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Muito bom dia. Tivemos a mais longa maratona de debates, tivemos o maior número de candidatos, vamos ter um boletim de voto onde estarão três nomes que nem sequer chegaram a ser candidatos oficiais. Andamos há semanas a seguir os candidatos num roteiro onde quase já nem há os comícios de antigamente a fechar o dia. Tivemos menos sondagens do que tem sido habitual, mas muito mais discussão sobre sondagens. E chegamos ao fim desta maratona, com, dizem essas mesmas sondagens, mais indecisos do que é habitual. Quando se previu que desta vez haveria de novo uma segunda volta, previu-se que poderia ser uma corrida capaz de fazer lembrar a histórica eleição de 1986. Mas será que estas duas eleições são sequer comparáveis? Este é o ponto de partida para o Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia. 2026 repete em parte o que aconteceu em 86? Tem nada a ver, ou tem?

Tem nada a ver.

Não?

Nada a ver, mas é que mesmo nada a ver. Talvez haja um ponto que tenha uma coisa a ver, que é a ideia de que fazemos hoje campanhas mais parecidas com campanhas de outros países. Em 86, houve uma coisa que na altura se falou muito, que dizia-se que era importado dos Estados Unidos, que era na campanha Freitas do Amaral apareceram uns chapeuzinhos, que não eram pelinhas, mas uns chapeuzinhos sob o candidato, que era uma coisa muito comum nas campanhas americanas. Agora deixei de ver também nas campanhas americanas, mas na altura era uma coisa muito comum, os chapéus, e depois nas convenções os chapeuzinhos iam todos pelo ar e coisas assim do gênero. Portanto, havia um lado mais internacional. Eu acho que nestas há alguns indicadores de que podemos estar nos aproximando do tipo de campanhas que fazem nos outros países por más razões. Já lá vou às más razões, porque acho que é importante referir isso. Ora bem, o que me parece que é muito diferente desta vez? Primeiro aspecto: há muito mais candidatos. Nós tínhamos na altura quatro candidatos fortes. Havia um quinto que não contava para aqui, que foi um candidato do PCP que serviu só para fazer propaganda na primeira volta e que desistiu, ao contrário do que aconteceu desta vez. Mas tínhamos quatro candidatos que eram quatro figuras. Três fundadores da democracia, no sentido literal do termo. Dois vindos do Partido Socialista, Mário Soares, naturalmente, e Salgado Zenha, outro vindo do centro-direita, Freitas do Amaral, e alguém que tinha sido a primeira mulher primeira-ministra, e até agora a única, Maria de Lurdes Pintasilgo. Eram personalidades fortíssimas com uma marca muito conhecida, uma marca enorme naquilo que tinha sido a construção da democracia portuguesa e no que viria a ser a seguir, porque continuaram a ter papel importante, exceto Maria de Lurdes Pintasilgo, ainda seria eurodeputada, Salgado Zenha desapareceu, mas muito relevante. Depois tínhamos algo para resolver de forma clara. E aquilo que tinha que ser resolvido de forma clara era quem tem hegemonia à esquerda. Repara, estamos num tempo em que já tinha havido governos de centro-direita, já tinha havido alternância em Portugal. Já tinha havido maiorias da AD por duas vezes, de resto, em 79 e em 80, e não se colocava uma questão que é muito determinante. Eu costumo dizer que o critério básico para nós avaliarmos se temos ou não uma democracia num país, não é saber se temos eleições. Enfim, há outros critérios, imprensa livre, partidos, essas coisas todas. É um critério que os cientistas políticos muitas vezes referem, Karl Popper, Isaiah Berlin, por aí adiante, que é: podemos alterar de maioria pacificamente? Porque muitas vezes temos eleições, mas esse problema lá fica. E aquilo parece tudo como deve ser, mas depois há mecanismos de garantir que nunca se muda, mesmo votando.

Aliás, a própria oposição se via numa situação armadilhada da sua existência servir apenas para mostrar que a maioria que nunca sai do poder é democrática, portanto, é uma perversão.

Uma perversão. Portugal já tinha passado por esse teste. Aqui estávamos numa fase que depois foi a fase final da ideia de que uma mudança de ciclo político podia representar um regresso ao passado. Ainda funcionou para eleger Mário Soares e para derrotar Freitas do Amaral, mas depois de passado pouco tempo, tínhamos maioria absoluta de Cavaco Silva. O tempo já era outro. Mas havia uma questão que não estava resolvida, que era a questão de saber se o grande debate, a grande tensão de 1975, que foi uma tensão do 25 de Novembro, entre a esquerda democrática e a esquerda antidemocrática, terceiro-mundista, o que tu quiseres, várias variantes aqui, folclórica, por aí adiante, quem é que tinha a hegemonia. E isso esteve novamente em causa nessa eleição, até porque surgiu de repente um campeão da esquerda democrática de 75 do lado ou aparentemente alinhado com a esquerda não democrática, que era Salgado Zenha. Isso ficou resolvido. Mário Soares impôs-se Na primeira volta e depois fez um mandato que não deixou margem para dúvidas. E a partir daí, o declínio da esquerda não democrática ou da esquerda comunista ou da esquerda terceiro-mundista, com flutuações, mas nunca deixou de acontecer. O último fôlego de Álvaro Cunhal foi o "tapem os olhos, votem em Mário Soares", porque aquilo que ele queria verdadeiramente era alguém que ficasse, de alguma forma, mais dependente da sua agenda. Isso tinha mais questões, porque também metia militares, metia o PRD, que era um partido estranho, o uianismo, tudo isso era uma constelação, mas ficou resolvido. Nós agora estamos num quadro radicalmente diferente e podemos dizer que poderíamos estar, e não sabemos até que ponto é que estamos, a debater a hegemonia à direita. Porque temos um partido, um fenómeno novo chamado Chega, e temos um PSD que já não é tão hegemônico como historicamente foi. E tudo isso se passou no quadro parlamentar normal, evolução que se passou em muitos outros países. Os grandes partidos foram perdendo o apoio na maior parte desses países, não valem o que valeram no passado. E estou a falar quer do centro-esquerda, quer do centro-direita, isso aconteceu um pouco por todo lado. Mas agora, de repente, podemos ter algo mais complicado. E falámos disso aqui muito ontem, a propósito do que pode acontecer ao PSD se Marques Mendes tiver um resultado muito mau, como indicam algumas sondagens. Pode não acontecer, mas eu diria que pode acontecer. Só que este debate não foi feito. O debate que foi feito, foi um debate sobre outros temas, outros assuntos, se é que podemos falar verdadeiramente de ter havido debate sobre alguma coisa. E esse é outro tema que eu já irei tratar. Agora, repara, aqui a questão de saber esta questão, nós estamos a assistir a uma transformação, penso eu, do espaço político português e do espaço político também do centro-direita, para uma espécie de desarrumação que já aconteceu noutros países, mas que vai, e veremos melhor isto talvez no fim, quando isto tudo acabar, quase obrigatoriamente passar pela integração, de alguma forma, do Chega nas possibilidades de solução. Não quer dizer que tenha aqui para o governo, mas que acabe por de alguma forma influenciar a governação, porque deixa de ser algo em que não se toca. Porque de repente, quando estamos a falar de 22, 23, 24, 25, no limite, 33, 40% na segunda volta, se a aventura for à segunda volta, tudo fica diferente. Mas isso é um debate que vamos perceber mais adiante e sobretudo, neste momento, não foi assumido. Isto nunca se debateu na campanha, não foi isso que esteve em causa. Não houve nenhum debate em que um candidato como Mário Soares tivesse tido outro candidato, como é o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, uma frase inesquecível que foi: "Se o senhor ganhasse as eleições, no dia seguinte, as pratas fugiam do país, as pessoas embalavam as pratas e levavam-nas para o estrangeiro." Uma coisa muito marcante desse tempo. Ora bem, agora, o que aconteceu foram outras coisas que são sinais dos tempos, e eu vou falar delas para chamar a atenção para elas. Primeiro que tudo, nós verdadeiramente não tivemos um debate com um fio condutor. E isso começou nos frente a frente. Não tivemos um debate político com um fio condutor. Nós poderíamos ter tido um debate com um fio condutor, que era, por exemplo, que posição para Portugal, na Europa, no tempo que estamos a viver. Nós tivemos uma campanha eleitoral que atravessou no tempo do Donald Trump, no tempo da crise iraniana, do tempo da intervenção da Venezuela, no tempo de discussões sobre o futuro da NATO.

Sobre o futuro da Ucrânia.

Sobre o futuro da Ucrânia, tivemos tudo isso. Falou-se do assunto? Episodicamente, uma coisa ou outra. Nunca se tratou disto. E isto, curiosamente, é uma área onde o presidente, não sendo o decisor final, tem uma palavra a dizer. Isto chegou ao ponto de até o Conselho de Estado, que estava convocado pelo atual presidente ainda, ser mal visto por se cair em campanha eleitoral. Evidente que aquilo foi tão desvalorizado, que era género: "É a mosca que nos está a incomodar, é preciso sacudir aquilo aqui ao nosso volta, não vamos falar disso." E portanto, tivemos sempre ou quase sempre debates determinados por coisas que muitas vezes eram a espuma dos dias, ou outras vezes eram a última coisa que tinha acontecido. Estivemos a falar com os candidatos sobre macas nos hospitais.

Como se o Presidente da República fosse um ministro ou um primeiro-ministro.

