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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Um guia para acabar o ano a investir e a poupar.

Quando nós olhamos para as decisões que temos que tomar, nós devemos privilegiar decisões que alimentem, de alguma forma, a poupança. O setor bancário, felizmente e finalmente, reagiu remunerando os depósitos.

Reagiu um bocadinho.

Da minha própria experiência, numa app bancária consegue-se um depósito com uma taxa muito próxima daquilo que é a taxa do BCE.

Alimentar a poupança. O conselho é de Mário Centeno. E como é que isso se faz? Vou conversar com Edgar Caetano, jornalista de economia do Observador, sobre como investir as suas poupanças. Eu sou Teresa de Cassis e esta é a história do dia, segunda-feira, 04 de dezembro. Bem-vindo, Edgar.

Obrigado pelo convite.

Dezembro está mesmo a começar. Este costuma ser um mês de muitos gastos para as famílias.

Sim, com as prendas de Natal, com o bacalhau, que também está a subir. Mas agora parece que já há muitos gastos que se têm no mês anterior, com as Black Fridays, Black Weeks e Black Months também. Mas sim, dezembro é um mês em que as pessoas também aproveitam para, além de gastar um bocadinho mais de dinheiro, repensar a forma como o dinheiro está investido pela família.

E para ajudar nestas contas, tu escreveste um guia com alguns conselhos para poupar e investir dinheiro. Já vamos aos detalhes, mas a quem é que este guia se dirige?

Nós sabemos que não está muito fácil a vida para poupar, mas é importante que isso aconteça, e não só poupar, como também investir para conseguir recuperar algum do poder de compra perdido com estes anos de inflação. Dirige-se às pessoas que tenham algum valor pequeno, que esteja à procura de ideias para o aplicar o melhor possível.

Então, o que uma pessoa não deve mesmo fazer é deixar o dinheiro parado na sua conta corrente, é isso?

Sim, isso é o básico. Acho que as pessoas têm, de facto, que a última coisa que devem fazer é deixar o dinheiro parado na conta à ordem, até porque os depósitos a prazo já estão a render um bocadinho mais do que rendiam antes e o dinheiro parado está a perder dinheiro todos os dias.

Nos últimos tempos, a poupança dos portugueses tem vindo a descer, uma tendência que tinha subido com a pandemia.

Sim, a pandemia foi uma altura em que, apesar da crise econômica que se viveu, a maior parte das pessoas conseguiram manter os seus rendimentos.

Também estavam em casa, não é?

Precisamente, e pouparam também muito por essa razão. E nessa altura, a taxa de poupança entre os portugueses subiu para 11,9%, isto em 2020, 11,9% do rendimento disponível. Isto são valores muito altos, porque Portugal tem historicamente uma taxa de poupança muito baixa. Neste momento, a má notícia é que essa taxa de poupança, que se calcula em função do rendimento disponível, já está a baixar e não só está a baixar, como está em níveis inferiores a 2019. Ou seja, mensalmente as pessoas estão a poupar menos do que poupavam antes da pandemia. Outra questão é o chamado estoque de poupança, que foi feito ao longo dos anos da pandemia. As pessoas conseguiram poupar mais e criaram uma espécie de uma almofada, que é difícil calcular quanto é que essa almofada tem neste momento. O que se sabe é que essa almofada está a ser um bocadinho também utilizada para amortizar créditos à habitação e já não é uma almofada tão confortável como era no fim da pandemia.

Essa almofada ajudou a combater a subida dos preços durante este ano. E como é que se espera que seja o ano de 2024?

É difícil dizer para já, porque no ano passado nós olhávamos para 2023 com muito receio e acabou por ser um ano melhor do que o previsto, e portanto, qualquer pessimismo que tenhamos agora pode ser um bocadinho visto à luz desse pessimismo que tínhamos no final de 2022. Nós entramos em 2024 com o risco de termos aqui uma recessão técnica, que são dois trimestres consecutivos de contração da economia. Tivemos já um trimestre negativo no terceiro trimestre, o INE confirmou isso na quinta-feira passada. O risco é que se tivermos um quarto trimestre também com uma contração da economia, uma evolução negativa da economia, isso significará que o país está com uma recessão técnica. Mas também é importante não sobrevalorizar isso. Olhando para 2024, existem algumas razões para ter algum otimismo, sobretudo se se mantiver um indicador muito importante intacto, que é a taxa de desemprego, porque a taxa de desemprego tem se mantido relativamente estável. Há alguns indicadores que apontam para um aumento do desemprego, e isso é que aí pode ser mais problemático, porque mais importante do que pequenas flutuações, 0,2%, 0,1% na taxa de crescimento, se nós tivermos uma situação em que a taxa de desemprego sobe e a economia não cresce como se desejaria, aí podemos ter um cenário mais preocupante para a economia portuguesa.

