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A minha geração já se calou, já se perdeu, já moou, já se cansou, desapareceu ou então casou, ou então mudou, ou então morreu, já se acabou.

Preparadíssima?

Preparadíssima, sempre preparada. Este país também devia ser para novos e é por isso que temos em estúdio uma jovem estudante de Ciência Política e Relações Internacionais, que com apenas 20 anos é cabeça de lista da Iniciativa Liberal por Castelo Branco. A primeira intervenção cívica aconteceu cedo, logo aos oito anos, quando escreveu uma carta ao presidente da Comissão Europeia, na altura, Durão Barroso. E o que é que preocupava a Maria Castelo Branco? A utilização dos sacos de plástico. Já foi há 12 anos e o tema não perdeu atualidade. Já vamos saber se obteve resposta. É esperta, articulada, coerente, escreve demasiado bem para a idade, é o que dizem os mais velhos e sem o paternalismo habitual no tom de voz. Impressiona por ser muito estruturada, de resposta rápida, com ideias assentes e nada dogmática. Consegue sempre apresentar ideias novas e não se nega a repensar um novo assunto. Acresce que é divertida e é por isso que é tão estimulante conversar com a Maria Castelo Branco, uma liberal libertária que não quer o Estado em lado nenhum, nem na economia, nem na vida das pessoas. Esteve em Direito na Universidade Nova de Lisboa, antes de ingressar na Católica, no IEP. Passou pelos Salesianos, tem dois L no nome, mas não lhes chamem beta. Há quem diga até que é mais hippie do que beta. Dizem também que vai ser a primeira presidente mulher do partido do qual faz parte e daqui a 10 ou 15 anos será a primeira primeira-ministra da Iniciativa Liberal. Maria, bem-vinda. Com apenas 20 anos já te apontam tanto futuro, como é que geres essa pressão com apenas 20 anos? Desafia-te ainda mais, dá-te confiança ou oferece-te responsabilidade?

Não, eu acho que me desafia ainda mais. Acho que com o tempo vou aprendendo a gerir um bocadinho, mas eu não sinto muita pressão, por acaso, acho que reajo bem sob pressão e isso é uma coisa boa. Mas sim, acho que o partido me ajuda muito, a Iniciativa Liberal tem me ajudado bastante nesta questão e não põe pressão. Aliás, eu ouvi muitas destas declarações agora.

A sério?

Sim.

Foste surpreendida?

Fui surpreendida, sim.

No teu discurso, nos teus textos, nota-se um grande entusiasmo pelo liberalismo. Para quem não está familiarizado com o termo, e até para quem está, o que é para ti ser liberal?

Para mim, ser liberal, primeira questão aqui, o Stuart Mill também referia isto, é que eu acho que o termo liberalismo não se aplica muito bem, ou não se consegue explicar muito bem a crianças, porque elas não têm esta liberdade com responsabilidade que os adultos têm. Mas é uma doutrina política que, sobretudo, se foca muito no individualismo, portanto, no indivíduo como base de toda a política. Ao contrário de algumas doutrinas políticas que se focam um bocadinho mais em questões de comunidades ou questões mais do social no seu todo e ignoram um bocadinho o indivíduo. E eu acho que isso é um ponto muito essencial, que as pessoas tendem a esquecer-se na doutrina liberal. Outra questão importante é a não intervenção do Estado em vários assuntos, como tu dizias há bocado, sendo assuntos económicos ou assuntos da vida própria, pessoal, de cada um. E para mim é um bocadinho isso, é responsabilizar mais as pessoas e dar-lhes mais liberdade, não ter o Estado na cama de ninguém, no quarto de ninguém, nem no escritório, nem em casa, mas também responsabilizar cada um, cada vez que abusam dessa liberdade e entram na esfera individual e esfera de liberdade de outra pessoa.

Menos Estado é mais liberdade, é um hashtag muito usado pela Iniciativa Liberal.

É sim.

O liberalismo beneficia os menos privilegiados?

Eu acho que, ao contrário do que muita gente tem dito, especialmente no fim do século XX, etc, eu acho que sim, porque o liberalismo não é só focado nas classes mais altas, como é dito muitas vezes. Acho que consegue beneficiar muito as pessoas que não têm tantos meios e recursos, especialmente porque as incentiva e não cria barreiras à iniciativa dessas pessoas. Por exemplo, um professor muito bom, nos Estados Unidos da América, não consigo precisar a faculdade, fez um exercício com uma turma grande de alunos pra explicar precisamente esta questão, liberalismo versus socialismo e a meritocracia, que vem junto um bocadinho ao liberalismo, em que a média da turma era mais ou menos 12 valores de zero a 20. E ele explicou, disse as notas individuais de cada um e depois disse que na avaliação iria dar a média da turma, e não as notas de cada um, a cada um dos alunos. O que aconteceu no teste seguinte, e foi interessante ver, foi que as pessoas que tinham tido mais do que a média de 12 valores estudaram menos e as pessoas que tinham tido menos do que a média de 12 valores ainda estudaram menos do que tinham estudado. Portanto, a média da turma em si baixou exponencialmente. E eu acho que é importante também salientar isso, é que o liberalismo, como puxa um bocadinho pela meritocracia, e depois há várias vertentes do liberalismo, eu acredito na meritocracia acima de tudo, como puxa pelo mérito de cada um e puxa pela concorrência, etc, eu acho que consegue privilegiar qualquer pessoa, independentemente do estrato social.

Mas, por exemplo, Serviço Nacional de Saúde, és contra ou a favor?

