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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.

Bruno, este primeiro discurso fica para a história ou não fica para a história?

Só a história poderá responder essa pergunta. Esperemos que o tempo passe, mas ficaram algumas notas importantes deste primeiro discurso de António José Seguro como presidente da República. A primeira foi o reforço da ideia de que não vai dissolver o Parlamento só porque o orçamento não é aprovado. Sabemos como isso marcou os mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa, essa ideia. Seguro disse que é preciso estancar o frenesim eleitoral em que temos vivido e, por isso, os partidos sabem que da parte do presidente não vamos todos acorrer para as urnas à primeira crise. Por outro lado, esta mensagem também pode libertar a oposição para votar contra o orçamento e assim passarmos a viver em duodécimos. Vamos ver também como é que a história irá tratar o compromisso do novo presidente para se encontrar um entendimento para a saúde. É que muitos têm tentado, nenhum até agora o conseguiu. E houve outra coisa que António José Seguro disse, e aí tem toda a razão: não vai poder agradar a todos. Isso não há nenhum presidente que consiga.

Paulo, então será que o governo e os deputados tomaram nota da lista de problemas enunciados pelo novo presidente?

É bom que tenham tomado, porque as palavras de Seguro não foram brandas. Podemos até citar aqui uma parte do discurso. Ele diz que Portugal enfrenta desafios estruturais que se arrastam há tempo demais, crescimento económico insuficiente, economia baseada em baixos salários, desigualdades persistentes, pobreza constante, envelhecimento demográfico, morosidade da justiça, burocracias públicas, dificuldades no acesso à saúde e habitação, falta de mão de obra, escassez de oportunidades para os mais jovens, insegurança para os mais idosos e desconfiança nas instituições e na política. A lista é longa e acrescentou depois, Seguro, que é urgente e vital que consigamos alcançar resultados assinaláveis. Só assim o país será viável. Portanto, o diagnóstico não é simpático. Há uma série de trabalhos a fazer e o Luís vai ter mesmo que trabalhar.

Bruno, no Irão, depois da monarquia dos xás, temos agora a monarquia dos aiatolás?

É o que podemos depreender da escolha feita pelo regime. Depois de Khamenei, vem Khamenei Júnior, o segundo filho do falecido líder supremo do Irão. Dizem que Khamenei filho é discreto, e essa é uma qualidade que lhe pode valer, não sei se anos de vida, mas pelo menos algum tempo, mas também que é da linha dura do regime. Ou seja, com esta nova liderança, não temos promessa de uma primavera persa agora em março. Donald Trump já manifestou o seu descontentamento com a escolha do regime, o que significa que Mostaba Khamenei é um alvo a abater, mas isso também já era praticamente sabido. Mas se eliminar a liderança política trouxesse automaticamente democracia, o Irão a esta altura já seria um regime democrático. E os sinais dados pelo regime é que vão ser precisas muitas bombas e muita destruição para se render, se é que isso tem mesmo algum efeito.

Pois é. Não sabemos ainda como é que vamos sair dessa. Paulo, sem acordo, o que é que vai fazer o governo sobre o pacote laboral?

O governo não poderá fazer outra coisa senão levar a sua proposta ao Parlamento e discuti-la lá com as restantes bancadas para ver se é aprovada ou não. A UGT nunca esteve com grande vontade de fazer um acordo, isso foi nítido desde o início, e o que os restantes parceiros dizem neste momento é que a central sindical ficou na mesma posição ao longo de todo o processo, não fez grandes cedências enquanto os outros se foram aproximando. O governo agora não pode ficar refém da agenda política da UGT, tem que ter a sua, foi o governo que foi eleito, ou é o governo que resulta de um Parlamento que foi eleito. E é o governo que tem que governar. E agora na Assembleia da República vamos ver que partidos, que bancadas é que são afinal a favor ou contra as reformas.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é a pergunta.

A pergunta parte de um princípio errado.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Estas perguntas são uma antecipação daquelas que a comunicação social vai fazer.