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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana é um conquistador, tal como o seu antepassado vimaranense. Dom Afonso Henriques partiu à conquista de territórios da península. O nosso convidado foi mais além. De Guimarães a Dakar, à boleia. Já pedalou pela América do Sul numa bicicleta montada por ele com peças usadas. Terá sobrevivido à dura viagem de dois meses. Viajou pela China sozinho, ao sabor do vento, andou por todo lado. É um andarilho que gosta de viajar à boleia. Já o fez em todos os 82 países por onde andou. É formado em ecoturismo, tem 37 anos, vive na portuguesíssima cidade de Neuchâtel, na Suíça. João Oliveira, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Muito obrigado pelo convite.

Ça va, João?

Ça va très bien. Eu tenho o típico sotaque português. Avec, como dizemos em Portugal.

Avec.

Mas vamos enrascando.

Muito bem. Felicidades aí por terras suíças. João, vamos começar pelo fim, pela tua viagem, a tua última viagem ao Suriname francês. Foste documentar uma tribo que vive na floresta amazônica. Que tribo é essa e por quê o interesse por ela?

A tribo é um grupo que se chamam os Maroons, que são descendentes de escravos que foram levados para todo lado na América Latina em geral. E que neste caso, estamos a falar de Maroons no Suriname, que foram levados pelos holandeses, porque foram colonizados pela Holanda. E o meu intuito de ir visitar essa comunidade era duas razões: uma delas porque eu adoro floresta tropical e anteriormente já tinha visitado a Amazônia do Brasil, do Peru, da Bolívia e da Colômbia. Andava à procura de um outro lugar onde pudesse também visitar, que eu não conhecesse da Amazônia. Então surgiu uma ideia também de juntar o útil ao agradável e tinha um colega meu que trabalha com vídeo e decidimos ir documentar um pouco a história desse povo que não é muito conhecido em geral. O país em si já não é muito conhecido.

Pois é.

E este grupo ainda menos. Então a ideia era ir e ficar pelo menos uma semana. Nós no final acabamos por ficar uns 10 dias a documentar a parte da cultura, das danças.

Quando dizes documentar é fotografar, filmar?

Vídeo e fotografia.

E também recolha de notas, claro.

Sim. E o resultado disso ainda não está pronto, porque essa viagem foi em maio deste ano, mas em princípio vai estar pronto em breve e vai ser um vídeo documentário, uma espécie de retrato documentário, porque vai ser contado através de uma pessoa que vive nessa aldeia, e um livro, também com um pouco a história e fatos do passado, presente, e qual será ou como eu imagino o futuro desta comunidade.

Muito bem, então e como é que eles vivem, os Maroons, no Suriname?

É assim, eu acho superinteressante, porque eu imagino a Amazônia e imagino comunidades de índios, com os olhos traçados. E estas comunidades são africanas, porque vieram da África, então eles têm uma cor de pele diferente.

Negros. São negros, não é?

Sim, são negros. E têm tradições também diferentes, que ainda as mantêm, trazidas dos antepassados da África. Por exemplo, os jambés, as danças, não tem nada a ver com o resto das comunidades indígenas da Amazônia. É superdiferente. Claro que depois adaptaram-se, porque o habitat como é diferente, eles não têm acesso a tudo que tinham em África. Mas foi esse lado tão desconhecido e tão diferente do resto das comunidades indígenas que realmente me suscitou o interesse de ir lá visitar.

Muito bem. Estou a ler na Wikipédia, não sei se é verdade, corrija-me se estou enganado, João, que os Maroon do Suriname são uma das culturas mais bem preservadas fora do continente africano. É verdade?

Sim, é verdade que agora começam a ter mais ajuda do governo. Até não me recordo o ano certo. Eram um pouco como deixados de lado, deixados à parte, como não são nativos de lá. Enquanto que os indígenas há muitos anos que já têm mais leis que os protegem, os Maroon até há pouco tempo não tinham muito. Agora é verdade que com o tempo tem melhorado e que eles próprios realmente têm preservado super bem a sua cultura. Claro, depois disso agora posso contar aqui a história toda, mas cada vez mais eles têm acesso às grandes cidades e vai-se perdendo um bocado a cultura, mas em geral eu posso dizer que ainda têm muito pra contar dos seus antepassados.

Muito bem. Esperamos então a chegada desse livro e desse documentário, João. Ficamos a aguardar notícias tuas, está bem?

Sim.

