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"Contracorrente", que é aberto aos ouvintes depois do jornal das 10:00. Para participar, ligue para o 91 002 41 85. Carla.

Há 111 anos, a Europa estava mergulhada numa guerra que quase todos tinham julgado que iria ser breve, mas que se prolongaria por mais de quatro longos anos. A Primeira Guerra Mundial acabaria por mudar a face e a natureza da Europa de uma forma que ainda ninguém podia sequer imaginar, e não mudaria no sentido que muitos julgavam possível por alturas do Natal de 1914. Nesses dias em que na frente ocidental os soldados já se tinham enfiado em trincheiras lamacentas, muitos saíram delas para confraternizar com o inimigo durante aquela que ficou conhecida como a trégua de Natal. É um episódio que queremos recordar no "Contracorrente" de hoje, até por contraste com a recusa russa de aceitar na Ucrânia uma nova trégua de Natal. João Manuel, bom dia. É mesmo verdade que essa confraternização entre soldados dos dois lados chegou ao ponto de eles jogarem futebol naquele espaço entre as trincheiras, que então, aliás, como hoje, era a terra de ninguém? Isso aconteceu mesmo?

Bom dia, Carla. Espero que tenhas um bom Natal. Muitos doces.

Isso mesmo.

Este episódio do jogo de futebol faz parte da mitologia dessa famosa trégua de Natal de 1914, mas não está comprovado. Há alguns relatos de que poderá alguma coisa se ter passado, mas não propriamente um jogo de futebol, até porque não haveria bolas, o terreno estava muito lamacento, porventura haveria bocado gelados. Houve alguma aproximação, alguma confraternização, mas os relatos relativos a um jogo de futebol aparecem sobretudo em obras mais ficcionais e algumas delas até escritas por antigos combatentes que não estavam ainda alistados em 1914. Seja lá como for, é algo que entrou na mitologia da guerra e, sobretudo, é algo que ganhou dimensão, creio eu, porque nessa altura tinham passado ainda poucos meses desde o início, a guerra tinha começado no final de julho, princípio de agosto de 1914. Havia muito a ideia de quando aquela guerra começou que ia ser uma coisa rápida, como tinham sido, de resto, os últimos conflitos na Europa, e que pelo Natal os soldados já estariam de regresso a casa. Não era o que estava a passar, pelo contrário, estavam literalmente enterrados no solo em trincheiras lamacentas e numa situação de uma guerra de fricção que duraria ainda mais quase quatro anos. Ela só acabaria em novembro de 2018. E estou a falar da guerra na frente ocidental, porque se formos para a frente oriental, a guerra aí, sob diversas formas, prolongou-se muito mais, porque tivemos a guerra civil russa, tivemos conflitos na Alemanha, na Hungria e em vários outros países. Mas aqui na frente ocidental, que é sobretudo aquilo que nós falamos, o interessante deste episódio é ele ter partido sobretudo dos soldados, ter sido feito de alguma forma contra a hierarquia militar, sobretudo os altos comandos, e não se ter repetido. E vale a pena perceber por quê. Por que não se repetiu, por que não voltou a haver em 2015, por que não voltou a haver em 2016. Perdão, em 1915, 1916. E agora que passaram, como tu disseste, como tu recordaste, 111 anos e passamos para o terceiro Natal na guerra da Ucrânia, também provavelmente não vai acontecer, ou melhor, não está a acontecer nenhuma trégua lá, pelo contrário. Os combates continuam, há conversações, mas os únicos abrandamentos que porventura houve devem-se unicamente às condições climatéricas na região da linha da frente. E lá também os homens continuam como estavam há 111 anos, enterrados literalmente na terra, desta vez não contra ninhos de metralhadora, mas contra drones, tentam proteger-se dos drones. E temos uma situação em que percebemos que nem sequer haveria muita possibilidade de avançar por esse caminho. Primeiro, por uma razão simples, a data do Natal na Ucrânia e na Rússia é diferente, coisa que não acontecia naturalmente entre a Alemanha, o Reino Unido, a França e a Bélgica naquela altura em que se celebrou o Natal lá em 1914. E, por outro lado, há algo que começava a acontecer em 1914 e que é claramente a situação da guerra naquela frente, nesta altura na frente da Ucrânia, que é quem a desencadeou. Os responsáveis militares sentem-se bloqueados no sentido em que não é fácil encontrar uma saída, mesmo que seja apenas um cessar-fogo, que não represente, sobretudo para os russos, uma derrota, de alguma forma, porque os seus objetivos não foram cumpridos. Na altura, em 1914, quer na França, quer no Reino Unido, quer na Alemanha, quer na Rússia, quer na Áustria, havia a ideia de que havia ali um perigo existencial e, infelizmente, para a mentalidade russa, qualquer coisa que não seja a Grande Rússia é um perigo existencial. E desse ponto de vista, isso não facilita de forma nenhuma uma trégua vinda de cima, que não foi o caso da trégua de 1914, foi uma trégua vinda de baixo. Agora, como também falaremos, para que a trégua pudesse vir de baixo, era preciso que aquilo que mais tarde se consolidaria também nas frentes de batalha da Europa, que era um ódio imenso a quem estava nas outras trincheiras, não se tivesse também construído como infelizmente se está a construir novamente na Ucrânia devido a todas as barbaridades já cometidas. Olha, e vamos até recordar duas músicas para perceber até que ponto a mitologia, de alguma forma, continua a marcar-nos ainda hoje.

Muito bem, portanto, este Contracorrente até vai ter alguma música. Até já, João Manuel.

Também há. Merece, não é?

Claro que sim. Até já.

"Contracorrente", que é aberto aos ouvintes depois do jornal das 10:00. Pode participar através do 91 002 41 85.