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Pode bem ser um dos golpes mais duros nas pretensões de Donald Trump. William Barr, procurador-geral dos Estados Unidos, que dizem ser um dos mais ardentes aliados do presidente, foi muito claro. Pelo menos até agora, não foram encontrados indícios de fraude que alterasse o resultado das eleições. Trump, ainda assim, não desistiu, mas já admite que pode não conseguir chegar ao Supremo Tribunal. Pelo caminho, lá se vai fazendo a transição também com um olho na Europa e na futura relação transatlântica, ou pelo menos assim espera a União Europeia da parte de Joe Biden. São temas para o Café América de hoje, com o Henrique Borné e não um, mas dois Joões, Diogo Barbosa e Almeida Dias. Eu sou a Sara Nunes de Oliveira, vamos ao prêmio Frank Underwood desta semana. João de Almeida Dias, começamos por ti com a entrevista de Donald Trump à Fox News e os republicanos que só agora começam a reagir.
Donald Trump deu a primeira entrevista, parece piada, porque nós não deixamos de ouvi-lo, mas Donald Trump deu a primeira entrevista desde as eleições à Fox News este domingo e foi uma entrevista de cerca de 50 minutos, foi uma coisa longa ao telefone, e lá pelo meio, depois também de fazer várias alegações de fraude, que depois nunca substanciou, Donald Trump também sugeriu, disse que era possível que o Departamento de Justiça e que o FBI estivessem envolvidos numa espécie de conspiração, conspiração a palavra é minha, para não permitir a sua vitória. Portanto, o presidente dos Estados Unidos está a acusar a maior instância de investigação federal, o FBI, e aquilo que é uma mistura de Procuradoria-Geral da República e Ministério da Justiça, que é o Departamento de Justiça, de estarem a conspirar contra ele. Na sequência disto, ou não necessariamente na sequência disto, mas a verdade é que depois disto, nos dias seguintes, Bill Barr, o procurador-geral da República e um aliado de Donald Trump, como ouvimos ao início, veio dizer que até agora não houve provas, não foram detectadas provas de fraude ao ponto a que o resultado pudesse vir a ser alterado. Ora, esta declaração pode ser dotada de alguma coragem, eu diria. Enfim, é sempre um aliado de Donald Trump. Por exemplo, Bill Barr foi bastante generoso na altura da investigação em torno da Rússia. A primeira vez que soubemos do relatório de Mueller foi através de Bill Barr e ele próprio omitia ali várias coisas. Portanto, é aqui uma pessoa que, de certa forma, vira costas ao presidente para assumir a sua responsabilidade institucional. Agora, é uma pessoa que já está a falar muito tarde. É o Bill Barr que fala, isso é importante, mas também fala a 1 de dezembro, e isso é muito tarde para aquilo que nós vimos. E juntamente com Bill Barr, há muitas outras pessoas que ainda não falaram e também outros que já falaram do Partido Republicano, mas que o fizeram em hora muito tardia. Nós na semana passada falámos do Chris Christie, por exemplo, quem deu o empurrão que acabou por levar o presidente a dar início ao processo de transição. Ora, Chris Christie esteve na equipa de Donald Trump em 2016. Em 2020, foi ele que o preparou para os debates com Joe Biden. E durante este tempo todo, sabia-se perfeitamente pela boca do presidente que ele não iria conceder uma derrota no caso de ficar para trás nas eleições. E, portanto, estas pessoas estão a falar tarde, mesmo que falem bem, e os resultados práticos de eles estarem a falar tarde e de estarem a agir tarde são bastante gritantes e flagrantes.
Mas ainda assim, Henrique, tu encontras aqui um crossover entre prêmios, porque, na verdade, atribuirias um donut precisamente a um republicano.