Um primeiro-ministro, ou um diretor-executivo do SNS, como se fosse isso. Não foi só esses temas, os temas da legislação que estão em cima da mesa, não estão em cima da mesa. Às vezes poderíamos dizer vem ou não vem à colação, vem quando mete questões mais constitucionais, quando mete questões de visão do mundo, sim, senhora, mas não é para discutir o detalhe com que se debatia. E isto acontece por quê? Acontece muito, e esse aspecto eu acho que é um aspecto também muito relevante, pela forma como a campanha é determinada, e as campanhas são determinadas, e esta é cada vez mais determinada, na forma como decorre, não no seu resultado, porque o resultado para mim é um ponto de interrogação, na forma como decorre pelo espaço comunicacional formal, não pelas redes sociais, curiosamente, ao contrário do que as pessoas dizem. Mas o espaço comunicacional formal, portanto, as televisões com 24 horas.

Os chamados mídia tradicionais.

Chamadas mídia tradicionais.

Televisão, rádio, jornal.

Os onlines, as televisões, nós também, as rádios, têm uma pressão constante para falar do que está a acontecer, que acaba por se sobrepor a tudo o resto. E temos muitas coisas que entram e saem da agenda quase instantaneamente, sem que se tenham capacidade de aprofundar o que quer que seja. Aquilo é tudo muito rápido. O que, na minha perspectiva, é ainda agravado pelo peso que têm vindo a ganhar, até em espaço de antena que têm, pessoas como nós, comentadores. E há tudo. Não vou agora aqui, há quem nós percebamos que aprendemos alguma coisa quando estamos a ouvi-los, e há outros que percebemos que andam apenas atrás da espuma destas coisas, e há porventura ainda agendas menos assumidas nalguns desses casos. Mas tudo isso cria uma velocidade que não dá para sedimentar nada. Isto não era assim em 86.

O diz que diz.

Isto não era assim em 86. Repara, só para as pessoas terem uma ideia de como era diferente. Vejamos como é que eram feitas as campanhas.

Deixa-me só fazer um parêntesis. Fator muito importante, só havia um canal de televisão. Isso determina muito da comunicação.

Não é que só havia um canal de televisão, não havia internet.

José Henrique Castro, não havia.

Não havia, com licença.

Não havia televisão por cabo, não havia internet. O "Correio da Manhã" saía uma vez por dia. As rádios faziam, algumas, uma intervenção por dia, outras quatro intervenções por dia e já era uma festa. Não havia diretos, até porque não havia meios tecnológicos para fazer diretos. Não era possível fazer diretos facilmente.

Ir à cabine telefónica enviar uma peça.

Era uma cabine telefónica qualquer. Era preciso transmitir sons, o peso da captação de som era uma complicação, tudo isto era muito diferente. O que fazia com que as campanhas dependessem muitíssimo mais de dois fatores que hoje são quase inexistentes. Um era os tempos de antena. Hoje os tempos de antena não contam. Podemos dizer, foram substituídos em boa parte pelas redes sociais. Foram. As redes sociais das candidaturas desempenham isso, e é muito relevante a forma como vê-se que algumas funcionaram bem e outras são um desastre absoluto. Quando olhamos para as coisas que aparentemente correram mal com a candidatura de Marques Mendes, é olhar para os números das redes sociais. Quer dizer, quem tem um décimo dos seguidores do André Ventura

Não tem grande alcance.

Quer dizer, vive em outro mundo. E depois, há outra coisa que era muito importante, era muito relevante o que se fazia na rua. E o que se fazia na rua era mesmo falar com pessoas e falar com muitas pessoas. E quando digo falar com muitas pessoas, era mesmo muitas pessoas. Aquilo que nós vemos hoje são campanhas de rua, ou de centros de dia, ou de centros de noite, ou de escolas, ou de teatros, ou coisa assim do gênero. Qual é a preocupação? É meia dúzia de apoiantes, espaços que não permitam perceber que são meia dúzia de apoiantes. Em vez de haver quatro ou cinco jornalistas, passou a haver 20 jornalistas, só os jornalistas em si, mais os câmeras, mais estas coisas todas, tudo aquilo em cima.

Uma multidão. Uma pequenina multidão.

Quatro bandeiras atrás e está feito.

Isso. E depois o momento, porque é preciso criar um momento.

E depois é preciso tentar encontrar um soundbite. E a maior parte das vezes, o soundbite não é determinado por aquilo que, de uma forma ou outra, o candidato quer dizer, mas por aquilo a que ele tem que responder quando lhe põe o microfone à frente. E esta semana tivemos o exemplo máximo disso com o que se passou na candidatura de Cotrim Figueiredo. É uma situação que tem um lado, estamos a falar de uma acusação da qual já sabia que podia existir há dois anos e que nenhum órgão de informação conseguiu comprovar, no momento em que salta para as redes sociais e foge para os jornalistas e eles começam a fazer perguntas ao candidato Agora fazem perguntas sobre ele que eles não confirmaram.

Em direto.

Em direto. Pode-se dizer que o candidato podia dizer não respondo, mas eu acho que seria suicidário. Ou então podia-se dizer que ele fazia o que ele fez, que foi começar por tentar responder e depois quando aquilo não saía dali, começar a contra-atacar o jornalismo. Isto não é novo. E aí talvez tenhamos nesta campanha um sinal parecido com o que se passou noutras campanhas. Já tínhamos tido antes. Nós tivemos campanhas em que o modo da fita foi sempre o mesmo. Chama-se André Ventura. E que chegava ao fim sempre com mais votos, a surpreender tudo e todos. Curiosamente, Cotrim nestes últimos dias adotou o mesmo registo. E eu começo a sentir, até consultando as caixas de comentários dos noticiários nos vários órgãos de informação, que pode estar a resultar. Porque eu digo que pode estar a resultar? Porque isto já aconteceu noutros países. Isto aconteceu nos Estados Unidos, onde nós temos números muito exatos de como a forma agressiva, ou não vamos dizer agressiva, vamos dizer-

Musculada.

Musculada. Como o jornalismo diz que faz escrutínio, e não gosta de ser escrutinado, também há isso. Acaba por virar as pessoas contra os jornalistas. Neste momento, os jornais nos Estados Unidos, a imprensa chamada imprensa tradicional nos Estados Unidos, está com os menores índices de credibilidade da sua história. Piores índices de credibilidade que os piores, digamos que aquilo que habitualmente está no fim da tabela, que é o Congresso. O Congresso costuma estar no fim, eles estão abaixo. O jornalismo está abaixo. Isto é talvez os paninhos desta eleição, o sinal de que temos uma campanha parecida com as campanhas de outros países. Mas não é bom sinal. Por quê? Porque isto, na verdade, os candidatos não se revelaram da forma como eles gostariam de se poder ter revelado. Isso beneficiou claramente dois candidatos, que puderam estar tranquilos porque ninguém lhes dizia nada, porque toda gente andava entretidos com os outros. Estou a falar, curiosamente, André Ventura e de António Jesus, que foram beneficiados por terem campanhas supertranquilas, nunca tiveram que responder a coisas complicadas, enquanto todos os outros estavam sempre no olho do furacão. E os outros quase nunca conseguiam dizer. O que nós vamos recordar? Há um momento aqui importante na campanha, que é o debate com o veio a mel, Marques Mendes, porque parece ser um momento de viragem, porque coloca em cima da mesa um tema que não estava em cima da mesa, que é aquilo que pessoas que foram políticos fazem depois de deixarem de ser políticos, basicamente é isso que estamos a falar. E que é algo que cria desconforto entre muitos eleitores. Muita gente diz: "Ele fez uma campanha antiga e não sei o quê." Onde é que a campanha Marques Mendes, exceto nas redes sociais, foi radicalmente diferente da campanha que fez Cotrim Figueiredo? Cotrim Figueiredo ainda foi a mais 300 dias do que Marques Mendes.

António Jesus, que campanha mais monótona e monocórdiga. Aliás, se foi assim, só tem mais um dia e assim deve continuar.

Ele vai até o fim assim, mas repara que isto chegou ao ponto. Eu estava ontem a ver uma coisa que os candidatos fazem sempre, que é ir ao Bolhão, o mercado do Bolhão do Porto. E eu estava a ver umas imagens das passagens pelo Bolhão e dizia assim: "Meu Deus, eu já fiz campanhas no Bolhão. Eu fiz campanhas no Bolhão em que as pessoas entravam por uma porta, eram levadas em ombros até a outra porta, literalmente, não conseguiam pôr os pés no chão."

Como treinadores de futebol.

Como treinadores de futebol. Não era isto.

Mas o Bolhão também já não é o mesmo, José Manuel.

Eu sei que o Bolhão já não é o mesmo, mas quem diz o Bolhão diz outras coisas. Isto é apenas um exemplo de uma coisa que é...

Havia a chamada entourage em torno do candidato.

Não era uma entourage, eram as pessoas, era quem lá estava.

Milhões.

Era quem lá estava, que não fugia, não caía em cima daquilo, que o aproximava.

Há uma pequena amostra disso nesta campanha, que é a ida do André Ventura às Cascinas.

Mas as Cascinas, o que é?

A ida do André Ventura às Cascinas, na minha opinião, até pode ter iludido o André Ventura sobre o apoio que vai ter e os resultados que vai conseguir.

As Cascinas habitualmente é um sítio do PS.

E ali, ele esteve lá e pronto. Os slogans que eram gritados também eram muito expressivos, tinham muito a ver com o povo e era muito isso, era como se fosse esse o momento, e viu-se. O André Ventura ficou completamente inebriado.

Tudo isto é muito diferente. Tudo isto é feito muito... Repara as próprias campanhas, um gajo olha pra agenda. Por exemplo, está aqui o Ribeiro e Castro, que fez a campanha de Freitas do Amaral.

Foi diretor executivo da campanha do Freitas do Amaral.

