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Olá, seja muito bem-vindo. Está a ouvir a História das Histórias com Alberto Correia, em Viseu. Eu sou o João Paulo Secadura, estou aqui apenas para ouvir a homenagem que Alberto Correia gosta tanto de fazer a Aquilino Ribeiro, que vai falar da poética da terra, exactamente sobre as suas Terras do Demo. Vamos a isso, Alberto. Olá, bem-vindo.
Aquilino chamou Terras do Demo à terra onde nasceu e por onde andou sempre menino e muitas vezes quando era já homem feito, que o mesmo era que chamar-lhe terra-mãe, quer dizer, que estava ainda no princípio essa terra, aquela que aos homens se destinou, depois do Éden, por herança. Era o tempo em que os ventos modulavam com o seu sopro os rochedos da montanha e estendiam sobre a neve as sementes do carvalho e das giestas, os primeiros grãos de trigo, as papoilas e os tojos que floriam no solstício primeiro. Era o tempo das madrugadas nevoentas de novembro e dos nevões prestes a cair, da aldeia envolcada no burel, dos lobos saindo a medo dos seus fojos, dos caçadores furtivos do defeso, dos medronhos silvestres já maduros sobre os cómoros. Era depois o tempo das manhãs límpidas de maio e dos voos baixos das andorinhas que chegavam. Era o tempo das maias e do cio das ovelhas. Eram dias grandes para as idas e vindas dos almocres, dos pedintes e as passadas de outros homens de aventura. Era também tempo de verão, a rosa do sol ardendo, as rolas dormindo nos pinhais, mulheres recolhendo ervas de cheiro para as mezinhas e os chás, favos de mel, rasas de pão joirado sobre as eiras. Era nesse tempo que se acendiam fogos rituais com rosmaninho, celebrando divindades esquecidas. Os homens reuniam-se nos santuários de montanha e entregavam aos seus deuses os cordeiros prometidos. Era nesse tempo que os faunos amavam as donzelas. Ouviam-se flautas de Pã tocadas por pastores. Vinham depois chuvas de outono. Os homens já tinham aprendido o uso das sementes, já tinham inventado a rota e o arado. Os bois já eram mansos e andavam nos caminhos guiados por uma voz meiga de criança. Nesse tempo, caíam nos soutos as castanhas. Nas portas das tabernas, um ramo de loureiro anunciava o vinho novo. As mulheres juntavam-se em cerões para fiar o linho, desvelar histórias de mouros e franceses e as rezas de verso encadeado. Noite fora, nos restolhos, no chão dos pinheirais e à beira dos caminhos, cresciam, ao jeito de maná, os cogumelos. E antes que os ventos de inverno soprassem outra vez, e antes que a neve escondesse o povoado, folha a folha, por magia, um manto grosso ia caindo sobre a terra-mãe adormecida.
Uma bonita revisitação das quatro estações aqui na terra-mãe de Aquilino, Terras do Demo, e por isso lhe agradeço. Muito bem, Alberto, nós por hoje estamos conversados e voltamos amanhã. Bem-haja.
E até amanhã.