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Sejam bem-vindos. A viajante desta semana é formada em bioquímica e quer fazer do mundo o seu laboratório. Um pouco daqui, mais um pouco dali, numa mistura que se quer bem temperada. À la melhor alquimia. Tinha 21 anos quando partiu pela primeira vez rumo à Tailândia, numa curta viagem de três semanas. Ficou claro que tinha de voltar e assim o fez. Depois de sacar um 20 na tese de mestrado, desta vez por um período maior, 254 dias pelo Sudeste Asiático. No Nepal, fez um retiro silencioso de 10 dias. Na Tailândia, teve a oportunidade de viver numa comunidade ecossustentável, fez voluntariado no Laos, conheceu gente de todo o mundo e o mundo abriu-se para ela. Entretanto, já andou por outros lugares. Viajou pelo Irão numa altura em que as mulheres protestavam contra a morte de Mahsa Amini, foi ao Peru, fez o Caminho de Santiago a pé e agora está aqui. Olá, Patrícia Carvalho.
Olá, muito obrigada.
A honra é essa. Então, Patrícia, conta-me essa viagem de nove meses, 254 dias pelo Sudeste Asiático. Grande viagem.
Uma vida inteira.
Foi?
Acho que neste tempo todo foi literalmente como se tivesse vivido uma vida.
Outra vida.
É, uma vida paralela.
Porque as grandes viagens são momentos muito intensos e muito enriquecedores na vida de uma pessoa, não são?
Sem dúvida, em especial porque passamos um longo período de tempo fora daqui e acabamos por ter que nos adaptar. E neste caso, como estava sozinha, tive de ser a minha melhor companhia e ultrapassar todos os desafios e obstáculos que estão inerentes a viajar sozinha, ser mulher sozinha. E no meu caso, eu acho que ainda foi um pouco mais especial, porque eu tinha 24 anos.
Eras novinha.
Exatamente.
Ainda és.
Sim, ainda sou. Mas na altura, eu senti-me como se fosse um bebê a ver o mundo pela primeira vez.
Uau!
A ver as culturas pela primeira vez, a ver a diferença, porque eu não tinha a cultura de viajar. Viajava sempre muito próximo da Europa e mesmo a minha primeira viagem à Tailândia com 21 anos, foi a viagem mais longa que eu fiz, mais distante e a primeira vez fora da Europa.
Foram três semanas, não foi?
Foram três semanas.
Portanto, foste ver os postais ilustrados da Tailândia, digamos, sim?
Sim.
Ainda assim, o suficiente para semear em ti a ideia de que tinhas que voltar àquela região do planeta.
Essa viagem foi muito engraçada.
Essa, a das três semanas?
A das três semanas, porque foi uma viagem muito a medo. Foi muito "quero ir, mas tenho medo". "Estou lá, mas estou com medo".
Pois.
"Falo ou não falo?" Ao passo que três anos depois, quando regressei ao Sudeste Asiático para então ter uma viagem longa e tempo para explorar o que quisesse, já estava com um mindset completamente diferente. Já falava para toda a gente, já estava superdescontraída.
Já tinhas outra confiança.
Exatamente. Houve literalmente uma transição da minha forma de viajar com menos medo.
Com menos medo, claro. Muito bem. Olha, nove meses, 254 dias. Por onde é que começaste esta segunda viagem, esta maior no Sudeste Asiático, Patrícia?
Comecei no mesmo ponto onde tinha ficado, em Bangkok.
Em Bangkok.
Em Bangkok, que foi uma cidade que eu-
Cidade maldita
...muita gente detesta e eu durante muito tempo detestei, depois passei a adorar.
Então.
Passou a ser o local onde começam e acabam as minhas viagens. Então é sempre uma cidade que, do ponto de vista emocional, tenho um carinho muito especial. E foi no meio daquele caos, porque é uma cidade absolutamente caótica, onde há uma ebulição de tudo o que é cheiros, sabores, cores, que para nós, portugueses, que estamos habituados a uma vida muito calma, é tudo muito intenso. Para mim, aquela ebulição é fascinante. Isso no início me meteu medo, foi por isso que eu depois mais tarde me vinha a apaixonar. E, portanto, foi aí que comecei.
Mas no início meteu-te medo, mesmo medo?
Não foi medo, foi surpresa.
Sim.
Tal como eu disse, eu nunca tinha viajado para fora da Europa, eu nunca tinha visto uma cidade com a população inteira de Portugal. Mesmo a noção de distância, a noção de orientação, tudo era complicado, tudo era difícil. Da primeira vez, pelo menos, quando a minha experiência a viajar era zero, foi um bocadinho assustador. Eu estive ali dois ou três dias com um choque cultural muito forte, em que ponderei inclusive voltar a Portugal.
Porque não estavas a conseguir absorver e a digerir aquilo tudo, era?
Sim. Mas depois pensei: "Não vou gastar € 500 para voltar a Portugal e vou perder uma aventura e no final, o que é que eu vou contar? 'Olha, fui à Tailândia, fiquei lá dois dias e voltei'. Vou ter que ficar, vou ter que me aguentar, vai ter que dar por onde der". E acabei por ficar. E depois, à medida que deixei Bangkok, parti rumo a Chiang Mai, no norte, onde o ambiente é mais tranquilo, onde já se conhece mais viajantes, e depois isso foi se perdendo.
Depois vais partilhando experiências ao longo do caminho.
E depois fui conhecendo pessoas diferentes, fui falando também com alguns turistas, fui percebendo que não era a única que estava a fazer aquilo e que não era a única rapariga a viajar sozinha.
Pois. O Sudeste Asiático está cheio.
Está cheio, sim. É o melhor local.
Está cheio não é o melhor local, mas há muita gente a viajar.
Sim, é o melhor local para começar, eu acho.
É a zona mais barata, não é, do planeta?
É a zona mais barata, é a zona onde há mais turistas e, portanto, há mais oferta de hotéis. É muito barato e, portanto, eu acho que para quem está numa idade jovem e que quer experimentar viajar sozinho e adaptar e ver se gosta, é um destino ideal. É o que eu recomendo.