Eu acompanhei essa campanha na estrada. Era uma campanha, só para as pessoas terem ideia, que eu começava assim: às 9h, 10h da manhã, o máximo O candidato já estava a fazer um comício. Não era uma arruada, era um comício. Estamos a falar dos concelhos do interior do país, onde no largo da câmara, o largo principal, era colocado um palco com instalação de som, com uns cartazes, e se juntavam sempre centenas de pessoas, fosse o sítio que fosse do país, estivessem temperaturas negativas como às vezes estavam, e agora também estiveram, tivesse a chover ou não tivesse a chover, e vinha-se por aí abaixo e depois vinham centenas de automóveis atrás, espontaneamente. E no Soares, sobretudo na segunda volta, foi igualzinho. E nós tínhamos muitas vezes a noção. E eu fiz isso algumas vezes em algumas campanhas. Lembro-me de ter feito isso uma vez na campanha de 91 entre Cavaco Silva e Jorge Sampaio, uma campanha legislativa. Ter ido a um sítio, no caso concreto a Santarém, em que os dois tinham comícios no mesmo dia, uma pessoa chegava, olhava para os comícios e tinha a noção do que ia acontecer. Agora não há noção nenhuma. Quer dizer, também não havia sondagem. Não há noção nenhuma, porque nada aquilo tem importância, tudo é feito pra ter aquela nuvem de microfones, aquela nuvem de câmeras e conseguir dizer algumas coisas naquele dia, que a maior parte das vezes não vai passar, porque o que vai passar é a pergunta que o João Nuno te fez. Tudo isto levou uma volta e eu não creio que tenha sido uma volta genial, porque nós temos hoje, por exemplo, muito mais informação sobre o que possa estar em causa por causa das sondagens. E eu acho que ter sondagens é muito importante, porque ajuda-nos a tomar decisões, como é óbvio.

Ajuda-nos?

Os eleitores. Os eleitores têm mais informação, podem perceber melhor a utilidade ou não do seu voto. Não estou a falar de serem do voto útil, eu estou a dizer perceberem mais a utilidade do seu voto antes de irem votar. E há pessoas que passam a vida a perguntar qual é a sondagem para o seu candidato ganhar, porque há poucos candidatos que excitem o eleitorado neste momento. Exceto o Ventura. Acho que nenhum dos outros excita, mas é mais pra terem noção do que é que eles vão ajudar ou não vão ajudar a passar à segunda volta e depois como é que isso pode passar ou não pode passar. Estou a falar de gente, porventura, mais urbanos, mais educados, mais evoluídos, mais politizados, mas isso depois cria dinâmicas que também influencia eleitores mais distantes de seguir a vida política, daqueles que verdadeiramente vão pensar a sério nisto, se calhar, nas últimas horas. Isto é tudo muito diferente. Eu acho que nós temos tendência a dizer: "Isto é assim por causa das redes sociais, isso é uma catástrofe." Não, as redes sociais também são um sintoma de como isto evoluiu, num sentido que, na minha perspectiva, muitas vezes não é aquele que é mais favorável a uma escolha democrática informada. E tudo o que se passou nesta campanha, a começar nos 28 debates, acho que foram 28. Repara, nenhum deles teve audiências sequer semelhantes. Estamos a falar de menos da metade dos debates equivalentes a estes. Estamos a falar da primeira volta de há 10 anos, já havia muitos canais de televisão, já havia muita coisa, mas na altura, cada vez que o Ventura aparecia num debate, os debates com a Ana Gomes, com o Marcelo Rebelo de Sousa, era dois milhões de pessoas. Agora, alguns passaram vagamente um milhão, outros que não chegaram a 500 mil ou 600 mil. Com toda a gente a transmitir, com tudo, é uma diferença abissal. E como se percebeu, e eu também disse aqui a propósito disso, houve um debate que verdadeiramente escapou a esta lógica, porque nesse debate conseguiu-se discutir um pouco mais. E foi aquele que teve menos espetáculo, que foi o das rádios, porque até o debate equivalente nas televisões não correu tão bem.

Muito bem, está lançado o Contracorrentes. José Ribeiro e Castro, uma vez mais, bom dia.

Bom dia.

Como já aqui dissemos, foi diretor executivo da campanha do Freitas do Amaral em 1986. Via-se agora na posição de diretor executivo de uma campanha em 2026?

Bom dia a todos. Helena Matos, José Manuel Fernandes.

Também.

Os tempos são muito diferentes, como o José Manuel Fernandes já referiu. Desde logo, o grau de adesão do eleitorado, sobretudo nas maiores candidaturas e da campanha, da militância, foram campanhas de grande espetáculo e de grande intensidade com a população. Para ter uma ideia, só para citar alguns casos, por exemplo, nós na primeira volta, a campanha para a Frente Portugal fez um grande comício na Alameda.

Meu Deus!

Que teve muito mais gente do que o célebre comício da Alameda, na Fonte Luminosa, do Partido Socialista, em pleno PREC, que foi uma coisa extraordinária. Este teve muito mais gente. E depois, na segunda volta, ninguém sabia muito bem como ia ser uma segunda volta, resolvemos esticar e fizemos um desfile-comício na Avenida Liberdade, dos Restauradores. E foi uma coisa extraordinária que eu nunca mais vi. Quando chegou propriamente à altura dos oradores, a Avenida Liberdade estava completamente cheia, desde o Marquês até aos Restauradores, e aquilo estava marcado para as 15h e a partir de 14h45 começaram a chegar mais pessoas. E depois aquilo pareciam formigueiros, porque vinha gente do Marquês, vinha gente do Rossio e vinha gente de todas as laterais e das bocas de metro, da Barra do Salgueiro, da Rosa Araújo, da Rua do Salitre. Uma afluência muito grande e foi um grande teste pra segunda volta ver que o eleitorado estava mobilizado. Depois, eu creio que esta campanha, eu aliás ontem estive na apresentação de um livro de um jornalista sobre a segunda volta, o João Reis Alves, e disse que o podcast d'O Observador, As Mais Loucas Eleições de Sempre, tinha que mudar. As Mais Loucas Eleições de Sempre antes das outras, porque esta está em dose de loucura, vão muito para além do que se passou em 86. Ainda que a campanha é mais fraca em termos de adesão popular, não estamos nos tempos heroicos que duraram sensivelmente até aos anos 90, até às duas maiorias absolutas de Cavaco Silva. Depois, as coisas começaram a mudar um bocadinho de volume. Mas sobretudo tem uma nota de superficialidade que se olharmos bem, isso foi muito divertido, mas o grande motivo de interesse foi a tracking poll. Está a subir, está a descer. São coisas táticas que dominam as conversas, mas em termos de substância é muito pouco. As eleições de 2016, mesmo antes da campanha, tinham alguma substância. Francisco Amaral apresentou-se às eleições com um livro, "Uma Solução para Portugal", uma edição da Europa-América, que salvo erro teve 15 ou 16 edições para terem uma ideia. Havia pensamento que estava em discussão também no debate e os debates eram vistos. Eu concordo com o José Manuel Fernandes, acho que os debates tiveram pouco interesse. Eu próprio vi pouco. Ia mais ver os jornais que é que eles diziam, isso era mais importante. Também há uma coisa preocupante que no rescaldo convém tratar. É completamente inaceitável, é um caso de incompetência grave do Estado, que nós no domingo vamos votar no boletim de voto em que três nomes para a eleição não existem. Isto é um claro sinal de incompetência na preparação destas eleições. Portanto, é preciso antecipar os prazos mais 30 dias para dar tempo de estar tudo pronto. E agora vemos que para o voto antecipado e para o voto dos emigrantes na segunda volta vão estar na mesma os 14 nomes. Isto é um resultado de uma incompetência da lei eleitoral que tem que ser revista. Mas pior do que isso, apareceram candidatos faz de conta. É um sinal de falta de respeito pela eleição presidencial, que pessoas que se candidatam à eleição presidencial, candidatam-se sabendo que não têm as assinaturas suficientes e ainda exercem um direito de recurso. Isso é falta de respeito pela função por si própria, creio eu, por quem as apoia e pela eleição. É preciso proteger a credibilidade e a respeitabilidade de uma eleição, seja para que órgão for, mas aqui trata-se nada mais, nada menos do que da função presidencial. A eleição de 86 foi uma eleição estruturante do nosso sistema partidário e do sistema político, definiu dois campos, o centro-direita democrático e o centro-esquerda democrático, que dominou o quadro político até à geringonça. É a geringonça que o muda depois em 2015, e hoje estamos a viver ainda consequências disso. Esta eleição foi pensada por muitos, nomeadamente na área da maioria, para consolidar a vantagem que se tinha adquirido na segunda eleição legislativa de 2024, ou 2025. E do lado das oposições para abalar. Ainda é cedo para tirarmos conclusões, mas aparentemente não tem grande potência para redefinir ou assentar o sistema político. Há muitos fatores de incerteza, que eu não sei mesmo se com os resultados definidos a 8 de fevereiro, teremos já capacidade de leitura suficiente, tantas são as coisas novas ou as incertezas que existem. E depois, foi uma eleição para o chefe de Estado, para o Presidente da República, bastante ao lado do mundo. De facto, os temas que dominam a atualidade, parece que é ali num outro bairro. Quem for ver as primeiras páginas dos jornais neste período, vê que as manchetes dos jornais são sobre temas: a Venezuela, a Gronelândia, Ucrânia. E depois a campanha eleitoral é como se fosse a eleger o presidente do Benfica, ou do Sporting, ou do Porto, como se fosse outra coisa. E isto é preocupante. Também há aqui um certo triunfo da política de espetáculo, que eu creio que é algo que precisa de ser governado, ou então torna-se também um bocadinho uma política de plástico e que não vai ao encontro dos valores das pessoas e das suas preocupações. Mas tem sido bastante divertido seguir estas oscilações. E uma coisa também é nova: todas as sondagens dizem que a percentagem de indecisos é muito elevada. Em boa verdade, quem vir uma sondagem hoje, sexta-feira, último dia de campanha eleitoral, não pode ter uma ideia certa do que é que vai acontecer no domingo, porque a percentagem de eleitores Indecisos ou de pessoas que decidiram, mas admitem ainda votar é muito elevada e, portanto, há aqui um coeficiente de incerteza muito elevado que não existia em 1986. Houve, de facto, à partida, uma grande incerteza quanto à pessoa da esquerda que passaria à segunda volta e toda a gente previa que Mário Soares não conseguia fazê-lo, mas a partir da Marinha Grande, isso mudou de figura, do incidente da pancadaria na Marinha Grande, Mário Soares passou a sua campanha a ganhar um gás que se sentiu e, portanto, passou a admitir-se como provável que ele fosse o segundo classificado e acabou por ser o segundo classificado. À direita, era claro que Freitas do Amaral ficaria à frente com larga folga, como acabou por acontecer.

