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Bem-vindo ao "Brainstorming", o sítio onde percebemos que as eleições de alguns clubes têm mais candidatos do que certas autarquias. E ainda assim, entre previsões de filas, suspeitas, reclamações e pessoas que queriam mesmo era votar em nomes que nem estavam nas urnas, vários milhões de almas só querem mesmo ver a luz a brilhar novamente. Por aqui, desta vez, voltamos o foco para Gonçalo Aires, gestor de projeto no ONSE, coletivo de impacto do Douro, Tâmega e Sousa. É com ele que falamos neste "Brainstorming". Antes de lhe darmos palavra, ao Gonçalo, temos ainda para si uma campanha com um ego do tamanho do Instagram, uma seguradora a vender emoção com música de rave dos anos 90 e, lá mais para o fim, um estudo que basicamente avança que o talento em marketing está caro e ainda por cima quer trabalhar de pijama. Há muito para descobrir neste "Brainstorming". Venha daí. Dinheiro trabalha muito para ele, mas ele trabalha para si? Começamos pela XTB, que lançou a maior campanha da sua história com Zlatan Ibrahimović como protagonista. O avançado reformado e influenciador oficial de si próprio entra em modo coach financeiro para dizer ao mundo que investir é tão acessível como marcar gols de calcanhar. Basta meter €5 por dia e esperar que tudo corra bem. E em Portugal, ele fala connosco em português. Mais ou menos. A campanha arranca em 13 mercados, com produção em Varsóvia, música épica e promessa de tornar o investimento emocional. Assuma o controle. Porque nada diz estabilidade financeira como um sueco que ameaça o mercado com 63 milhões de seguidores. E no Benfica, enquanto se disputam votos, aqui basta um like do Zlatan para validar o resultado. Força, Zlatan. XTB, onde o seu dinheiro trabalha para si. Aqui e agora o mundo mudou. E agora damos atenção à Generali Tranquilidade, que decidiu ser emocional e lançou a campanha "Aqui, Agora", feita pela VML. A seguradora quer provar que proteger o futuro começa já, hoje, de preferência com anúncio em slow motion e Fatboy Slim a tocar "Right Here, Right Now". Ou em português: "Aqui, Agora". Está em todo lado: TV, rádio, outdoors, digital e também nas redes sociais. O conceito promete proximidade e inspiração e diz às pessoas que tomar decisões hoje é o segredo para o amanhã. Desde que paguem o prémio a tempo, digo eu. Por falar nisso, no futebol, o aqui e agora costuma ser depois das eleições e antes de as contas aparecerem. Nesta edição do "Brainstorming" temos o prazer de conversar com Gonçalo Aires, gestor do projeto do ONSE, coletivo de impacto, Centro de Empreendedorismo de Impacto do Douro, Tâmega e Sousa. Gonçalo, seja bem-vindo aqui ao "Brainstorming". Hoje, o tema da nossa conversa é a inauguração deste Centro de Empreendedorismo de Impacto do Douro, Tâmega e Sousa. Começo por te perguntar, antes da inauguração, como é que surgiu este projeto?
Antes de mais, muito obrigado pelo convite para estar aqui no "Brainstorming" a representar o ONSE. O ONSE é uma iniciativa promovida pelo Instituto Empresarial do Tâmega e pela Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Politécnico do Porto, e que tem aqui um financiamento da Portugal Inovação Social, da Fundação Manuel António da Mota e da CIM do Tâmega e Sousa, para dar algum contexto. E parte de uma ambição antiga deste Instituto Empresarial do Tâmega, que é uma incubadora empresarial que já ajudou a construir mais de 400 empresas, apoiou mais de 3 mil empreendedores e que queria também ter esta vocação de poder ter empreendedores sociais, empreendedores que utilizem o poder dos negócios para gerar um impacto social, ambiental positivo nas suas comunidades. Então foi a expansão natural deste ponto de encontro de empreendedores para também os empreendedores sociais, os empreendedores com impacto.
E o que é que representa neste momento a inauguração deste centro físico para a região, também para o projeto? A que necessidades é que dá resposta?
