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Esta é a história do dia da Rádio Observador: quando vão acabar os incêndios na Califórnia?

We've got three days of red flag warnings. Part of that is a particularly dangerous situation red flag warning. Now, that's something that usually gets issued every five to 10 years. We've had four now of these PDS red flag warnings this year alone.

No Good Morning America, da ABC, é reforçado o aviso para vento forte, muito forte. Uma situação de alerta vermelho, algo que ocorre a cada cinco ou 10 anos, mas desde o início deste ano já foram registados quatro alertas vermelhos. Vento que alimenta os incêndios devastadores. A situação na Califórnia continua muito complicada, com mais de 160 km² de área ardida, o equivalente a mais do que uma vez e meia o Conselho de Lisboa. Mais de 25 mortos, um número com tendência para aumentar, dezenas de desaparecidos, milhares de deslocados e desalojados, e milhões, muitos milhões de prejuízos. Quando poderá, afinal, este fogo ceder? É a grande pergunta que temos para o climatologista Carlos da Câmara, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de terça-feira, 14 de janeiro. Bem-vindo, professor Carlos da Câmara.

Com todo o gosto. Cá estou mais uma vez para falar com a história do dia.

Exatamente. Obrigado, professor. Só para nos situarmos, na Califórnia, nessa altura, estamos no inverno.

Estamos perfeitamente no inverno. É o inverno no hemisfério norte, tal como na Europa, portanto, é inverno pleno, sem haver hipótese de qualquer confusão.

Mas a ideia que temos da Califórnia é que é sol e praia todo o ano, mas também há inverno, também há temperaturas baixas, frio.

Claro, a Califórnia tem aquilo que se chama um clima mediterrâneo e, no fundo, é um pouquinho parecido com o nosso. Se eu olhar para o ciclo da temperatura, as temperaturas oscilam nos meses de inverno, portanto, dezembro, janeiro e fevereiro, nunca vão abaixo dos 10 °C em média climatológica, 30 anos. E depois quando se chega ao verão, lá pra julho, agosto, também nunca sobem acima dos 25 °C. Portanto, no fundo, é um clima ameno. Por outro lado, há também um ciclo da precipitação muito pronunciado, com precipitações mais abundantes nos meses também de dezembro, janeiro e fevereiro, que não excedem os 100 milímetros, andam por aí pelos 90, talvez, um número dessa ordem, e depois quase que desaparecem no verão, um pouco como em Portugal. Portanto, no fundo, este regime da precipitação é um bocadinho aquilo que favorece os grandes incêndios. Porque há a precipitação que, durante o inverno, primavera, leva ao desenvolvimento de estação e depois a seguir há uma seca, que faz com que haja biomassa estressada. Mas o que é interessante aqui é perceber que houve incêndios em pleno inverno.

Exatamente.

Em Portugal também acontece, atenção.

Exatamente, sim. Mas algo que os incêndios por cá nos ensinaram é a chamada regra dos 30. Quando temos mais de 30 °C, menos de 30% de umidade e ventos a mais de 30 km/h, sabemos que temos aqui condições favoráveis à ocorrência de incêndios. Na Califórnia, aqui neste caso específico, não tivemos esta regra dos 30 ou tivemos?

No fundo, é como em Portugal. Quando eu tenho incêndios, por exemplo, em fevereiro, março, que como sabe, é uma época em que também há incêndios em Portugal, também aí é normalmente a regra dos dois 30, se quiser, que é normalmente eu ter baixa umidade, que é o que aconteceu na Califórnia. A umidade estava baixíssima, e ter ventos muito intensos, que também foi aquilo que aconteceu na Califórnia. Portanto, o que acontece é que só estes dois fatores, sobretudo associados a uma seca. É que é preciso não esquecer que na parte sul da Califórnia, não chove praticamente desde outubro, e portanto, nós tínhamos uma vegetação muito estressada. Portanto, vegetação muito estressada com ventos secos e muito fortes é uma combinação tal.

Portanto, nem precisa da temperatura elevada para originar isto a que estamos a assistir. E há alguma ideia do que poderá estar na origem destes incêndios?

No fundo, o que até se sabe é que cada um deles teve uma ignição. Discute-se se a ignição poderá ter tido origem elétrica, na rede de transporte de eletricidade, que os ventos tenham feito fios tocarem-se, que saíam algumas faúlhas, ou ter sido um fogo negligente, ou até, eventualmente, ter sido mesmo criminoso. Mas o que eu acho que é importante aqui perceber-se é que isso é uma questão que é relevante do ponto de vista criminal, até do ponto de vista de responsabilização, mas o problema não está aí. Em como é que se explica que uma ignição ou duas ignições possam ter levado a um incêndio desta magnitude. Como dizia, de resto, o Steven Paen para o Los Angeles Times ontem ou anteontem, ele dizia que quando ardeu praticamente Chicago inteira, e que se falava no mito da vaca da senhora não sei quantas, que tinha derrubado uma candeia e foi aí que começou o incêndio, não é isso que é importante. O problema é por que um incêndio provocado por uma vaca deu cabo de grande parte de uma cidade. Aqui é um pouquinho o mesmo problema. Por que estas condições meteorológicas e uma ignição levam a um desastre de proporções inacreditáveis?