Que tipo de conclusões se podem tirar dos resultados de domingo?

Isto também foi muito fragmentado. E isso aumenta o grau de incerteza. E também acabam por ser as eleições mais partidarizadas de sempre. Começou toda a gente contra o almirante, desconfiando da sua independência, mas depois todos os partidos quiseram tomar conta de candidaturas ou ter o seu carrinho, mesmo relativamente àqueles que tinham começado com maior independência, como era o caso do António José Seguro, também uma pessoa que se apresentou com bastante independência. Mas depois é possível ver o candidato do PSD, o candidato do Partido Socialista, o candidato do Partido Comunista, o candidato da Iniciativa Liberal, só faltou um candidato do PAN, praticamente, o candidato do Bloco de Esquerda. E isto é mau pra função presidente da República, porque o Palácio de Belém é o último nicho de poder político que os partidos ainda não se apoderaram e ainda não vergaram e não submeteram. E portanto, isso hoje está mais em risco do que estava com Marcelo Rebelo de Sousa. Marcelo Rebelo de Sousa, com a sua imprevisibilidade toda, ninguém tem dúvidas que não era governado pelo PSD. Isso também tem as suas consequências. Isso é importante pro semi presidencialismo. Se tivermos um presidente da República comandado a partir dos partidos, isso desequilibra o sistema e pode estragar tudo.

Aliás, quando tivemos um presidente da República que quis fazer um partido, reparou-se bem nisso.

Sim, ele bem se arrependeu. E aliás, esse presidente é hoje recordado como o melhor presidente da República de sempre, até porque o fez depois, mas é preciso limpar esse passado do PR. E eu creio que ele fez isso. Portanto, isso é uma questão que temos que vigiar no futuro. Por outro lado, também da sociedade portuguesa e as personalidades políticas. Faltaram personalidades políticas que se apresentassem a si próprias com independência e com capacidade de aglutinar setores diferentes. Apresentaram-se duas, que eu já aqui disse, o almirante Gouveia e Melo, que depois também deu um pouco um ziguezague quanto onde queria assentar mais, e António José Seguro, que conquistaria o Partido Socialista, conseguiu, mas nunca deixou sempre de apelar a outros setores. Os outros é mais difícil. O Cotrim Figueiredo, desde o princípio, também apela a um eleitorado mais vasto, agora até apela explicitamente ao voto do PSD e as pessoas que lhe reconhecem que é uma figura acima da IL, da Iniciativa Liberal, que ele foi presidente e dirigente durante muitos anos, mas que tem uma projeção própria que vai pra além disso. Mas o resto foi muito pouco. Tivemos também, obviamente, a lançar-se com independência, coisas que não têm grande significado, como Manuel João Vieira ou o candidato Afonso Henriques, que de facto é uma coisa um bocadinho chucorreira, que uma eleição presidencial, estes candidatos se apresentem. Mas se a sociedade portuguesa quiser salvar o sistema presidencialista, é preciso apelar a que haja personalidades que com o tempo, se possam lançar e que tenham hipóteses, como fez Freitas do Amaral, como fez também Cavaco Silva mais tarde, quando se candidatou pra vencer as eleições presidenciais, perdeu a primeira, em que era muito ligado ao partido ainda, com Jorge Sampaio, e depois conseguiu essa projeção. E Marcelo Rebelo de Sousa, obviamente, tem um estatuto que tem a ver com a sua personalidade única.

Muito bem. Será que as presidenciais de 2026 são comparáveis, Helena Matos, às presidenciais de 86? Já ouvimos aqui o José Manuel Fernandes dizer que não.

A história não se repete dessa forma. Agora, eu acho que há aqui uma questão, desta campanha, que de alguma forma também vimos acontecer em 86, porventura até pela indefinição, porque estava tudo muito certo, estava a ser muito disputada, não havia propriamente um vencedor antecipado. O que acontece? A importância dos casos. A campanha de 86 tem sempre muito referido a questão daquele momento Marinha Grande, e nós, nesta campanha de 2026, vimos algo que não vimos acontecer nas campanhas eleitorais anteriores, e que é: nós quando passarmos a recordar esta campanha, vamos ter desta campanha a memória de dois momentos, dois momentos que podem ter ou estar a condicionar o resultado eleitoral. Estou a referir o momento do debate Gouveia e Melo e Marcos Mendes, que pode ter virado o resultado E, portanto, nesse sentido, isso não seria muito replicável nas campanhas anteriores, por exemplo, nas campanhas de Cavaco Silva, ou nas campanhas das quais Cavaco Silva saiu vitorioso, ou das campanhas de Marcelo Rebelo de Sousa.

Quando dizes virado o resultado, em desfavor de quem?

Em desfavor?

Dos dois ou só de Marques Mendes?

Não. Sobretudo de Marques Mendes, mas também pode ter alienado uma parte do eleitorado do Gouveia e Melo. Ele, neste momento, diz: "Pronto, Gouveia e Melo, se vou perder por não ser cínico, então não serei cínico."

Deixe-me só fazer uma coisa. Eu tenho a intuição, talvez estudos pós-eleitorais permitam perceber isso, mas tenho a intuição que aquilo que deu o cabo da campanha de Gouveia e Melo foi André Ventura.

Sim, claro.

Porque a base eleitoral, aqueles 30, 40% que ele às vezes aparecia, foi até Ventura não estar na corrida. E aquele famoso almoço, ele deve ter percebido se aquilo tinha caminho para andar ou se não, Ventura tem uma intuição política mutável, e fez o que fez. E Gouveia e Melo, desde que ele entrou, nunca mais recuperou.

Agora, aqui, em relação a Marques Mendes, nós conseguimos ter este momento, em que o debate, a certa altura, não só Marques Mendes nos dias seguintes não conseguiu explicar bem aquilo, como durante o debate vê-se que não conseguiu aguentar o embate. Portanto, eu acho que houve ali este momento de campanha, e depois temos a questão do Cotrim Figueiredo. Portanto, é uma campanha em que podemos ter casos, circunstâncias, que podem ter tido uma influência determinante no resultado eleitoral, porque há sempre influência da própria campanha, da própria dinâmica de campanha, mas neste caso nós podemos pensar se Marques Mendes estaria na má situação em que está neste momento, caso aquele debate não tivesse corrido naqueles moldes. E em relação ao Cotrim Figueiredo, podemos sempre interrogar o que é que poderia ser, ou em que medida é que, para um sentido ou outro, aquilo que aconteceu na campanha e estas acusações poderão ter tido influência naquilo que vai ser o desfecho eleitoral. Portanto, esta ideia de que os momentos ganharam nesta campanha uma preponderância que não acontece nas outras, sobretudo naquelas em que nós temos um vencedor quase que natural e antecipado, e portanto, de alguma forma, esta questão dos casos não tem essa preponderância. Depois acho uma outra coisa. Acho que desta campanha vão sair duas coisas. Uma: é muito provável que nós venhamos a eleger numas próximas eleições, e depois já direi quais é que acho que poderá ser, alguém que se torna imune aos casos. Ou seja, alguém que pode ter casos, circunstâncias, problemas muito mais graves do que estas, porque nós aqui nem acusações fundamentadas temos, e que chega e diz: "Qual é o problema? Provem."

Não precisa dizer isso, apenas que são campanhas contra ele. Foi o que fez o Trump.

Sim, é exatamente isso que eu acho. Ou seja, a certa altura as sociedades ficam extenuadas, sobretudo porque depois muitas destas coisas não se traduzem em queixa alguma. E eu acho que temos de perceber aquilo que está a acontecer com o Cotrim Figueiredo, até à hora de entrar para o estúdio, tanto quanto percebi, são insinuações, porque ninguém apresentou queixa. E isto também tem muito a ver com o crime da moda. Quando eu digo moda, não estou a desvalorizar. As sociedades valorizam, num determinado momento, determinados problemas, e depois largam-nos para se focarem noutros. Por exemplo, nós temos neste momento uma acusação gravíssima, mas gravíssima, de uns agentes da PSP que torturavam pessoas, mas uma coisa inimaginável. Ninguém pergunta nada a ninguém.

Pode envolver dezenas de agentes.

Mas é uma coisa inimaginável. Ou seja, nós fizemos um pé de vento.

Portanto, a Helena Matos transformada em repórter presidencial faria essa pergunta aos candidatos?

Não. O que eu quero dizer é isto: nós tivemos há uns meses-

Eles não podem dizer muita coisa. Há que se manifestar enorme preocupação, que é aquilo que eu sou capaz de dizer neste momento.

Mas só para ver.

Imagino que eles, a não ser que tenham uma informação privilegiada, espero que não tenham, desse ponto de vista, porque não é suposto terem.

