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No domingo, Joe Biden voltou a ordenar ataques aéreos contra bases do Iraque e na Síria, usadas por forças apoiadas pelo Irão. Do Pentágono, que já em fevereiro tinha deixado vários avisos à navegação, a posição foi a de que se trataram de bombardeamentos de precisão, uma retaliação por ataques anteriores de Irão feitos por drones. Há registro de vítimas civis, entre as quais uma criança. O governo do Iraque apressou-se a condenar e a pedir que o seu território não seja transformado numa arena para acerto de contas. O certo é que este novo ataque, o segundo da era Biden, pode intensificar as pressões para que os Estados Unidos comecem a preparar uma saída do Iraque, mas os norte-americanos parecem não estar para aí virados, ao contrário do que acontece no Afeganistão. Nos últimos dias, Biden recebeu o presidente afegão na Casa Branca e deixou uma certeza: as tropas estão de saída, mas os Estados Unidos, ou melhor, o seu apoio, não. Hoje comigo estão a Madalena Meyer Resende e o Bruno Cardoso Reis, e não estando a nossa Sara Antunes de Oliveira, estou eu, Carlos Diogo Santos, editor de sociedade internacional. Vamos aos prêmios? Começamos pelo Frank Underwood.

"Could you please stop that?" "Stop what?"

Bruno, escolheste a queda do prédio em Miami e o impacto do prestígio nos Estados Unidos.

Sim, obviamente é sempre de lamentar, desde logo é uma tragédia em qualquer parte do mundo que aconteça um prédio de habitação entrar em colapso e haver estima-se que mais de 100 pessoas mortas por causa disso. Mas aqui, além disso, eu acho que temos essa dimensão adicional, que é Miami é uma cidade extremamente internacional. É muitas vezes alcunhada da capital da América Latina, portanto, é uma cidade muito popular, de facto com comunidade de toda a América Latina, em particular com a comunidade cubana, que está ali a menos de 100 km, mas tem pessoas de todo lado. Este prédio, mais uma vez, verifica-se isso, inclusive muitos elementos da elite latino-americana têm segundas casas, têm casas também em Miami. Neste caso, era um familiar do atual presidente do Paraguai. Mas isso dá uma visibilidade enorme ao caso e evidentemente nós ainda não sabemos bem o que se passou, pelo menos pelo que eu consegui perceber. Parece haver aqui uma relação com o facto de toda a Flórida, toda esta região de Miami ser extremamente vulnerável às mudanças climáticas. Está no fundo aqui este eventual ângulo de um déficit de resposta por durante muito tempo, sobretudo no Partido Republicano, haver uma postura muito hostil em relação à ideia da mudança climática e é verdade que isso tem estado a mudar. O próprio governador da Flórida, que é um republicano bastante conservador, aliado do presidente Trump, já alterou também a sua retórica e tem havido até anúncio de alguns planos para tentar reduzir o impacto destas mudanças. Mas independentemente de ser essa também uma razão, acho que realmente ninguém espera que isto aconteça num país como os Estados Unidos e no fundo uma parte das reações na América Latina também tinham a ver com isso. Até poderia acontecer, nós Latinos, não é só os latino-americanos, nós Latinos em geral temos muito este discurso. Se calhar em Portugal, se calhar no Brasil, nos Estados Unidos não se está à espera que aconteça e evidentemente aconteceu. Alguma coisa do impacto mais durável desta questão dependerá exatamente da razão, pode ser aqui uma construção defeituosa ou especialmente defeituosa, mas mesmo que isso seja o caso, eu diria que isso não deixará de afetar um pouco o prestígio dos Estados Unidos e no fundo a ideia é que com todos estes problemas, mesmo com mudanças climáticas, certamente nos Estados Unidos a qualidade de construção é tão boa, a fiscalização é tão boa, apesar de todos os problemas, que isto não aconteceria e realmente aconteceu. Além de tudo o resto, digamos, do lado humano, que é sempre lamentar, como eu disse no início, há também aqui este ângulo de impacto de mais uma facada no prestígio externo dos Estados Unidos, que tem sido afetado nos últimos anos por uma série de problemas.