Não é uma questão de ser contra ou a favor. A Iniciativa Liberal, por acaso, propõe uma medida interessante nesta questão, que é a ADSE Que é um serviço que é limitado somente aos funcionários públicos, é um serviço eficiente, que se autorregula e que não está aberto a todas as pessoas, enquanto o SNS, o Serviço Nacional de Saúde, está aberto. A questão é que o Serviço Nacional de Saúde tem demonstrado ser muito impotente nos últimos anos e as listas de espera têm aumentado e têm verificado isso. Portanto, a nossa proposta não é contra o Sistema Nacional de Saúde, é sim, e na minha perspetiva, é uma medida verdadeiramente liberal, porque em vez de dizer às pessoas que só vamos pôr privado ou só vamos pôr públicos, damos oportunidade de escolha. Portanto, alargamos a ADSE a todas as pessoas, independentemente de serem funcionários públicos ou funcionários de empresas por conta de outrem, etc., pelo que elas podem auferir desses serviços e podem escolher se querem um público ou privado. Acho que uns números apontam que os funcionários públicos, há volta de um milhão e poucos, 900 mil, acho que estes são os números, eu não quero entrar em tecnicidades, mas 900 mil, de facto usam, quando têm a oportunidade de escolher entre um privado e um público, escolhem o privado. Portanto, eu acho que essa liberdade de escolha para as pessoas é bastante importante.

A social-democracia era para Bernstein a nova forma política do liberalismo. São herdeiros da social-democracia nesse sentido?

Eu não acho que sejamos herdeiros da social-democracia. Aliás, eu acho que o liberalismo vem antes da social-democracia. Mas nós diferenciamo-nos muito de várias medidas sociais-democratas, nem falando da política portuguesa nesta altura, nós liberais, e eu especialmente, de algumas medidas sociais-democratas. A social-democracia entra com o Estado um bocadinho mais do que eu gostaria que entrasse. E aí é um ponto mesmo muito diferenciador, tanto na economia como em questões sociais.

A revolução liberal remonta a 1820. Dois séculos depois, como é que tencionas fazer a revolução liberal por cá?

Eu, como sou liberal, não acredito muito em revoluções. Sou liberal, um bocadinho conservadora nesse aspeto, acho que é por reformas. Não acredito mesmo que as revoluções sejam benéficas para a sociedade e para o país, porque muitas vezes essas ruturas tão espontâneas levam a que a política a seguir seja muito shaky, um bocadinho tremida. Mas sim, acho que passaria um bocadinho mais na sociedade civil do que pelo Estado. Eu acho que as pessoas têm que se consciencializar destes ideais, porque acho que o liberalismo não é muito falado em Portugal ainda. E eu acho que essencialmente passa por uma responsabilização das pessoas e as pessoas perceberem que conseguem ter mais liberdades se forem mais responsáveis no uso dessa liberdade. Os portugueses têm um bocadinho esta noção que o Estado é um Estado ama, portanto, um nanny state. Acho que passa um bocadinho por aí, cada vez mais existir movimentos cívicos, civis, de intervenção nesse aspeto e por isso é que eu também, se quiseres falar disso, por isso é que eu também me juntei à Students for Liberty. Apesar de um partido, acho que passa um bocadinho por reformas a nível da sociedade civil e não tanto estadual.

Os liberais do século XIX opunham-se ao Rei Sol, Luís XIV. Quem é o grande opositor dos liberais do século XXI? O Estado?

É o Estado, se quiseres falar de figuras políticas, socialismo é o grande opositor, eu acho, hoje em dia, e líderes que tendem a abusar do poder que têm, porque é certo e sabido, cada vez que damos mais e mais poder ao Estado, o Estado não é uma entidade abstrata, é constituído por pessoas e as pessoas tendem a abusar do poder que têm, portanto, é um bocadinho por aí.

O historiador Yuval Noah Harari considera que o humanismo liberal foi o mais bem-sucedido movimento do século XX, mas que enfrenta agora uma crise quando o avanço tecnológico coloca em questão algumas das suas bases. A tecnologia conhece-nos melhor do que nós próprios. A ciência vai diminuindo o espaço para crermos no livre-arbítrio. Como é que achas que o liberalismo vai sobreviver a estes desafios?

Eu acho que consegue sobreviver se não negarmos todas estas questões, que são questões que põem em causa um bocadinho, e eu percebo quando se diz que pode pôr em causa a sobrevivência do liberalismo, porque são questões que os grandes autores do século XIX e século XX não conseguiam prever, por motivos óbvios. E acho que é esta geração, agora, que contactando com todos estes meios novos e à nossa disposição, consegue ter soluções. Mas acho que o liberalismo, apesar de tudo, a responsabilização individual é mesmo muito importante e desde que estes meios de informação e esta tecnologia não caia nas mãos do Estado e nas mãos de pessoas que vão utilizar esta informação indevidamente, e mesmo se cair, o liberalismo estará lá para fazer uma oposição mais firme, eu acho, do que muitos movimentos socialistas.

Também há quem considere que o liberalismo é uma coisa de intelectuais, sem grande representação nas populações, que à direita costumam ser mais conservadoras. Esta pode ser uma barreira à afirmação da iniciativa liberal?