Olha, vamos continuar pela América do Sul. Sim, o Suriname fica na América do Sul. Realizaste uma grande viagem a pedal por esta parte deste continente do outro lado do Atlântico, numa bicicleta montada por ti, não foi?

Na verdade, foi uma bicicleta que eu encontrei na rua.

Sim?

Abandonada.

Abandonada.

Abandonada, sim. Aqui na Suíça. E eles aqui têm muito Umas oficinas, workshops, onde tu podes levar as bicicletas para arranjar e pagas por donativos.

Ciclo oficina, não é?

Exato, acho que é assim que se chama. E eu reconstruí a minha bicicleta lá. Como é por donativos e tem muito equipamento lá, foi perfeito, porque como eu reconstruí de raiz, só tinha o quadro. Aprendi a meter os travões, as velocidades. E é uma bicicleta dos anos 90 com travões V-brake.

Tudo antigo. Mas a pessoa que ia contigo-

Resistente

Resistente, porque sobreviveu à viagem.

Exato.

Dois meses, não foi?

Sim, mais ou menos dois meses.

Mais ou menos dois meses. O mesmo não se pode dizer da bicicleta da pessoa que ia contigo, não é? Que era novinha em folha, que custava uma nota e que não sobreviveu. Partiu-se, foi?

Não se partiu ao meio, mas quase.

Quase.

Houve um monte de peripécias com essa bicicleta desde o primeiro dia.

Primeiro de tudo, por onde é que andaste? Ou por onde é que andaram?

Nós não tínhamos um itinerário traçado, mas já tínhamos o voo que foi para Buenos Aires, para a Argentina. Depois a ideia era começar a subir em direção ao norte, Bolívia. Que entretanto esse plano foi logo por água abaixo, já não me recordo porquê, mas alterámos e fomos em direção ao Uruguai. O trajeto foi da Buenos Aires, atravessamos o Uruguai todo, até o sul do Brasil. Fizemos o estado do Rio Grande do Sul e voltámos a entrar na Argentina, porque a Argentina tem ali uma região que é Missiones. E aí terminou de uma maneira um bocado imprevisível, não estávamos a pensar terminar, mas foi por causa de uma dessas peripécias. A bicicleta da minha companheira, Camila, ela só tinha aqueles alforjes que vão presos a um porta-bagagem. Ela pensava que não tinha espaço suficiente para pôr lá tudo, então decidimos colocar um porta-bagagens à frente. E no dia em que colocámos o da frente, exatamente nesse dia, umas horas depois de termos construído esse porta-bagagens, partiu-se. E o porta-bagagens fez com que a roda da frente travasse bruscamente, de um segundo a outro, sem que ela contasse. Isso fez com que levantasse a roda de trás e ela caísse por cima da bicicleta. Eu ouvi um trec, parecia que tinha partido alguma coisa no corpo dela.

A Cami ia à tua frente?

Ia à minha frente.

Ou seja, tu viste.

Sim, eu vi porque eu ia atrás.

E pensaste: "Bom, acabou-se tudo".

No meio de uma estrada sem ninguém.

Sem ninguém, não via ninguém.

Ela cheia de sangue por todos os lados e eu pensei: "O que é que eu vou fazer?" Um domingo, um feriado, tentámos chamar uma ambulância, era feriado, diziam que não havia ambulâncias. Coisas assim. Até que tivemos que ir de boleia pro hospital, arranjar um carro que parasse pra nos levar ao hospital.

Para vos levar a vocês e depois as bicicletas, mais os porta-bagagens e os sacos.

Na verdade, levaram a Cami, eu levei uma bicicleta, a outra bicicleta foi na bagagem e eu fui de bicicleta, porque não era muito longe, mas eu não tinha noção e a Cami não conseguia pedalar mais naquele dia.

Aconteceu alguma coisa do ponto de vista físico, pra além do óbvio susto. Grande susto.

Não, só arranhões e dores musculares no pescoço durante uma semana ou duas, mas foi o susto. Durante umas semanas tinha receio de pedalar.

Pois, claro. E acabou por aí a viagem pela América do Sul de bicicleta, não foi?

Sim, essa foi a maneira trágica. Dentro do mal, correu bem, porque não houve nada de grandes danos na Cami, mas correu bem.

Ainda bem. Até porque estão juntos agora na Suíça, não é?

Sim, estamos juntos. A três.

A três, muito bem. Como é que se chama vosso filho?

Chama-se Inti.