Eu já quero falar consigo também sobre a questão da vegetação e da biomassa que está disponível para arder e do ordenamento do território. Antes queria tentar perceber consigo, porque é professor universitário, climatologista, a importância dos ventos de Santa Ana. Que ventos são estes, professor?

Ora bem, estes ventos são usuais, portanto, são conhecidos há muito tempo, há centenas de anos. O que há de extraordinário aqui é que não costumam ter esta intensidade em janeiro. Mas estes ventos como é que se originam? No interior da Califórnia, há uma região alta, plana e bastante desértica, que no inverno, e quando eu digo inverno, pode ser final do outono, em outubro, novembro, fica bastante fria e normalmente cria-se aí um centro de altas pressões. Então o que acontece é que, como se trata de um sítio muito frio, o ar que aí está é bastante frio. O que acontece é que, como há um centro de altas pressões, esse ar sai dessa região na direção da costa e por gravidade, porque ele é frio, é mais denso, começa a descer pela encosta. Quando desce pela encosta, ele vai se tornando mais seco por compressão. Por quê? Porque quando o ar desce, a pressão aumenta, tal e qual como um pneu de bicicleta, vai aumentar a sua temperatura. Quando eu digo aumentar a sua temperatura, evidentemente, em termos relativos, mas sobretudo vai se tornar extremamente seco e acelera por gravidade. No fim das contas, ele desce mesmo pela encosta, atingindo velocidades enormes. Ora bem, estes ventos sempre existiram e sempre estiveram na origem de incêndios. O problema aqui é que foi fora da época, por um lado, e por outro lado, conjugou-se com uma vegetação extremamente estressada. Ao mesmo tempo, uma vegetação muito abundante. E por quê? E aí entram, por exemplo, as alterações climáticas. É que as alterações climáticas estão ligadas à existência de maior energia na atmosfera, exatamente por causa dos gases com efeito estufa. E, por outro lado, a uma maior quantidade de vapor d'água. Este ano, 2024, bateu o recorde de quantidade de vapor d'água armazenado, porque se a atmosfera está mais quente, tem capacidade de armazenar mais vapor d'água. Então o que vai acontecer? Vamos ter um ciclo da água muito mais extremo, com secas mais secas, passe o pleonasmo, e precipitações mais intensas. Ora isto, o que acontece? É preciso lembrarmos que há dois anos e o ano passado, a Califórnia teve cheias. Portanto, o que acontece é que havia mais biomassa, que entretanto foi estressada por uma seca bastante grave. No fundo, lá está, tínhamos muita biomassa seca, conjugado com ventos de grande velocidade e com ar muito seco, para efeitos de uma ignição se desenvolver espetacularmente, é o que é preciso do ponto de vista meteorológico.

Já voltamos à conversa com o climatologista Carlos da Câmara, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. E afinal, quando será possível controlar estes incêndios? Estamos de regresso à conversa com o climatologista Carlos da Câmara. Professor, quando falamos de incêndios, temos sempre a nossa realidade presente. Já explicou que o clima na Califórnia é semelhante ao nosso. O que é mais comparável entre Portugal e a Califórnia?

O que me vem imediatamente à cabeça é o 15 de outubro de 2017. Também já foi fora da época, evidentemente que a temperatura era mais elevada, mas o que tivemos foi um verão extremamente seco. E um furacão, o Ofélia, que gerou ventos de sul extremamente intensos. Tivemos, no fundo, ventos invulgares pra época, com uma direção completamente invulgar, que era de sul, o que fez com que grandes manchas florestadas, como as de Leiria e de Aveiro, que têm uma direção sul-norte, estivessem expostas a ter incêndios de uma magnitude muito grande. Mais ainda, se olharmos presto pras manchas, foram centenas de quilômetros consecutivos de área queimada. E portanto, cá temos um aspecto em que eu acho que há algo em comum com a Califórnia, que é um evento meteorológico completamente fora de época, ligado ao que não é habitual, neste caso foi o furacão. Que levou a ventos Extremamente intensos e com uma direção invulgar para Portugal para aquela época. Portanto, no fundo, temos algo muito parecido e uma vegetação também estressada por exposição a um longo período seco.

O professor Carlos da Câmara é climatologista, não é bombeiro, mas deixe-me fazer-lhe esta pergunta: a forma como se combatem os incêndios na Califórnia é muito diferente da nossa?

Como deve calcular, eu tenho tido alguns contactos e é extremamente interessante o que tem vindo das discussões. Há uma diferença muito grande, é que na Califórnia, como dizia o José Miguel Cardoso Pereira, do Instituto Superior de Agronomia anteontem, é um bocadinho de se espantar que na Califórnia se dê tão pouca atenção à prevenção e, sobretudo, ao problema dos combustíveis. Na realidade, a Califórnia tem corpos de bombeiros muito bons, aposta-se muito no combate, mas o problema é que quando os incêndios atingem esta dimensão, não há combate possível.

Claro.