Sudeste Asiático. Todo ele?
Sim, todo ele.
Todo ele. Olha, Tailândia, quanto tempo passaste na Tailândia?
Eu estive quase nove meses em nove países, portanto aquilo deu mais ou menos um mês em cada um.
Ok.
Sendo que em Singapura, como era pequenino, fiquei só dois e dei mais um mês.
Dois dias.
Dois dias, desculpa. E fiquei dois meses na Indonésia, porque é um país enorme. Portanto, eu fiquei um mês na Tailândia, depois subi pelo Laos, desci por ali abaixo, voltei a entrar na Tailândia e foi aí que vivi numa comunidade ecossustentável. E depois passei para baixo para o Camboja e sempre por terra, a andar ali a ziguezaguear.
Sempre por terra, à boleia ou transportes públicos?
Maioritariamente transportes públicos. Ainda fui dar um saltinho ao Mianmar, que na altura ainda estava aberto, agora já está outra vez muito condicionado. Também foi um país surpreendente, porque era um país onde não estavam muito habituados a ver turistas. Onde as mulheres ainda usavam aquela pasta no rosto, possivelmente ainda usam, onde os homens ainda usam saias, onde os cigarros ainda são de mascar.
Portanto, olharam para ti com uma certa estranheza.
Sim, mas também com alguma amabilidade. Não com muita abertura, mas com amabilidade e hospitalidade. E eu senti-me muito bem recebida. E para mim foi quase como viajar no tempo. E foi fascinante. Há um autor que eu gosto muito, que é o Tiziano Terzani. Ele já morreu, mas ele era um jornalista que viveu muitos anos no Sudeste Asiático. E ele descreve aqueles países. Ele esteve na queda da Guerra do Vietname, esteve no regime do Pol Pot no Camboja e esteve também no Mianmar. E ele tinha um medo muito grande que era o progresso dos países do Sudeste Asiático, que vão ser todos ocidentalizados e vão evoluir no sentido de imitar o Ocidente. Isso era algo que o preocupava, porque se ia perder a diversidade cultural. E ele viajou lá por volta dos anos 80 e para mim foi muito engraçado, 40 anos depois, lá estar e ler as palavras dele.
Tu lês os livros dele?
Exatamente. Ainda hoje leio, sou viciada no Tiziano. E ver as descrições dele naqueles lugares e depois a minha própria impressão. E, por exemplo, no caso do Mianmar, infelizmente, porque aquilo acabou por virar uma ditadura muito opressiva e ficaram fechados, o que ele escrevia ainda é aquilo que se encontra.
E tu estiveste mesmo em sítios que ele descreve?
Sim, sem dúvida, imensos, quase todos. Porque ele morou lá anos e anos e teve tempo para explorar aquilo bem melhor do que eu. E foi muito interessante ver que, de facto, ele tinha este receio que o desenvolvimento fosse no sentido da ocidentalização, e é, há zonas do Sudeste Asiático que estão completamente condenadas pelo capitalismo e pelo nosso modo de vida, mas depois também há uma coisa muito engraçada.
Condenadas? Por quê?
Porque se perde muito da cultura. É quase como um Algarve cheio de hotéis e resorts e batatas fritas.
Mas são as pessoas que escolhem, não é?
Sim, também é verdade.
Por mais que seja difícil para nós digerir isso, são as pessoas que escolhem.
Mas, por outro lado, eu sinto que-
Não lhes é imposto
...que há muitas marcas culturais que ainda assim persistem hoje. A cultura ainda é bastante conservada, as pessoas ainda mantêm os seus hábitos e eu acho isso engraçado, porque ele temia muito esta ocidentalização e embora de certa forma tenha acontecido.
Mas ainda estão muito cavadas as diferenças, não é?
Exatamente. Ainda é muito diferente.
Muito bem. Então, Tailândia, Laos, Camboja.
Vietname.
Vietname.
Mianmar.
Mianmar.
Malásia.
Uau! Cingapura, dois dias.
Dois dias. Era muito caro.
É muito caro Cingapura, não é?
É caro.
É uma cidade de negócios, não é?
É uma cidade de negócios.
Não tem muito interesse ou tem?
Eu acho que não. É engraçado porque pode ser um bocadinho futurista.
A não ser que vás para fazer negócios. Aí, sim, tem interesse.
Pode ser engraçado na medida em que vemos uma cidade asiática super mega hiperdesenvolvida.
High tech.
Exatamente. Um bocadinho, se calhar, à semelhança de Nova Iorque, com aqueles arranha-céus enormes e podemos pensar se aquele é que vai ser o futuro com toda a tecnologia que aquela cidade tem. Mas, por outro lado, também é um país que não existiria em outro sítio, porque tem regras que não fazem sentido aqui para nós, para o nosso modo de vida.
Diz uma.
Não poder beber água no metrô, por exemplo.
Não se pode beber água no metrô?
Não, pagas multa.
Ai é?
É.
Em Cingapura, por quê?
Simplesmente para não fazer lixo, porque como os países em torno de Cingapura são países com populações muito grandes, onde há muito lixo.
Grandes poluidores.
Grandes poluidores também.
Nós esquecemos isso.
Eles têm muitas regras como não poder comer pastilha elástica, é proibido no país, avisam logo no aeroporto, garrafas de água também.
Caramba!
Manifestações também são proibidas, é necessário pedir uma autorização. Por isso é uma democracia assim um bocado...
Essa compreendes, agora pastilha elástica e garrafa de água é estranho. Quer dizer, é estranho, há uma razão, custa-nos aceitar.
Mas Cingapura é muito peculiar, normalmente as pessoas vão e veem só a parte futurista, mas em termos políticos, eles têm uma democracia que para nós é tudo menos democrática, mas que ali no contexto em que está, orgulha os seus habitantes, de alguma forma.
Também foste ao Nepal.
Também fui ao Nepal.
É mágico Nepal.