Eu acho que em Portugal, talvez. Porque nós temos uma tradição nos últimos 40 anos de dois partidos muito fortes e com uma intervenção estadual bastante acentuada, que é o PS e o PSD. Portanto, eu não acho que o liberalismo seja e deva ser um movimento só de intelectuais. Aliás, acho que o liberalismo não nasce desse intelectual do século XIX. O liberalismo, aliás, o Hayek também dizia que o liberalismo é a primeira doutrina política que consegue fazer com que um homem que sempre trabalhou no campo no século XIX consiga ascender à burguesia alta e porque abole as classes, faz abolir as classes. Eu acho que as pessoas, mesmo o cidadão comum, o liberalismo não é e não deve ser tomado como um monstro difícil de sete cabeças de interpretar. Eu acho que é bastante acessível.

A Iniciativa Liberal destaca-se pela forma irreverente de comunicar. Em relação à erva, por exemplo, o vosso cartaz diz: "Liberalize, deixem de enrolar a liberalização, deixem de enrolar a legislação ou não te deixes enrolar pelo bloco." E ainda assinalaram o 20 de abril, que é conhecido como o Dia Mundial da Cannabis. O Estado e a economia sairiam beneficiados da legalização da cannabis?

Eu sou a favor da legalização da erva e a economia, sobretudo, eu não sou economista, mas a economia sobretudo, acho que sim, especialmente por todas as questões de mercado negro, etc, do dinheiro que entra no mercado negro e que sai da esfera pública e do mercado. E acho que socialmente é o tema mais importante. Socialmente, acho que se beneficiaria muito. Portugal é um exemplo para muitos países lá fora pela descriminalização do consumo de drogas, mas acho que ainda há caminho a fazer em relação a isso e tirar o estigma do consumo de erva, cannabis, que muitos estudos apontam que é menos nocivo do que outras drogas.

Por que achas que há este estigma tão forte em Portugal em relação à erva?

No mundo inteiro, eu acho que vem dos anos 60, e de políticas contra os mexicanos dos Estados Unidos, que fizeram com que associaram, por isso é que se chama marijuana, associaram a erva aos mexicanos que vinham, e acho que esse estigma foi um bocadinho adotado por Portugal e também não está muito presente na nossa cultura, ao passo que o álcool e o tabaco está muito mais presente. São drogas também igualmente ou piores para a saúde de uma pessoa. Acho que deveria ser considerado politicamente.

"Contribuintes de todo o país, uni-vos pela redução da carga fiscal." É mais um cartaz bastante criativo da Liberal. Os impostos são uma das vossas bandeiras. O que vocês defendem exatamente nesta matéria?

O nosso programa eleitoral ainda não saiu, mas há uma medida que já está out, que é acerca da taxa única de IRS, 15%, uma flat tax, que isenta as pessoas até os €650 de rendimento, as pessoas que trabalham por conta de outrem. Isenta as pessoas até os €650 de pagar IRS e a partir desses €650 pagam todos. Não é progressivo em termos de classes, pagam todos 15%, o que significa que uma pessoa que faça €700, paga nesses €50 de intervalo entre €650 e €700, paga cerca de €7,50. Portanto, essa é uma medida forte e há uma isenção por cada filho, também a partir desses €650 há uma isenção fiscal. Acho que ajuda as famílias, é um ponto importante. E sim, essa é a nossa medida que está mais ativa neste momento nas redes sociais, etc., que nós estamos a tentar passar.

Maria, há filhos que tendem a seguir as pisadas dos pais. Se a mãe for do Benfica, vamos ser do Benfica. Se o pai for do Sporting, vamos ser do Sporting. O teu pai, José Castelo Branco, é um grande liberal, escreveu em blogs como insurgente de direita liberal. O liberalismo foi-te passado de alguma forma e adaptado por ti?

Por acaso foi, bastante. Eu no outro dia estava a me lembrar com o meu pai, estávamos a brincar com isso, que desde pequenina, que ele faz um exercício conosco como brincadeira, nós não comíamos gelados, a não ser em ocasiões especiais, etc. E sempre que eu conseguia comer um gelado e pedir um gelado ao meu pai, ele tirava-me sempre uma grande colherada de gelado e dizia: "Isto é o teu imposto." E acho que desde aí que me criou uma aversão um bocadinho grande contra o Estado, que me tirava as minhas coisas. O meu pai brincava com isso. Mas sim, foi um bocadinho por aí.

Ele é mais conservador e tu és mais libertária, pelo que percebi.

Certo, exatamente.

Como é que foste para aí?

Acho que foi o curso natural. O meu pai sempre me educou, e a minha mãe também. A minha mãe foi investigadora em arte contemporânea, portanto o meu ambiente em casa e dos meus irmãos também, sempre foi muito questionar tudo e de intervenção cívica. Aliás, os meus pais incentivaram-me mesmo a escrever aquela carta que falámos há bocado, porque esta questão de cidadania ativa foi sempre muito incutida. Em Valprazeres, nós andávamos a colher cerejas ou a plantar cerejeiras na altura em que o meu pai estava a lançar a produção agrícola e a seguir ao jantar íamos ter grandes conversas sobre política, etc. E desde pequenina que sempre tive essa o meu pai não me tratava de todo com condescendência, aliás, puxava-me muito, tratava-me de igual por igual, o que foi muito bom. Eu resistia um bocadinho às ideias dele. Depois, mais velha, fui ler alguns autores que ele me sugeriu e por acaso identifiquei-me, seja por influência ou não, não sei, mas eu fui mais para o lado libertário. Eu brinco muito com o meu pai, acho que até sou mais libertária do que ele em alguns aspectos, especialmente sociais. O meu pai diz que faz parte da idade.

Vai passar com a idade?