Inti? Nome particular. Inti como o deus Inti?

Sim, como o deus do sol do Império Inca.

Uau! Muito bem.

Foi escolhido durante essa viagem.

Durante essa viagem.

Sim, porque eu estava a te falar desse trajeto de bicicleta, que durou mais ou menos dois meses. Só que depois nós ainda estivemos mais uns dois meses a viajar de boleia e de autocarro. E nesses dois meses visitamos uma parte do Brasil, que eu já tinha conhecido, que é o Pantanal, e conhecemos também a Bolívia, que eu também já tinha conhecido, mas queria levar muito a Camila ao Lago Titicaca. E foi onde ela conheceu esse nome, e eu já conhecia, e calhou de dizermos: "Se tivermos um filho, vai se chamar Inti".

Muito bem. Olha, tu já viajas há muito tempo, viajas muito à boleia. Dizias-me antes de gravarmos o programa que já praticamente viajaste à boleia nos 82 países que conheces. É o registo que tu mais gostas, João?

Eu acho que comecei a andar à boleia por duas razões. Porque eu ouvia pessoas falarem e sou uma pessoa curiosa e queria saber como era. E pela razão financeira também, porque eu sempre viajei muito e não trabalhei assim muito. Isso quer dizer que eu não tinha muito dinheiro pra fazer as viagens. E isso ajudava, porque normalmente as boleias são grátis. E é verdade também que depois com o tempo eu fui vendo que transportes públicos, também utilizo de vez em quando, só que tenho sempre aquela sensação que é demasiado fácil.

O quê? O transporte público?

À boleia. Sim, os transportes públicos, vais, compras o bilhete, já sabes que entras aqui e sais ali. Quer dizer, se estivermos a falar de África e Ásia, às vezes é uma aventura.

É uma aventura, não é?

Sim. Mas aqui na Europa, pelo menos.

Tu gostas do desafio da boleia, é isso?

Sim. E a parte de conhecer as pessoas e ver a bondade que as pessoas têm conosco. Sei lá, eu lembro perfeitamente uma vez, e isso do meu lado, eu julguei a pessoa, que era um senhor todo fatinho.

Onde é que foi isso?

Estava num carro Mercedes. Em Espanha.

Em Espanha.

Ele estava num Mercedes supergrande e eu pensei: "Nem lhe vou pedir boleia, que ele não me vai dar, vai olhar pra mim e pensar que eu sou..." E eu estava com uma amiga minha que nunca tinha andado de boleia. Mais inocente. Não, não era mais inocente. Não sei, mas ela foi pedir boleia e foi se calhar a pessoa mais interessante que eu conheci nas minhas viagens.

Olha isso.

Era um viajante de toda a vida.

Ele também era um viajante?

Sim, ele já tinha viajado à boleia há montes de tempo. Depois, entretanto, conseguiu abrir um negócio que funcionou super bem e agora tem um monte de dinheiro, mas isso não quer dizer nada. E eu, na altura, a partir daí, deixei de julgar as pessoas.

Pois, era isso que eu ia dizer, é fácil julgar os outros pela sua aparência, não é?

Exato. Pronto, isso foi uma das coisas que eu aprendi a andar de boleia, entre outras.

Outras? Que outras? O que aprendeste mais, João?

Eu sou daquelas pessoas que, agora já não tanto, mas corre sempre tudo bem. Eu digo sempre: "Cara, corre sempre tudo bem."

És um otimista.

É, é isso. E numa dessas viagens de boleia com um amigo meu, que eu fui lhe introduzir também a andar à boleia, ele nunca tinha andado. Fomos de Berlim a Bucareste. E nessa viagem, um senhor parou com um carro muito velho e eu olhei pra o senhor e ele tinha cara, parecia que tava meio embriagado, mas tinha uma cara supersimpática. E ele falava romeno, perguntei se tava tudo bem, se podíamos ir com ele, e ele disse que sim. Só que o meu colega desde o início disse: "João, é melhor não irmos, porque ele não parece estar muito bem". Mas eu, como dizia sempre que sim, nessa altura, aceitamos e depois acabamos por ser assaltados no carro. Ele levou o meu dinheiro.

O próprio senhor que vos deu boleia?

O próprio senhor do carro.

Caramba.

Tinha uma faca dentro do carro. Mas pronto, isso até acabou mais ou menos, porque isso só foi depois de ele nos deixar no nosso destino. Por isso, levamos pra ele 800 km, só depois é que nos assaltou.

