santos é bastante claro nisso. Ou há uma maioria à esquerda e é ele que é chamado a governar, ele nem sequer se importa de governar em segundo lugar, nem sequer colocou isso, ao contrário de Luís Montenegro, ou então há uma maioria à direita e então aí a direita que governe, desde que ele não tenha meios para travar essa maioria de direita, há uma coisa que ele não vai fazer, não vai ser ele a viabilizar um governo do PSD, até porque iria criar uma nova configuração que a ele, Pedro Nuno Santos, nada lhe interessa, porque ele, de facto, é a pessoa mais bem posicionada para conseguir lidar bem com a aritmética de uma geringonça e ser favorecido com isso.
E há alguma possibilidade de estabelecer um paralelo entre esta vitória inequívoca de Pedro Nuno Santos no Partido Socialista e aquilo que poderá acontecer a 10 de março nas eleições legislativas?
É melhor pra ele que tenha tido uma vitória clara do que ganhar por pouquíssimo no partido e depois querer ganhar lá fora, isso daria argumentos aos adversários. Mas é completamente diferente, são eleitorados completamente diferentes. Será muito mais difícil pra Pedro Nuno Santos convencer o país do que convencer o partido. O partido já o conhecia muito bem, ele trabalhou muitos anos o partido. Não trabalhou assim tanto o país. Eu sei que é muito batida a questão de tremer as pernas dos banqueiros alemães, mas a maneira como Pedro Nuno Santos foi falando foi sempre muito mais pra dentro do PS do que pra fora, e isto não significa isso. A abordagem dele é que pode ajudar a ganhar as eleições de 10 de março sem ganhar, ou seja, essa abertura toda à geringonça e aparentemente a disponibilidade de outros parceiros, em particular o Bloco de Esquerda, de ir nessa geringonça, permite a Pedro Nuno Santos, no dia 11 de março, poder ser governo mesmo ficando em segundo lugar. E por isso abre essa margem para que o PS possa ser governo não ficando em primeiro lugar nas eleições.
E se perder?
Se perder, depende da forma como Pedro Nuno Santos perder, mas não sei se aguentará como líder da oposição. Pode até tacitamente os outros não aparecerem logo para o deixar a desgastar-se na oposição, mas fica numa situação muito difícil Pedro Nuno Santos, porque depois terá adversários internos a dizer: "Pois, nós bem avisamos que era melhor mais moderação, não há maioria de esquerda, não conseguiu chegar lá." E, por exemplo, José Luís Carneiro, que já vai estar ali à porta, ou outros que possam aparecer, como Fernando Medina, ou até alguém da ala dele que entretanto tenha processos resolvidos, como Duarte Cordeiro. Enfim, todas as pessoas, mesmo sendo de uma grande lealdade, Duarte Cordeiro a Pedro Nuno Santos, se virem que um dia têm mais possibilidades que Pedro Nuno Santos, podem estar ali à espera. E, portanto, obviamente que uma derrota eleitoral nas legislativas nem sempre se consegue sobreviver até sequer à eleição seguinte. Rui Rio sobreviveu e perdeu, Durão Barroso conseguiu vencer, mas foi porque houve um pântano antes.
Obrigado, Rui Pedro.
Obrigado, Ricardo.
Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos neste episódio foram recolhidos pela Rádio Observador. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.