Uhum! E que vai para além das vítimas.

Sim, aliás, é uma das coisas que choca mais quando se chega aos Estados Unidos, muitas vezes é ver a qualidade da construção, que parece realmente, na nossa perspectiva, de um país de terceiro mundo. Parece um bocadinho substandard. E houve aliás um relatório de 2018 que surgiu agora e que diz que havia problemas estruturais muito sérios.

E que já nos leva também para outras questões, como a fiscalização.

Sim, quais são os mecanismos de fiscalização e se não há aqui outros interesses imobiliários a entrar em jogo, mas de facto acho que há certamente um exagero também num dos lados do poder suave, do chamado soft power americano, é certamente um certo lado de exagero. Nós acharmos todos que os Estados Unidos é um país tão espetacular que tudo tem de correr bem, que tudo tem de ser ótimo e nós sabemos, apesar de tudo, que não é exatamente assim, mas um caso destes é especialmente chocante e eu acho que mina, neste caso, as fundações do poder americano, sem querer fazer aqui uma piada num contexto em que seria de mau gosto, mas aplica-se a metáfora.

Claro. Madalena, entrego este Underwood, o teu vai para os efeitos da retirada dos Estados Unidos no Afeganistão. Um tema, aliás, a que voltaremos mais tarde num Sara Palin que eu vou entregar.

Sim, já falámos aqui um pouco do que será o futuro do Afeganistão sem os Estados Unidos e dos problemas Que a retirada das forças americanas traz também para os outros aliados que lá estão presentes. E de fato, nas últimas semanas tem se tornado claro que esta retirada anunciada, que ainda não é efetiva, mas que está a levar uma contraofensiva do Talibã por todo o território e que não é de todo de considerar um cenário longínquo, que depois da retirada das forças americanas, que haja, de fato, uma tomada de poder pelo Talibã e que haja uma reversão de todos os ganhos que foram feitos até agora em termos de segurança. Há que ver também que o Afeganistão e o Talibã foram um apoio, e continuam a ser um apoio central pra Al-Qaeda e mesmo pro Estado Islâmico. E, portanto, eu reitero o meu ceticismo em relação ao juízo desta retirada e estou realmente preocupada, não só pela questão regional, que aquilo que lhe supõe, mas também para o que isso significará para o fortalecimento das redes de terrorismo por todo o mundo, que não estão de todo extintas, obviamente.

Aliás, não deixa de ser interessante perceber também a preocupação que tem havido com a retirada dos afegãos que trabalhavam e que serviam também os Estados Unidos para que nada lhes aconteça.

Exato, é outra questão. Penso que irás falar mais tarde dessa questão.