Iha, caramba, se calhar foi 800 km a pensar: "Será que vale a pena roubar estes dois ou não?"

Eu acho que não.

Não valeu?

Porque nós tivemos pra aí 20 € os dois juntos. Então nem pra gasolina devia ter dado. Não dava, certeza.

Muito bem. Olha, também foste à boleia da tua Guimarães natal até ao Dakar, em África. Quanto tempo durou essa viagem?

A viagem foram mais ou menos também dois meses e meio.

Sim.

E foi uma espécie de Paris-Dakar, Guimarães-Dakar, mas à boleia.

De dedo, polegar pra cima.

É, mais uma vez, foi num verão, com pouco dinheiro. Uma colega minha, uma amiga minha, queria ir viajar e sabia que eu gostava de andar à boleia. Então perguntou-me se eu queria ir à África. Ela perguntou-me: "Você queres vir à África?" E eu tinha dito que já tinha ido a Marrocos.

Não é uma boa frase de engate, não é? Queres ir à África?

Exato. Mas eu aceitei na mesma.

E então, lá foram.

Então decidimos ir descendo também, sabendo que tínhamos mais ou menos esse tempo, porque eu tinha que voltar. Na altura, acho que tava na universidade.

Que idade tinhas? Portanto, vinte e picos, não é?

Sim. E decidimos ir de boleia. Atravessamos Marrocos assim mais à pressa, porque eu já tinha conhecido e queríamos conhecer novos países. E depois pra nós de novo, foi ali aquela parte que eu já tinha ouvido falar da fronteira do Western Sahara, do Saara-

Saara Ocidental

...Ocidental, com a Mauritânia, que tem ali o no man's land, que é superperigoso. Posso contar essa peripécia?

Conta.

Peripécia, foi mais ou sorte. Nós estamos numa cidade que chama Dakhla, já no Saara Ocidental, e conseguimos uma boleia daí direto até Dakar. Ou seja, atravessamos o resto da Saara Ocidental, da Mauritânia, até Dakar com a mesma boleia, que era um rapaz francês, que faz quase todos os meses, leva carros uma vez por mês da França pro Senegal.

Pro Senegal.

Carros luxuosos. Então nós atravessamos uma grande parte do deserto no luxo de um carro com ar-condicionado, que nós todos a suar, não é, de andar à boleia no meio do deserto. E o senhor era casado com uma portuguesa e no momento que nós entramos no carro, ele tá a ouvir fado, tá a ouvir Madre Deus. Incrível. Eu não me recordo do nome da música, mas nunca mais me vou esquecer que o rapaz tava a ouvir Madre Deus no meio do deserto do Saara.

Isso é extraordinário. Como se costuma dizer, o mundo é mesmo um penico. Isto é muito pequenino.

Sim, e esse rapaz é incrível. Eu continuo em contacto, aos anos que já foi, ao contacto com ele, e ele continua a fazer esse trabalho. Já levou outros amigos meus, porque como ele faz isso várias vezes, tem às vezes amigos meus que querem ir até ao Senegal ou a Marrocos, e ele como passa sempre em Espanha, às vezes leva amigos meus. Levou uma vez um amigo meu.

Muito bem.

E leva outras vezes amigos dele.

É fácil ir até ao Senegal, até Dakar, à boleia, João? Dirias que sim?

É sim, eu acho que já ouvi vários episódios de pessoas a dizer que, por exemplo, Portugal, Espanha, que é difícil andar à boleia. Eu acho que é possível andar à boleia em todo lado e que não é difícil Claro que há países que são mais difíceis de boleia, é preciso ter paciência. Quem não entende nada de andar à boleia, se calhar vai pedir boleia no meio de uma cidade. Quem sabe andar à boleia sabe sempre que tens que sair para a zona menos urbana da cidade, porque senão tem tantos cruzamentos de carros que se passam que é mais difícil.

Pois, ninguém para.

Encontrar um carro que vá na tua direção.

Muito bem.

Mas eu diria que não é difícil.

Não é difícil.

Quase sempre é uma aventura. É o desconhecido, vais no desconhecido.

E é isso é que é bom, não é? Muito bem. João, estamos quase a fechar a primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. João Oliveira, guardas aí em casa algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?

Eu já estava a pensar nisso. Também não sou de guardar muitos objetos. O que eu tenho, que é também de uma estadia que eu tive prolongada no Brasil, que foi no Pantanal, eu adoro fauna e flora em geral, mas trouxe várias penas de aves, que acho que não se pode trazer, mas penas de aves que caíram ao chão, não arranquei penas às árvores.