Falar de necessidades da nossa região é falar de índices sociais que, por norma, estão abaixo da média em Portugal. Estamos a falar de uma zona que tem 11 municípios, que vai desde a zona do Douro, em Cinfães, Resende, etc, até uma zona mais a norte do rio Tâmega e Sousa, municípios como Felgueiras, Amarante, totaliza 11 municípios. E nestes municípios existe um rendimento per capita mais baixo do que outras zonas do Norte. Existe uma dificuldade na fixação da população. Nos últimos 15 anos, há aqui perdas populacionais à volta dos 5%. E podemos trazer também aqui outro dado, que para mim é especialmente relevante: mais de 40% da população tem habilitações académicas inferiores ao primeiro ciclo. Então estas são algumas das necessidades da região.
O empreendedorismo também vem dar resposta a estes baixos índices de literacia, de rendimento. O empreendedorismo pode ser a resposta para Para a dinamização das comunidades.
É essa exatamente a nossa vocação. Um empreendedor parte sempre de um problema, de uma falha, para depois desenhar uma solução que seja diferenciadora. E o empreendedor de impacto não é diferente. Aqui, talvez no propósito, se possa diferenciar. O propósito é, no fundo, responder a um problema social, que seja importante, que seja negligenciado pelas suas comunidades, e desenhar uma solução.
Gonçalo, vou te desafiar a concretizarmos um pouco mais. Olhando para o curto prazo, quais são os objetivos?
Os objetivos do ONZE Coletivo de Impacto é apoiar iniciativas de inovação social que surjam no nosso território, sermos este ponto de encontro dos empreendedores com impacto. Aumentar também o envolvimento da sociedade civil nesses processos de inovação social, trazer mais pessoas para esta área, para processos de aceleração, incubação, que tenham a ver com impacto social.
E como isso se faz na prática?
Na prática, o que nós vamos fazer é criar aqui um conjunto de programas que começam com bootcamps de ideação, em que as pessoas se juntam num fim de semana, em dois dias seguidos, para pensar numa problemática social que os inquiete e desenhar uma solução diferenciadora para essa problemática.
E isso faz-se através do contato, por exemplo, com escolas, com associações de empresários, com organismos públicos, eventualmente? Como é que se chega às pessoas?
Sim, os nossos públicos-alvo são diversos, em contato com os 11 municípios com os quais nós trabalhamos. Identificamos um público-alvo para cada uma das nossas iniciativas e convidamos a comunidade em geral a vir, mas fazemos também algumas ações mais direcionadas para garantir que temos pessoas nesses momentos, que tanto são estes pequenos momentos iniciais de ideação da ideia, como depois são programas de aceleração para tornar esta ideia em realidade e programas de incubação com pequeno investimento financeiro para que estes projetos se tornem uma realidade e que possam gerar emprego também na região e que as pessoas possam dedicar a sua vida profissional a também gerar impacto social.
Mas não havendo esta dinâmica ainda na região, se calhar também tem alguns desafios, alguma desconfiança, às vezes, por parte das pessoas. Sentem isso, eventualmente?
Na verdade, sim, eventualmente vamos enfrentar aqui alguns desafios, mas o ecossistema social em Portugal tem crescido ao longo dos últimos anos. Com esta nova linha de financiamento dos centros para o empreendedorismo de impacto da Portugal Inovação Social, nós estamos com mais de 30 no país todo, e a região já teve uma incubadora de inovação social há uns anos atrás, que entretanto depois deixou de existir. Por isso, alguns passos já foram dados, mas concordo quando dizes que é preciso ainda traçar aqui alguns passos e explicar às pessoas o que é inovação social, o que é o empreendedorismo de impacto.
Até para se firmarem como uma instituição relevante no contexto.
Exatamente. E muitas vezes trazer exemplos concretos, de pessoas que já estão a ter essas ações. E foi isso também que fizemos no nosso evento de inauguração no dia 16. Fizemos aqui uma recolha dos vários projetos que já existem na região, porque já existem na região projetos com impacto social, e fizemos aqui, através de vídeo, de imagem, da presença das pessoas no evento, uma mostra, também uma exposição daquilo que é o empreendedorismo social que já existe na região. Muito para trazer esta ideia de que nós vimos com algo novo, mas já existe talento.
Já falamos também aqui de outros centros deste gênero, que já existiram ou que existem nesta e em outras regiões. O que diferencia o vosso centro, o centro do ONZE Coletivo de Impacto, dos outros centros de empreendedorismo? Há alguma diferença que queiram marcar?