É, eu percebo o ponto do João, e acho que isso deve ser mencionado, que é: alguns estão a falar um pouco tarde demais, mas apesar de tudo, também acho que isso lhes dá força ao que estão a dizer. Ou seja, serem alguns republicanos que não são anti-presidente e que vão dando razão à interpretação de que não houve fraude, também é importante para agarrar o país. Eu acho que neste momento esse é um dos aspetos mais importantes. E aí entra quem eu teria dado um donut, ao Gabriel Sterling, que é um funcionário da Geórgia, responsável pela questão do controle da contagem dos votos, e que deu uma comunicação, uma conferência de imprensa, com um tom absolutamente desesperado a dizer: "Chega, isto tem de parar. Há pessoas que estão a receber ameaças de morte, a vida destas pessoas está em risco". Ele referia-se porque houve a certa altura um conjunto de vídeos, em alguns casos manipulados, em que supostamente alguns funcionários da empresa que trata das máquinas de contagem dos votos teriam manipulado a contagem dos votos. Ele explica o que aconteceu, mas o que é importante naquilo é o ar dele absolutamente desesperado a dizer: "Isto tem que parar, porque há vidas que estão em perigo". E, portanto, eu percebo o que o João está a dizer, mas acho que são muito importantes estas declarações, porque são pessoas mais próximas dos republicanos que podem fazer com que o eleitorado, e há uma parte significativa, as sondagens dão conta de que há uma parte muito significativa de eleitores republicanos que acredita mesmo que houve fraude. E, portanto, o mal que este presidente fez à América é tão grande, que este contributo para reduzir o impacto desse mal é muito importante e que consiga ir trazendo com eles, ou seja, mais importante do que eles desvincularem-se de Trump, é conseguirem ir trazendo com eles eleitores que estão na dúvida sobre se houve fraude ou não. E, portanto, por esse lado, eu acho que o tema é muito importante, mas pode trazer outro donut.
Biden tem feito já várias nomeações. João Diogo Barbosa, sempre capaz de ver o mal em algum lado. Queres falar e entregar aqui um Underwood às ligações empresariais pouco transparentes de alguns dos nomeados?
Sim, esta semana não quero ser fofinho e o prêmio vai para uma investigação do New York Times.
Sempre moderação, não é?
Claro, uma para cada.
Não, Sara, ficamos com o "sempre capaz de ver o mal em algum lado", que é para poder usar no Café Europa.
Sejamos sérios. Houve uma investigação do New York Times que revelou como uma série de nomes importantes da nova administração do Biden, desde logo o secretário de Estado, Antony Blinken, a principal candidata à liderança da defesa, Michèle Flournoy, mas também outras figuras mais discretas, mas que trabalham na área das Forças Armadas e da diplomacia, ou com a campanha de Biden, ou já foram nomeadas. Esta massa humana de técnicos capazes fundou uma empresa de consultoria antes de se envolver novamente na política, ou seja, na transição da administração Obama para a administração Biden, esse período negro da história conhecido como a presidência Trump, e nessa aventura empresarial, eles juntaram-se também com um fundo de investimento de capital e ajudaram-no a conseguir vários contratos com a defesa no valor de milhões e às vezes centenas de milhões de dólares. Estas ligações pouco transparentes levantaram a oposição à esquerda e à direita, o que é sempre bom, porque prova que é possível consensos. E é importante lembrarmos que antes de Trump, este tipo de suspeitas de promiscuidade entre uma elite que governa quando o seu partido ganha eleições e que ganha dinheiro quando o outro partido é que as vence, eram uma das principais questões políticas. E é isto que funda a ideia de pantano que tanto serviu a Donald Trump e que tanto sucesso lhe trouxe. E eu gostava, sinceramente, até como europeu, que Biden pudesse quebrar este ciclo vicioso de pessoas que trabalham no privado e depois no público e aproveitam as influências de um lado para o outro. Acho que esta questão vai ser levantada quando os nomeados tiverem de ir ao Senado apresentarem-se e dar justificações. Duvido que possam ser vetados por causa delas, mas é um mau sinal e é um sinal que reforça tudo aquilo que Trump apontou e, portanto, é o pior da semana.