Aves exóticas.

Aves exóticas, sim.

Muito bem.

E recorda-me o Pantanal, o tempo que eu passei lá.

Muito bem. João, quando é que começou a paixão das viagens? Foi através de um avô teu, certo?

Eu acho que é um mix dos dois.

Então.

Porque um deles tinha uma empresa de autocarros e fazia excursões. Começou a viajar na Europa e viajou um pouco por todo lado. Eu lembro que uma vez cheguei do Vietnã e ele já lá tinha estado no Vietnã, não sei há quantos anos, mas ele já me contava essas histórias desde que eu era pequenino.

Pois, portanto, alimentava o teu imaginário, não é? Esse teu avô.

Exato. E o outro avô, que é da parte da minha mãe, é o avô que gostava de ver os programas de vida selvagem.

Olha.

E eu passava os fins de semana, às sábadas de manhã, não era? Ou domingos.

Punha-te a viajar.

E punha-me a viajar mais na vertente da natureza. Vi muitos safaris de África e também Amazônia, do Pantanal.

Foi determinante para a tua escolha acadêmica depois? Tu és licenciado em ecoturismo.

Sim, eu sou licenciado em ecoturismo, mas em geral gosto de tentar fazer tudo e comecei vários cursos. Esse foi o que eu finalmente terminei.

Finalmente. Que outros cursos tentaste, João?

Eu andava em desporto, depois fiz engenharia alimentar, mas muito pouco tempo. Depois fui pra engenharia do ambiente. Engenharia do ambiente, passei pra ecoturismo e pelo meio fiz um curso profissional de fotografia.

Boa, porque também tiras fotografias, não é?

É.

Muito bem, mas já tiveste imensos trabalhos, não foi?

Sim, e como eu ando sempre um pouco por todo lado, desde os 18, 19 anos, é raro eu ficar seis meses no mesmo lugar. Vou arranjando trabalhos também por onde eu passo. Já trabalhei como porteiro de piscinas, limpei um infantário. Fiz um trabalho excelente, que adorei, que foi guia pessoal de uma família suíça durante um mês numa viagem de bicicleta pela Costa Rica.

Uau!

Pagaram-me esse serviço.

Queres dizer-nos quanto é que custou ou queres guardar pra ti?

Realmente, financeiramente, foi pouco. Acho que foi €500, mas ele recebeu uma bicicleta nova, e tudo pago. Sim, foi pouco.

Pois.

Eu nunca tinha feito.

Sim.

Era um casal amigo de uns amigos meus, e eu disse: "Vou experimentar. É um mês de graça, com algum dinheiro pra meter pro lado e uma aventura nova".

Muito bem. Então, o teu avô paterno viajava bastante e contava-te muitas histórias. O teu avô materno punha-te a ver os programas de televisão. Quando é que tu começaste a materializar tudo aquilo que os teus avós te mostravam, contavam e ensinavam? Quando é que começaste a viajar, João?

Na verdade, também foi com meu avô, porque eu, quando tinha 10 anos, fui ao México e fui com meu avô e com meu pai.

Sim.

E pra mim, ir ao México, aquilo era incrível.

Pois.

Era tudo diferente. Na altura, não tinha tanta noção. E dos 10 pra ir até os 15, o meu avô fazia sempre essas viagens, uma vez por ano, com os filhos e com o neto.

Que sorte!

E eu convencia sempre os meus primos, que era eu que ia. Era sempre eu que ia. E nessa altura comecei a viajar com o meu avô e com meu pai. E depois, mais independente, eu acho que foi ali na altura dos 18, 19, comecei a ir pra universidade, já arranjava alguns trocos pra poder comprar alguma coisa e apareceram também as low cost e foi assim um bocado começar a fazer viagens curtas, quase no fim de semana, às capitais europeias.

Mas quando é que se dá a tua grande primeira viagem sozinho?

A primeira grande viagem, eu diria que foi à China. Que era uma viagem pra ser a três, com um casal amigo meu, cujo o rapaz é português, ela é chinesa, e que no momento de comprar os bilhetes, eu já tinha comprado, estava à espera que eles comprassem, liga-me o meu amigo, o Bruno, a dizer que se tinha separado da Shane Shu, e que a Shane Shu não queria mais estar com o Bruno. E pronto, abandonaram esta viagem e eu fui sozinho.