Já voltamos à conversa com o jornalista Edgar Caetano. Na segunda parte, vamos falar de depósitos que podem render 4% e de fundos de investimento, entre outras aplicações que podem fazer render as poupanças. Estamos de regresso à conversa com Edgar Caetano, jornalista do Observador, e que partilha alguns conselhos para investir as poupanças. Os depósitos a prazo são uma boa opção. Em setembro, Portugal era o quinto país da zona euro que pior remunerava os depósitos a prazo.

Sim, nós escrevemos sobre isso. De facto, os depósitos a prazo tiveram quase uma década em que renderam muito pouco ou nada. Esse cenário mudou um bocadinho a partir do verão. Já foi tarde, porque na Europa, de modo geral, esse cenário começou a mudar mais cedo. Os bancos na Europa, de um modo geral, começaram a subir as remunerações dos depósitos muito mais cedo do que Portugal. Ainda assim, apesar da aceleração que existiu na banca portuguesa, nós ainda estamos a pagar, ou neste caso, como clientes, a receber menos pelos depósitos que nós fazemos nos bancos do que na média europeia. Isso está, por exemplo, nos dados que saíram do Banco de Portugal agora há poucos dias. Ainda assim, eu acho que neste momento já vale a pena olhar pra depósitos a prazo, pelo menos pra uma parte das poupanças, porque embora estejamos a falar de rentabilidades que não te vão ajudar a recuperar aquilo que tu perdeste em inflação nos últimos anos, já tens depósitos a prazo que rendem o dobro da atual inflação. Portanto, já vale a pena olhar pra este tipo de produtos, até porque são produtos sem risco. E podem ser importantes pras pessoas, sobretudo em montantes mais pequenos.

Estamos a falar de que valores? Que opções é que encontraste no mercado?

Nós fizemos um texto em que referimos vários bancos, mas normalmente é necessário procurar, às vezes, entidades mais pequenas, que estão igualmente salvaguardadas pelo Fundo de Garantia de Depósitos, que isso é que é importante saber. Mas a questão é que tu já tens depósitos a prazo que te dão rentabilidades brutas acima de 4% no mercado português. Consegues aceder essas rentabilidades brutas, é verdade, uma taxa de juros de 4,05%, que existe num dos bancos, a um ano, mobilizável. Ou seja, há uma série de opções. Agora, as pessoas precisam, de facto, é de procurar, não se cingirem só àquilo que o seu banco tradicionalmente lhe oferece, e procurar soluções noutros bancos, eventualmente, nem que seja ameaçar o seu atual banco que vai procurar essas soluções, porque os depósitos a prazo negoceiam-se. E uma coisa é as ofertas que estão no site, outra coisa é aquilo que se pode negociar. E, portanto, nesta fase, as pessoas têm que vencer aquela inércia de cingir-se apenas àquilo que os bancos lhes estão a oferecer, o seu banco lhes está a oferecer, e tentar procurar novas opções, porque elas existem.

E quanto é que estes depósitos podem render? Consegues dar um exemplo?

Se fizermos uma conta a esse depósito que eu referi e que está identificado no texto do Observador, que tem uma taxa bruta de 4,05. Por exemplo, se alguém estiver a aplicar 25 mil €, estamos a falar de um depósito que é por seis meses, portanto os 4% são uma taxa anualizada. É um depósito por seis meses, só esses 25 mil € em 180 dias podem render 364,50 € em juro líquido. Portanto, é uma opção boa, que dá uma rentabilidade interessante pra quem consegue aplicar um valor, que ainda assim reconheço que não é um valor que toda a gente possa aplicar, mas pra dar uma ideia, já ficas com esse valor.

E os certificados de aforro são uma boa opção? As condições já não são tão boas como eram no início do ano, quando houve uma corrida a estes títulos.