Sim, nós em princípio voltaremos a estes temas da defesa na segunda parte com mais tempo, mas de fato eu estou muito de acordo com esta visão. Eu acho que em certo sentido, isto é uma decisão que tem a ver com o fato do presidente Biden, até provavelmente ter tido alguma razão no passado, quando se opôs muito, durante nomeadamente a presidência de Obama, e que ele era um vice-presidente também muito ativo, sempre na parte externa. E no fundo aparece muitas vezes naquilo que nós já sabemos, inclusive das memórias, dos testemunhos vários, como um pouco o chefe de fila aqui de uma oposição, uma resposta mais militar a estes desafios, nomeadamente no Afeganistão. Mas uma coisa, de fato, era opor-se a uma grande expansão da presença militar norte-americana, inclusive com este argumento, que isso não seria sustentável no tempo e, portanto, mesmo que houvesse alguns ganhos, eles não compensariam isso. Outra coisa, de fato, uma decisão de uma retirada completa quando o nível de presença militar norte-americana, e é muito importante recordar isso, dos seus aliados europeus que estão lá também há 20 anos, têm um número de mortos comparável ao dos Estados Unidos, inclusive tropas portuguesas, inclusive com baixas também portuguesas, dois soldados portugueses. Mas todo esse empenhamento se dava agora a um nível que realmente é muito difícil dizer que não era sustentável, ao ponto de um dos comentários que foi muito feito em relação a esta decisão foi que não houve mesmo baixas em combate americanas no último ano no Afeganistão. Portanto, houve mais gente a morrer em exercícios militares nos Estados Unidos, que obviamente têm que ser muito duros e são muito frequentes, do que no Afeganistão. E, portanto, é difícil argumentar que isto era completamente insustentável e que as vantagens que se retiravam daí, em termos de capacidade de recolha de informações, de resposta a um eventual crescendo destes grupos extremistas, porque não é só a Al-Qaeda, mas é também o próprio dito Estado Islâmico, o DAISH também está no Afeganistão. Que isso tudo, de fato, seria um preço insuportável. E o risco, realmente, da retirada é bastante grande. No mínimo, eu acho que é inevitável aquilo que já se está a assistir, que é um crescendo da guerra civil no Afeganistão. Isso muito provavelmente vai ter um impacto humanitário bastante negativo. Não é só a questão da educação das mulheres, é pessoas a morrerem e vagas de refugiados. E no limite, pode levar realmente a um colapso daquilo que resta do Estado afegão, da sua tomada pelo Talibã e pelos seus aliados. E isso iria provocar, de fato, uma vaga de refugiados enorme, mais uma vez, das quais é possível que muitos acabem por chegar até à Europa ou às suas proximidades. E, portanto, inclusive desse ponto de vista, a Europa tem aqui especiais preocupações e também é verdade que o presidente Biden consultou formalmente os aliados europeus, mas não os colocou nunca em uma posição de dizer: "Vamos lá pensar isto melhor" ou "Se calhar não devíamos retirar totalmente". No fundo, foi um pouco dar conhecimento de que ia fazer isto, e obviamente, aqui também é verdade, é um ponto que, por exemplo, o Henrique ponei existe bastante. É verdade que a relação é esta, e eu próprio, é uma relação estruturalmente assimétrica. Portanto, os europeus, à partida, formalmente podiam dizer que iriam continuar. Na verdade, isso não era muito possível tendo em conta as capacidades que os americanos têm ou que só os americanos têm e que seriam precisos para sustentar de forma segura uma presença tão afastada da Europa, de forças europeias. E, portanto, há esse problema de base, mas, de fato, eu acho que o mínimo que se pode dizer é que é uma aposta muito arriscada. E como eu digo, eu percebo que não faria sentido manter uma presença militar enorme dos Estados Unidos no Afeganistão com a ilusão de uma vitória que claramente é praticamente impossível. Como eu digo sempre aos meus estudantes de estratégia, em relação a esse tipo de conflitos de guerrilha, etc, são sempre conflitos muito difíceis, muito frustrantes, muito prolongados e é praticamente impossível ter certezas sobre vencedores, resultados, mas há uma regra que é eventualmente nunca pensar que se vai ganhar uma guerra de guerrilha no Afeganistão. Porque desde o Alexandre Magno, desde o Alexandre O Grande até ao Império Russo, ao Império Britânico, etc. Vários grandes impérios da história tentaram e não conseguiram, não resultou muito bem.

Certo, e como disseste, é um tema a que voltaremos mais daqui a pouco. Vamos então ao prêmio Donut

Bruno, o teu prémio vai para o acordo verbal do Biden e senadores sobre o plano de investimento, certo?