Não sei. Acho que não vai passar. Não sei como é que fui um bocadinho para aí, foi a vida no geral e por acaso identificamo-nos muito em questões de doutrina política, etc., mas depois nessas questões, diferenciamo-nos um bocadinho, o que é bom.

Vamos então aqui entrar nas tuas primeiras memórias de discussão política. Como é que te lembraste de escrever uma carta ao Durão Barroso com oito anos? Já aqui disseste que foram os teus pais que te incentivaram. Como é que isso aconteceu?

Porque eu estava muito zangada em casa porque sabia e tinha me informado recentemente que os sacos de plástico eram muito nocivos e estava a conversar sobre isso com os meus pais à mesa e eles disseram: "Maria, escreve uma carta ao presidente da Comissão Europeia, depois vê se ele te responde ou não." Responderam.

Tens aí, não tens, a resposta?

Tenho algures, se quiseres Se quiseres ver.

Eu queria saber que resposta obtiveste.

A resposta é que eu fui muito bossy na altura. Escrevi uma carta a dizer que os sacos de plástico eram muito nocivos para a nossa querida e adorada, às vezes, natureza, etc., e que gostava muito que o Durão Barroso fizesse alguma coisa sobre isso. E depois disse: "Eu não quero influenciar, mas se eu fosse o senhor pensava duas vezes". A carta não foi mesmo tocada pelos meus pais. Eu escrevi e mandei. E responderam-me a dizer que sim, que agradeciam o contributo, mas que ainda estavam a ser feitos estudos em relação aos sacos de plástico, e se de facto eram mais nocivos do que a utilização de sacos de papel, etc. Na altura ainda se estava a fazer esses estudos. Para mim, pareceu-me bastante convincente. E depois eu disse que outra alternativa era reutilizar os sacos de plástico, que eu passei a fazer. E depois escrevi também uma carta na altura ao presidente da Câmara, o doutor António Costa, porque chateava-me muito não haver ecopontos ao pé da minha casa. Aí não me responderam. Mas chateava-me muito e todos os dias ia lá ver se já tinham posto um ecoponto. Não me responderam, mas estou à espera de resposta ainda.

Quem te conhece diz que desenvolveste tendências políticas muito cedo e estou a ver que sim. Quando é que sentes que foste mordida pelo bichinho do debate? Antes dos oito?

Desde sempre, acho eu. Os meus pais brincam muito, eu em criança contestava tudo e queria saber porquê, etc.

Responderam, não é?

Responderam, sim. Até muito tarde, os meus pais, coitados. Mas acho que foi pelo meu pai e pela minha mãe, sobretudo, porque sempre estimularam muito isso. E eu tinha uma posição e o meu pai queria saber porquê e ele ganhava sempre os debates e eu chateava-me muito com isso.

Mas ele alimentava os debates.

Sim, alimentava os debates e dizia-me: "Sim, está bem, isso faz sentido. Houve muitas pessoas a pensar assim antes de ti, portanto, não descobriste a pólvora, vai ler e depois vem ter comigo." E eu fazia isso.

Tão bom. Como é que descreves o teu pensamento político aos 20 anos, assim em traços gerais?

Em traços gerais, o meu pensamento político passa muito pela descentralização do poder, institucionalmente e não só, e politicamente, a nível de políticas, acho que devia passar mais responsabilidade para as autarquias. E desde cedo isso é uma bandeira forte. Passa muito pela liberalização da economia, portanto tirar entraves ao comércio livre, deixar que as pequenas e médias empresas consigam prosperar, porque neste momento acho que a intervenção do Estado ajuda demasiado as grandes empresas e condena demasiado as pequenas e médias empresas, e acho que isso é uma questão que deve ser alterada. Socialmente, sou muito liberal e alguns amigos meus brincam comigo a dizer que um dia vou ser do Bloco por causa disso. O que eu não acho possível. Mas sim, eu não quero que o Estado se meta em lado nenhum da minha vida, da minha esfera íntima. É um bocadinho por aí, em traços gerais.

Tu já foste publicada aqui no Observador, também no Público. Alguns liberais dizem que ainda tens pouco texto para perceber o que é que defendes exatamente. Faz parte das tuas ambições continuar a fazer parte do espaço público com artigos de opinião?

Faz parte das minhas ambições, sim.

Tu dividiste parte da tua infância entre Lisboa e Vale de Prazeres, no Fundão, em Castelo Branco, e curiosamente ou não, no Parlamento Jovem discutiste um tema que te é próximo, como diminuir as diferenças entre o litoral e o interior. Chegaste a alguma proposta em concreto que gostasses ou já estejas a meter em prática?

Na altura, uma das propostas que passou à frente e que foi votada na fase final, porque aquilo tem várias fases e chegámos ao Parlamento e foi discutido e conseguimos passar essa proposta, era a isenção de portagens a empresas sediadas no interior. Eu não falo pelo meu partido aqui, mas eu acho que seria importante, porque nomeadamente a A23, eu não sou do tempo em que se ia para Vale de Prazeres por estradas nacionais, ou seja, já sou do tempo da A23, acho eu. Mas a A23 cortou muitas estradas nacionais ao meio, o que significa que muitos trabalhadores que têm que passar pela A23, que é a autoestrada da Beira Interior, têm que pagar portagens e não têm nenhuma outra opção. E muitas empresas também, que estão sediadas no interior, para vir para Lisboa pagam muitas portagens e isso era uma das nossas propostas no Parlamento de Jovens e continua a ser uma questão que eu defendo. Acho que contribui muito para a povoação do interior, que é um assunto tão complicado.