Mas, por exemplo, lembram-se do problema enorme da comoção nacional que foi com a morte do Odair Muniz? Apesar de tudo, havendo ali problemas sérios, foi durante uma operação policial. Ninguém consegue programar aquilo. Nunca nenhum de nós, que eu saiba, esteve numa operação policial, foi polícia com uma arma na mão, num sítio complicado, em que há circunstâncias complicadas e disparou. É sempre de questionar quando um agente da autoridade dispara, mas são circunstâncias. Podemos achar que ele não reagiu adequadamente às circunstâncias, mas são circunstâncias imprevisíveis. Agora, nós temos aqui um caso de tortura, com coisas que têm de ser preparadas, antecipadas, circunstâncias em que há uma premeditação. O que é que acontece?

E partilha.

Sim, tudo e mais alguma coisa. Nem ao governo perguntam nada. Parece que é um facto administrativo. Portanto, os casos não são, muitas vezes, vividos por nós pela sua dimensão de gravidade, mas por ser aquilo que no momento está sob o foco. Se alguém tivesse dito durante a campanha: "O Cotrim ou outro candidato qualquer teve um outro tipo de..."

Não pagou uma multa.

Não pagou. Ou teve um problema com o senhorio, ou teve um problema com uma parente. Claro, isso há de ir para a investigação e logo se vê. Este estamos a falar de um tipo de acusação que está, neste momento, sob foco mediático e muito politizada. Basta pensar o que está a acontecer aqui ao lado em Espanha. Portanto, o que eu acho que vai acontecer é que, como estas coisas acabam por viver de circunstâncias do momento, que cria-se uma extenuação que leva a que passemos da exorbitação para a indiferença. E, portanto, eu acho que nós corremos o risco, e pensando também nas coisas aqui, por exemplo, do Marques Mendes, em que, de facto, não é apresentado nada de ilegal que ele tenha feito. É ainda prática uma expressão que ficou colada, o facilitador de negócios. Portanto, o que nós temos é que muito provavelmente, tudo isto vive muito do fogacho mediático do dia, nós arriscamos a, numas eleições próximas, aparecer-nos alguém que já nem interessa saber o que fez, porque tem aquela atitude de olhar e: "Vá, prove, diga. Sim, o que é que foi?"

Ias a dizer que, excetuando umas eleições, quais são?

Esta questão foi suscitada inicialmente pelo Paulo Treigo Pereira e tem fundamento.

Já tivemos, nestas eleições, um candidato a presidente de câmara, que foi eleito conhecendo-se acusações concretas em tribunal. Estou a falar daquela câmara ao pé de Guimarães, que era um candidato que ia para o Partido Socialista, o Partido Socialista retirou-lhe o apoio, mas ele foi eleito na mesma.

Sim, por ter agredido a mulher. Não eram coisas teóricas.

Havia queixas.

Havia queixas, não eram coisas teóricas. Portanto, há esta circunstância.

Vizela.

Vizela, exatamente.

Agora, temos aqui uma outra coisa. Nós vamos eleger um presidente, é claro que na segunda volta terá de ter 50% mais um, depois vamos ver a abstenção. Mas, na primeira volta, quem passar à segunda tem, por razões óbvias, mas mesmo assim, em 86 não era bem isto, vão ter uma base de eleitorado muito curto. A pessoa que vai chegar a Belém, vai chegar lá para que não chegue outro. Seja como for. Vai chegar, sobretudo, para que não cheguem outros. Há bocado, o Ribeiro e Castro referia aqui que Belém é, neste momento, o espaço de poder, penso que usou mesmo a expressão nicho de poder, que ainda não foi tomado, instrumentalizado pelos partidos. Eu acho que o próximo presidente da República será uma pessoa, seja ele quem for, particularmente frágil, porque a sua base de partida é muito curta. Suponhamos, António José Seguro vai por exclusão. Se for quem chegar a Belém, vai por exclusão e muito só desse ponto de vista. António José Seguro não é um homem que tenha uma base eleitoral, estou a falar até para lá do seu partido, como, por exemplo, tinha Marcelo Rebelo de Sousa ou como tinha Cavaco Silva. Cavaco Silva mexia-se e tinha sempre 1 milhão de votos. Dissesse, fizesse o que quisesse. Tinha 1 milhão de votos. Ali, em urna. Iam lá e estavam lá. Marcelo, absolutamente transversal. Ventura, se chegar lá, vale dizer, isso é pouco provável, mas Seguro se chegar, chegará sobretudo para que não chegue Ventura. É nisto que nós estamos. E aí há uma questão: será que o próximo presidente da República vai fazer dois mandatos? Nós antes tínhamos como adquirido que o presidente da República fazia sempre dois mandatos.

Foi uma regra que em França se quebrou.

Pois, exatamente.

Quebrou primeiro com Sarkozy, depois com Hollande. Enfim, agora voltámos a ter dois mandatos.

Sim, mas mais eu digo que não. Já nem sei.

Já se tinha quebrado com o Giscard d'Estaing.

Mas o que te leva a levantar essa dúvida, Helena?

Não tem, à partida, condições que levem a pensar, quem chegar a Belém, para já porque será muito difícil, depois porque nós estamos numa fase de degradação do próprio sistema do poder político, sobretudo ao nível governamental.

Isso é sinônimo de dizer que o próximo presidente, agarrando no teu pensamento, vai ser um presidente fraco?

Vai ser um presidente só. Vai ser um presidente muito só.

Independentemente de quem for eleito.

Independentemente de quem for eleito, porque até se pode dizer: "Imaginemos que é eleito o Ventura." Sim, mas é um presidente de uma cidadela. É exatamente a mesma questão. Nós podemos pensar quem é que pode ser eleito neste momento, Cotrim Figueiredo, André Ventura, António José Seguro.

Portanto, seguindo o teu raciocínio, um presidente eleito nessas circunstâncias, preocupado com o país, fará de Belém um instrumento ou uma ferramenta de construção de uma base sustentável de apoio.

Poderá fazer, terá de ser mais transversal. Talvez os que terão certamente maiores condições para essa transversalidade será António José Seguro ou Cotrim Figueiredo.

Porque são mais moderados

Porque há aqui um trabalho, são sobretudo pessoas que chegam. E porque André Ventura tem uma perspectiva da Presidência da República e do que deve ser a Presidência da República, que é diferente. Portanto, aquilo que nós temos aqui é candidatos que chegam por exclusão para não chegarem outro e que partem de bases de apoio muito curtas. Portanto, eu acho que nós poderemos ter pela primeira vez um mandato que pode não vir a ter um segundo.

Ser renovado. José Ribeiro e Castro queria acrescentar algo.

Acrescentar uma coisa. Eu há bocado, quando enunciei as ligações dos candidatos aos partidos, saltei, não me esqueci, o caso do André Ventura e do Chega, também é um candidato do Chega, e talvez o candidato que tem mais claramente uma estratégia partidária. Os outros disfarçam, mas ele segue isso. O Chega apareceu nas eleições de 2019, quer o Cotrim Figueiredo na Iniciativa Liberal, quer André Ventura tiveram 1,9%, se eu não me esqueço, e depois o Chega tem seguido uma progressão contínua de eleição em eleição. E creio que é isto que o André Ventura persegue: subir a percentagem eleitoral nesta eleição, logo na primeira volta, relativamente à percentagem que teve nas eleições legislativas. E portanto, reforçar a sua posição e a sua credibilidade como candidato a primeiro-ministro. Para Ventura, a verdadeira segunda volta, independentemente de ir a esta ou não, é as legislativas. É as próximas legislativas. Essa é que é a sua segunda volta. Não sei se passará ou não, porque isso tem-se batido ao longo da campanha, ninguém tem explorado muito, ainda que digam: "Ele não quer ser presidente." Eu acho que o seu eleitorado continua atrás dele e, portanto, é muito provável que ele esteja na segunda volta e a vá disputar. E acho que continuará, obviamente, a lutar pela vitória, porque se ele dissesse: "Desligo, agora não quero", então é aí que perdia.

E é completamente diferente ele passar de, vamos supor, que tenha agora 22, 23 ou 24, um bocadinho mais do que teve nas legislativas.

E chegar aos 30.

E depois chegar aos 33, 40%. Há uma sondagem de cenário de segunda volta que está 60/40. Completamente diferente.

É esse o trabalho.

Ou seja, consolidá-lo como alternativa.

Como alternativa e portanto reforçar a base de apoio eleitoral do Chega, que esteja teoricamente disponível para o apoiar nas próximas eleições legislativas. Isto também diz pouco da instrumentalização de umas eleições presidenciais. As eleições presidenciais não servem para isso. Quem é que sofre com isso? O presidente da República. Naturalmente, seja qual for, eu concordo com o que disse a Helena Matos, será sempre alguém mais frágil do que estávamos habituados. Há quem diga que terá sido o presidente Marcelo com a banalização do exercício da função nalguns momentos, mas estas eleições são uma página política que se vira, em que teoricamente, depende obviamente do próprio, o eleito terá uma presença mais diminuída no sistema político. Eu creio que isto é uma questão que os eleitores têm que pensar, mas é um comboio que está a correr na pista das eleições presidenciais, mas de facto olhando para outros voos.

Para outros voos. Já temos em linha o João Garcia, jornalista, junta-se a nós no "Contra-Corrente". Bom dia, João.

Bom dia.

Bom dia. Com vasta experiência já a acompanhar muitas campanhas à distância e também creio que no terreno, certo, João?

Algumas no terreno.

Algumas no terreno. Esta campanha foi esclarecedora ou ainda está, faltam umas horas para o seu fim?