Pessimista e também descrente. Também apontamos, João Diogo Barbosa. Eu também tenho aqui um Frank Underwood muito rápido, é para os perdões presidenciais. Na semana passada, Donald Trump já tinha perdoado o seu antigo conselheiro Michael Flynn. E ontem foi notícia que Trump e Rudy Giuliani teriam falado na possibilidade de haver uma espécie de perdão preventivo, perdão a priori, concedido a Rudy Giuliani por processos que ainda possam vir por aí. Isto não é propriamente um inédito. Nixon teve um perdão por parte de Ford, que também foi preventivo. O George Washington também fez isso e também Jimmy Carter, mas é raro e a mim parece-me que este tipo de ações não só revelam muito sobre a maneira como pensa uma determinada administração, como acabam por minar sempre, de alguma forma, os tempos que se seguem, porque depois ficará sempre, pelo menos, o amargo de boca de não se saber se determinada pessoa, se fosse julgada, investigada por determinado caso, se viria a descobrir uma coisa ou não. E este tipo de perdões implica que nem sequer se venha a saber o que é que aconteceu, porque esses processos pura e simplesmente não podem seguir. E, portanto, acho que independentemente de ser Trump ou qualquer outro presidente, não é um bom princípio.
Eu acho que é legítimo. Eu sempre que jogo Monopólio guardo aqueles cartõezinhos para sair da prisão para o futuro. Portanto, acho que é perfeitamente legítimo. Se eu faço isso no Monopólio, por que eles não podem fazer isso com a República?
E não foi só com Giuliani. Ontem havia uma notícia ao final do dia que dizia que já se tinha discutido a possibilidade de estender o perdão preventivo, esse grande conceito, aos três filhos mais velhos de Trump. E, portanto, se calhar mais vale fazer um abaixo-assinado, o Trump perdoa e toda a gente põe zero assina embaixo e fica incluído e toda a administração pode viver quatro anos de descanso.
Bar aberto.
Seguimos então neste Café Monopólio, perdão, Café América, com coisas mais doces, vamos ao donut da semana. O doceiro de serviço esta semana é apenas um, Henrique, e o possível acordo no Congresso para um plano de estímulos à economia.
Eu faço aqui de otimista, mas diga-se em abono da verdade, em parceria com o João Diogo, que o João Diogo também tinha chamado a atenção para este tema.
Agora é que estragaste tudo.
É verdade.
Estávamos aqui a criar uma narrativa tão boa.
A verdade estraga-nos sempre uma boa história. Bom, mas por acaso eu acho que pega um bocadinho com aquilo que o João Diogo estava a dizer por uma razão, porque há uma espécie de centro bom e centro mau Por assim dizer. Ou seja, há um lado que nós todos reconhecemos, que é o risco de quando os interesses convivem alegremente mais à esquerda, mais à direita e se distribuem entre si. Isso, nós na Europa, queixamos algumas vezes quando são os partidos do centro do sistema a governar e que se apoiam e os interesses vivem ao colo disso. Mas depois há um outro lado, que nós chamamos muitas vezes já não o centrão, mas a moderação, que é quando os partidos tendem a aproximar-se para resolver soluções. E é aqui que eu quero chegar. É isso que pode estar a acontecer nos Estados Unidos com a discussão do segundo pacote de estímulos à economia. Nós temos conversado várias vezes, a economia americana tem uma capacidade de recuperar, aqui a expressão resiliência pode-se mesmo usar, isto é, uma capacidade de poder voltar ao normal mais forte do que a europeia, quando for possível estar a fazer atividade econômica e não constrangidos pela situação de pandemia, que impede a normal atividade econômica. E esta semana, na terça-feira, dois senadores, um democrata da Virgínia, Mark Warner, e uma republicana do Maine, de quem já falamos aqui, Susan Collins, apresentaram o que pode vir a ser um acordo entre os dois partidos para um plano de estímulo na ordem dos 908 mil milhões de dólares, que é bastante mais do que o Mitch McConnell tinha falado inicialmente. Isto tem apoios, quer nos republicanos, quer nos democratas. Entre os republicanos, tem apoio do Mitt Romney, que tem sido um republicano a fazer, de facto, um papel que se distingue dos outros. E, portanto, há uma possibilidade, e é aqui que eu quero chegar, numa altura em que ainda não se sabe qual vai ser o resultado, o equilíbrio final do Senado, há aqui um sinal de que mesmo com um Senado republicano, pode ser possível encontrar soluções a médio prazo. Portanto, isso parece-me ser uma boa notícia se vier a acontecer. Não vale a pena irmos nos detalhes da proposta, mas há uma possibilidade de acordo bipartidário para um pacote de estímulo. E isso é uma boa notícia.