Sim, foi anunciado na imprensa americana que há uma espécie de pré-acordo, um acordo de cavalheiros entre um grupo de senadores republicanos e democratas moderados, e o presidente Biden, com um esboço de um plano de investimento em infraestruturas que teria o acordo, que seria possível ter acordo não só de democratas, mas também de republicanos. Este é o último dos grandes planos de investimento de 1.9 mil milhões de dólares do presidente Biden em infraestruturas, mas enfim, múltiplas outras coisas. Nós aqui comentamos já várias vezes o plano e eu fui sempre dizendo que achava que se havia uma área em que apesar de tudo, que seria no fundo um teste para alguma capacidade, apesar de tudo, se fazer acordos entre os dois grandes partidos ou entre elementos dos dois grandes partidos nos Estados Unidos, no fundo algo que invertesse um pouco esta lógica de polarização crescente e cada vez mais extremada na política norte-americana, seria esta questão das infraestruturas. À partida ninguém gosta de estradas buracadas, de autoestradas que têm problemas, de pontes que podem cair ou que já não podem ser utilizadas por veículos mais pesados, etc. Parecia-me aqui uma área de teste para esta possibilidade e até que ponto é que, apesar de tudo, o clima político não se tornou de tal forma tóxico e tal forma polarizado que era impossível um acordo em qualquer grande iniciativa política e iniciativa de despesa. Eu acho que é de saudar, de forma muito prudente, para já ter havido este esforço e para já ter havido este acordo de cavalheiros, acordo de veteranos políticos. Acho que é um bom sinal. Agora veremos se realmente se concretiza. Ainda falta pôr as coisas no papel. Isto é um acordo de senadores, mas obviamente os Estados Unidos têm uma estrutura bicameral, portanto tem também a Câmara dos Representantes, que tende a ser sempre um pouco mais partidária, mais ideológica, um pouco mais extremada. Vamos ver se isso consegue ultrapassar esses obstáculos, mas eu acho que para já é um bom sinal e seria realmente importante que isto acontecesse, em termos de mostrar que há alguma esperança que este veneno que vai crescendo na política americana é possível controlar de vez em quando. E também, já agora, Madalena, porque me parecia, e há sinais crescentes disso, de que talvez fosse realmente dinheiro a mais e em coisas que tinham pouco a ver com a infraestrutura e obviamente um dos preços a pagar por este acordo, por parte dos republicanos, seria ser um plano um pouco menos ambicioso e eu acho que isto se calhar não seria mau num contexto em que nos Estados Unidos, ao contrário da Europa, há de facto eventualmente um excesso de dinheiro a ser injetado na economia para reanimar a economia. Desculpa.

Sim, só para dizer que isto é de facto bastante inovador, no sentido em que os conservadores, os republicanos, têm até agora basicamente votado com os democratas, nem na lei fiscal do Bill Clinton, nem na lei da saúde do Obama, nem do alívio da pandemia do Biden. Este é um exemplo de um problema que é tão óbvio, como vimos há bocadinho com a questão da torre de Miami, que as infraestruturas e os edifícios no seu conjunto na América estão de tal maneira, apesar de isso terem infraestruturas públicas, mas no seu conjunto, haver tal desinvestimento nas estruturas físicas americanas que remendar estradas e pontes em ruínas é uma questão obviamente mais consensual.

Aliás, é o próprio Biden que diz que este acordo dá um sinal para o mundo de que podemos funcionar e fazer coisas significativas, diz algo do gênero. Passando ao donut da Madalena, vai para o presidente do município de Brooklyn, Eric Adams, que ganha as primárias dos democratas para maior de Nova York.

Exatamente. Eric Adams é um dos poucos democratas em Nova York que tem uma posição pró-segurança e que não é de todo um dos que apoia o Defund a Police e acho que é um bom sinal para os democratas que ele esteja realmente no topo dos candidatos. Não sabemos se vai ser realmente o candidato neste momento, mas é sinal de que esta onda de progressistas wokes está um bocadinho a cair na sua popularidade em conjunto.

Tem sido muito comentado esta questão de que, de facto, nestas primárias parecem estar a prevalecer muitos democratas moderados e que isso será um sinal importante para as eleições que se vão seguir agora em 2022, que são realmente muito importantes.