E se reparar, a discussão neste momento na Califórnia é, por um lado, se os bombeiros que tiveram um corte de financiamento, enfim, que houve esse problema, o problema da água, que a meu ver é um problema de somenos importância, porque quando os fogos atingem esta magnitude, não há água que valha.

Claro.

Mas o problema que se põe é um problema de gestão do combustível. E isso implica, de facto, envolver a população, porque é preciso perceber que estes fogos em Los Angeles são essencialmente fogos urbanos.

Exato.

É um problema de fogos urbanos e de um completo desajustamento da paisagem urbana misturada com a vegetação, e que, perante um evento meteorológico com background de alterações climáticas, está completamente desajustado. Como fazia notar um especialista americano, e também portugueses também há que fazer notar isso, é que se olhar para as fotografias, ou mesmo para os filmes, vai ver que arderam as casas, mas as árvores não arderam. Continuamos a ver muitas copas de árvores. Ou seja, a biomassa é a biomassa rasteira que é típica da construção americana. E outro aspecto muito importante é que a propagação do fogo foi essencialmente devido a projeções. Portanto, com ventos bastante intensos, pode haver biomassa incandescente, que anda quilómetros e, portanto, no fundo, a propagação é feita desta forma. Ou seja, há que mudar radicalmente a forma como se têm habitações e, sobretudo, como se gera o combustível nos subúrbios de L.A.

Até porque os materiais de construção nos Estados Unidos são diferentes. Nós apostamos mais na alvenaria, não é? Apesar de tudo.

Exatamente. Eu vivi nos Estados Unidos e também tinha uma casa de madeira. No fundo, é impressionante, porque aquilo que sobra são os tijolos das chaminés e algumas estruturas de ferro, de escadas, etc. No fundo, mostra que há que mudar radicalmente a forma como estão desenhadas as cidades, porque esta arquitetura não é compatível com o tipo de situações que vão tornar-se cada vez mais frequentes. E aí, outra vez, a meteorologia e, sobretudo, a climatologia, que deve servir de alerta, que é: este gênero de situações vão ser mais frequentes num futuro próximo.

Estamos a gravar esta conversa ao final da tarde de segunda-feira. Professor, o que é que nos dizem as previsões meteorológicas para esta terça-feira, dia em que publicamos este episódio da História do Dia, e também para os próximos dias, para a Califórnia?

Eu, não sendo meteorologista operacional, de facto, estive a olhar um bocadinho para os mapas e não me parece que haja boas notícias para as próximas horas. Aparentemente, para quarta, quinta, talvez haja uma janela de oportunidade. Mas o que eu acho que é preocupante, e às vezes em Portugal também é preocupante, é quando a meteorologia é que manda nos fogos. Eu costumo sempre dizer que a meteorologia manda nos fogos porque nós deixamos que ela mande. E, portanto, outra vez, a mensagem importante é que a meteorologia não é controlável, mas é previsível. As previsões têm sido impecáveis, mesmo na Califórnia, porque se já houve críticas a tudo, não houve ainda uma única crítica à meteorologia. Portanto, os alertas foram dados a tempo e horas, os modelos têm funcionado muitíssimo bem. A meteorologia é previsível, não é controlável. Mas a parte de biomassa, a parte de vegetação, a parte de paisagem, essa é gerível. E sobretudo, a parte humana, que é a outra componente, porque quase certamente, direta ou indiretamente, as ignições tiveram a ver com atividades humanas, essa é educável. E portanto, nós temos que olhar para as duas vertentes, a que é gerível e a que é educável, porque é a única maneira de poder fazer frente É fenómenos desta natureza que tenho a certeza absoluta que vão ser replicados num futuro próximo.

Portanto, perante esse quadro, diria que é imprevisível quando é que poderá este fogo começar a ceder ou mesmo ser extinto. Não conseguimos ainda nesta altura ter uma previsão, professor?

Eu acho que é complicado, porque repare, mesmo neste fim de semana que a meteorologia deu algumas tréguas, os incêndios são de tal maneira brutais que eu vi que se conseguiram dominar 30%. O Gaspar Aliceitos tenho ideia que era em torno de 30%, outros também por essa ordem de grandeza. E, de facto, eu não acredito que seja com retardantes, com água e com aviões que se vai resolver o problema, infelizmente vai ser muito complicado. E, portanto, a mensagem é percebermos que não devemos, nem por um lado, pôr as alterações climáticas como bode expiatório, nem culpar as ignições. O que temos é que culpar uma ausência de estratégia, e essa estratégia demora anos a ser implementada, mas tem mesmo que ser implementada, e que é de haver uma inadequação da paisagem urbana e rural para lidar com este tipo de eventos meteorológicos e, portanto, há que fazermos uma mudança radical. Isso aplica-se à Califórnia e aplica-se a Portugal, porque em Portugal também já se começou a perceber, e talvez estejamos um pouco mais adiantados, que a chave do problema está na prevenção, e combate tem que ser sempre encarado como uma falha da prevenção e não como uma vitória do combate. E essa mudança de paradigma é indispensável que aconteça.

Obrigado, professor Carlos da Câmara.

Foi um gosto.

Carlos da Câmara é climatologista, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.