Uma boa notícia, quer o Senado fique republicano, quer fique tão dividido que algumas deserções podem complicar futuros acordos, é de facto um bom indício. Avançamos rapidamente para o Sarah Palin desta semana. João de Almeida Dias, é aquele tipo de dinheiro que é mesmo muito mal gasto, que tu trazes aqui ao Sarah Palin.
É verdade, Donald Trump gastou três milhões de dólares para fazer a recontagem em dois condados no Wisconsin e acabou por ver a sua vantagem diminuir num deles e ver a vantagem de Joe Biden aumentar noutro. As mudanças são microscópicas, são 132 votos no condado de Milwaukee e no condado de Dane são menos 50 e tal votos que Donald Trump tem de vantagem. Portanto, canalizando aqui um pouco o Jerónimo de Sousa que tem dentro de mim, Donald Trump foi por lã e saiu tosquiado.
É um bom disparate para esta semana, João Diogo Barbosa. Desafio-te a encontrares aí um provérbio também, um dizer popular para esta mudança, esta transição de poder que está a acontecer no Twitter.
"To fact, to follow", não é? E, portanto, eu tenho uma pequena contabilidade de outro tipo digital. Isto porque Trump, desde as eleições, tem perdido seguidores no Twitter, que é a sua plataforma preferencial, ao mesmo tempo que Joe Biden tem ganho. E, portanto, a diferença é esmagadora. Trump perdeu cerca de 100 mil seguidores, enquanto Joe Biden ganhou mais de um milhão e 100 mil. E eu acho que numa altura em que nem todos os estados certificaram os resultados, numa altura em que os tribunais ainda estão a decidir quem ganhou as eleições, o Twitter parece já ter tomado uma decisão e a transição de poder está claramente a avançar a bom ritmo.
Em curso.
São bots venezuelanos.
Acho que uma parte disso também terá a ver com o facto de o Twitter, a conta do Donald Trump, ficar cada vez menos divertida.
E depois há um outro lado, também é preciso ser sincero, que é também ninguém seguia o Joe Biden, convenhamos.
Eu também não sigo nenhum deles. Vou deixar aqui uma nota de curadoria da lista de pessoas a seguir. Não sigam nenhum deles, é muito aborrecido. Trump tem mais caps lock e, portanto, quem gostar e quem tiver problemas de visão pode ter aí um brinde.
Eu recebo um alerta a cada vez que o Donald Trump vai ao Twitter e escreve alguma coisa. Portanto, imaginem como é a minha vida.
Devias me dar dedicação.
Pois faz, mas quer que eu faça.
Devias me dar dedicação, que isso faz mesmo. Olha, Sarah, ainda tenho tempo para dizer a quem tiver saudades da genuína Sarah Palin.
Tens 30 segundos.
Tem que ir à net procurar "Masked Singer", que é um concurso onde figuras famosas aparecem mascaradas a cantar e o júri tem que descobrir. Isto foi em março, mas Sarah Palin apareceu mascarada de um urso azul e cor-de-rosa. E vale muito a pena. Procurem "Masked Singer", Sarah Palin, e reencontrem Sarah Palin em formato ursinho ou ursão azul e cor-de-rosa.
A surpresa dos jurados quando ela tira a máscara é, de facto, um momento épico. Final da primeira parte do Café América desta semana. Voltamos já a seguir. Segunda parte do Café América desta semana. É natural que os norte-americanos sejam os principais interessados naquilo que está a acontecer nos Estados Unidos e na transição do poder e nos planos de Joe Biden para o futuro do país, mas naturalmente, porque são os Estados Unidos, o resto do mundo também está particularmente atento e no resto do mundo também se inclui a União Europeia. Joe Biden, aliás, já foi convidado para a cimeira União Europeia-Estados Unidos, prevista para o primeiro semestre do próximo ano. Henrique Bonnet Entrego-te a ti este tema, porque sei que tens enorme interesse em falar dele, para começar.