E de que forma é que esta tua divisão entre Lisboa e o Fundão, tão vincada, moldou a tua personalidade?

Eu acho que moldou para o positivo. Eu dou graças aos meus pais por não ter crescido só em Lisboa, porque acho que Contactei com várias realidades e cresci em várias realidades que não são próximas das pessoas de Lisboa e do Porto. Nomeadamente, grandes amigos que tenho em Valprazeres, e acho que me moldou um bocadinho pelo gosto pelo campo também. E é um bocadinho o meu refúgio, é um bocadinho Valprazeres.

Chamas-te Maria Castelo Branco, tens raízes em Castelo Branco, ninguém me ia perdoar se não te fizesse esta pergunta, é coincidência?

Mais ou menos. A minha família tem uma história de intervenção política em Castelo Branco, intervenção cívica também. Pode ser coincidência ou não, isso já são raízes familiares antigas. Mas sim, é coincidência que eu por acaso tenha sido cabeça de lista.

Além da Iniciativa Liberal, estás ligada a uma outra plataforma não partidária, a Students for Liberty. Que plataforma é esta e o que é que pretendem exatamente?

É uma plataforma não governamental, que foi criada por volta de 2008 por uns estudantes norte-americanos, que perceberam que não havia nenhuma plataforma que apoiasse, principalmente nos campus norte-americanos, que são muito tomados pelos democratas e pelos liberals, como eles se chamam, mas são mais uma vertente socialista. Não havia nenhuma plataforma para estudantes que fossem libertários e liberais. E então decidiram fazer uma conferência, e apareceram mais de 100 pessoas e eles pensaram: "Vamos fazer isto a sério." Criaram uma plataforma que ajuda estudantes de todo o mundo agora, está nos cinco continentes, ou melhor, quatro agora, a serem líderes no futuro. Portanto, é uma associação descentralizada, o que significa que eu, como local coordinator em Lisboa, coordenadora local, consigo organizar eventos por mim e não tenho que responder a ninguém, a não ser questões de financiamento, porque ninguém sabe melhor do que um local quais são os problemas nas universidades locais. Portanto, é uma organização que ajuda. Eu fui à Sérvia também numa conferência que eles organizaram europeia, e foi muito bom. Conheci muitas pessoas que lutam pelos ideais de liberalismo em países que não é tão fácil como a Bielorrússia. Pessoas que foram presas por lutar por ideais liberais, da minha idade, e promove essencialmente ideais libertários e liberais por todo o mundo.

Só mais uma pergunta para fecharmos definitivamente o capítulo liberalismo nesta conversa, se for possível, sou capaz de lá voltar outra vez. Mas Maria, jantavas com o John Locke, o Adam Smith ou com o Hayek?

Isso é uma pergunta difícil. É uma pergunta muito difícil. Se pudesse jantar com os três, acho que jantava com os três. Não podendo jantar com os três, acho que jantava com o Hayek.

Por quê?

Porque é um dos meus grandes ídolos. Honestamente, eu gosto mesmo muito dele, de muitos livros dele. Um livro muito importante para mim, no meu desenvolvimento dos ideais políticos, é "O Caminho para a Servidão".

E quando é que tropeçaste nele?

Tropecei há três, quatro anos. Tinha 17 ou 16 anos e lembro-me de ter adorado o livro e ter falado com o pai sobre isso.

O que é que descobriste lá?

É um livro que foi pouco consensual na altura, condena o regime nazi como um regime não de direita, não socialista, mas como um regime precisamente socialista pela intervenção do Estado, e isso marcou-me bastante. E marcou as minhas discussões com alguns amigos meus socialistas. E outra coisa, o livro alerta muito para os perigos do socialismo para o cidadão comum e exalta muito o liberalismo numa altura pós-guerra em que está a ser um bocadinho duvidado, e isso é muito importante. Eu gosto muito do Hayek, jantava com ele.

Estamos à conversa com a Maria Castelo Branco, que, convém lembrar, tem apenas 20 anos. Como é que vais passar este verão, em campanha?

Em campanha. Eu estava-te a dizer, eu tirei umas férias estratégicas agora para me conseguir concentrar na campanha agora em Castelo Branco, que teve à volta de 200 votos nas eleições europeias e que eu espero conseguir mais, porque não foi feito nenhum tipo de campanha lá, e mesmo assim eu fiquei mesmo muito surpreendida. Fiquei muito contente pelo meu distrito. Sim, irei passar no Fundão, em Valprazeres, a fazer campanha por Castelo Branco.

Eu ouvi dizer que este sábado fizeste um discurso em Cascais.

Fiz.

Onde mais uma vez foste muito simples e muito direta ao assunto. Foi o teu primeiro discurso?

Foi. E não tinha preparado porque era um jantar de apresentação do João Cotrim, que é o nosso cabeça de lista por Lisboa, e eu estava lá, e estavam lá mais alguns cabeças de lista que tinham discursos preparados, e eu fiquei assim um bocadinho com medo, porque não tinha nada preparado, mas acho que correu bem. Foi o meu primeiro discurso, o primeiro de muitos, espero eu.

E não tens medo de falar em público? É um medo comum a muitas pessoas.

Não sei, nunca tive. Eu gosto de falar em público.

O que é que sentes quando te estás a expressar em público? O que é que sentiste este sábado em Cascais?

Sinto-me muito contente, eu gosto muito. É uma sensação de, não sei expressar em bom português, mas é uma sensação de humildade muito grande, que nos cobre, porque estou a falar perante pessoas, especialmente eu estou a falar perante pessoas, todas elas mais velhas do que eu, e estou a fazer um discurso, mas é muito bom, gosto muito.

