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A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder a essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar. É uma boa pergunta, essa.

E esta segunda-feira, pós-eleições, falamos de claques, de vistas curtas, desastres à esquerda, dilemas das oposições, mas começamos com outros dilemas. O de vencedores. O de vencedores, como é que Luís Montenegro vai calçar a bota, Bruno?

É um dilema, Carla, mas não será dos piores para Luís Montenegro. Como se diz no futebol, é uma boa dor de cabeça. A maioria maior, a maioria mais elevada pedida por Luís Montenegro, deu lugar a uma maioria relativa reforçada, mas ainda longe da sonhada maioria absoluta. Longe, se só contarmos os deputados da AD, que cresceu, mas também longe se acrescentar os deputados da IL, que era um dos objetivos, uma das possibilidades, haver uma maioria absoluta juntando AD e IL. Esse será o lado negativo, talvez o único para a AD, que resulta da noite eleitoral de ontem. É verdade que não capitalizou por completo a queda acentuada do PS, mas também não sofreu tanto quanto poderia ser de esperar com a subida do Chega, ou seja, o até agora principal partido da oposição, o PS, um dos partidos históricos fundadores da nossa democracia, sai bastante fragilizado destas eleições, o que num cenário em que aparentemente tudo se mantém, traz grandes novidades à geometria do poder. Montenegro sacudiu a poeira da CPI não viva, subiu a parada ao apresentar a moção de confiança e com esta jogada conseguiu para já eliminar um adversário político, Pedro Nuno Santos. Agora resta saber se conseguirá com isso melhores condições de governabilidade ou com o novo PS ou com o Chega de sempre.

Paulo, então e as oposições, como é que vão calçar a bota?

Bom, é um dilema que cada um tratará de resolver à sua maneira. No caso do PS, sabemos que já não será Pedro Nuno Santos a definir a linha face ao novo governo da AD. Vai o PS, de facto, deixar governar Luís Montenegro sem ameaças regulares à sua continuidade? Ou vai, como sugeriu ontem ainda, o ainda líder do PS, tentar inviabilizar a governação? O próximo líder socialista terá como primeira tarefa, de facto, definir essa linha. E depois há o Chega, que sai reforçado desta eleição e que poderá passar a líder da oposição. Resta contar e apurar os mandatos dos círculos da imigração para fazer essas contas finais. Em princípio, o Chega vai ultrapassar mesmo o número de deputados do PS. Mas ainda assim, no novo quadro parlamentar, o governo só poderá cair se o Chega e o PS se unirem. O primeiro grande teste vai acontecer daqui a cinco meses, quando estiver em discussão o orçamento de Estado para o próximo ano. Mas uma coisa é certa: ninguém se atreverá tão cedo, certamente, a encurtar uma legislatura.

Bruno, então e podemos falar em hecatombe da esquerda?

Podemos falar num cenário de devastação em que apenas o LIVRE tem razões de contentamento. Devastação porque os dois partidos que apoiaram o PS no governo da Geringonça ficaram reduzidos a uma expressão histórica mínima. E pior do que isso, na perspectiva da esquerda, é ter um Parlamento em que mais de dois terços dos deputados se sentam à direita no Hemiciclo, ou seja, em teoria, a direita até podia avançar para uma revisão constitucional sem necessidade dos votos do PS, o que nunca tinha acontecido até agora na história da democracia portuguesa. Haverá muitas explicações para o desastre eleitoral da esquerda, desde profundas alterações sociológicas, que até nem são exclusivo da sociedade portuguesa, a um cansaço em relação ao domínio da esquerda nas últimas duas décadas com os governos do PS. Mas o certo é que os partidos que antes representavam os anseios de uma parte significativa da população portuguesa, se desligaram desse povo, e o povo também parece já não acreditar no que estes partidos lhe têm para dizer e propor. Estão à deriva os partidos, estão sujeitos também aos efeitos da erosão e não é apenas uma derrota pontual, é o aprofundar de uma tendência que põe em causa, a breve prazo, a sobrevivência de PCP e do Bloco de Esquerda.

Motivo para reflexão. Outra também, Paulo. Quando é que as claques partidárias vão perceber que os jornalistas só estão a fazer o seu trabalho?

Isto está a demorar um pouco. Tornou-se, de facto, norma as assobiadelas, apupos, os gritos, quando nas noites eleitorais os jornalistas fazem aos líderes dos partidos alguma pergunta de que estes não gostam. Ontem voltou a acontecer naquilo que foi visível nas televisões, pelo menos na sala do PS e na sala da AD, pois um dos papéis da imprensa é precisamente esse, fazer as perguntas que os líderes políticos consideram incômodas e pedir respostas para os temas que gostariam de evitar. Os apupos, de facto, só reforçam a importância dessa função e só demonstram uma certa falta de cultura democrática ainda que continua a persistir. Deviam estar muito mais disponíveis estas claques partidárias para ouvir argumentos fora da claque. Decerto tornariam os partidos melhor, mais ligados à realidade e provavelmente até ajudava a evitar alguns desastres eleitorais.

A questão é difícil. Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder a essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar. É uma boa pergunta, essa.