Eu tenho, sim. Porque eu acho que há um sinal interessante que Biden deu. Ele tem falado de uma ideia de uma cimeira das democracias, que não é evidente o que seja, não está completamente definido, mas basicamente parece ser uma aliança do Ocidente, no sentido em que não tem que abranger apenas os países da NATO. Portanto, é uma espécie de NATO do século XXI, em formato de cimeira ainda, que junte democracias para terem uma estratégia semelhante para enfrentar o mundo global hoje em dia. Isso traduzido quer dizer democracias de um lado, China do outro, e quem não quiser tomar posição, fica em meio caminho. E tem que ver com um outro aspecto que me parece muito importante, que é a compreensão de que mais do que a geografia pura, e isso faz lembrar a questão da NATO, porque sei que eu digo uma NATO do século XXI, mais do que a geografia pura, conta também o digital, que não tem o mesmo tipo de limitações geográficas, e a percepção de que é no domínio da tecnologia e das regras sobre a tecnologia e da utilização dos dados que vai estar parte do confronto entre Estados Unidos e China, ou parece-me como Biden está a querer pôr, entre as democracias ou o Ocidente, diria eu, e a China. E, portanto, isto parece-me interessante, e parece-me interessante a resposta que a União Europeia já começou a preparar. Soube-se esta semana que a Comissão Europeia tinha lançado um documento para discussão entre os ministros dos Negócios Estrangeiros, e depois provavelmente subirá aos chefes de Estado e de governo em algum momento, de aprofundar as relações entre Estados Unidos e a União Europeia. Eles referem, particularmente, cinco áreas: saúde, clima, digital, relação especificamente com a China e a segurança. Mas eu diria que tudo isto somado, podemos estar a assistir a um regresso da relação entre os Estados Unidos e a Europa, mas não só, em que os Estados Unidos, e eu acho que é essa a grande diferença, olham para os países que têm sido seus aliados tradicionais, de novo como aliados e não como inimigos, porque foi assim que Trump se referiu a alguns destes países. E as coisas que Trump disse sobre a Europa, sobre a Alemanha, etc. Porque uma coisa é dizer, com razão, que têm que pagar mais pela sua segurança, outra coisa é referir-se à União Europeia ou à Alemanha como sendo inimigos da América. E Biden está aqui a introduzir a ideia de que não senhor, não são os inimigos da América, e é com eles que nós queremos falar para conversar com a China. Nós temos todos dito, e agora paro aqui, que uma presidência Biden não vai ter uma lista de prioridades na política internacional completamente diferente. Mas eu acho que a alteração do tom e da relação com os parceiros no mundo pode fazer toda a diferença.
Isso chega. A minha dúvida é se nós vamos só ver o regresso de uma relação transatlântica que existia antes, ou se isso significa que também se vai manter esta ideia de termos normalmente os Estados Unidos, mesmo com boas relações com a União Europeia, a exigirem mais por parte da União Europeia, e um pouco na posição de "certo, nós é que lideramos aqui, até na área da defesa e numa série de coisas, mas vocês têm que fazer mais", porque nós não ouvimos só isso com Trump. Com Trump ouvimos de outra maneira, mas ouvimos ao longo dos anos sempre esta postura dos Estados Unidos, que às vezes aqui um pouco com mixed messages, não é? Que é queremos que vocês assumam mais, mas às vezes também não queremos que assumam tanto. Mas isso vai acontecer ou está mesmo na altura de uma mudança profunda na relação entre Estados Unidos e União Europeia, em que a União Europeia se assume também como um par e não numa posição ligeiramente subalterna, como às vezes vemos que acontece. Nem digo por imposição dos Estados Unidos, mas às vezes parece que a União Europeia quer essa relação, mas que vai fazendo as coisas de maneira que os presidentes norte-americanos sucessivamente possam estar em várias áreas e dizer: "A Europa tem que fazer mais." Porque se formos honestos, isso não aconteceu só com Donald Trump.