E termina aqui a primeira parte. Voltamos já a seguir às notícias com mais prêmios. Vamos então, nesta segunda parte, ao prêmio Sarah Palin, ou seja, o disparate da semana. Eu decidi entrar em grande no Café América e entregar este prêmio ao presidente dos Estados Unidos da América por uma frase durante a visita do presidente afegão à Casa Branca. A Madalena já tinha entregue um Underwood aos efeitos da retirada dos Estados Unidos do Afeganistão, mas não posso deixar de vincar aqui um detalhe, uma leitura talvez ingênua, que não será apenas isso, de Biden, quando diz que chegou a hora de os afegãos decidirem o seu futuro. Parece-me que é lógico que os Estados Unidos e todas as outras forças não sairão daquele xadrez na sequência da retirada das tropas e daí achar que esta frase é um pouco, na melhor das leituras, ingênua, achar que esta é a hora dos afegãos decidirem o seu futuro. É óbvio que esta retirada quanto a isso significará pouco.

Quais afegãos? São os talibãs ou são os outros.

Não acredito que ele estivesse a falar dos talibãs.

Pois, mas é que eles também são afegãos, não é?

Parece ser a ideia: "bem, isto é uma coisa ótima, porque eles poderiam agora livremente..." De facto, é um pouco ridículo, porque dá a ideia que era, de alguma forma, a presença das forças ocidentais que impedia isso, quando é evidente que não.

Ao contrário.

Não é muito razoável, sobretudo não da parte do presidente norte-americano. Enfim, há pessoas que no Ocidente e fora do Ocidente têm aquela visão de que isto é tudo uma intervenção imperialista e destinada a oprimir os afegãos. Obviamente acho que o presidente Biden não subscreveria isso. Por aí realmente é um disparate. Essa questão, que é não só as potências ocidentais, mas eu diria, sobretudo, mais outras potências, que também não deixam de ter os seus desígnios muitas vezes bastante imperialistas. A China, o Paquistão, a Índia, o Irão, etc., que obviamente já estavam de alguma forma presentes, mas continuarão a estar, eventualmente estarão mais à vontade com uma presença ocidental menos forte, também continuarão a fazer sentir a sua presença. Portanto, acho que é realmente bastante disparate.

Até porque logo em seguida é ele que diz que de facto vai ter que continuar. Ele diz: "As nossas tropas podem estar de saída, mas o apoio ao Afeganistão não acabará, nem poderia, aliás. Não se pode deixar totalmente com a saída das tropas os afegãos decidirem de forma livre."

E sobretudo, apesar de tudo, se há ali alguma possibilidade de opção por via eleitoral, tem sido muito por insistência dos países ocidentais. Tem sido graças à presença dos países ocidentais e não apesar disso.

Bruno, e o teu disparate foram as palavras pouco simpáticas de Tucker Carlson ao general Mark Milley.