Sim, houve uma corrida muito intensa no primeiro semestre, depois terminou e os dados mostram isso, mostram que, de facto, esmoreceu muito o interesse das pessoas por certificados de aforro. O que faz sentido, porque a nova série que foi lançada em junho oferece condições muito menos vantajosas do que oferecia a série anterior. Nomeadamente, aquele valor dos 3,5 de remuneração máxima passaram a 2,5. Ainda assim, pode não ser totalmente correto assumir que só por causa desta redução da remuneração dos certificados de aforro, pode ser incorreto assumir que isso faz com que eles não valham a pena, porque não é assim. Porque uma novidade dos certificados de aforro, desta nova série, é que aumenta o prazo máximo até 15 anos. E tal como antigamente, há prémios de permanência que a certa altura começam a entrar em jogo e podem fazer a diferença. E, portanto, não tens nenhum depósito a prazo com uma maturidade de 15 anos. E é preciso ter em conta que se tu fores ativo na gestão do teu dinheiro, se procurares todos os anos, ao longo dos próximos 15 anos, se procurares a cada momento, cada vez que o depósito a prazo vence, o que existe de melhor no mercado, essa gestão ativa, em princípio, pode dar uma rentabilidade bastante boa. Mas se as taxas do Euribor, se as taxas de mercado baixarem nos próximos anos, pode não ser assim. Porque vais chegar a um ponto em que se o Euribor baixar, tu daqui a 10 anos podes não ter depósitos a prazo a renderem quase nada outra vez. Por outro lado, se tiveres certificados de aforro, também vais ser penalizado se o Euribor baixar, porque a Euribor é importante pra calcular a rentabilidade a cada ano dos certificados de aforro. Porém, a questão é que tu depois vais ter prémios de permanência que te podem ajudar a ter uma rentabilidade maior. Eu acho que ainda assim, as pessoas devem fazer as contas e perceber que existindo esse fator de incerteza, que ninguém tem uma bola de cristal, ninguém sabe como é que vai evoluir a Euribor e as taxas dos depósitos nos próximos 15 anos. Ainda assim, eu acho que as pessoas têm a fazer a conta e perceber até que ponto é que, de facto, como investimento de longo prazo, os certificados de aforro ainda podem valer a pena, na minha opinião.

Dá pra manter o mesmo exemplo e calcular qual é que pode ser o ganho?

É difícil, porque lá está, estamos a falar sobre um investimento que tendencialmente é pra maturidades mais longas, mas se usarmos os mesmos 25 mil € que falamos há pouco para os depósitos a prazo, ficas a saber que se o Euribor nunca baixar, pelo menos se isso acontecer, se mantiver neste máximo, tu podes transformar 25 mil € em quase 36 mil ao fim de 15 anos. Incluindo prémios de permanência, que são importantes. Mas lá está, tudo depende de como é que vai evoluir a taxa de Euribor e taxas de mercado nos próximos anos, porque se baixar, aí vais ter uma situação em que não vais receber nada de perto disto. E, portanto, ainda assim, eu acho que as pessoas devem olhar pra este investimento como uma boa opção, tendo em conta que, atenção, quem investir em certificados de aforro fica três meses sem conseguir mexer no dinheiro. Portanto, se houver o mínimo risco de precisares de dinheiro nos próximos três meses, não é uma boa opção.

E os PPR? Nesta altura do ano costuma haver um investimento nos Planos Poupança Reforma. Por quê?

Porque os Planos Poupança Reforma, os PPR, dão direito a uma dedução fiscal. E essa dedução fiscal é uma coisa que tu podes aproveitar no início do próximo ano, quando entregares o IRS. Tu consegues ter uma dedução que pode ir até €400 em cima daquilo que tu já tens de reembolso de IRS ou pagar menos, na situação que tu tens é pagar IRS normalmente. A questão é que tu tens uma possibilidade de colocar, por exemplo, €2.000 num PPR e se tiveres menos de 35 anos, podes depois ter uma dedução de €400. Sendo importante referir que essa dedução de €400, máxima, vai concorrer com outras deduções que tu tenhas, nomeadamente despesas de saúde, despesas de educação e também depende do teu escalão de rendimento. No entanto, é mais ou menos fácil ter uma dedução adicional de algumas centenas de euros, a ser mais ou menos ambicioso. E é por isso que as pessoas normalmente nesta altura, como têm os subsídios de Natal, conseguem fazer essa aplicação.

E quando investimos num PPR, estamos a pensar em retirar o dinheiro só durante a reforma ou não? Se eu tiver um PPR, mas preciso de ir lá buscar dinheiro para ajudar a pagar o crédito à habitação, posso fazer isso?

Passaste a poder. A verdade é que, de facto, há essa ideia de que os PPR são produtos para a reforma, mas não é bem assim, porque cada vez há mais exceções que te permitem ir buscar o dinheiro sem penalizações, porque tu podes sempre ir buscar o dinheiro. A questão é que, sobretudo se fizeres muitas deduções, as tais deduções feitas a cada ano, tu depois podes ter que as devolver todas e com um agravamento em cima, uma majoração de 10% por cada ano. Mas se tu nunca fizeres a dedução, tu consegues aproveitar esse investimento como se fosse uma aplicação, um depósito a prazo, que até tem um prazo bastante longo. Tu podes ter várias razões pelas quais, além da reforma ou de doença ou de incapacidade para o trabalho, cada vez fores ganhando mais exceções que te permitem ir buscar o dinheiro sem essas penalizações, nomeadamente para pagar o crédito à casa, que foi uma novidade dos últimos anos. Atenção que é possível aplicar dinheiro do PPR em pagamento de prestações, mas não de amortização do teu crédito.