Pois, eu acho que isso pode ser complicado. Porque está-se sempre a falar, acho que os dois falaram em regresso, e não foram os únicos. Aliás, uma das frases de Joe Biden para isto é dizer que a América está de volta. A questão aqui parece-me tentar perceber até que ponto é que Joe Biden, em termos de política externa, vai tentar voltar àquilo que Obama fez ou se vai construir daqui para frente. Se ele tentar construir, isto é a minha opinião, aquilo ou reconstruir aquilo que Obama fez e que Donald Trump deitou por terra, como por exemplo, o acordo climático de Paris, acho que é mais ou menos consensual que os Estados Unidos vão poder entrar com facilidade. Já não será tão fácil voltar a fazer o acordo nuclear com o Irão, tanto por aquilo que se passa no Irão, até na semana passada, com a morte de mais um cientista nuclear, e depois também com algumas resistências que há nos Estados Unidos, até dentro do Partido Democrata. Agora, há O que eu acho que é sempre mais difícil é a questão de olhar para frente, mas é precisamente isso que Joe Biden vai ter de fazer. E não parece claro ainda qual é o caminho, ou seja, se é reconstruir ou se é construir daqui para frente, porque o mundo hoje em 2020 é radicalmente diferente daquele que era em 2016, inclusive na política externa. E eu vejo aqui algumas dificuldades de como é que a União Europeia pode ter um papel totalmente claro aqui. Outro tema importante tem a ver com o comércio. Será que há vontade para se estabelecer um acordo de comércio livre entre os Estados Unidos e a União Europeia, como já se falava no tempo de Barack Obama, deixou-se de falar no tempo de Donald Trump, e agora talvez possa vir a ser possível? Será que isto é possível? Pergunto ao Henrique Pornes se as suas fontes de Bruxelas, tirando aquela fonte daquele menino que faz xixi, dizem alguma coisa em relação a isto, se é possível pelo menos o início destas conversas em termos de acordos comerciais ou se Joe Biden se calhar não está assim tão virado para isso.
Eu não queria monopolizar, eu não sei se o João Diego queria aqui entrar primeiro, porque eu queria comentar mais umas coisas.
Não, sobre isso eu posso dizer. Eu não tenho fontes, nem sequer aquelas que incluem meninos, mas na semana passada o comissário Dombrovskis, que é mais uma personagem do Café Europa do que do Café América, é um senhor que tem responsabilidades na economia e no comércio. É um lituano que trata de números e tem exatamente a cara que se espera que um lituano que trata de números tenha. Eu vejo já a dizer que é impensável regressar ao TTIP, celebre acordo comercial, não só porque o mundo mudou, mas também porque mesmo no mundo antigo já havia uma grande oposição e, portanto, a relação daqui para a frente terá de ser obrigatoriamente diferente, terá de ter uma nova estrutura e será construída de outra maneira. E é curioso porque Manfred Weber, outra personagem do Café Europa, já tinha levantado essa possibilidade, mas foi muito rápida a Comissão a negar essa hipótese. Eu acho que é importante a questão do comércio, sobretudo porque há uma guerra comercial, nós esquecemo-nos disto, mas neste momento há ainda tarifas dos dois lados, da América em relação a produtos europeus e da Europa em relação a produtos americanos. E eu diria que a prioridade deve ser a de resolver essas disputas e a de voltar a um "mindset", para usar um termo terrível, de comércio livre. E acho que é importante a nomeação, por exemplo, de Janet Yellen, que é uma pessoa que ao longo da sua carreira mostrou sempre grande apetência por tudo o que tem a ver com o comércio livre, mas consciente. E, portanto, eu diria que na parte do comércio, a estrutura será nova, será diferente daquela que estava pensada para o TTIP, e não acho que isso seja necessariamente mau. Não sei se queres agora entrar, Henrique, eu tenho mais coisas para dizer, mas não sobre comércio.