Quando nós pensamos naquilo que nos diferencia, eu acho que temos que falar na palavra inclusão. Nós queremos garantir que existe aqui uma inclusão, não só das pessoas que se calhar têm maior tendência a participar nesses processos de empreendedorismo, mas também de pessoas, por exemplo, de grupos de risco. Falamos de jovens NEET, falamos de desempregados de longa duração, poder também envolver, se calhar, públicos que não estão tão predispostos a fazer esse tipo de ações, trazê-los para as nossas ações e também motivá-los para que possam gerar impacto. E por além disso, é uma certa itinerância no território. É um território muito grande, com 11 municípios, como disse há pouco, mas não queremos que seja algo centralizado. Queremos percorrer todo o território. Vamos criar hubs de impacto nos diferentes municípios para que os empreendedores possam ter um espaço para dinamizar o seu trabalho. E vamos levar estes bootcamps, estes programas de aceleração, para os 11 municípios com os quais trabalhamos e contrariar uma lógica que por vezes existe de centralizar a ação no município que tem mais população ou que tem mais infraestruturas.
Pegando nesse ponto, gostava também de saber, e já aqui falamos da inauguração deste centro, fisicamente, onde é que fica, onde é que as pessoas vos podem encontrar?
O ONZE é dinamizado, é promovido, aliás, pelo Instituto Empresarial do Tâmega, por isso, para já, a nossa sede é no IET, em Amarante, mas como disse há pouco, nós vamos criar aqui hubs de impacto físicos em outros municípios, em cerca de quatro, cinco municípios da região, numa fase mais avançada do projeto, e também nessa altura divulgaremos em que espaços é que nos podem também encontrar e aceder a um espaço físico para fazer o seu trabalho.
Mas entretanto, quem ficar já curioso com a nossa conversa ou quem vos descobrir entretanto, como é que pode conversar convosco e seguir em frente com novos projetos e novas ideias?
As redes sociais são sempre a melhor forma em que vivemos. Através do Instagram, do Facebook, LinkedIn, basta procurar por ONZE Coletivo de Impacto. No Instagram é onze_coletivodeimpacto, ou através do nosso e-mail geral@onzeimpacto.pt.
Estávamos aqui a falar desta dispersão pelo território. É também assim que pretendem ajudar a fixar talentos na região?
Sim, é também assim que pretendemos ajudar a fixar talento na região. E quando falamos também em fixar este talento, em contrariar esta saída das pessoas, falamos também em gerar emprego. As pessoas fixam-se num território porque há emprego. E queremos também com este centro, ser aqui a ponte para que se gere emprego e que se gere emprego através do empreendedorismo com impacto. E também contribuir para criar aqui um sentimento de pertença. O nome também é ONZE por serem 11 municípios, as ações vão ter aqui uma lógica muito intermunicipal, para que as pessoas possam também Para contribuir para este sentimento de pertença. Eu sou do Tamengas Sousa, eu sou do Douro. Eu posso fazer aqui o meu projeto de vida e este projeto de vida pode ser um projeto com propósito, com impacto social e feito através de uma atividade profissional, que muitas vezes as pessoas associam esta ideia da área social e dos projetos sociais, ainda muito a um certo voluntariado, e um hobby, algo que fazemos no tempo livre. E a verdade é que nos últimos anos a inovação social, através de programas como estes da Portugal Inovação Social e com o apoio de muitos investidores, tem caminhado também para profissionalizar a área.
Portanto, criação de emprego, aumento da literacia, aumento também dos rendimentos na região. Há mais algum problema, há mais algum desafio da região ao qual queiram dar resposta?
Essa pergunta me faz pensar numa lógica que é muito trazida também nestes bootcamps e programas de aceleração, que é: as pessoas devem criar soluções para problemas que as inquietam e pelos quais tenham passado direta ou indiretamente. Por isso, nós queremos, acima de tudo, que as pessoas façam este exercício de reflexão, de perceber os problemas que surgem à minha volta, os problemas pelos quais eu, a minha família, a minha comunidade passa ou passou, e desenhar soluções. Por isso não há uma resposta clara.
É das grandes necessidades que nascem as boas ideias.
É isso, exatamente. Claro que depois há problemáticas da região, como falei há pouco, que são mais prementes, mas acima de tudo é inspirar as pessoas para que se inquietem com um problema que lhes diga muito e que depois deste primeiro passo, com a nossa comunidade, com a nossa rede de apoio, possam desenhar uma solução que seja acima de tudo sustentável. Criar também projetos que fiquem na região e que não sejam só uma ação efémera e que dure pouco tempo.