Eu achei sim. Para mim o Nepal foi uma lufada de ar fresco, porque eu já estava no Sudeste Asiático há sete meses e meio.
É um país mais aberto. Tem aquelas montanhas, os Himalaias.
Sim, os Himalaias. Não são montanhas grandes.
Sempre omnipresentes no país. Só isso dá outra mística e outra aura ao Nepal.
No meu caso, eu achei que o Nepal foi uma grande surpresa, porque eu já estava há quase sete meses e meio a viajar no Sudeste Asiático, que tem, apesar das suas diferenças entre os diferentes países, uma cultura muito similar entre si, da mesma maneira que os países europeus têm. E o Nepal já não, o Nepal já foge um bocadinho, já se aproxima mais daquilo que é uma Índia. Toda a gente diz que o Nepal é uma preparação para a Índia. E eu já estava um bocado cansada de viajar, um bocado, se calhar, até desmotivada de estar sempre a ver templos budistas e tudo mais. E depois quando cheguei ao Nepal foi: "Uou, afinal o Sudeste Asiático não é uma representação do mundo, há muitas mais coisas diferentes".
Mas o que te fez ficar de queixo caído?
A diferença, pura e simplesmente, o facto de as mulheres terem aquela pintinha na cabeça, como os indianos, o facto de os templos também serem diferentes, as pessoas se vestirem de maneira diferente, as mulheres andam todas com a barriga à mostra.
Pois eles são budistas, é diferente.
Sim. Hinduístas, hinduísmo também.
Também.
E por isso é diferente do Sudeste Asiático, portanto acabou por me atrair mais e pensar: "Porra, ainda bem que eu fiz essa escolha".
Foi aí que tu fizeste um retiro silencioso de 10 dias. Retiro silencioso de 10 dias significa que estiveste mesmo 10 dias sem falar?
Falei pra mim.
Não falaste com ninguém durante 10 dias?
Não. Dividi quarto com uma rapariga sem nunca saber o nome dela.
Estás a gozar.
Não, foi super estranho. Olhar pra cara daquelas pessoas todos os dias.
Portanto, acordavas e deitavas-te com ela todos os dias, ali ao teu lado?
Com as raparigas, porque aquilo era segmentado.
Era tipo camarata.
Sim, era do gênero.
E não falaste mesmo nada?
Não. Houve uma vez uma rapariga que falou pra mim.
Sim.
Nós comunicávamos com o olhar e com gestos. E isso foi talvez um dos maiores desafios da minha vida em termos pessoais, pela dificuldade que é estar sem nenhum estímulo, porque além de não podermos falar, não podíamos também ouvir música, ler, escrever. Por isso tudo que é material de escrita, livros, telefone, é tudo entregue no início.
Ok.
E nós ficamos só com as roupas.
Tudo isso é voluntário, não é?
Tudo isso é voluntário, sim.
Foi porque quiseste.
Sim, claro, inscrevi-me. Foi por minha livre vontade de experimentar pra saber como é que eu reagiria a uma situação destas.
Então e como é que reagiste?
Melhor do que eu estava à espera, porque eu achei que não ia ser capaz.
Quando acabou o período dos 10 dias, voltar a falar foi o quê?
Foi estranho.
Foi?
Foi estranho.
Ouvir a tua voz?
Ouvir a minha voz e voltar depois pra uma cidade onde está tudo a acontecer. Porque durante estes 10 dias eu tive a consciência de que o mundo está a acontecer à minha volta, as pessoas estão a acordar, a trabalhar, a fazer coisas, e pra mim o mundo parou. É como se a minha vida parasse e eu fosse espectadora do mundo. E é uma sensação muito estranha. E depois é muito tempo a pensar sobre nós mesmos.
Deixa só eu perceber, durante esses 10 dias, como é que era o vosso dia a dia?
Nós passávamos 13 horas de meditação por dia.
13 horas de meditação?
Sim, começávamos mais ou menos-
Portanto, basicamente sentadas a olhar para o infinito.
Sim, olhar pro professor.
Pro professor. Não entoavam mantras?
Não, nada. Silêncio absoluto. E tínhamos algumas pausas, a pausa para o pequeno-almoço, duas horas, acho que era uma hora. E depois pausa pra almoço de duas horas. E depois não comíamos mais nada o resto do dia. Desde as 11:00 da manhã até-
Emagreceste?
Emagreci imenso. Uns 5 kg à vontade. Saí de lá um esqueleto. Sim.
Olha, e por quê?
E por que não? Se é pra experimentar, vamos lá. Acho que o meu maior porquê foi mesmo pra perceber como é que eu ia reagir. Será que eu era capaz de estar comigo 10 dias? E de pensar como é que a minha mente ia reagir a um desafio destes.
E em que é que pensaste durante esses 10 dias, Patrícia?
Primeiro, revi a minha vida toda, desde o início até aqui. Chorei imenso, lembrei-me de muitas coisas. E houve também alguns aspectos engraçados que foi: lembrar-me de coisas que tinham acontecido, sei lá, quando eu tinha oito, nove anos, e que até então tinha esquecido. Ou seja, eu não sei se a minha memória, dado o vazio e o testículo, estava a recuperar memórias antigas ou se estava só a inventar pra me ocupar. Mas eu lembrei-me de alguns episódios da minha infância que eu às tantas fiquei-
Memórias criativas.
Exato. Eu fiquei: "Mas isso aconteceu ou eu estou a inventar?" Ou será que o vazio, a ausência de tudo e mais alguma coisa, me está a fazer criar memórias. E depois tínhamos algum tempo de pausa, almoçávamos também sempre em silêncio, sentados no chão. Quando eu te estava a dizer há bocado que comunicávamos com o olhar, eu comia ao lado uma rapariga, que depois ainda descobri que era francesa, e eu não gostava nada dos legumes, e ela gostava. E eu queria o arroz, era o que eu gostava mais. E nós com o olhar, durante os últimos cinco dias, trocávamos comida. Ou seja, ela olhava pra mim, eu fazia aquele olhar de sim, vamos, e trocávamos os pratos, sem nunca saber nome, nada, só no final, no último dia, é que então começamos a conversar todas umas com as outras e a perceber também porque é que cada uma estava ali, o que é que a tinha trazido, o que é que tinha sido mais difícil.