Sentes como um privilégio?

Muito privilegiada, sim.

Os apreciadores dos teus textos dizem que és eficiente na forma e no conteúdo. E eu pergunto-te desde que idade é que lês e como é que te foi incutida a leitura. Imagino que tivesses imensos livros em casa.

Tive e ainda tenho muitos para ler, espero eu. Desde muito cedo, mais ou menos desde que aprendi a ler, e aí devo muito à minha mãe também, sendo de arte contemporânea, que sempre me incentivou a ler tudo e mais alguma coisa. Lembro-me que os meus livros preferidos na infância, quando escrevi esta carta, era a Agatha Christie, que eu adorava.

Gostavas de policiais.

Gostava muito de policiais. Foi um pouquinho desde aí. E o gosto pela escrita também foi se desenvolvendo a partir da leitura.

E quais os autores que mais te marcaram, além de Hayek, não só no pensamento liberal, também na literatura?

Eu diria que um dos autores que mais me marcou, recentemente e não só, é o Dostoiévski, que é um escritor russo e que eu admiro pela sua densidade.

Densidade psicológica.

Completamente. numa altura em que o nosso Eça de Queiroz, de quem eu também gosto muito, estava a escrever sobre o social e os problemas sociais portugueses, os russos estavam envolvidos num drama psicológico com uma densidade psicológica avassaladora. Eu gosto muito de Dostoiévski, acho que foi um dos autores que mais me marcou. Também teria que dizer Isaiah Berlin. Eu gosto muito enquanto pensador liberal, e acho que são assim estes três grandes. E a Hannah Arendt também.

Como é que a cultura e a política do Médio Oriente se atravessaram no teu caminho? Uma paixão que te levou a aprender árabe clássico.

Sim, ainda estou a aprender e ainda me dá um bocadinho de dor de cabeça. Isto vai sempre volta aos meus pais e estou-me a sentir assim

Com muita gratidão.

Sim. Mas foi numa altura em que a minha mãe estava a investigar assuntos relacionados com a arte islâmica, e o meu pai também. Uma das especializações do meu pai é sobre a política no Médio Oriente, portanto sempre esteve muito presente. E a minha mãe estava a investigar para fazer um journal científico sobre a arte islâmica e eu aprecio isso muito na minha mãe, que ela fica muito focada no tema e leva o tema até o fim. E nós discutíamos muito, porque eu envolvi-me nisso, comecei a ver palestras online com ela, etc. E ela apresentou-me os sufis, o sufismo islâmico, que é quase uma vertente mística do Islão, que é incrível na literatura, especialmente em poesia, que falam de assuntos absolutamente incríveis para o século XII, XIII e XIV, como o Ibn Arabi. Por acaso, em relação à tua pergunta anterior, é um dos autores que mais me marcou também. Que escrevem sobre religião, sobre a unidade das religiões, sobre Deus de uma forma que eu nunca tinha lido, e eu não sou religiosa, mas marcou-me muito. E a partir daí, o meu interesse pelo Médio Oriente e pela cultura árabe despoletou. E foi a partir daí que eu comecei mesmo a envolver-me mais.

Olha, Maria, tu pareces estar a entrar naquela categoria pouco povoada chamada "mulheres na política". És feminista? Essa palavra que está tão na moda.

Tão na moda. O feminismo atual, na terceira vaga do feminismo, etc, e parece que estamos a entrar numa quarta vaga do feminismo, não me identifico. Identifico-me, sim, com a primeira e segunda vaga do feminismo, a primeira vaga do sufrágio, os sufragistas. Acho que foram muito importantes para onde nós estamos agora e acho que a luta pela valorização das mulheres no local de trabalho é uma luta que ainda tem que ser feita e que eu aprecio bastante. No entanto, feminista no sentido em que agora se está a usar esta palavra, defensora de cotas, imagino que também querias perguntar.

Sim, queria saber qual é a tua posição nesse tema.

Eu não sou a favor das cotas, apesar de compreender o problema e de perceber que existe. Existe uma dificuldade em mulheres chegarem a cargos de poder. Acho que a solução não vai à raiz do problema. Mas não, não me considero feminista.

E para os ouvintes mais jovens que nos possam estar a ouvir, por que trocaste o Direito na Nova pela Ciência Política na Católica?

Troquei o Direito na Nova, apesar de ser uma faculdade muito boa, porque na altura quando eu quis escolher o curso e quando tinha que escolher o curso, estava muito indecisa, a pensar que Direito me daria uma base, e deu uma base no ano que eu lá estive, mas deu uma base muito boa. E não me arrependo da escolha que fiz, nem me arrependo de ter mudado. Mas cada vez mais ia entrando no mundo do Direito e cada vez mais me ia apercebendo que o que eu gostava mesmo era de questionar ou de ir ler autores que explicavam por que isso era assim. Mais do que esta parte analítica do Direito, e apesar de me ter dado muito hábito de trabalho, foi muito bom nesse aspecto, e gostei muito. Mas decidi que não era para mim, que Ciência Política era mesmo aquilo que eu queria fazer.

E foi uma decisão inteiramente tua e apoiada pelos que estão à tua volta?

Sim, o meu pai avisou-me que se calhar não era a melhor opção, que eu devia continuar em Direito.

Sendo ele professor de Ciência Política.