Sim, esse pivô da Fox, do canal de televisão conservador, que resolveu atacar de forma extremamente violenta o chefe comandar máximo dos Estados Unidos, o general Mark Milley, em termos realmente bastante insultuosos, quase que hesito aqui em dizer, mas chamou-lhe porco e coisas desse gênero. Isto tudo porque há uma controvérsia sobre a questão de saber se há ou não há, no ensino militar norte-americano, a utilização da teoria crítica da raça, toda esta questão que agora se coloca. Isto surgiu a partir de uma prestação de contas, que é uma ótima tradição norte-americana, diga-se, destes altos responsáveis ao Congresso, ao Parlamento americano, em que ele se referiu ao conceito white rage, que é um conceito que está agora muito no vocabulário político americano e que está de alguma forma também ligado a estas correntes da teoria crítica da raça. Quem ouve o programa sabe que eu também sou crítico da teoria crítica, não sou um grande fã da teoria crítica da raça, embora seja sobretudo crítico das versões mais popularizadoras e os best-sellers que têm surgido a partir destas análises, que me parece que distorcem completamente as coisas e transformam esta teoria numa espécie de teoria da luta de classes. A luta de classes é substituída pela luta racial. Claro que há injustiças sociais e há diferenças de riqueza, e isso muitas vezes cria injustiças e leva a conflitos. Claro que reconheço que há um problema sério de racismo, ele é muito sério nos Estados Unidos e muito antigo. E de facto os Estados Unidos têm na sua história uma história de apartheid legal, que muitas vezes não era bem conhecido, pelo menos por quem não era historiador, até há poucos anos. Recuso é que no fundo se transforme isto na explicação para tudo, que é muitas vezes o que estas versões da teoria crítica da raça defendem. Tudo é racismo ou tudo é antirracismo. Temos que ter sempre uma posição militantemente antirracista e estar a confessar os nossos pecados, senão estamos a ser cúmplices do racismo. Mas pronto, pra retomar aqui o tema, eu de facto sou crítico também de alguns aspectos, pelo menos dessa teoria, que é um pouco totalitária, mas acho um completo disparate o nível de insulto a que se chegou, o fato de um comentador da Fox insultar publicamente o militar mais graduado dos Estados Unidos. Porque ele admite que eventualmente há um problema de racismo e que nas instituições militares é preciso ter isso em conta. Pode não ter sido muito hábil na escolha de palavras, pode ter sido influenciado realmente por esta cultura política que é muito marcada por essa agenda. Agora, não me parece que a forma de criticar, eventualmente, esta questão seja, muitas vezes até com esta ideia, que é muito a posição destes comentadores ultraconservadores, que é: isto é uma teoria insultuosa para os Estados Unidos, é uma teoria insultuosa para as Forças Armadas americanas, que têm um histórico realmente de integração, etc. Que depois a resposta a isso seja: "bem, e agora vou eu insultar aqui publicamente o chefe militar máximo norte-americano". Portanto, obviamente, as críticas são legítimas numa democracia e qualquer pessoa pode ser criticada, inclusive os chefes militares, mas acho que de facto é uma coisa completamente ridícula.

Claro, e realça a intolerância.

Exatamente, atacar uma teoria que é vista como insultuosa e que é atacada por ser insultuosa do patrimônio histórico e do respeito que é devido para instituições como os militares, e depois a forma de fazer isso é insultar um general altamente condecorado e respeitado norte-americano. Portanto, acho que é esse o lado disparate que aqui queria destacar.

Entregue este prêmio, vamos então olhar para a política de defesa da administração Biden. Madalena, começo por ti. Como podemos ler tudo aquilo que aconteceu nos últimos dias no Iraque e na Síria?

Podemos ver, por um lado, que esta investida inicial dos Estados Unidos no seu conjunto contra a Rússia e contra a China, iniciou-se de uma maneira um pouquinho retórica e de maneira bastante entusiástica, mas obviamente que a parte mais difícil desta política, que são as consequências militares, está agora a emergir. E portanto, até que ponto é que os Estados Unidos vão continuar, ou melhor, que a administração Biden vai conseguir manter uma ação militar no terreno que seja equiparada à sua retórica, é a questão do milhão de dólares desta administração. Para mim é muito óbvio que quando os democratas entram desta forma na política internacional, há uma expectativa e há uma tentativa de resistência por parte das potências opositoras, que vai ser no sentido de testar até que ponto é que os Estados Unidos estão, de facto, seguros na sua determinação e até que ponto é que estão dispostos a pagar, militarmente, com vidas e com armamento, esta política. E eu penso que é essa fase que nós estamos a entrar agora.

Bruno, e de que forma é que estes ataques e o clima de tensão com o Irão, que ainda assim não é dos mais graves, nos podem ajudar a perceber o que é que aí vem nesta escalada, porque são já dois ataques nestes primeiros meses de administração Biden?