Isso é um exercício de autoconhecimento brutal, não é?
É, porque tu aprendes a conhecer-te e aprendes a ver quem é que tu és, o teu lado bom e o teu lado mau, porque ele também existe, todos temos.
Vistas sombras dentro de ti.
Exatamente, os monstros que temos no armário. Sim, sem dúvida. E aprendemos também a aceitá-los, que eles fazem parte de nós.
Isso foi em que momento da viagem?
Isso foi no final.
No final, ok. Teria sido diferente a viagem se tivesses feito isso no início?
Eu teria sido incapaz de fazer no início.
Por quê?
Acho que psicologicamente não estava preparada. Estes retiros são chamados retiros Vipassana. Eles existem em todo o mundo desde 1980. E eles têm uma hora por dia de aula, que é dada por um professor, que é o Goenka, já morreu há muitos anos, e ele tem gravadas todas as aulas. E, portanto, isto é dado em todo o mundo, é gratuito, e as aulas dele é uma cassete muito velhinha que passam lá e continua, apesar de ele já ter morrido, de passar no tempo. E eu sempre pensei: "Um dia tenho que fazer uma coisa destas, nem que seja aos 40, quando eu for emocionalmente estável, quando for uma adulta completa, eu vou fazer isto". Até lá, no início, pensei sempre que era impossível, eu não ia conseguir. E se calhar a própria viagem foi me preparando pra isso. Estava a viajar na altura, há uns cinco meses, estava na Malásia quando pensei: "Acho que estou pronta, acho que vou fazer uma application e ver se fico". E fiquei.
Portanto, surgiu durante a viagem a vontade de ir fazer este tal retiro Vipassana.
Vipassana, exatamente.
É isso. Muito bem. Patrícia, estamos aqui já na reta final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem. Guardas em casa algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens, Patrícia, e que seja especial?
Os meus diários de viagem. Eu escrevo muito.
Escreves muito?
Sim.
Escreves enquanto esperas pelos transportes, à noite.
Em qualquer momento. Mais à noite, talvez, mas eu quando era miúda gostava muito de escrever e depois como segui bioquímica, isso acabou por me tornar muito científica.
Muito metódica.
Muito metódica. E então nesta viagem quis recuperar esse hábito de escrever e decidi levar isso à risca e todos os dias escrevia.
Quantos caderninhos escreveste em 254 dias?
Cinco.
Cinco caderninhos! De quantas páginas, mais ou menos?
Não sei, umas 150 cada. Aqueles Moleskines. Cinco deles.
Sempre a dar à caneta.
Exatamente. Daí é que depois nasceu o livro que vim a publicar com base nisso e ainda bem que o fiz, porque senão não tinha livro.
Muito bem. Patrícia, vamos fazer uma curta pausa, regressamos já a seguir. Até já.
Até já.
Ia apontar a metralhadora, mas o tipo protegeu-se e assim: "Se não fosse o Cabral, já estavas morto há muito tempo."
Este é o "Sargento na Cela 7", uma série para ouvir em seis episódios. Faz parte dos Podcast+ do Observador.
E eu percebi que aquilo lá dentro fiava fino, os rebeldes e não sei o quê, portanto, eles estavam preocupados com o seu futuro.
Episódio cinco: a operação clandestina. Informo que estou rodeado por dois blindados e muitas tropas. António Lobato foi o português que mais tempo esteve em cativeiro na guerra de África: sete anos e meio. Pode acompanhar todas as semanas no site do Observador ou nas plataformas de podcast. Um novo episódio a cada terça-feira. Os Podcast+ do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Segunda parte das conversas do "Fim do Mundo", esta semana com Patrícia Carvalho. A Patrícia viajou nove meses pelo Sudeste Asiático, já andou pelo Irão, Peru e fez o Caminho de Santiago a pé. Patrícia, já tivemos a oportunidade de falar na primeira parte de uma experiência, eu diria, quase radical, que foi o retiro silencioso que fizeste no Nepal no decorrer dessa viagem de nove meses que fizeste ao Sudeste Asiático. Eu gostava de continuar nesta região do planeta, porque tu também tiveste a oportunidade de viver numa comunidade ecossustentável na Tailândia? Foi na Tailândia?
Sim, foi na Tailândia.
O que é uma comunidade ecossustentável na Tailândia?
Aquilo é uma espécie, chama-se Mindfulness Project, e é um projeto criado por um casal alemão que acabou por praticar meditação com alguma regularidade e decidiu criar este projeto, que está aberto a todas as pessoas, também de 10 dias, em que nós vamos para lá e temos aulas de meditação, aulas de ioga, fazemos permacultura.
Mas pagas o-
Pagas € 5 por dia, que é o mínimo para tu sobreviveres.
E depois trabalhas lá.
Depois trabalhas.
Ajudas nas tarefas diárias.
Ajudas nas tarefas diárias, a cozinhar, a fazer xampu sólido. E para mim também foi uma experiência espetacular, porque depois de tanto tempo a viajar sozinha, foi bom sentir-me em comunidade e estar durante algum tempo com as mesmas pessoas durante o dia inteiro.
Fez-te bem esse sentimento de pertença.
Exatamente. Voltar a criar laços. E depois todo o projeto é muito especial, porque também tem uma componente de meditação que eu gosto e de ioga, de acordar cedo.
És uma pessoa madrugadora?
Sou.
Boa, és do meu clube.
É. E foi também uma experiência muito especial, onde conheci pessoas que enriqueceram muito a minha viagem e é um lugar onde quero voltar.
Muito bem, a essa comunidade ecossustentável na Tailândia. Olha, estamos na época pascal, apesar da Páscoa já ter passado, mas tu na Indonésia, na Ilha das Flores, tiveste a oportunidade de experimentar uma vivência que eu diria que é quase única. Tiveste a oportunidade de assistir às celebrações pascais em português, numa região que fica a milhares de quilómetros daqui.