E tendo em conta os mesmos valores de que temos vindo a falar, os tais €25.000, podemos quantificar os ganhos, qual é que pode ser aqui a mais-valia?

Aqui é impossível, porque um PPR o que vai fazer é investir em mercados financeiros. Vai investir em ações, obrigações, depende do PPR. Tu tens muitos, tens centenas e, portanto, tu tens vários tipos de PPR, tens PPR sem garantia de capital, com garantia de capital e depois depende das comissões que vais pagar também. Portanto, é muito difícil fazer simulações, é impossível mesmo. Ainda assim, é importante, há sempre a hipótese de perceber mais ou menos quais são os PPR que têm tido o melhor desempenho nos últimos anos e tentar guiar-te um pouquinho por aí. Mas saber quanto é que vamos receber com os tais €25.000 é completamente impossível.

É preciso ter aquele papel ativo de que falavas no início, de estar sempre com a calculadora perto.

Precisamente.

E fazer algumas contas. O último produto para investir e poupar que referes no teu artigo são os ETF, fundos cotados em bolsa. O que é isto? Como é que funcionam?

São um produto que tem crescido muito em popularidade nos últimos anos, não só em Portugal, mas em todo o mundo. No fundo, são quase como fundos de investimento, mas não são bem fundos de investimento, porque os fundos de investimento têm uma gestão ativa, ou seja, estás a pagar a um gestor para te escolher esta ação e não aquela, para comprar mais deste setor do que daquele. Isso é uma gestão ativa. Um ETF é, no fundo, um instrumento que tu compras e esse instrumento vai replicar ou vai seguir o desempenho de um índice bolsista. E esse índice bolsista pode ser o S&P 500 da Bolsa de Nova Iorque, penso que não existem ETFs do PSI da Bolsa Portuguesa, mas pode ser um índice que seja mais ou menos geral, um índice de ações globais, ou pode ser um índice mais virado para ações e obrigações de mercados emergentes, ou pode ser um índice que só tenha ações ligadas à inteligência artificial ou outra qualquer tendência que tu aches que pode ser promissora. Os ETFs são produtos que, sobretudo, têm uma vantagem muito grande, é que são muito baratos.

Mas também têm maior risco.

Têm maior risco porque é investimento bolsista. Tu estás a comprar uma coisa que não tem qualquer fundo de garantia de depósito. Estás a comprar uma coisa que, em teoria, o S&P 500 da Bolsa de Nova Iorque pode estar em 4.000 pontos e pode baixar para 3.500. Depende muito. Ou seja, é um investimento que tu só deves olhar para ele no longo prazo, porque historicamente está mais do que provado que não há melhor investimento do que a Bolsa Mundial, quando se fala em prazos longos. Porque tu podes ter pandemias, podes ter crises financeiras, mas se olhares no prazo longo-

Tens de ter capacidade para esperar.

Tens de ter capacidade para esperar. É bom que tenhas, porque o que não deves mesmo fazer é quando tens uma pandemia ou um novo vírus, as ações caem 20%, isso tudo em pânico, venderes tudo só porque está a cair, é errado. Até porque elas depois recuperaram ainda muito mais. Portanto, no longo prazo, está comprovado, obviamente, está comprovado para trás, para a história, não quer dizer que no futuro seja assim, mas está mais do que provado que não há melhor investimento no mundo do que o mercado acionista. E, portanto, isto é uma forma de tu, pagando poucas comissões, te expores a esse mercado acionista, porque às vezes é isso, as comissões fazem a diferença, porque tu às vezes podes ter uma boa valorização, mas depois aquilo é tudo comido em comissões. Isso às vezes acontece nos fundos de investimento. Aqui os ETFs são fundos que tu compras e sabes que aquilo é barato e vai seguir a bolsa no setor e no índice que tu escolheres.

Obrigada, Edgar.

Obrigado, Teresa.

Edgar Caetano é jornalista do Observador, especialista em economia. Esta foi a História do Dia. Neste episódio ouvimos sons da entrevista de Mário Centeno à CNN Portugal. A sonoplastia é do Bernardo Almeida. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou Teresa Bacis. Até amanhã.