Foste sozinho?

E já não iam à China, não.

E foste sozinho.

E acabei por ir sozinho. A primeira viagem que eu fui sem nada planejado.

Por quanto tempo andaste na China?

Um mês e três semanas.

Um mês e três semanas, sozinho. Foi em 2008.

Exato.

Nessa altura não havia smartphones. Apesar de não ser um ano muito longínquo, há uma diferença tecnológica grande para os tempos que se vivem hoje, não é?

Sim, eu acho que se calhar já havia, mas era mais raro. Eu não tinha smartphone. Eu lembro que nos hostels usava aqueles que antigamente, agora já quase nem existem, os computadores nos hostels para ir à net.

Sim.

Agora quase toda a gente usa os telemóveis.

Pois, claro.

E nessa altura era assim que eu usava a internet, mas fora dos hostels, não tinha como, por exemplo, fazer uma tradução de chinês para português ou de chinês para inglês ou de inglês para chinês.

Portanto, foi uma grande aventura aquele mês e meio na China.

Foi. Desde a comunicação à cultura, os odores. Foi o primeiro lugar onde eu senti aquela umidade, os odores muito diferentes.

É um grande choque, João, sair da Europa com 23 anos e aterrar sozinho na China?

É, eu não tinha noção. Na altura, eu lembro que entrei num comboio para ir do aeroporto para o centro de Xangai e que eu era o único europeu, o resto era tudo chineses. E eu sentia-me ali um bocado à parte, sinceramente. Eu tenho a barba grande e o cabelo, ou tinha. Nessa altura, tinha o cabelo supergrande e a barba grande e as pessoas olhavam para mim. Depois, durante esse mês e meio, não sei porquê, mas barba grande e cabelo comprido para eles é sinônimo de artista. Toda a gente me perguntava se eu era um artista.

Era?

Era, sempre.

E tu o que respondias?

Eu acho que ia variando, porque tanta gente. Sabes quando te perguntam sempre a mesma coisa e tu chegas a um ponto que: "Opa, eu vou começar a inventar outras respostas para não estar sempre a dizer a mesma coisa." Eu acho que era assim.

Dizias só que sim ou desenvolvias a resposta?

Não, desenvolvia. A alguns dizia: "Sim, sou um fotógrafo super conhecido em Portugal." Como eu faço malabarismo também.

Sim.

Participava num circo, numa companhia de artes circenses, que não era bem mentira, porque são coisas que eu faço, mas que às vezes se calhar exagerava um bocado só mesmo naquela de meter conversa também.

Douravas a pílula, como se costuma dizer.

Exato.

Muito bem. Foi nessa viagem que foste parar ao Tibete sem saber onde é que estavas, João?

É verdade.

Como é que isso é possível?

Eu só soube depois. Eu tive noção que estava a entrar numa região diferente.

Sim, porque aquilo fica num planalto, uma espécie de um planalto meio desértico.

Exato. Eu estava na província de Sichuan e eu fui até um lugar que se chama Tagong, que é uma aldeia tibetana a 3800 metros de altitude, que eu também nunca tinha estado num lugar com essa altitude. Nem sabia que havia a doença. Sabes, a partir dos 2500 metros, podes começar a ter tonturas, há pessoas que têm vômitos. Eu nessa altura não fazia a mínima e ninguém me tinha dito.

Sim.

Eu chego a essa aldeia e eu tive a sorte que só tive um bocadinho de dor de cabeça, mas estava com o rapaz que me convenceu, ou que me convenceu, não, ele disse que ia para lá e eu perguntei se podia ir também. Foi assim que eu consegui chegar a Tagong, aldeia tibetana superbonita, uma aldeia pequenina com um mosteiro incrível a 3600 metros. Mas estava a dizer que colegas meus que estavam nessa viagem, que fomos quatro ou cinco numa minivan para chegar a essa aldeia, eles todos passaram mal por causa da altitude. E sim, era tudo novo, já não tinha caráter chinês, era o sânscrito tibetano. Era aquela zona onde tem aqueles yaks todos, aqueles chás.

Percebeste: "Estou num sítio diferente." Foi?

Superdiferente, sim.

Mas percebeste na altura que estavas no Tibete ou só percebeste depois?

Depois, passado anos, que eu andava a rever viagens. Quando comecei a usar mais o Google Maps, é que eu comecei a pesquisar melhor e realmente vi que tinha estado num lugar bem afastado de Xangai. Eu fiz uma viagem para chegar lá, já nem sei quantos dias foi, mas recordo-me que apanhei um comboio que foram 36 horas, mais uma carrada de minivans para conseguir chegar a Tagong.