É, a Ilha das Flores.
Ilha das Flores, na Indonésia.
Onde estiveram portugueses há muitos anos. E eu acabei por ir lá parar a uma terra chamada Ende, com o objetivo de ir-
Ende, como fim em inglês.
Sim, com E no fim. Com o objetivo de ir até ao vulcão Kelimutu. Só que era Páscoa e, portanto, a Páscoa lá é levada muito a sério, mais a sério até que o Natal. E, portanto, não havia transportes. E eu estava lá a falar com uma senhora, que por acaso era amiga da senhora do alojamento onde eu estava, nem sequer era ela que lá estava. E eu disse-lhe que pena, porque queria muito ir ao Kelimutu, se não arranjava uma mota para me emprestar, não sei o quê. E depois disso eu disse-lhe que era portuguesa e ela ficou: "Uau, és portuguesa."
Eles existem.
Quase como: "És Deus". Exatamente. E disse-me: "Olha, hoje é Páscoa". Na verdade, era o dia anterior à Páscoa, a missa ia ser à noite por causa do calor.
Ok, era Sábado de Páscoa, é isso?
Exatamente. "Logo à noite vai haver uma missa muito grande, tu não queres vir? Seria um prazer para mim levar uma portuguesa lá." E eu, quer dizer, estava ali presa, não tinha transportes para sair dali. Eu: "Está bem, bora lá". A cidade não tinha nada para ver, mesmo. Então ela acabou por chegar lá às 8 da noite, com um saco, com uma roupa para eu vestir, que tinha sido feito pela mãe dela. Vestiu-me, penteou-me, fomos quatro numa mota e assim que chegamos à igreja, uma igreja que nem era assim muito grande, mas com um espaço exterior ainda considerável, cheia de gente Com holofotes e tudo para a missa se ouvir cá fora. Altifalantes, desculpa. Para a missa se ouvir cá fora, bancos espalhados, um amontoado de pessoas enorme. Do outro lado da estrada, uma mesquita com o chamamento também para os muçulmanos, o que eu achei muito engraçado, porque no mesmo sítio duas religiões a coabitar aparentemente pacificamente.
Pois, porque a Indonésia é um país maioritariamente islâmico.
Exatamente.
Aliás, é o maior país islâmico do mundo.
Exatamente, só aquela região ali, depois mais outras com outras religiões, mas aquela é muito forte no cristianismo. E então acabamos por assistir à missa e quando eu dou por mim começam todos a rezar em português.
Tu não sabias que eles iam rezar em português?
Não. Um português um pouco com algumas palavras em latim.
E o que sentiste na altura?
Eu senti-
São vozes na minha cabeça.
Senti os meus pelos a eriçarem-se e uma saudade de Portugal imensa, porque eu já não estava em Portugal há tanto tempo e nunca senti o meu país tão perto como naquele momento. E depois a senhora que me recebeu estava sempre a perguntar-me: "O que é que isto quer dizer?" Porque ela sabia aquilo tudo de cor, mas não sabia a mínima ideia do que dizia.
Ok, portanto, memorizaram a cantilena religiosa. Enfim, espero que ninguém leve a mal esta expressão, mas a música, o discurso, mas não sabiam o seu conteúdo. Isso é incrível.
Exatamente. E depois pedia para eu fazer pequenas traduções. E quando as outras pessoas à volta perceberam que estava ali uma portuguesa, porque ela depois fazia questão de dizer: "Está aqui uma portuguesa." E as pessoas vinham e diziam: "O meu apelido é Silva, o meu apelido é Pereira, o meu bisavô tem um caderno português, tens que ir lá a casa ver." Eu senti-me quase um Cristiano Ronaldo ali durante duas horas.
Um Deus vivo.
É, mas foi uma experiência impactante, porque para quem sai de Portugal à procura do mundo e encontra Portugal ali no mundo de uma forma como esta, trouxe-me bastante nostalgia.
É fascinante isso. E depois foste a casa das pessoas ou não?
Sim, fui. Depois no dia a seguir ainda fui outra vez, porque as pessoas queriam me levar a ver a igreja e foram abrir as portas da igreja que estava fechada há anos para mostrar não sei o quê, os santos e o que seja.
Já percebi que não és uma pessoa religiosa.
Não. Mas respeito, assim como respeitei nessa altura.
Claro.
Mas as pessoas tinham um carinho e têm possivelmente ainda, um carinho muito forte com isso e com Fátima também. E perguntavam-me sempre se a história de Fátima era verdadeira e como é que era e para eu contar novamente. Tanto que quando cheguei a Portugal, acabei por enviar a essa senhora que me recebeu uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Chegou à Indonésia três semanas depois.
Chegou lá.
Mas chegou direitinha.
Ela depois respondeu-te?
Sim, ela depois respondeu-me.
Imagino a alegria imensa.
Exatamente. Mas foi espetacular.
Isso é inacreditável. Quinhentos anos depois, como é que é possível haver pessoas que têm esse fascínio com Portugal?
E guardam imensos livros escritos em português. Eu tive pena de não ter tempo para viajar lá mais tempo, porque depois arranjei uma mota, essa mesma senhora emprestou-me uma mota e eu fui ver o vulcão e depois voltei. Mas cheguei a ter o convite de um senhor de Larantuca para ir lá à terra dele, porque ele tinha uma espécie de biblioteca com livros do bisavô em português e gostava que eu visse.
E ele sabia ler português?
Não. A questão é que as pessoas guardam isto e não sabem. E guardam com muito carinho e eu adorava ter ido lá e ter ido ver estas coisas.
Isso é fascinante, isso é absolutamente espetacular.
Lá está, saindo da rota turística.
É um privilégio enorme ser português na Ilha das Flores, estou a ver.
É, acho que sim.
Portanto, senhores ouvintes, se forem ao Sudeste Asiático, recomendas?