Eu acho que isto mostra duas coisas fundamentais. Uma é: o inimigo tem um voto nestas coisas da política da defesa, sobretudo em relação a um país como os Estados Unidos, que tem interesses e que tem uma presença militar, bases, quer dizer, as contas variam, mas fala-se entre bases de grandes dimensões, mais de 100, vários tipos de bases, mais de 700 por todo o mundo. Há uma presença muito significativa dos Estados Unidos por todo o mundo e isso significa que são vulneráveis a ataques-surpresa, que há relações ali, há mais de 50 tratados de aliança bilaterais, além das estruturas de aliança multilaterais como a NATO, etc. Tudo isso significa que os Estados Unidos não têm um controle da sua agenda, que se poderia pensar. Quer dizer, os Estados Unidos têm sido a potência mais importante, principalmente a nível militar. Se formos ver o nível de despesa militar dos Estados Unidos, sozinhos os Estados Unidos gastam tanto como os outros 14 maiores países em despesa militar no mundo, e muitos desses países são aliados dos Estados Unidos. Mas isso não significa realmente que controlem, consigam definir livremente as suas prioridades. Basta recordar que aqui há 20 anos o presidente George W. Bush também disse: "Bem, eu vou me concentrar agora na China. Isto do Médio Oriente, os Balcãs, isso não interessa, são coisas secundárias, eu vou me concentrar é na China". E obviamente viu-se o que é que aconteceu depois do 11 de setembro e durante as décadas seguintes. Nomeadamente o Médio Oriente tem aqui uma grande capacidade de arrasto de uma potência como os Estados Unidos. Depois, o segundo ponto, eu acho que apesar de tudo, eu não tenho uma avaliação completamente negativa da presença de Biden. Se calhar teremos tempo para discutir isso depois, mas um aspecto que eu critico muito é esta ideia, que eu acho que tem que ser corrigida, de que mesmo se pensarmos que a grande questão para os Estados Unidos tem de ser a contenção da China, que a forma de fazer isso é deslocar grande número de tropas, grande número de navios, meios para o Mar do Sul da China, para a zona envolvente da China. Eu percebo que pode haver aí a necessidade de algum reforço, mas aquilo que torna a China cada vez mais um rival dos Estados Unidos, inclusive em termos militares, é que a China é cada vez mais um poder global. Estima-se que o tamanho da marinha chinesa vai ultrapassar em breve a da marinha norte-americana. E portanto, obviamente, eles não estão a investir em mais navios para os ter todos estacionados no Mar da China. Já vimos uma presença naval de exercícios, inclusive no Mediterrâneo. Já vimos uma presença naval de exercícios no Atlântico Sul, no Báltico, nomeadamente em conjunto com a Rússia. Acho que essa é realmente uma visão ilusória. O aspecto que eu acho que, apesar de tudo, merece alguma nota positiva e é fundamental é a questão do novo orçamento da defesa, em que há um esforço grande, ainda vamos ver o que é que depois realmente sai do Congresso, que tem sempre uma palavra muito importante, mas a proposta do presidente Biden, da sua equipa, que é de facto de investir muito em novas capacidades, em novas tecnologias aplicadas ao campo da defesa e no desenvolvimento de novas tecnologias. Mas isso podemos talvez falar um pouquinho mais adiante, mas para já fazia este primeiro comentário.

Certo. Madalena, essa avaliação que o Bruno diz não ser só negativa, aliás, tem também muito de positivo, como é que vês do que tem sido feito durante estes meses?