Sendo ele professor de Ciência Política. E disse: "Maria, cuidado, faz a tua escolha, é claro que sim, mas eu não apoio inteiramente". A minha mãe também disse isso, mas eu decidi ir mesmo para Ciência Política e não me arrependo. Gosto muito do curso.

E olha, Maria, a tua experiência nos Salesianos de Lisboa foi marcante? Já sei que não és religiosa. Não acreditas em Deus.

Não é não acreditar em Deus. Eu não me identifico com nenhuma igreja, nenhuma instituição. Acho que é um bocadinho bem liberal da minha parte nesse sentido. Mas marcou-me. Eu estive lá desde o primeiro ano ao 12º. Nunca mudei de escola. Portanto, foi uma experiência marcante, era a minha segunda casa durante 12 anos e foi muito importante, especialmente para questionar várias coisas e havia abertura suficiente para questões religiosas, por exemplo, serem questionadas. E eu gostei muito, acho que a educação foi fantástica. Acho que os professores são fabulosos e marcou-me muito nesse sentido, na parte acadêmica, puxavam sempre por mim, etc., e agradeço-lhes imenso.

Maria, parece haver uma semelhança muito evidente entre ti e o Bloco de Esquerda. Ambos têm 20 anos de existência. O Bloco foi o tema do teu primeiro artigo no "Público" em março. Como é que descreves o Bloco em três palavras?

O Bloco em três palavras. Oportunista. É uma descrição acertada. Um partido de causas e não sério.

E o PCP?

O PCP acho que é um partido que, apesar de tudo, é consistente nas suas ideias e que não se maquilha como o Bloco se maquilha.

E o PSD? Vou correr tudo rapidamente.

Eu conheço algumas pessoas do PSD, não quero ofender, não quero ferir orgulhos, mas o PSD acho que nesta altura, especialmente, arrisca-se a ter um resultado bastante fraco pela oposição que o doutor Rui Rio está a fazer. Portanto, o PSD, a ver vamos.

E por falar em resultado fraco, como é que vês o CDS?

O CDS, eu estive na JP.

Já foste Jotinha, então.

Já fui, durante um ano e poucos. Portanto, eu não me identifico e saí porque não me identifico mesmo. Eu achei que havia um lugar para mim, liberal, dentro da JP do CDS e decerto haverá, mas acho que o CDS tem cometido alguns erros graves. Assunção Cristas, nomeadamente com a questão na altura da semana dos professores, etc, com a questão da passadeira arco-íris, acho que cometeram alguns erros graves de comunicação e da doutora Assunção Cristas ter vindo falar sobre uma questão que é de uma freguesia. Portanto, acho que o CDS tem que step up.

E o PS, como é que olhas para o PS?

Um partido de corruptos. Partido de corruptos acho que é uma descrição acertada. Eu tenho um antagonismo forte ao PS.

O PS ou o socialismo em geral, não é?

Sim, exatamente.

E a Aliança, como é que olhas para a Aliança?

Um partido que tenta ser novo, com pessoas já muito velhas na política portuguesa e que acho que isso é um problema na Aliança.

E o PAN?

Olho para o PAN como um partido a ter atenção, porque o PAN pega numa questão muito importante que são as questões ambientais.

Está a fazer agenda, não é?

Está a fazer uma agenda muito importante a nível ambiental. Eu acho que, no entanto, é preciso ter cuidado porque o PAN atrás dessa agenda ambiental tem uma agenda, para mim, bastante socialista e que se alinha muito aos partidos da esquerda e acho que as pessoas que votam PAN deveriam também consciencializar-se dessa outra parte do partido. Portanto, acho que é um partido importante, é um partido a quem eu dou os meus parabéns pelo resultado que conseguiram nas europeias, extraordinário, e por serem um dos únicos partidos a ascender na política portuguesa sem ninguém da política portuguesa, um bocadinho como a Iniciativa Liberal, mas que sim, eu acho que há que ter cuidado com o PAN.

E a Iniciativa Liberal? Não devia faltar.

A Iniciativa Liberal acho que é um partido único na política portuguesa, não só pelo alinhamento ideológico, mas também pelas pessoas que tem e que tem muitas pessoas muito competentes que nunca estiveram na política. Tem muitos jovens também e acho que tem muitas mensagens que devem ser ouvidas.

E está a usar muito bem as redes sociais, o Twitter e o Instagram. Se não existisse a Iniciativa Liberal em Portugal e com toda a tua intensidade política, que outro partido escolherias para figurar? Já sei que o CDS está riscado.

Está riscado, foi riscado. Apesar de eu gostar muito do Francisco Camacho, da JP Lisboa, e do Rodrigo dos Santos, mas não sei, acho que não escolheria nenhum partido. Esse era o meu problema antes da Iniciativa Liberal existir, era que não conseguia sentir. Qualquer pessoa que diga que um partido representa 100% das suas ideias é perigosa, mas não existia nenhum partido com o qual eu me identificasse, portanto, acho que nenhum.

Por que achas que os jovens que escolhem partidos políticos para participar politicamente são cada vez menos? A figura do Jotinha já não é apreciável, já não é apelativa.

Eu acho que não. Acho que já não é muito apelativa, mas acho que tem, sobretudo, a ver com a Filipa Osório neste jantar a que eu fui, em que fiz um discurso. Também no discurso dela, apontou uma questão muito interessante que é a abstenção jovem, especialmente, não se combate com novas políticas, mas combate-se com qualidade política E acho que em Portugal, sobretudo, têm sido os mesmos partidos há 40 anos que já não despertam interesse nos jovens. O que eu vejo muito em vários jovens da minha idade é que preferem interessar-se por assuntos políticos internacionais e de países que não são Portugal, do que propriamente os assuntos portugueses, porque acho que há um problema inerente à nossa política de não falar para os jovens, sobretudo. Acho que o PAN tem instrumentalizado isso muito bem com as questões ambientais, daí estarmos a falar há bocado, mas acho que é um sintoma de uma má qualidade política neste momento.