Recomendo, Ilha das Flores é lindíssima.
É?
É, fascinante.
O que se pode fazer na Ilha das Flores, na Indonésia, Patrícia? O vulcão, não é?
O vulcão que é ali mútuo, que foi o que eu fiz.
Ir assistir à missa pascal dita em português, porque as pessoas não sabem o que é que estão a dizer.
Sim. Mas a Ilha das Flores é muito famosa pelas praias, pelo mergulho ou snorkeling. Foi lá que eu fiz snorkeling com mantas enormes, com mais de um metro de comprimento. Foi assim fascinante. Tem também lá os dragões de Komodo, que são muito conhecidos naquela reserva natural.
Assustadores ou não?
Assustadores. Eu não gostei muito. Achei um bocado perigoso estar lá só com aqueles animais e não havia segurança nenhuma. E os guias ainda nos mostravam: "Olhem, esta é a imagem do último turista que morreu aqui, vejam como ele ficou sem perna." E nós tipo liberdade com aqueles animais. E a única coisa que eles tinham era um pau para nos defendermos se acontecesse alguma coisa. Por acaso não achei muita piada à visita, mas é uma das coisas que há lá para fazer. E depois a própria selva por dentro. Há muita gente que atravessa a Ilha das Flores de mota. Eu não o fiz porque não estava muito confortável para andar de mota tantos quilómetros, mas há quem o faça e descubra até pelo meio algumas aldeias que mantêm tradições centenárias.
Olha, nessa viagem de nove meses, depois dessa experiência com comunidades indonésias a falar português, não te deu para ir a Timor?
Não, porque para ir a Timor ainda era um pouco mais complicado e caro, especialmente depois para sair de Timor, se tivesse que voar.
Ok.
E então como eu já me tinha matriculado, entre aspas, inscrito no retiro Vipassana no Nepal, no final da Indonésia tive que voar para o Nepal.
Ok.
Por isso não continuei por ali abaixo.
Tiveste pena de não ir a Timor?
Mais ou menos, nem por isso. Sinto que é um país que eu posso voltar mais tarde.
Ok, muito bem. Olha, recentemente estiveste no Irão, numa altura em que o país vivia-
Assombrado pelo medo.
Pelo medo. Numa altura em que as mulheres se revoltavam contra o regime por causa daquele episódio negro de uma mulher que foi assassinada, uma curda, assassinada por não usar devidamente o véu islâmico. Tu estavas lá nessa altura. Assustador é talvez o melhor adjetivo para descrever O clima que uma mulher ocidental vive num país nestas condições.
Não diria assustador. Acho que é bastante mais assustador para as pessoas que lá vivem do que para nós.
Porque sabes que estás de passagem, é isso?
Sim, e somos estrangeiros. Não tantos quanto os locais, claro. Embora tenha havido alguns estrangeiros presos pela mão do regime nesta altura, eu senti que estávamos um pouco mais protegidos do que se fôssemos locais.
Desde que te mantivesses em silêncio.
Desde que cumprisse as regras. Nós ponderamos muito cancelar a viagem e pensámos-
Nós, tu e o teu namorado
Eu e o meu namorado, sim. E adiar.
Portanto, viajavas acompanhada, isso é importante dizer.
Neste caso, sim, viajei acompanhada.
Por um homem.
Sim.
O que aos olhos do regime-
Sim, é completamente diferente
É completamente diferente.
E nós ponderamos bastante se devíamos ir ou não. E depois de falar com algumas pessoas de lá e também com alguns turistas, todos nos disseram que se estivéssemos nas principais cidades e nos principais centros, não havia problema, desde que cumpríssemos as regras, que era não falar de política, evitar sair à noite, evitar juntar-nos a manifestações se as virmos, e claramente não tirar fotografias a este tipo de ajuntamentos.
Não tirar fotografias era mesmo não tirar fotografias a nada?
Não, podíamos tirar, mas a manifestações, caso acontecessem, não tirar e afastar-nos e ir embora o mais depressa possível. E nós cumprimos estas regras, embora em alguns sítios tivéssemos conhecido pessoas-
Turistas obedientes.
Sim, sem dúvida. Mas aqui o risco era um bocado grande. E embora conhecêssemos iranianos, em particular um que nos disse: "Podes tirar o véu, ninguém te vai fazer nada. Já há muitas mulheres na rua sem o véu, faz-lo." E eu não fiz, porque não tive coragem. E senti-me muito mal, porque as mulheres que lá andam e que lá estão, tiram o véu para lutar por aquilo que são direitos humanos. E eu não o faço porque não preciso e porque sou turista e daqui a duas semanas venho para a liberdade e para a democracia, que é o nosso país. Foi uma viagem muito difícil do ponto de vista psicológico, porque nós estávamos constantemente com um pouco de medo, mas ao mesmo tempo estávamos a adorar as pessoas que estávamos a conhecer. De certeza que já recebeste aqui imensos viajantes que te dizem que o Irão é o melhor país do mundo para viajar.
Só ouvi coisas positivas do Irão.
E eu também trouxe essas histórias. E portanto, a minha viagem foi sempre esta dualidade da situação horrível que o país está a passar e uma hospitalidade que eu não tenho como descrever, porque nunca vi nada igual.
É incrível, não é?
Como é que o país atravessa esta altura horrível, com condições económicas péssimas, com uma inflação de 60%, onde já começa a escassear o dinheiro, porque ele vale tão pouco que podes trocar 200 € em maços e maços de notas, já começa a faltar tudo e as pessoas ainda assim conseguem manter a simpatia e a hospitalidade que as caracteriza, ao invés de se revoltarem e de se tornarem, se calhar, violentas até.
Mas nunca sentiste que o país era hostil?
Não, nunca.
O aparelho de Estado ou o povo, nem um nem outro foram hostis contigo.
Não, porque o Estado e o regime nós não o entendemos, nós não sabemos onde é que ele está. Os polícias andam à civil.
É verdade, há milícias.
