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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar em direto para nos dar a sua opinião, só tem que ligar para nós 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz, o seu áudio por WhatsApp. O número é sempre o mesmo 91 002 41 85. Carla. Mark Rubio veio à Europa para participar na Conferência de Defesa de Munique e, ao contrário do que sucedeu ano passado com J.D. Vance ou em Davos com Donald Trump, foi muito aplaudido pelos líderes europeus que estavam na sala. Mas será assim tão diferente a mensagem que trouxe ou foram apenas as suas palavras que foram diferentes? E como é que a Europa está a reagir nos atos, e não apenas nas palavras, às mensagens que está a receber de Washington? Este é o ponto de partida para o Contracorrente de hoje, onde também queremos falar das negociações que decorrem sobre o Irão e a Ucrânia. José Manuel, bom dia. A Europa deste tempo de Trump é uma Europa com mais vontade de ser Europa? Bom dia. Bom dia, José Manuel.
Bom dia. Desculpa. Não sei se é uma Europa com mais vontade de ser Europa, porque é um pouquinho pisca-pisca, uns dias sim, outros dias não. E vou-te dar um exemplo de queijos, que é uma coisa que às vezes preocupa.
De queijos?
De queijos, exactamente. Os franceses, os italianos, porventura, os portugueses. E que é assim: nestes últimos dias, os Estados Unidos assinaram um acordo de comércio com a Argentina e, de repente, na Europa percebeu-se que com esse acordo de comércio na Argentina, havia imitações americanas de queijos europeus, queijo feta, gorgonzola, por aí adiante, que se calhar podiam ser vendidas na Argentina sem denominação de origem. E por quê? Porque nos Estados Unidos, apesar da disfunção, às vezes, no Congresso dos Estados Unidos, o presidente faz acordos. E na Europa, o acordo com o Mercosul levou 20 anos a fazer e quando parecia que estava tudo pronto, agora vai para tribunal, porque os deputados franceses e extremistas, extrema-direita e extrema-esquerda, direita radical e esquerda radical, conseguiram maioria no Parlamento Europeu e não aprovaram o documento. E isto é um sinal daquilo que muitas vezes paralisa a Europa, que é um falar muito e um decidir pouco. Repara, este tema do Mercosul, em Davos, foi apresentado como sendo um sinal de que a Europa agora estava na moda e ia ser o centro do mundo. E passado, eu acho que nem passou uma semana, levou aquela machadada do Parlamento Europeu. Entretanto, do outro lado do Atlântico, alguém se despachou. Pronto, basicamente as coisas têm acontecido assim. Estamos a falar neste caso do lado do Atlântico, mas podia ser do lado do Dnieper, isto é, na Rússia, podia ser também do outro lado do planeta, na China. As coisas fazem-se depressa e na Europa fazem-se devagar, devagarinho ou parado. E, portanto, por exemplo, nós estivemos agora também na Conferência de Munique, toda a gente prometeu imensos investimentos em defesa. Alguns países, de facto, estão a fazê-lo e estão a começar a fazê-lo, é o caso da Alemanha. Mas ao mesmo tempo que nós tínhamos conhecimento disso, os acordos que existiam para construir um avião europeu equivalente ou até superior aos famosos caças americanos, portanto, aos F-35, borrou. Ou pelo menos tudo parece que borrou, porque entretanto as empresas francesas querem uma parte de leão, as italianas e as alemãs não estão pelos ajustes e está tudo em vias de descarrilar. Portanto, eu acho que este é muito o drama e verdadeiramente, se pensarmos naquilo que aconteceu no passado fim de semana em Munique, foi revelador. Por quê? Primeiro, porque notámos um discurso de Mark Rubio, como tu chamaste a atenção, num tom muito diferente do discurso feito há um ano por J.D. Vance. Mas no que diz respeito àquilo que os Estados Unidos estão a pedir à Europa, as palavras são diferentes, o fundo é no essencial o mesmo. E algumas questões absolutamente centrais estiveram nesse discurso, se bem que estiveram nesse discurso naquele registo de palmadinha nas costas, somos todos amigos, vamos ver se a gente ultrapassa estas diferenças, enquanto há um ano, ou mesmo em Davos, com o presidente Trump, estiveram mais naquele registo, vocês são uns parvos, tomem lá duas chapadas. Portanto, muda muito? Não creio que mude muito. O que mudou já mudou. E o que mudou foi a centralidade da Europa num tempo em que não se passa tudo em torno daquela cortina de ferro que caiu entre Trieste e Stalin, como um dia referiu Churchill num famoso discurso nos Estados Unidos, curiosamente, numa universidade americana, e que dividiu a Europa, obrigou os Estados Unidos a ficarem cá. Só que esse mundo, de facto, acabou e não acabou para se transformar num mundo de paz, amor e abraços, mas num mundo de equilíbrios de poderes. E desse ponto de vista, a questão é mesmo qual é o poder da Europa. E é um bocado sobre isso que vamos procurar falar e responder mesmo à questão de se Trump, ao falar de uma forma desagradável, como ele por tradição fala, não acaba por obrigar a Europa a dar os passos que nas últimas décadas não deu, e se isso não acaba por ser uma ajuda à própria Europa. Portanto, olha, muitos temas e não pouco inquietantes, alguns deles.
É verdade. Até já, José Manuel.
Até já.