Eu concordo com o que tu estás a dizer, isto é, não me parece que alguém acredite que nós vamos voltar a 2016 ou ao período de Obama. Há aqui transformações que aconteceram, há papéis diferentes. O que me parece é que nós estávamos a correr o risco da Europa se pensar a si própria como uma espécie de terceira potência alternativa. Estados Unidos, China e Europa como uma entidade alternativa quase entre os dois. E isso parece-me ser o que estes sinais evitam. Isto é, tanto os dados pelos Estados Unidos como dados pela Europa são: "Não, isto não é um a um, é dois de um lado e um do outro", se quisermos pôr a coisa nesses termos. O que não significa que a Europa não tenha de si própria uma percepção diferente. Há, no entanto, um problema, João, que a Europa gosta muito de ser levada a sério, mas às vezes falta-lhe o "hard power", porque parte do poder americano também é poder militar. Dir-me-ão: é hoje em dia menos significativo, são mais importantes, sobretudo nesta relação para a Ásia, a questão do comércio internacional, os acordos internacionais, tudo isso. Eu admito que sim, mas a possibilidade de ter poder militar, de que se pode eventualmente dispor e usar, conta. E a verdade é que a União Europeia não tem o mesmo, o Reino Unido deixou de fazer parte da União Europeia, e a única potência militar nuclear na Europa é França. E portanto, estas coisas limitam um bocadinho a capacidade. E a Alemanha não tem, por hábito ou por norma, participar em ações militares que não sejam de manutenção de paz e de intervenção no sossego de conflitos. Portanto, esse elemento parece-me que conta. Também é verdade que não podes voltar ao TTIP, mas alguma espécie de aceleração de acordos comerciais me parece necessário. O outro ponto onde eu acho que há aqui um acelerar é nesta história da regulação da tecnologia. A União Europeia prepara-se para apresentar em breve, na próxima semana ou nos próximos 15 dias, o chamado Digital Services Act, que é uma proposta de regulação que vai acertar muito em cheio nas grandes techs americanas, porque tem que ver com as imposições que se apresentam, as obrigações relativamente a terceiros e que as grandes techs são, sobretudo, americanas. E eu acho que vamos encontrar muito desta tentativa de acordo na área do digital e da regulação do digital. Aliás, começa a surgir a ideia de que tech politics substitui geopolitics como conceitos ou pelo menos complementa o conceito. E, portanto, o sinal, não querendo ter uma bola de cristal, para mim parece que há um sinal de reaproximação e da Europa a querer alguma igualdade, mas alinhamento com os Estados Unidos e não uma espécie de potência alternativa.
Deixa-me pegar na questão das tecnológicas, porque me parece importante, e pensar que, por um lado, é aí que a Europa quer um acordo com a América, mas é também aí que há mais divergências, porque se pode ser fácil chegar a um acordo em relação a impostos e a grandes impostos a essas empresas para ultrapassar o planeamento fiscal, parece-me mais difícil que se chegue a acordos no que respeita à política de concorrência e à posição de mercado que essas empresas podem ter e devem ter. Acho que aí vai estar uma grande divergência entre a América e a União Europeia. A isso não ajuda também o facto de a administração Biden ter já muita gente que tem um passado nas grandes tecnológicas, que fez lá carreira ou que por lá passou a dada altura. Acho que numa altura em que é tão importante para a Europa parecer que é dura com as tecnológicas americanas, que protege a privacidade, que protege o mercado, não é totalmente compatível com a discussão que está a ser tida na América. Porque na América essa posição é mais típica dos dois extremos, quer à direita, quer à esquerda, o breakup da big tech. E eu acho que é difícil que alguém como Joe Biden possa aderir a essas teses mais radicais. Novamente, aqui temos de pensar no controle que ele possa ter do Senado, que parece difícil, e eu acho que a agenda vai ser muito moderada.
Além que no Senado será sempre dividido. Isto é, em temas destes, a divisão não é apenas democratas, republicanos, é interior. Deixa-me contribuir, finalmente, com uma nota.
Só a última frase. No final de contas, são só quatro anos, não se muda o mundo em quatro anos, como Donald Trump nos mostrou. Nós estamos de volta às discussões que tínhamos antes de Trump e, portanto, nem Trump conseguiu mudar o mundo em quatro anos.
Nem Biden mudará em quatro, claro, mas pode inverter um pouco a trajetória. Eu acho que é disso que estamos a falar. Agora repara, há aliás duas transformações no Biden que a Europa quer, mas que podem ter consequências negativas, que é o regresso. A América tem sido quem tem reduzido mais percentualmente as taxas de emissões de CO₂. O regresso ao Acordo de Paris e políticas públicas que incentivem a transição verde vai também acelerar a transição económica verde, ou seja, aquilo que a Europa queria, que era poder liderar a economia verde, corre o risco de uma América acelerada nessa área lhe fazer concorrência. No digital, como tu dizes bem, eu levanto este ponto, sabendo que para aproximar os dois lados do Atlântico, se é para fazer uma coisa que seja em parceria, não será fácil fazer uma regulação europeia que seja imposta aos americanos e uma regulação na área dos impostos que seja para taxar as grandes empresas americanas, não conversando com os Estados Unidos. Isto é, quando há conversa e há diálogo, ambas as partes vão ter que ceder. Portanto, a Europa, se quiser ser muito agressiva com as big techs americanas, está a alienar a América de Biden, que se está a querer aproximar. Portanto, aí também me parece que não será tudo como a Europa queira. Agora, é diferente. O processo, por exemplo, da Huawei, foi um sinal disto. Os americanos tiveram que usar imensa influência, imensa pressão, para dobrarem os europeus a resistir à Huawei. Temos estado a ver, isso está a acontecer pela Europa fora. E numa fase em que a relação era muito mais distante, mas acabaram por conseguir. Foi a América de Trump que conseguiu isso, primeiro no Reino Unido, na Alemanha. Portanto, essa influência americana mantém-se. Numa relação mais próxima, talvez dobre ainda mais algumas posições europeias. O que eu acho é que isto pode ajudar a formar um mundo em que a separação entre este bloco a que eu estou a chamar o Ocidente e a China, seja mais evidente.