Há milícias. Tu não estás a ver nada, tu estás a ser controlada, mas não sabes que estás a ser controlada.
Portanto, a cautela porta-te bem, não é?
Nós tínhamos um cartão SIM, que não era nosso, cartão de telemóvel, que nos foi dado por alguém, porque nós não estávamos a conseguir fazer um. E só depois é que percebemos que não o estávamos a conseguir fazer porque eles colocaram ainda mais restrições aos turistas para com aquele cartão conseguirem rastrear onde é que nós estávamos, que aplicações é que nós usávamos, o que é que nós fazíamos. Portanto, nós somos controlados lá de uma maneira que não sabemos. E se calhar muitos dos turistas que acabaram infelizmente por ser presos, foi por se calhar terem partilhado um story ou terem feito alguma coisa que para eles foi inofensiva, em defesa do povo iraniano e acabaram por ser descobertos pelo regime e por ter um final mais infeliz do que o nosso.
E o regime retaliou.
Exatamente.
Como retaliam todos os regimes mais sinistros. Olha, o Irão, o que é que fizeste e o que é que viste? Conta-nos, partilha esse lado mais turístico.
Uma das melhores coisas que nós fizemos no Irão foi um acampamento nómada. Nós estávamos a ligar duas cidades, estávamos a fazer este trajeto com um driver, um motorista, que acabou por se tornar um pai para nós. Ele, na altura, perguntou-nos: "Querem ir dormir aqui a um acampamento?" E nós: "Vamos." "É um acampamento de nómadas." E nós: "Nómadas? Mas isso existe mesmo?" E ele: "Sim, venham!" E acabámos por ir parar a um acampamento no meio das montanhas, sem nada à volta, onde as pessoas viviam, literalmente a cada três meses mudavam de sítio, e foi uma experiência extraordinária.
Mas era um acampamento legítimo ou foi encenado?
Não, legítimo. Não era comum receberem turistas. Até porque o país não é muito turístico. Aliás, neste caso, o nosso driver só podia ir lá porque aquela mãe tinha um laço familiar com uma irmã dele que tinha casado com um nómada e por isso é que ele podia entrar lá e aquilo era tranquilo. Tanto que nós nem sequer fizemos nada de especial, porque não havia nada para fazer. Nós simplesmente vislumbramos a vida daquelas pessoas. Nós estivemos três horas à volta da fogueira e eles estiveram a falar, e nós não percebemos nada. Só entendemos uma única palavra, que foi Ucrânia. E depois eu perguntei: "Porque é que disseram Ucrânia?" E o Massud disse-nos: "Porque eles estão a nos perguntar como é que está o mundo. E as únicas vezes que eles sabem como está o mundo é quando nós vimos cá". Para contar as notícias mundiais, também conseguia saber, porque também lá a comunicação social é muito censurada.
Então estiveste três horas, é isso?
Não, nós estivemos lá, dormimos lá mesmo.
Dormiram lá.
Estivemos três horas à volta da fogueira sem perceber nada. A conversa e sem terminar.
Portanto, era só dormida e comida.
Dormimos lá.
Uma noite.
Sim, jantamos lá com eles.
E essas pessoas vivem do quê, Patrícia?
Estas pessoas vivem de uma coisa que nós viemos a descobrir, tráfico de cabritos.
Tráfico de cabritos?
Sim. Nós tínhamos sido avisados.
Muito pascal este programa. Já tivemos missas portuguesas na Ilha das Flores e agora tráfico de cabritos.
Não, eles vivem dos animais. Nem sequer é da agricultura, porque como são nômades não têm essa possibilidade de estar, e também o solo é muito árido. Mas nós tínhamos sido avisados para se ouvíssemos barulhos estranhos durante a noite, não nos preocuparmos porque era normal. E acabamos por ouvir por volta de 23h30, 00h, um carro que chegou lá. Eu fiquei cheia de medo e pensei: "Isto é a polícia que nos vem buscar, porque o que é que um carro está aqui a fazer à meia-noite?"
Descobriram que estamos cá.
E eu não dormi mais a noite toda, fiquei a fazer filmes na minha cabeça, o meu namorado nas calmas a dizer que eu estava a exagerar e eu: "Como assim, tu não estás a ver o filme em que nós estamos metidos?" E depois no dia a seguir perguntamos ao Massud o que é que um carro estava aqui a fazer, aquilo nem sequer tem estradas delineadas. E ele disse-nos que era um assunto complicado, que não se podia comentar assim muito, mas que na verdade aquilo eram uns senhores que iam lá, e que já estava combinado, pegarem cabritos para fazer tráfico para o Dubai e para o Catar e para estes países todos que têm muito mais dinheiro. E portanto, foi uma aventura que vivemos no Irão, que não estávamos nada a contar. E no dia a seguir quando eu soube que passei a noite inteira a magicar dos piores cenários e a verdade é que era só tráfico de cabritos. Eu só me via a atirar para o chão a rir. E tráfico de terra também.
De terra?
Sim, porque aqueles países do sul como o Catar são muito deserto, é muito árido mesmo. Então a terra não é boa.
Não é fértil.
Não é fértil. Então eles acabam por fazer também tráfico de terra. Há quem paga dezenas de euros ou dólares por um quilo de terra.
Incrível.
É mesmo.
O mundo é mesmo um sítio fascinante.
O mundo é fascinante. Uma pessoa pode puxar pela cabeça, imaginar os piores cenários. Não é, não tem nada a ver, é uma cultura diferente. Lá faz sentido terra.
Muito bem, Patrícia, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out?
Vamos.
Então vou pedir-te para completares as habituais frases. Na minha mala vai sempre...
Um caderno de viagem.
Porque escreves muito, não é?
Sim.
Na primeira parte eu não percebi bem. Tu tens mesmo uma disciplina?
Não, de todo. Aliás, até gostava de ter mais.
Conforme os pensamentos que vão-se alterando, é isso?
Sim, conforme o tempo. Eu gostava de ter mais, não consigo. Mas é algo que tem que estar sempre comigo, onde quer que eu vá.