Eu acho que esta campanha foi muito mais sobre o pensamento dos candidatos. São ações do poder executivo, propriamente do poder da presidência. Acho que falas um pouco consequência das perguntas, dos painéis e dos temas da atualidade. Discutiu-se bastante mais como é que o presidente poderia reagir ou iria reagir à agenda política do dia, do que propriamente ao debate sobre a política externa, sobre a defesa de EBEs, sobre o serviço militar, sobre a federalização da Europa, sobre questões nas quais o Presidente da República tem bastante mais intervenção. Por exemplo, sobre a lei laboral, que promulga ou não promulga, mas não é uma coisa do Presidente da República, não é um poder do Presidente da República. Eu acho que o debate foi muito centrado nas questões mais do Executivo do que propriamente da presidência. Nessa medida, saber o que eles vão fazer enquanto presidentes e dos poderes que, apesar de tudo, não são muitos do Presidente da República, como nós sabemos, não foi tão esclarecedora como isso.

Não é também um sintoma de provavelmente o regime semipresidencialista não deve estar em crise, mas se calhar não ter sido bem apreendido pelo sistema, pelos eleitores?

Aí está outra coisa que é um bom tema para se discutir. Se os presidentes sentiam que tinham poder suficiente, se era possível De facto tentar alguma revisão na Constituição, se o sistema podia passar para mais presidencialista ou para mais parlamentarista e essa discussão não houve. Nós tivemos inclusive um candidato que até decisões de tribunal ele fazia, prendia pessoas. A questão efetiva do poder dos poderes do presidente passou um bocado ao lado, acho eu. Centrou-se muito no debate sobre os problemas que tinham surgido e a saúde, o que é que o presidente pode fazer na saúde? Além, de facto, daquela coisa que parece que não tem eficácia nenhuma, que é sentar os partidos à mesa e dizer assim: "Vamos lá resolver este problema." Os pactos de saúde e os pactos da justiça andam a ser discutidos em Portugal, o da justiça há 30 anos, o da saúde para aí há 20, e nunca foi possível encontrar consenso. Ainda há pouco tempo foi aprovada a Lei de Bases da Saúde e agora já se está a falar de mais um pacto para a saúde para mudar outra vez a Lei de Bases da Saúde. Eu não quero dizer que esteja certa, quero dizer é que estas não são questões em que propriamente o presidente possa ser um protagonista, a menos que resultasse um presidente que fosse eleito com uma grande margem de votos, com uma porcentagem enorme e um grande apoio popular e, portanto, a sua voz e a sua magistratura de influência pudessem ter um peso ultradeterminante nos dias que aí vêm.

O José Ribeiro e Castro fazia um sinal que queria fazer um comentário.

Sobre o semipresidencialismo. Eu gostava de defender o nosso sistema semipresidencialista, que é de facto uma grande criação dos constituintes em 1976, o semipresidencialismo à portuguesa. E olhando para trás, nós temos que reconhecer, com críticas que possamos fazer, o sistema aguentou o quadro democrático. Portanto, o presidente da República, em diferentes mandatos e com diferentes personalidades, pôde sempre ser a válvula de escape quando havia crise e uma almofada para compor e manter a coesão no funcionamento das instituições.

Eu não estava a dizer, desculpe lá, João, que houvesse uma alteração do sistema.

Não, eu não estava a dizer que queria dizer. Estava a reagir a críticas que tenho ouvido ultimamente, e nomeadamente na aproximação destas eleições, e que vão ao ponto de sugerir uma alteração do sistema eleitoral para presidente da República, voltando ao colégio eleitoral do tempo do Estado Novo e também, não nos esqueçamos, do primeiro pacto MFA-Partidos. Afinal, o que estava previsto era um colégio eleitoral entre a Assembleia do MFA e a Assembleia Legislativa, que elegeria o presidente da República. Isso seria um desastre. Portanto, esse presidente é que não teria autoridade nenhuma. O nosso presidente tem a autoridade que lhe resulta da sua eleição por voto popular direto e depois não tem poderes executivos, não é o chefe do Executivo e, portanto, tem independência suficiente para intervir de acordo com a sua personalidade e com o momento, como tem acontecido. Portanto, eu recomendaria a toda a gente que não mexa na única peça do sistema que não está em crise, porque a Assembleia da República está em crise, o sistema eleitoral não é revisto, o governo, em consequência, está em crise, está tudo em crise, menos o presidente da República. Portanto, não estraguemos isso. É só isso que queria fazer um pequeno comentário.

Essa era a discussão, mas eu estou de acordo consigo.

Pronto, ótimo, eu não quis contraditá-lo.

Não, está bem, o problema não é esse, eu posso-me ter explicado mal. O que eu acho é que essa é a discussão-chave nesta campanha eleitoral.

Estou de acordo consigo.

E não houve.

Não houve. Nesse sentido, João Garcia, tendo essa discussão decorrido nesses moldes, ou a campanha decorrido nesses moldes, quem é que saiu mais beneficiado? Ou a quem é que ela beneficiou mais?

Não sei, eu tenho uma grande dificuldade em fazer este tipo de análises e perceber essas coisas, porque eu acho que a gente só consegue perceber se as mensagens dos candidatos, eu pelo menos, só consigo perceber se as mensagens dos candidatos estão a ser as que eles efetivamente pretenderem passar, quando a gente tem noção de qual é o objetivo deles e a quem é que eles querem falar e com quem é que eles querem falar. É óbvio que os candidatos que estão longe das nossas convicções, eu não digo partidárias, mas digo ideológicas, dificilmente nos parece que ganham debates ou que tiveram grandes prestações. E portanto, eu tenho muita dificuldade em ver isso. Ainda por cima desta vez, eu acho que a grande diferença desta campanha para as anteriores foi a completa ausência dos partidos. Os partidos não estiveram no apoio aos candidatos.

João, não estiveram os líderes, porque os partidos, as máquinas tiveram.

Mas viu-se muito menos em Arnaldo do que noutras situações. Tu não viste desfiles sobretudo com bandeiras do PS e do PSD, como se viram em eleições anteriores.

Isto é em toda a razão.

Não sei se porque os partidos perceberam que já não têm a influência que tiveram na opinião pública, e se retraíram.

Queriam esconder.

Os próprios candidatos não se reclamavam. Obviamente, diziam todos que tinham muito orgulho dos apoios que recebiam. Mas a questão não é essa, a questão é que nenhum deles falou diretamente para o eleitorado do partido que os apoia, por exemplo.

No final, um bocadinho Marques Mendes. Marques Mendes tentou dizer que, com a ajuda de Montenegro, que apareceu duas vezes na campanha. Mas foi só Marques Mendes.

Desculpem interromper. Bom dia, João. O que foi dado de mente aqui, Helena Matos, foi interpretado por muita gente como um sinal da fragilidade da candidatura de Marques Mendes. Teve também essa leitura, quando a candidatura começou a ficar com óbvios problemas, então isso foi visto como um sinal de fragilidade e não de força. Eu acho que aí houve uma coisa que mudou, que foram as candidaturas de Marcelo. A forma como Marcelo Rebelo de Sousa fez as suas candidaturas, de alguma forma, mudou alguma coisa. E a própria eleição de Marcelo acaba por ser um sinal dessa passagem para um terceiro, quarto plano dos partidos. Agora, eu também tenho a certeza.

Na segunda campanha, dispensou totalmente.

É óbvio que havia PSD. É óbvio que sim. Mas, e nesse sentido, talvez uma das primeiras vezes que temos uma campanha com alguém, agora estou a falar dos tempos recentes, com alguém que tem muita gente dos partidos à sua volta, mas não tem os partidos e que ainda chegou a ser encarado como um possível vencedor desta campanha, é o caso de Gouveia e Melo, porque as outras têm a máquina, e a máquina é muito importante. Agora, tudo isto que nós estamos a dizer seria completamente diferente caso tivéssemos tido aquilo que nós consideramos como candidatos, aqueles que são considerados os candidatos naturais, e que seria o caso de António Costa, seria o caso de Passos Coelho. Nesse sentido, hoje estaríamos a falar de umas eleições completamente diferentes, só que eles não quiseram.

Esses candidatos nenhum deles quis, de facto.

Pois não, o que também é revelador.

Eu acho que é sobretudo revelador do peso dos dois principais partidos não ser tão determinante na sociedade atual, nos tempos atuais, porque ambos tiveram desgastes eleitorais nos apoios. Eu acho que se nós tivéssemos um partido maioritário na Assembleia da República ou com 30 e tal por cento de votos, se calhar esse partido aparecia e o candidato que viu o apoio desse partido. Agora com os partidos todos na casa dos 20 nas sondagens, deixam de ser tão determinantes e se calhar acabariam por ser presentes envenenados, mais do que reforço das campanhas. E com a crítica que existe na sociedade aos partidos e às formas como estão os partidos e à necessidade de repensar a vida dos partidos, ter os partidos na campanha seria mais ruído do que propriamente apoio. De qualquer maneira, eu não sei sinceramente qual é o peso do que se passa na comunicação social na votação de domingo. Nós assistimos sempre nos Estados Unidos. Isto agora passa tudo muito pelas redes sociais. Nos Estados Unidos, na campanha entre Trump e Kamala, o segundo conteúdo mais visto foi um blog de um senhor chamado Joe Rogan. Blog não, canal do YouTube. Logo a seguir ao debate entre a Kamala e o Trump. E foi o segundo conteúdo mais visto. A Kamala recusou-se. Ele dizia que os candidatos fossem ao estúdio dele, a Kamala resolveu não ir, o Trump foi. E foi o mais visto. Eu não sei que tipo de influência, e acho que esta campanha nisso vamos poder estudar depois, vai ser uma campanha muito mais feita no mundo virtual, no online, do que propriamente nos canais normais de televisão. Fala-se muito da importância da tracking poll. Eu não sei quantas pessoas, que percentagem de eleitores é que estão preocupados com a tracking poll e é que vão ver a CNN às nove da noite. Eu vou.

Ouve e depois comenta. Todos nós ouvimos e comentamos, esse é o problema.

