Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

José Manuel Fernandes vai hoje falar no Contra-Corrente muito contra vontade. Vais falar de um assunto de que não querias falar, não é, José Manuel?

É verdade. Eu vou falar de um assunto sobre o qual hesitei muito, hesitei mesmo até à última hora, porque eu não gosto de falar em assuntos em que sou parte interessada de alguma forma, e o Observador, neste caso, é parte interessada. Por isso, fica já aqui a declaração de interesse. Simplesmente, eu tinha as entranhas um bocado às voltas, como se costuma dizer, e por isso não resisti. Há coisas quanto às quais nunca sou capaz de ficar calado. Pura e simplesmente.

Pura e simplesmente. Vais falar dos apoios que o governo vai dar aos órgãos de comunicação social.

Isso mesmo. Primeiro, há uma coisa que quero deixar ficar claro para não haver dúvidas. O Observador nunca tinha pedido apoios, não pediu subsídios nenhuns. O Observador pediu uma coisa diferente. O que nós defendemos é que este setor, que é um setor muito afetado pela crise, porque perdeu grande parte das fontes de publicidade, devia ter acesso a empréstimos garantidos pelo Estado, como estava a acontecer em muitos outros setores. Portanto, de se ter um tratamento semelhante a esses setores. Não vou agora entrar em detalhes, mas só queria sublinhar um ponto que eu acho que é importante. O Observador nunca defendeu subsídios, nem nunca foi pedir dinheiro. O Observador nem sequer pediu aquilo que está a ser dado a outros setores muito afetados pela crise, que é o lay-off, porque acha que nas empresas de comunicação social não deve haver lay-offs, porque as empresas são precisas a trabalhar a 100% numa altura como esta. E aliás, é o que nós temos feito aqui, a trabalhar a 200%, não é 100%. Portanto, não pode haver lay-offs. E por isso não podemos pedir o dinheiro do lay-off, como é óbvio. O governo não foi por esse caminho, optou antes por uma espécie de subsídio encapotado, sob a forma de compra de publicidade. Nós sempre fomos contra os subsídios à comunicação social, porque é uma forma complicada, uma forma duvidosa. Sempre suspeitamos que podem permitir jogos políticos. Mas desta vez falava-se de um mecanismo que partia da publicidade, parecia ser uma base objetiva. A maioria das empresas do setor era a fórmula que defendia, portanto, por assim dizer, ficámos à espera para ver.

E foi ontem que se conheceram os valores atribuídos a cada órgão de informação.

Sim, ontem saíram no Diário da República. Mais de metade foi logo para a SIC Expresso e para a TVI. Essa parte, para ser franco, a mim não me surpreendeu muito. Agora, a grande surpresa, e acho que foi uma surpresa absolutamente obscena, foi a discriminação do Observador. Eu vou dar exemplos, porque de facto, até custa a crer. O governo atribuiu ao grupo que tem o JN, o Jornal de Notícias, o Diário de Notícias e a TSF, mais de €1 milhão. €1 milhão. Mais, €1.060.000. O Observador, quer dar, não chega a €20 mil, são €19.900. É 50 vezes menos. Não é metade, não é um terço, não é um quarto, é 50 vezes menos. Outras comparações são todas assim. Para a Bola e para O Público são num caso €314.000, num dos casos €320.000, mais ou menos. Portanto, o que quer dizer que para o Observador são 16 vezes menos. Para a Visão e para a Caras e para mais algumas revistas pequenas, são €400.000. São 20 vezes mais do que o governo destinou ao Observador. Eu podia dar mais exemplos, mas acho que não é preciso. Acho que toda a gente já percebeu.

Mas o governo já deu alguma explicação?

Não, que eu saiba, o governo não deu nenhuma explicação. Eu ontem, quando vi os números, enviei uma mensagem ao secretário de Estado da Comunicação Social com algumas perguntas e ele não me respondeu, nem "a" nem "u". Eram perguntas simples, nomeadamente a mais simples de todas era se havia algum engano. Podia haver, faltar um zero, sei lá, qualquer coisa. Não é, repito, porque a gente quisesse mais dinheiro, mas apenas para eu não me enganar na reação que estou aqui a ter e não ter as tripas às voltas. Mas não tive nada e infelizmente, devo dizer que não fico muito surpreendido com isto, porque este tipo descaramento, este tipo de desfaçatez com que os socialistas tratam estas coisas, já nada me surpreende. Quer dizer, eles olharam para aqueles números e não acharam que havia ali nada de estranho. Seguiram em frente. Se é que não fizeram com que as coisas fossem estranhas. A lata com que publicaram aquela tabela exatamente na altura em que o Observador se afirma como o site português de informação de qualidade com mais leitores, é muito significativo. Em abril passado, nós, Observador, ficámos à frente do Público e do JN em leitores. Não ficámos muito longe de ter quase o dobro dos leitores do Expresso e quase o triplo dos leitores do Diário de Notícias. E depois receberam este dinheiro, quer dizer, receberam não, e depois eles destinaram-nos esta verba. Mas como somos independentes, somos incômodos, não passamos recados, não afinamos para a pessoa do poder, deste poder ou de qualquer outro poder, de resto, está visto o resultado.

Então achas que isto foi uma retaliação política?

Eu sinceramente não acho nada a não ser uma coisa. Acho que o governo tem que explicar os critérios. Como já disse, nós não fomos pedir dinheiro, mas queremos saber como é que o dinheiro está a ser utilizado, porque o dinheiro é dinheiro dos contribuintes. Para nós, isto só prova que tínhamos razão. Subsídios ou mecanismos que se assemelham a subsídios dão sempre origem a dúvidas. E se dão origem a dúvidas, fica-se com a suspeita que é o que houve, ou compadrios, ou outras coisas desse género Acho que isso agora fica mais que provado. Pelo menos dúvidas são imensas. E acho que também fica provado, se fosse necessário provar mais uma vez, que o pior bicho para a liberdade de informação é um governo socialista. Nunca podemos estar descansados.

Mas que mais suspeitas é que há agora, José Manuel?

Aquilo que eu te posso dizer é que no tempo do José Sócrates era tudo à descarada. Mas agora escapam muitas coisas e pelo menos a gente sente que há um espírito no ar. Eu, por exemplo, gostava de perceber melhor o negócio da compra da TVI por Mário Ferreira. Mas é que gostava mesmo. Gostava de saber qual é o papel desempenhado nesse negócio por um senhor chamado Diogo Lacerda Machado, que era administrador na empresa de Mário Ferreira e que toda a gente sabe, é amigo de António Costa. Gostava que estas coincidências não acontecessem. Gostava também que tudo isto não coincidisse com a suspensão do programa da Ana Leal. Gostava de não ter lido as razões para a suspensão desse programa, porque não gostava que um dia a Tudo Informação explicasse que não era tempo de falar daquilo que estava a correr mal nos hospitais. Mas eu gostava de muita coisa que não tenho, infelizmente. Eu sei que o dinheiro em Portugal compra quase tudo e por isso sei bem que o sinal que aquela tabela de apoios envia para todos os grupos de comunicação social, é um sinal forte. Isto é um país para bem comportadinhos e é um país para gente que nunca esquece a velha máxima: "Quem se mete com o PS, leva."

José Manuel Fernandes no Contracorrente da Rádio Observador. Se não ouviu tudo, já sabe, pode sempre fazê-lo dentro de instantes em podcast.

Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa ou 98.4 no Grande Porto.