Eu acho é que os Estados Unidos e a União Europeia podem ter-se em lugares diferentes nas suas listas de prioridades. Parece-me que esta questão das tecnológicas, de facto, será provavelmente uma das que vai forçar uma aproximação mais rápida, ou pelo menos forçar Joe Biden a lidar com a questão europeia e com a relação da Europa. Não é que ele não queira, mas digo em termos práticos, de forma mais rápida, por ser uma discussão que está em curso. Agora, não querendo ser o João Diego Barbosa da segunda parte, eu tenho dúvidas que, tendo em conta tudo o que está a acontecer nos Estados Unidos, que a relação transatlântica esteja no topo das prioridades de Joe Biden. Não tenho a menor dúvida, eu acho que Joe Biden tem uma relação ou uma visão da Europa até bastante mais próxima do Barack Obama. Barack Obama, aliás, depois em termos de concretização, não vimos grande coisa acontecer. Eu acho que Joe Biden será mais próximo e mais pró-europeu ainda que Obama. Ele conhece bem a Europa, a Europa conhece-o a ele, isso é uma coisa positiva. Eu tenho é dúvidas de, no início deste ano, com uma pandemia a decorrer, e sim, a questão do combate à Covid está em um dos pilares definidos pela União Europeia na futura relação transatlântica. Mas isso também se vai esgotar, felizmente, neste caso. Mas com o estado da pandemia nos Estados Unidos, que provavelmente estará ainda mais grave em janeiro, fevereiro, com a questão económica que também virá daí, dos tempos difíceis que provavelmente Joe Biden vai enfrentar nos primeiros meses, logo veremos quanto tempo, do seu mandato. Eu vejo com alguma dificuldade que este entusiasmo da União Europeia, que já lhe estende a passadeira para esta cimeira, que se concretize, de facto, em coisas muito específicas. Tenho dúvidas que isto passe de declarações de intenções.
Sara, deixa-me só dizer duas coisas. Suponho que o João Almeida Dias queira entrar, mas deixa-me só dizer duas coisas sobre isso muito rapidamente. Uma, se Biden conseguir que a relação transatlântica deixe de ser problemática e seja de cooperação, eu acho que já é um salto enorme. Eu não estou à espera que ele nos dê muita atenção e carinho, que seja fofinho, por usar uma expressão da semana passada ou há 15 dias. Mas se deixar de ser conflituosa, já me parecia muito bom. Segunda questão, a presidência rotativa da União Europeia no primeiro semestre do ano que vem, calha a Portugal. Coincide com a tomada de posse do presidente dos Estados Unidos. Portugal tem todo o interesse que a relação transatlântica se reforce e que a União Europeia não se centralize mais, se mantenha atlântica. Devemos aproveitar a presidência portuguesa para isso.
João de Almeida Dias.
Totalmente de acordo. Acho que não vai ser um caso fácil e a União Europeia também vai ter de perceber que não é, de facto, um regresso a 2016. E, portanto, é esse o desafio e não sei até que ponto é que há uma total preparação para isso. Espero que sim.
E será também interessante perceber como é que a presidência portuguesa vai navegar nessas águas no início do próximo ano. Termina aqui o Café América desta semana. Nós voltaremos, naturalmente, na próxima, sem passar pela casa da partida, sem pagar dois contos ou sem receber dois contos, na moeda de pessoas antigas como eu. Até para a semana.