Mas comentamos e vemos entre nós, entre aqueles que andam na bolha da política. Eu conheci uma história, desculpem lá, a história é individual, mas eu acho que pode ser sintomática. Uma jovem que dizia a um amigo meu, não foi comigo, ela é filha de um amigo meu, dizia que ia votar no coturno de cigarro Até ouvir o Seguro no Geirinhas dizer que ia ao Baú. E o Geirinhas confrontá-lo: "Mas no Baú há muita droga." E o Seguro dizer: "Muita droga, mas o que se passa no Baú fica no Baú." Isso são abusos de voto. O Cotrim perdeu o voto e o Seguro ganhou o voto. Eu acho que nenhum de nós, que vivemos a política e que estamos atentos a essas coisas, nos passaria pela cabeça que uma coisa dessas, nem sei quantos de nós é que seguem o Geirinhas, quantos de nós, os que estão na bolha política, damos importância a essas coisas, mas o mundo está muito diferente, a comunicação está muito diferente.

Eu posso dizer, João, a entrevista do Guilherme Geirinhas ao António José Seguro teve 105 mil visualizações. Estou a olhar aqui para os dados do YouTube.

Mas há youtubers portugueses que têm sistematicamente, todos os dias, conteúdos com 70, 80, 90, 100 mil visualizações. Atenção, nenhum canal de notícias tem essa visualização.

Não.

Nem nada que se pareça.

E portanto, que influência é que essas coisas têm? Onde é que se discutiu, de facto, a campanha presidencial? Foi nos canais tradicionais? Foi na internet?

Já que estamos a falar disso, e para não ser acusado de tomar aqui partido. António Filipe, 33 mil visualizações, António José Seguro, 105, Catarina Martins, 74, Luís Marques Mendes, 104, João Cotrim Figueiredo, 261 mil visualizações.

No Geirinhas?

No Geirinhas. Henrique Coveia e Melo, 190 mil visualizações.

E o Ventura não foi lá?

O Ventura nunca aceitou o convite do Guilherme Geirinhas.

Pronto, mas são diferenças muito significativas. Eu não sei o quê, não faço ideia, eu não vi nenhuma delas.

YouTube, porque isto depois desdobra-se nas plataformas podcast, miniclipes, etc.

Eu tenho visto várias dessas participações em miniclipes, são de facto muito eficazes. Muito mesmo.

Essas entrevistas do Geirinhas?

Sim.

Helena, não percebi, muito significantes ou muito eficazes?

Muito significativas, são muito interessantes, porque a questão dos miniclipes, eu vi nomeadamente chegaram-me algumas-

É o best of, não é? É o melhor

...sim, chegaram-me algumas do António José Seguro, em que as perguntas dos clipes iam muito direcionadas para procurar dar dele uma imagem muito jovem ou mais jovem e chegar ao público jovem e de repente nós tínhamos o António José Seguro a dar conta como é que tinha conhecido a mulher numa discoteca, que ele gosta de ser disc jockey, aquelas coisas todas, que é tudo contra a imagem da campanha de António José Seguro, que na minha opinião tem corrido tão bem porque ele não tem feito nada. Ou seja, como os outros têm tido imensos problemas, ele paira e a linha vai ascendente na campanha, que é feita pelas más circunstâncias dos outros. Porque se não fosse isso, estávamos todos a dizer que era uma campanha antiquadíssima, que o candidato não falava, não sei o quê, porque na verdade vai discreto entre os pingos da lama. Ele vai entre os pingos da lama dos outros. E a campanha, ele susga, conforme dizia uma senhora que só vi aqui esta manhã, é um candidato muito bem apresentado. Portanto, o senhor com apresentação.

Ao velho princípio de que ninguém ganha, os outros é que perdem.

Claro, mas isso é um caso. Este eu acho que é um caso, sim.

João Garcia, agradeço-lhe. Muito obrigado por ter aceitado o convite.

Um abraço a todos, obrigado.

Obrigado. Miguel Santos Carrapatozo, editor adjunto de política do Observador, bom dia.

Bom dia.

Estamos na reta final da campanha, faltam sensivelmente 12 horas. Quem tinha a vida mais dificultada no início da campanha e soube tirar partido destas duas semanas?

É difícil fazer essa avaliação, porque quando se dá o início formal da campanha, o tom muda por completo. E muda por aquilo que já estávamos a falar há instantes, que é o impacto da sondagem diária da Tracking Poll da TVI da CNN. Porque a campanha, pensando, por exemplo, no caso de Luís Marques Mendes, que era até aí um confortável favorito a passar à segunda volta, ia aparecendo assim nas sondagens. Fez uma maratona de debates muito competente, tirando o frente a frente com Henrique Coveia e Melo, mas a campanha Luís Marques Mendes foi pensada para ser à volta e em torno do apelo ao voto útil à direita. Ora, quando aparece uma primeira sondagem diária onde João Cotrim Figueiredo está a disputar seriamente o lugar de campeão da direita moderada, se quisermos, isso acabou por dinamitar a campanha Luís Marques Mendes e obrigá-lo a reagir, coisa que fez com alguma dificuldade, até sensivelmente ao meio desta segunda semana de campanha. Depois, pensar que a primeira semana de João Cotrim Figueiredo foi feita na crista da onda e a segunda semana é aquilo a que estamos a assistir. Tudo isto foi, de facto, uma campanha muito volátil, com muitos acontecimentos, com três raríssimas exceções, duas pela positiva, uma pela negativa. Vou começar pela negativa. Henrique Coveia e Melo Foi uma campanha flat, na medida em que, de repente, aquele que era o protagonista de todas as conversas, de todos os debates, de todas as discussões sobre o futuro das presidenciais, apareceu nesta campanha sem ter lugar à mesa. Nem era o alvo principal dos seus adversários. Os ataques que faziam produziam poucos efeitos. Deixou, de alguma forma, de contar. Portanto, foi uma campanha que foi flat, na medida em que não cometeu grandes erros, mas também não teve grandes momentos de rasgo. Também por isso mesmo, porque passou do grande favorito, da figura incontornável, daqueles que diziam que seria muito impossível derrotar nestas eleições, para um quarto, um quinto classificado, dependendo das sondagens. Isso foi uma dificuldade na campanha do almirante. Depois as exceções positivas, ou seja, duas figuras que tiveram campanhas muito competentes, e acho que as sondagens estão a refletir isso mesmo: André Ventura e António José Seguro. André Ventura sabia que tinha uma missão, que os seus saíssem de casa para votar no dia 18 de janeiro, no domingo. Fez uma campanha pensada para os seus, fidelizando os seus, e percebeu a determinada altura que a autofagia em que estava o resto da direita era tal que só precisava de ficar sentado na cadeirinha a fumar um charuto enquanto assistia a João Cotrim Figueiredo, Luís Marques Mendes e, em parte, também Henrique Gouveia e Melo a trocarem acusações muito duras. E fez uma campanha muito competente nesse sentido e acrescentou uma camada à sua persona política que nós não conhecíamos. Ouvir André Ventura dizer que o que importa é discutir os problemas do país, que não quer entrar em bate-boca com os seus adversários, é uma nova personagem que André Ventura nos apresenta e eu admito que com muito sucesso, não só na primeira volta, mas também na segunda volta. André Ventura fez uma campanha inatacável desse ponto de vista. Deixou os outros cometerem erros, focou-se em construir a sua nova persona política. Já a pensar no pós-6 de Outubro. Exatamente. Aquele que consegue agregar a direita. No fundo, foi sempre o sonho de André Ventura. André Ventura sempre teve o sonho de liderar a direita em Portugal. Nestas eleições, ficar em primeiro, sobretudo se ficar em primeiro na primeira volta, arrisca-se a ficar muito perto desse objetivo. E depois António José Seguro, que fez uma campanha, como dizia a Helena, sem riscos, mas também sem falhas. António José Seguro teve também uma grande vantagem, que foi aparecer confortável nas sondagens. Portanto, aquele efeito que se poderia colocar ou que se poderia antecipar da campanha de António José Seguro se transformar num diálogo à esquerda, muito condicionado pelos candidatos à esquerda, sobre a história de agregar a esquerda ou não, um pouquinho como tem acontecido nas últimas legislativas, e que isso cria sempre dificuldade aos candidatos do Partido Socialista, criou a Pedro Nuno Santos, e eu disse legislativas, mas posso acrescentar autárquicas. Sabemos o efeito que a coligação das esquerdas teve no imaginário do eleitorado socialista, que já virou a página, já não está aí, quer um Partido Socialista mais moderado, mais chegado ao centro. António José Seguro, nesse aspecto, era a figura certa para protagonizar esse esforço de moderação e de recentramento do Partido Socialista e teve essa vantagem que as sondagens lhe deram de não haver o drama do apelo ao voto útil à esquerda. António José Seguro ensaiou esse discurso no início da campanha e rapidamente percebeu que já não precisava, porque a esquerda à esquerda do PS representa hoje muito pouco e já tinha existido um esforço de mobilização em torno de António José Seguro. Portanto, fez uma campanha também ela muito competente, sem riscos, cinzenta, certinha, podemos acrescentar aborrecida, mas como dizia o João Garcia, às vezes o segredo é mesmo cumprir e não perder. E acho que António José Seguro fez uma campanha para não perder e arrisca-se a passar à segunda volta. A pergunta é muito especulativa, a resposta também, mas tu, como acompanhas os partidos e acompanhas a fundo a vida política, achas que pode haver, do lado da esquerda, surpresas até o final do dia? Alguma desistência à 25ª hora? Não, desistência, não. A surpresa que assistimos antes.

Eu estou perdida com o candidato.

Jorge Pinto, sim.

Já não sei. E até porque, como acompanho as respostas

Eu acho que Jorge Pinto está numa missão de sacrifício.

Diz-me.

E está a dizer o contrário do que pensa.

É exatamente isso que eu quero ouvir.

Como José Ribeiro e Castro. Ele está sempre a querer dizer o que pensa e não cumprir.