Portanto, não é abusivo dizer que andaste pela China sem saber bem onde é que andavas.

Não, de todo.

Isso é um bocadinho a viajar à vagabundo, não é?

Foi. Essa viagem foi mesmo assim. Eu ia um bocado onde as pessoas me diziam para ir e ia indo.

Muito bem.

Às vezes, eu lembro que os comboios lá, há comboios que tens que comprar com três dias de antecedência, que são os mesmos lugares. Isso era a única, que eu também não sabia no início. O único senão, poder partir logo. Então tinha que organizar o mínimo para poder partir três dias a seguir.

Muito bem. Viajar à vagabundo na China é um registro bastante diferente de viajar pelo Pantanal brasileiro. Na verdade, não é bem viajar, tu viveste lá, não foi? Foi o teu primeiro trabalho depois de te licenciares em ecoturismo, foste trabalhar para o interior do Mato Grosso brasileiro, foi, João?

Do Sul.

Mato Grosso do Sul. Fazer o quê, concretamente?

Como eu tinha falado antes, andei por vários cursos e não sabia bem o que queria. Finalmente, tirei este de ecoturismo e quando entrei nesse curso, já tinha umas ideias mais concretas do que pelo menos tinha como ambição para quando terminasse o curso. E uma delas era que eu sabia que quando terminasse o curso, as primeiras candidaturas que eu iria fazer era pra Amazônia e pro Pantanal. E foi isso que eu fiz. Fui aceito numa pousada, no Mato Grosso do Sul, como guia tradutor, que basicamente eu fazia as atividades que os guias locais fazem, que nós andávamos passeios a cavalo, conduzia o jipe safari, fazíamos caminhadas pelo Pantanal, passeios de barco. E eu fazia isso mais com os grupos ingleses, porque a falta que eles tinham nessa pousada era alguém que falasse outras línguas sem ser português. Porque a maioria dos guias locais são peões. São os que antigamente tomavam conta ali do gado. Eles conhecem super bem os animais, só que só falam português. E mesmo português pra eu comunicar com eles já era um 31. Porque eles têm aquele sotaque pantaneiro e muitas palavras mesmo de peão.

De peão. Por exemplo?

O guri, que eu não sabia. Depois descobri que também não é só lá, que há vários lugares que chamam guri. A criança.

Gostaste dessa experiência laboral no Brasil, João?

Posso dizer que no início era tudo incrível e eu trabalhava todos os dias, então não tinha dias férias. Era de segunda a segunda, sempre a trabalhar. E eu no início adorava, porque eu queria, era a primeira vez. Passado dois meses, ali enfiado no meio do mato, como se diz, sem ver nada à volta, comecei a sentir aquela falta, um bocado do contato das grandes cidades, ver pessoas. Só tem uma estrada terra batida, que durante a época da chuva, nem com essa estrada se chega, só se chega de avião. Há dias que só dá pra chegar lá mesmo de avião, então é bastante isolado. E isso faz com que seja um lugar incrível pra vida selvagem. Foi isso que também me atraiu lá e eu tive a oportunidade de ver animais com facilidade, que muita gente nunca viu. O Pantanal tem uma coisa, é tudo grande, à grande. Eles lá chamam-lhe ariranha, que é lontra gigante, pode chegar a atingir 2,10 metros, da ponta da cabeça à ponta da cauda. Tem o tamanduá-bandeira, que aqui em Portugal chamam de papa-formigas gigante, porque há várias espécies. Uma delas é essa, que também pode chegar a atingir dois metros. Depois tens jaguares, tens pumas, tens jacarés, anacondas. Uma vez houve uma anaconda. Aquilo era um ecolodge, então tem uma piscina. E uma vez uma anaconda de três metros entrou dentro dessa piscina.

E havia pessoas a nadar na altura?

Não.

Ufa.

Mas imagina tirar uma anaconda de uma piscina, não é fácil. E eu não ajudei. Posso admitir que fiquei ali do lado.

A ver.

A ver.

Os outros que lá vão. Olha, João, estamos a ficar sem tempo. Vamos fazer check-out?

Ok.

Vamos embora. Então vou pedir-te pra completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Vou ter que dizer a máquina fotográfica. Eu sou comunicador, mas posso parecer às vezes introvertido. E eu acho que quando estou com a minha câmera, é uma maneira de arranjar ali uma conexão entre comigo e com a pessoa com quem eu quero falar, abordar e fotografar.