E que as pessoas façam elas próprias o seu caminho. Gonçalo, desafio-te agora a fazermos uma viagem até ao futuro. Não sei se trouxeste o DeLorean, se o estacionaste ali à porta, mas gostava de perceber como é que vês este projeto daqui a 10 anos.
No fundo, falar da nossa visão a longo prazo é falar de uma sustentabilidade destes projetos e destas ideias inovadoras que surgem no território. E falar desta sustentabilidade tem que ser também falar sobre a política pública. Então uma grande ambição que nós temos é que a inovação que daqui surja possa ser também incorporada pelos nossos municípios e projetos que nasçam destes bootcamps e destes programas de aceleração, possam também ser utilizados como referências naquilo que são as ações definidas, quer pelos municípios, quer pelas comunidades intermunicipais. E acima de tudo, é criar aqui também um movimento de pessoas que pode ter só ido a um bootcamp, pode ter só participado numa edição, mas depois de se ter cruzado conosco, continua neste ecossistema de impacto e a querer contribuir para uma sociedade e para uma região mais inclusiva e mais justa.
Portanto, daqui a 10 anos ou, por outro lado, daqui a 11 anos, se calhar gostavam de se ver como uma referência a isso.
Exatamente.
Gonçalo, estamos quase a terminar a nossa conversa. Faço sempre um desafio aos convidados do "Brainstorming", também te o faço a ti. Se pudesses definir este projeto 11 e o Centro de Empreendedorismo de Impacto numa música, ou se conseguires fazer uma ligação com uma música que te diga algo deste momento em que o projeto está, que música é que seria essa?
Eu acho que a minha resposta vai mais ao encontro dessa última subpergunta, que é o momento em que o projeto está.
Ok.
No caminho para cá vinha a pensar nisto e lembrei-me da música dos Xutos, dos contentores. A carga pronta e metida nos contentores, que dá muito esta ideia de mãos arregaçadas, carga pronta, bora trabalhar. E acho que é nesse momento que nós estamos, estamos a começar. O centro foi inaugurado nas últimas semanas e as nossas ações começam já na próxima semana. Então neste momento estamos mesmo com a carga pronta e metida nos contentores para avançar para este nosso sonho de trazer a inovação social para o território e através disso, criar soluções que façam realmente a diferença.
E seguir em frente também, como diz na música, com um pouco de fé.
Exatamente.
Gonçalo Soares é o gestor do projeto 11, coletivo de impacto, que inaugurou já o Centro de Empreendedorismo de Impacto do Douro, Tamengas Sousa. Gonçalo, muito obrigado por teres vindo ao "Brainstorming". Muito sucesso e que daqui a 10 anos ou daqui a 11, tal como o nome do coletivo de impacto, sejam de facto uma referência na região e no país. Muito sucesso, um abraço.
Boa, obrigado.
Neste Brainstorming, olhamos ainda para um estudo da Michael Page, que anunciou as tendências do mercado de trabalho em marketing para 2026. Conclusões oficiais: há mais procura do que oferta, toda a gente quer flexibilidade, ninguém quer regressar ao escritório e os salários espera-se que cheguem aos €110 mil por ano para quem dominar vendas digital e inteligência artificial. Provavelmente, também dará jeito levitar em part-time por €110 mil por ano. A inteligência artificial já faz parte do trabalho diário e 80% dos profissionais diz que a usa. Curiosamente, 100% dos profissionais fingem que não é ela a fazer metade das tarefas. Os diretores de marketing podem ganhar até €85 mil por ano, desde que aceitem reuniões híbridas e KPIs impossíveis. São estas algumas das conclusões desse estudo da Michael Page olhando para 2026. E assim chegamos ao fim deste "Brainstorming" entre campanhas de investimento messiânicas, seguradoras emocionadas e consultoras a prometer salários de champions. Assim, percebemos que comunicar bem é como ganhar as eleições do Benfica. Não basta convencer, o que é preciso é garantir que os votos que contam chegam mesmo às urnas. Chegamos assim ao fim deste seu "Brainstorming", que vai para o ar agora num novo horário, todas as segundas-feiras, depois das 21h30, na Rádio Observador. Um conteúdo que fica também sempre disponível em podcast, no site e na app do Observador e nas principais plataformas. Com ajuda à produção da Inês Neto e a sonoplastia do Pedro Oliveira, eu sou o Hugo Silva e até à próxima edição, lembre-se: quem comunica bem, nem precisa de contar votos para ganhar em toda a linha. Até para a semana.