Eu acho que ainda não há grande mudança na política de defesa dos Estados Unidos e não há expectativas de que esta mudança seja muito significativa em relação aos outros. A questão que está aqui em cima da mesa é o uso realmente da força e até que ponto é que os democratas estão tão preparados como a sua retórica poderia indicar a usar, de facto, o seu poder militar, que é de facto, em termos mundiais ainda extremamente superior a qualquer outra grande potência, apesar da militarização crescente da China, ou se vai manter uma décalage entre o que é a sua retórica e o que é a sua atuação no terreno. Estes ataques na Síria e no Iraque demonstram que, de facto, os Estados Unidos vão continuar a ser obviamente desafiados não só pela China, mas por outras potências regionais que estejam descontentes do seu papel no terreno, e que estas decisões continuarão a ser tão difíceis como têm sido até agora. E daí o nosso ceticismo em relação a esta primeira e o que ela poderá querer dizer, se ela quer dizer o início de um continuado retraimento estratégico dos Estados Unidos que se iniciou com Barack Obama, ou se pelo contrário, estamos aqui no momento de reformulação da sua política de defesa e temos em vista um reforço do ponto de vista militar dos Estados Unidos. É isso que está agora em cima da mesa e que estes ataques particularmente nos mostram.

Eu tenho, apesar de tudo, receio que, e é uma tendência que existe muito não só nos Estados Unidos, mas isso é muito claro na cultura estratégica americana, que é no fundo para corrigir em excesso erros anteriores. E portanto, eu concordo com a Madalena que há aqui uma tendência que vem muito daquelas intervenções extremamente ambiciosas em uma escala enorme no Iraque, no Afeganistão, na presidência de George W. Bush, que aliás começou até inclusive mesmo na fase final da presidência de George W. Bush, mas que é muito clara no caso da presidência de Obama. Agora, eu acho que isso foi levado por vezes demasiado longe. O caso evidente foi o do Iraque, com esta agravante que muitas vezes até para justificar essas decisões há uma preferência por uma visão que é bastante irrealista de qual é o nível de ameaça que é representado por alguns destes atores. O caso do Irão ou o caso, por exemplo, do Daesh, que o presidente Obama famosamente caracterizou como sendo uma equipa da terceira divisão. E portanto, eu acho que há esse risco na administração Biden, de eles passarem de uma excessiva militarização e de um excesso de valorização do que as Forças Armadas norte-americanas conseguem fazer. Conseguem fazer muito, mas apesar de tudo, nem as Forças Armadas norte-americanas conseguem fazer milagres, sobretudo milagres políticos, e portanto acho que havia aí necessidade de uma correção, mas tenho receio que haja essa visão excessivamente negativa ou no fundo uma negação quase do papel que alguma presença militar pode ter. Com esta ânsia também de fechar a página, de virar a página. Ora, nós sabemos que ainda hoje há tropas norte-americanas na Alemanha e na Coreia do Sul. É verdade que não são atacadas, mas como nós também já vimos em relação ao Afeganistão, o nível também de risco das tropas americanas atualmente também era bastante baixo.

E é também preciso perceber como é que essa política vai ser conduzida, até porque as peças não mudaram só dentro dos Estados Unidos e, por exemplo, voltando aos ataques deste domingo, o caso do Irão é um caso que é também importante pela mudança do presidente, que é menos moderado do que o anterior, e ainda por cima numa altura em que Washington e Teerão tentam chegar novamente à mesa das negociações no que toca ao acordo nuclear.

Sim, embora o Irão eu apesar de tudo não tenha certeza de haver uma grande mudança a este nível, porque na prática, vamos ser claros aqui, a parte da política externa e sobretudo da política de segurança, da parte também militar do Irão nunca é realmente controlada pelo presidente.

Sim, é sempre o líder supremo.

Exato, pelo líder supremo, pelo guia da revolução islâmica, que é um cargo vitalício.

Mas sempre poderíamos falar de um contrabalanço, digamos assim.

O comentário não deixa de ser pertinente, porque apesar de tudo, o Irão é um sistema muito peculiar, mas apesar de tudo, dentro do Médio Oriente é um país onde ainda há eleições com algum pluralismo e, portanto, é apesar de tudo um sinal de uma certa viragem, vamos dizer, mais hostil aos Estados Unidos.

Eu agradeço aos dois. O "Café América" desta semana fica por aqui. Já sabe que pode ouvir-nos sempre que quiser em podcast e que estamos aqui todas as terças-feiras, depois das notícias das 11 na Rádio Observador. Contamos consigo.