Boa. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje, qual é que foi, João?

Se calhar, a viagem de bicicleta com a Camille, que acabei por não contar quase nenhuma, mas houve várias peripécias.

Sim, a tal na América do Sul, não é?

Sim, na América do Sul.

Que acabou com uma grande queda da Camille, com uma roda da frente desfeita e uma bicicleta quase partida ao meio, não é? Foi essa.

Ficou pelo caminho.

Ficou pelo caminho.

Na América do Sul.

O carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje, qual é que foi?

Foi da fronteira da Mauritânia com o Senegal. No momento que nós saímos de Portugal, podíamos tirar o visto na fronteira, mas depois alterou e quando chegamos à fronteira da Mauritânia, não havia lugar pra tirar o visto. Então eu tive que atravessar ilegalmente a fronteira num barco, numa canoa pequenita, com que eu tenho um rio que divide, ir à polícia do lado do Senegal, tirar uma fotografia, ter aqueles, sabes, em África, pago isso, não pago isso, tal. Tirei a fotografia já com a mochila aí nas costas, fiz o visto, voltei pra Mauritânia e saí outra vez à fronteira, mas desta vez, de forma legal.

Engenhar-te.

Assim, muito rapidamente.

Engenhar-te. Olha, a recordação de viagem mais cara.

Também nunca gastei assim muito dinheiro. Eu acho que a mais complicada pra trazer pra Portugal foi um quadro que eu comprei no Senegal, na Ilha de Gorée. E era um quadro supergrande. Eu não sei onde é que eu tinha a cabeça pra me lembrar como é que eu vou trazer este quadro pra casa. Claro que realmente ele tira da moldura e eu só levo a tela, mas mesmo assim era uma tela enorme. E não te esqueças que eu andava à boleia naqueles Carros cheios de pessoas por todo lado, mas a verdade é que o quadro chegou intacto e está na casa da minha mãe até hoje.

Muito bem. A refeição mais estranha, qual foi?

Essa é fácil. Foi na China. Porque eu na China, além de não ter plano-

O que foi?

Tenho dois. Um que eu não faço a mínima ideia do que comi, mas era muito estranho e o segundo era patas de tartaruga, que não fui eu que escolhi. Porque cada refeição que eu fazia, eu escolhia sempre nos menus chineses, sem saber o que estava a escolher.

Apontavas para os caracteres ao calhas.

Sempre. Se calhar uma vez de vez em quando comia os típicos noodles com legumes para acalmar, mas o resto das vezes era sempre ao calhas. Era olhar para o menu chinês e escolher uma coisa. E eu acho que foi esse o mais estranho, que eu acho que só provei a pata de tartaruga que acabei por comer.

Era bom ou não?

Não.

Não. Ok.

Não posso dizer que sim. Eu gosto de experimentar, mas é verdade-

Mas há limites, não é?

Não repito.

Ok. Olha, gostava de viajar com?

Eu acho que vou ter que dizer com o meu filho, com o Inti. Ele tem a sorte, ele fez agora um ano, já viajou seis países e eu queria ver se posso. É esse o sonho, é de continuar a viajar com ele.

Muito bem. Oiça lá, João. Olha, chegamos ao fim. Que música trouxeste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" esta semana?

É uma música do álbum "Electric Gypsy Land". A música chama-se "Homecoming", que é uma colaboração entre dois artistas. E um deles é uma banda gypsy Balkan, que é das mais conhecidas na Roménia, foi onde eu vivi, que se chama Taraba'i Duk.

E porquê esta música?

Porque eu passei lá oito meses, não todos os dias, mas quase todos os dias eu ouvia esta música, mas não tinha tido a noção que o nome desta música era "Homecoming" até ao dia em que eu estava a apanhar o táxi da minha casa para o aeroporto para regressar a Portugal.

Muito bem.

É especial para mim por isso.

Muito bem. João Oliveira, foi um gosto.

Um gosto ter falado contigo também.

Igualmente. Felicidades para ti, para a Cami e também para o teu filho Inti, não é?

Inti.

Muito bem. A música "Homecoming" do segundo volume da coletânea "Electric Gypsy Land" a fechar a conversa do "Fim do Mundo". Regressamos na próxima semana, neste horário. Até de hoje a oito dias. Sejam bons e boas viagens.