A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?
A do Sudeste Asiático, de nove meses.
De nove meses. Aconteceu tudo. Alguma história periclitante?
Perigosa, dizes tu?
Sim.
Sim, tive algumas mais complicadas. No Mianmar, estive quase dentro de um esquema turístico do qual me consegui safar, porque toda a gente dizia que no Mianmar as pessoas eram superhospitaleiras. Isto também é o lado mau de depois aceitar tudo o que nos dizem.
Sim.
E eu fui convidada por um rapaz para ir ver um templo e disse que sim, e fui com ele. E fizemos uma viagem de autocarro, depois chegamos a um sítio com uns barcos super estranhos e saltamos para um barco. Ele abriu um guarda-chuva para me esconder por causa do sol, supostamente. Atravessamos para o outro lado da margem e aquilo era tudo menos um sítio onde pudesse ter um templo bonito para mostrar. E eu comecei a achar a situação estranha e pensei: "Patrícia, tu meteste-te no autocarro com um desconhecido, meteste-te num barco com um desconhecido, estás no outro lado do rio num país que não conheces e estás prestes a saltar para uma moto com ele". E foi aí que eu disse: "Para". E disse mesmo para e disse que me queria vir embora. E ele disse que eu não podia, que agora tinha que ir com ele, não sei o quê, não sei o que mais. Eu comecei a dizer: "Não vou". E comecei a correr para vir embora, e vim. E depois percebi que aquele seria um esquema turístico, ou seja, ele acabaria por me levar ao templo, depois ia acabar por me levar a comprar um quilo de arroz para ajudar um orfanato por 50 euros. Ia te intimidar, percebes? Até tentar roubar-te, vá, se calhar 100 euros. Pronto, no final de tudo, na minha cabeça eu estava a imaginar cenários piores, mas foi um momento muito estressante e foi muito mau. Depois quando cheguei ao hotel e relaxei, por sorte nesse mesmo dia conheci um português, um açoriano, no Mianmar e pensei: "Fogo, quando acontece uma coisa má, sempre outra boa que vem a seguir". Que foi conhecer o Diogo e até acabamos por ficar amigos mais tarde.
Olha, vês? Espetacular. O carimbo de passaporte mais difícil, qual foi, Patrícia?
Foi o do Irão, porque ele foi nos negado. Nós já tínhamos tentado no ano anterior e não conseguimos, e portanto adiamos a viagem para este ano.
Deram alguma razão para negar o visto?
Não. Não sei.
Aleatório. Olha, a recordação de viagem mais cara?
Eu acho que nenhuma. Eu não compro assim nada.
Não?
Não. Nem sempre trago coisas e quando trago são sempre coisas muito pequeninas. Guardo coisas com carinho, mas não de valor econômico.
Ok, e qual é a coisa que guardas com mais carinho?
Este colar. Aqui as pessoas não vão conseguir ver.
Estou a ver.
Mas é um colar que trouxe do Nepal e que sempre que vou fazer algo importante com viagens gosto de o pôr.
É o teu colar da sorte.
É. Da viagem.
É bonito.
É muito bonito. E acabo por levar sempre que venho dar uma entrevista ou algo do gênero.
Deu-se bem a sorte.
Acho que me dá sorte. Acho que sim.
Claro que sim. A refeição mais estranha?
Acho que escorpiões, não foi?
Comeste escorpiões?
É aquele típico no início.
Galhadinhos salteados, não é?
Exatamente.
Uns com açúcar.
Uma brincadeira com amigos em que cada um experimenta um bocadito e lá foi. E também bicho-da-seda.
Bicho-da-seda?
Sim, cru.
Cru. Ah, cru!
Horrível. Foi péssimo.
A não repetir.
Não repetir.
Muito bem. Olha, gostavas de viajar com?
Com o Tiziano Terzani.
O tal repórter.
Jornalista italiano.
Jornalista italiano. No Sudeste Asiático.
Sim, no Sudeste Asiático. Na China, na verdade.
Na China?
Sim. Ele era um apaixonado pela China.
E tu queres ir muito à China?
Adorava. Irei à China. Só não fui porque preciso de tempo para ver a China. Acho que não é um país que se faz em duas semanas, assim como a Índia, e são dois países que eu guardo para reservar uns três a cinco meses para estar lá à vontade.
Muito bem. Então boa sorte.
Obrigada.
Com esses planos. Qual foi a música que escolheste, Patrícia, para fechar a conversa do Fim do Mundo esta semana?
Foi a Society, de Eddie Vedder.
Eddie Vedder.
É uma música que nessa viagem de Sudeste Asiático me acompanhou muito. E acho que é uma música que marca um bocadinho todos os viajantes, pelo menos numa fase inicial da sua carreira de viagens, digamos assim.
É verdade. Tem uma ambiência um bocado misantropa.
Exatamente. Acho que todos passamos um bocadinho por isso.
Nós sozinhos no mundo. Por aí. Patrícia Carvalho, foi um gosto. Obrigado.
Muito obrigada.
Obrigado por teres vindo às conversas do Fim do Mundo esta semana. Society de Eddie Vedder a fechar o programa desta semana. Já sabem, sejam bons e boas viagens.
Oh it's a mystery to me. We have a greed with which we have agreed. And you think you have to want more than you need. Until you have it all, you won't be free. Society, you're a crazy breed. I hope you're not lonely without me. When you want more than you have, you think you need. And when you think more than you want, your thoughts begin to bleed. I think I need to find a bigger place. 'Cause when you have more than you think, you need more space. Society, you're a crazy breed. I hope you're not lonely without me. Society, crazy indeed. I hope you're not lonely without me. There's those thinking more less, less is more. But if less is more, how you keeping score? It means for every point you make, your level drops. Kind of like you're starting from the top. And you can't do that. Society, you're a crazy breed. I hope you're not lonely without me. Society, crazy indeed. I hope you're not lonely without me. Society, have mercy on me. I hope you're not angry if I disagree. Society, you're crazy indeed. I hope you're not lonely without me.