A Iniciativa Liberal fez com que não passasses pelo papel de jota. O teu papel na Iniciativa Liberal é já de uma política experimentada ou não eras cabeça de lista por Castelo Branco, não estarias na lista para as europeias. Como é ser uma política experimentada aos 20 anos? Convém ir lembrando as pessoas da tua idade.

Certo. Bem, eu não sei se sou política experimentada, acho que sou política por experimentar ainda, estou a dar os primeiros passos. É muito bom. Tenho a vantagem de ter pessoas mais velhas do que eu com quem posso aprender imenso, e isso é muito bom. E é uma oportunidade fantástica. Eu agradeço imenso à Iniciativa Liberal, ao Carlos Guimarães Pinto, de me ter dado esta oportunidade de fazer alguma coisa pelo meu distrito, que acho que é essencial. Eu fico muito contente e fico muito extasiada com isso.

E olha, Maria, achas que a tua vida vai continuar neste caminho ou vês alguma possibilidade de seguires outro trajeto que não a política?

Eu nunca quis fazer da política a minha profissão, nem quererei no futuro, espero eu, porque acho que uma pessoa que depende somente da política para sobreviver, torna-se muito facilmente corrupto. E, portanto, a minha ambição de carreira mesmo, seria mais no sentido de trabalhar em questões de segurança, em questões de serviços de informação, na União Europeia, etc. Gostava muito de ir tirar o mestrado em Inglaterra. Minha universidade predileta seria Oxford, por acaso.

Onde já estiveste.

Onde já estive a fazer um seminário. Mas sim, espero que a minha carreira não se defina somente pela política, apesar de querer permanecer na vida pública.

A Maria tem uma enorme preparação e por isso terá um enorme futuro. Daqui a 15 anos vai rebentar com isto tudo. Vai ser a primeira presidente mulher da Iniciativa Liberal e vai ser a primeira primeira-ministra da Iniciativa Liberal daqui a 10, a 15 anos. Quem o diz é o próprio presidente do teu partido. Cumprimentos ao Carlos Guimarães Pinto. Imaginas-te neste cargo de topo?

Imagino, sim, acho que sim. Daqui a 10, 15 anos, acho que o Carlos está a ser muito simpático. Mas sim, imagino e quererei muito lá chegar. Desde pequenina que eu digo ou que quero ser filósofa, como os meus pais diziam que tinham criado um monstro, ou que quero ser primeira-ministra.

Já dizias desde pequenina.

Sim, acho que sim, acho que me vejo.

As conversas são como as cerejas e a nossa está a chegar ao fim. Alguma palavra final sobre as cerejas do Fundão, Castelo Branco?

Cereja do Fundão é uma redundância. Sim, muitas palavras sobre as cerejas e sobre o Fundão, sobre Castelo Branco. Acho que é um distrito com muito potencial. Os beirões são pessoas que não se vitimizam, apesar de tudo isto que tem estado a acontecer com os incêndios, que não se vitimizam, que lutam pela sua terra e pelas cerejeiras. Por exemplo, a Delfina, que eu conheço muito bem, de Vale Prazer. O fogo chegou à propriedade dela e a Delfina teve a combater o incêndio quando os bombeiros não conseguiam chegar, que esteve a combater o incêndio e perdeu grande parte das suas plantações, que atenção, e isto é muito difícil de perceber em Lisboa, mas estas pessoas passam, e o meu pai também, seis, sete anos para crescer uma cerejeira, que de repente se vai embora por questões que não são dela, por responsabilidades do Estado que foram negligenciadas. Portanto, acho que queria passar essa palavra.

E a palavra ficou passada. Apaixonada pelo pensamento e literatura liberal, foi na iniciativa com o mesmo nome que encontrou uma plataforma de propulsão do liberalismo em Portugal, com uma cabeça aberta ao mundo, gosta de música, de literatura, de viagens, é uma grande apreciadora da cultura e política do Médio Oriente, o que a levou a aprender árabe clássico, que lhe tem trazido algumas dores de cabeça. Foi no 11º ano que passou à fase final do Parlamento de Jovens para discutir temas desafiantes, como diminuir as diferenças entre o litoral e o interior do país. Passou também por Oxford num seminário de Direito Internacional que a Universidade Nova promoveu. Tem um compromisso e entusiasmo político raros para os 20 anos de existência. Gosta muito de escrever, gosta de poesia, comunica de forma clara. Vê-se que há estudo por trás. A sua primeira publicação foi "Numa Aventura", em 2014, quando ganhou um prémio literário. Hoje apraz-lhe escrever sobre outras aventuras, as da política portuguesa, e nós cá vamos ficar para acompanhar as peripécias da Maria Castelo Branco, que nos fez companhia na última hora no Observador.

Vá, minha geração, nasceste cansada, mimada, doente por tudo e por nada, com medo de ser inventada. O que é que te falta agora que não te falta nada? Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração? Ou só te resta morrer desintegrada? Mas minha geração valeu a trapaça. Ai, até teve graça. Tanta conversa, tanta utopia tonta, tanto pó pó. E a comida estava ótima. O que vamos fazer?

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