Mas como é que é esta pergunta que eu te fiz?

Vamos tentar fazer. Agarrem-me se não desisto. Vamos tentar aqui fazer o ponto de situação. Estão todos recordados, seguramente, que Jorge Pinto começou a campanha quase a desistir. Sim. Foi para o debate da RTP dizer que quase desistia, mas não desistia porque os outros não desistiam. Passou o resto da campanha a dizer que afinal estava lá e a atacar António José Seguro, um candidato frouxo. Frouxo, não, perdão, não quero pôr palavras na boca de Jorge Pinto. Não era firme. Não tinha firmeza suficiente para defender o espaço da esquerda. Ontem mesmo, quinta-feira, a campanha de Jorge Pinto entrega uma carta aberta aos jornalistas que acompanham a caravana com embargo, portanto, para ser publicada mais tarde, onde se lia, lia-se, portanto, está escrito. Jorge Pinto libertava, de alguma forma, os seus apoiantes e simpatizantes para votarem útil em António José Seguro Numa arruada em Santa Catarina, no Porto, ainda antes de sair essa carta, confirma de viva voz essa intenção e depois, perante as notícias que legitimamente foram saindo, Jorge Pinto diz que é tudo uma alucinação coletiva e que ele não tinha dito nada daquilo. E é este o estado da arte da campanha de Jorge Pinto, que não foi manifestamente bem-sucedida.

O LIVRE já não deu tempo para fazer uma consulta online aos seus militantes. Daquelas coisas abertas que eles gostam muito de fazer.

Mas podia, se calhar. Ou devia, melhor dizendo. Sobre António Filipe e Catarina Martins, acho que não vão dar esse passo. O PCP e o Bloco tinham pensado esta campanha precisamente para tentar aquilo que eu dizia no início, tentar duas coisas, aliás, mostrar que há vitalidade à esquerda do Partido Socialista. Acho que não vão conseguir fazer isso, a menos que haja uma grande surpresa no domingo eleitoral. E mais uma vez condicionar o Partido Socialista, no bom sentido. Condicionar a agenda, o discurso, as propostas, as ideias, obrigar António José Seguro a falar para eles sobre as causas que eles entendem ser.

Estes partidos foram vítimas da geringonça e portanto perceberam na pele o que significa entrar na casa do urso e ser abraçado.

Nesta campanha, António José Seguro foi também muito eficaz a lidar com essas pequenas provocações que iam vindo dos partidos à esquerda, que era simplesmente não responder. E quando não se consegue, numa dinâmica de campanha, ter um interlocutor, quando se fica a falar sozinho, é muito difícil criar um-

Um canal de comunicação

...criar números, criar momentos de campanha. E António Filipe e Catarina Martins não conseguiram manifestamente ter uma campanha bem-sucedida. Nós estamos a falar só de campanha, não estamos a dizer o que é que os candidatos vão ou não ter no domingo eleitoral.

Eles podem beneficiar na reta final da perceção de que já não é necessário votar em Seguro, porque isto já está garantido, que ele está na segunda volta. Mas mesmo assim, estamos a falar sempre de oscilações de intenção de voto que são sempre muito baixas, andam sempre entre 1%, 2%, às vezes vão um pouquinho acima de 2%, e que foi no fundo o que tiveram nas legislativas. Agora, algo que nós vamos também ter que eventualmente perceber é um aspecto pouco considerado, que é a abstenção. O que é que vai haver com a abstenção? Habitualmente, a abstenção é menor entre os mais idosos. Um dia com mau tempo desmobiliza mais os mais idosos. E a indicação que eu tive de pessoas que estiveram em mesas de voto no fim de semana passado, portanto voto antecipado, é que a esmagadora maioria de quem se inscreveu e apareceram em massa, quem se inscreveu e foi votar, 95%, eram jovens. Portanto, pode haver aqui também dinâmicas diferentes.

Para já não há chuva no Arrisco.

Está bem, mas pronto, os jovens estão mais informados, estão mais atentos, estão mais dispostos para uma coisa destas.

Será frio, mas não há chuva.

Sim, em princípio está frio, mas não há chuva.

Mas não chove. E até o final do dia, Miguel Santos Carrapatoose, poderá haver surpresas na campanha de António José Seguro e Marques Mendes?

E de Jorge Pinto.

E de Jorge Pinto seguramente haverá qualquer coisa. Segurem-se às cadeiras.

Obrigado, Helena.

Pode aparecer o Rita Vaz outra vez. De facto, apareceu na quinta-feira a tentar explicar as declarações de Jorge Pinto.

Mas uma aparição ao lado de António José Seguro ou Marques Mendes é possível?

Se tivesse que apostar, diria que não. Luís Marques Mendes já mostrou todos os trunfos que poderia ter usado nesta campanha. Ter um primeiro-ministro duas vezes em campanha é obra, mesmo com números tão baixos. Isso também mostra bem o empenho que Luís Montenegro tem e teve nesta campanha. António José Seguro, por aquilo que dizíamos, tem horror a surpresas, horror ao risco. Recordo só aquele episódio em que Pedro Nuno Santos escreve um texto no Facebook, obviamente o momento tinha sido combinado entre os dois, escreve um texto nas redes sociais a manifestar o apoio a António José Seguro. O candidato é imediatamente confrontado pelos jornalistas, naturalmente, a perguntar se gostava do apoio, e foi ver António José Seguro a fugir a sete pés da sombra de Pedro Nuno Santos. É alguém que tem horror, de facto, à surpresa e ao risco, e está a fazer uma campanha a pensar nisso mesmo. Depois, Cotrim Figueiredo acho que já está em dias de contenção de danos consecutivos e a tentar a saída possível, embora arriscada, mas inteligente, que é a vitimização e a insistência na tese da cabala. Sabemos que isso, noutras campanhas e noutras candidaturas, deu resultados positivos para os próprios.

É o caso de André Ventura.

Exatamente. Poderíamos refletir mais a fundo sobre os meios utilizados, mas enfim, a estratégia de Cotrim Figueiredo é esta. E Henrique Homem Melo, lá está, como dizia, está a tentar ainda de alguma forma sobressair.

Já não há mais rafting.

Já não há mais rafting. Na quinta-feira tentou criar um caso com a questão do camuflado que André Ventura vestiu. O líder do Chega respondeu em duas ou três frases e o assunto morreu. Parece-me que já é uma campanha em sofrimento, de alguma forma.

Mas deixa-me dizer, eu acho que o Homem Melo tem toda a razão nisso.

Eu não estou a questionar, estou a falar do mesmo.

É deplorável que uma pessoa que é candidato a um cargo, que é o Comandante Supremo das Forças Armadas, não tenha respeito nenhum pelos uniformes militares. Eu acho que isso é uma coisa bastante deplorável e é um erro que André Ventura não deve repetir, no meu entender. As Forças Armadas têm que ser respeitadas ou perdem muito da sua função institucional na sociedade portuguesa.

Só não foi pior porque aquilo foi-lhe oferecido por gente que claramente eram antigos militares, que estavam com as boinas.

Não foi comprá-lo ali a uma loja.

Não é sequer a primeira vez que André Ventura usa Camuflado.

Mau, mau. Não entendo.

E vale a verdade, temos também-

Microfone, Helena

Há muitos caçadores também que o fazem.

Há um grande gosto.

Mas não são figuras políticas.

Há um grande gosto em abater, nomeadamente primeiros-ministros e tudo isto, por vestirem camuflados. Podemos pensar, por exemplo, António Costa.

Sim, mas toda a gente gosta, mas é quando estão no cargo. Faz parte da coreografia.

O candidato André Ventura, por exemplo, usou camuflado numa campanha em 2022. Sim. Não é a primeira vez.

José Manuel Fernandes, para final de contra corrente.

Para final de contra corrente, acho que vamos estar todos um pouquinho ansiosos até ao lavar dos cestos. Há, de facto, muita probabilidade de haver surpresas de última hora. Eu recordo que as sondagens não se têm enganado quando há um vencedor claro. Eu estive a verificar isso. Portanto, não se enganaram nas últimas eleições, não havia ali grande margem para dúvida, tudo estava mais ou menos pré-determinado. Enganaram-se substancialmente com Maria de Belém e enganaram-se porque as pessoas mudaram a orientação de voto na última semana. Portanto, não é porque elas estejam a ser mal feitas, é porque, exceto a famosa tracking poll da CNN, que tem trabalhos de campo até, não sei se hoje, mas pelo menos até ontem, as outras tiveram os trabalhos de campo a acabar no final da semana passada. Portanto, tudo o que se passou esta semana, e que é uma semana em que às vezes as pessoas dão mais atenção à campanha, é mal apanhado por estas sondagens, ou não foi de todo apanhado pelas sondagens, era impossível apanharem. E houve eleições em que a decisão de voto, eu recordo a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, que na altura não havia sondagens, era proibido fazê-las, mas depois houve estudos pós-eleitorais e houve uma percentagem significativa de pessoas que decidiram o voto dentro da cabine de voto. Não há nenhuma sondagem que apanhe uma coisa destas.

Portanto, vem aí uma bela lutaria. José Ribeiro e Castro, uma vez mais, muito obrigado. Miguel Sanchez-Carrapato, também obrigado a ti, autor do podcast "A Eleição Mais Louca de Sempre", sobre as eleições de 1900.

Onde contamos com o testemunho do doutor José Ribeiro e Castro.

Exatamente.

E com textos, já agora, que serviram de pesquisa do José Manuel Fernandes, que acompanhou a campanha do professor Freitas do Amaral.

Muito bem, obrigado aos dois. É um bom conteúdo para o dia de reflexão. Cá estaremos na segunda-feira, já com dois finalistas para a segunda volta das presidenciais. Bom fim de semana.