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Bem-vindos. O convidado desta semana começou a sua vida profissional na arquitetura, primeiro na Holanda e depois na Dinamarca. Pelo meio, criou uma plataforma online para promover o surf em Portugal. A crise do subprime mudou-lhe a vida. Em 2014 viajou à África, dois anos depois estava a ajudar o seu guia a lançar uma empresa de safaris. Fez formação em condução de safaris e hoje faz disso a sua vida. Senhor arquiteto Pedro Quirino, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.
Olá, João, obrigado.
Ninguém te chama arquiteto. Ora essa. Ninguém te chama arquiteto, pois não, Pedro?
Não, já há muitos anos. Eu até fiquei surpreendido, de te tratar por arquiteto, porque até soa mal.
Soa-te mal.
É estranho, pelo menos.
Muito bem.
Mas não, já ninguém me trata por arquiteto.
Mas pensas em casas e arquitetura ou já esqueceste completamente esse teu passado?
Às vezes, sim. Adoro arquitetura e arte. Estudei durante muitos anos e aquilo eu acho que era mais paixão do que vocação. E ainda bem que eu me apercebi a tempo, portanto, não valia a pena estar ali a insistir.
Pedro, ainda te lembras do teu primeiro safari?
Me lembro, pois. É inesquecível um safari.
É?
O meu primeiro safari, eu acho que foi por aí em 2006, talvez, com o meu pai.
Com o teu pai. Mas já eras adulto.
Já, era crescidinho. Eu até fui eu que marquei. Assim, meio de surpresa, marquei um safari. Na altura fomos à Tanzânia e ao Quénia. E esse foi o primeiro safari. Aliás, nem foi aí que eu descobri a minha paixão por África, porque essa já é uma paixão antiga, precisamente com o meu pai, que via os programas todos da BBC, da National Geographic, e eu miúdo via aquilo com ele e fiquei com essa paixão. Então marquei um safari para nós e foi o primeiro safari, foi esse.
Muito bem, vamos guardar as razões dessa paixão por África para a segunda parte do programa. Queria explorar esta tua vertente profissional. Portanto, o teu primeiro safari foi em 2006, já em idade adulta, com o teu pai. Sentiste-te uma criança, Pedro, a olhar para aquelas paisagens e conseguiste ver animais?
Pateticamente.
Foi?
Sim, bastantes. Acima de tudo, foi ver aquelas paisagens que só se via na televisão, a partir do sofá, o Serengeti, Ngorongoro, o Kilimanjaro. E estar lá foi arrepiante. Ver aquelas paisagens que se vê vezes e vezes sem conta, e os animais, e depois estar ali a cheirar mesmo aquelas coisas, é impressionante. E o meu pai também, estávamos os dois bastante emocionados.
Muito bem. Eu nunca fui à África, portanto, também nunca participei num safari. Do ponto de vista físico, não é um bocadinho penoso? Ou seja, não está muito calor?
Não. Enfim, para um português está habituado ao calor, não faz assim grande diferença, na verdade. Aliás, a época de safaris acontece no nosso verão, que é inverno lá, portanto as temperaturas estão mais baixas. E outra das razões pela qual se deve viajar, fazer um safari ali entre os meses de maio e outubro, é porque lá chove menos. Portanto, os animais têm pouca água e estão mais concentrados nos charcos e em alguns locais onde tem água nos rios.
É mais fácil vê-los.
E é mais fácil avistá-los. É, exatamente.
Muito bem. Esse primeiro safari, tu lembras-te de que animais é que viste?
Vi os big five, os big five todos.
Os big five, que são os cinco maiores, não é?
São os cinco mais conhecidos. O termo big five vem até do primeiro tipo de turismo que se começou a fazer em África, que era o turismo de caça, e eram os cinco animais mais perigosos de se caçar. Numa caçada a pé, obviamente. Portanto, o leão, o leopardo, o búfalo, o elefante e o rinoceronte.
Ok, e tu viste-os todos?
E tivemos muita sorte. Vi todos.
Mas assim a uma distância, enfim, como é que viste? Binóculos ou ali perto de ti?
Razoável, sim.
Razoável. O suficiente pra ter medo ou não?
Não.
Não?
Não sei se é uma falsa sensação de conforto e segurança, mas estar no carro, os animais ignoram-nos por completo quando estamos dentro do carro.
Pois, isso é muito estranho, não é?
É.
Mas por quê? Porque estão habituados?
Estão, eles são muito habituados. O carro pra eles é um objeto que se mexe. Portanto, eu não consigo perceber o que eles acham, o que é um carro, não dá. Mas eles simplesmente ignoram os carros. Só as chitas é que às vezes gostam de fazer uns malabarismos e saltar para cima dos carros pra ganhar assim uns metros de altura para observar melhor.
Não é propriamente para vos comerem.
Não. Vale que eles não sabem que dentro dos carros é que está se está cheio de comida.
Ainda bem.
Senão a coisa poderia ser mais perigosa. Ainda bem assim.
Ainda bem. Muito bem. Portanto, 2006 foi o teu primeiro safari. Longe de imaginar, nesse ano, que daí a uma década, mais ou menos, irias fazer dos safaris a tua vida, Pedro.
Longe.
Nem te passou, sequer, "um dia vou fazer isto", nada?
Não, nunca. Era um sonho, mas é daqueles sonhos inatingíveis. Na altura, eu achava que ia ser um arquiteto promissor. E estava longe de adivinhar que ia seguir outra carreira. A carreira de sonhos.
De sonho. Isso é ótimo. Portanto, tu és feliz a fazer o que fazes, não é?
Apesar do meu pai também gostar muito da África, acho que ele ficou um bocado decepcionado quando eu disse que ia largar a carreira de arquiteto e ir pra África. Ele ficou meio bananado, não sabia bem o que eu fazia, porque eu ia largar tudo para ir atrás de um sonho. Mas depois lá se deixou convencer, até começou a correr bem, lá ficou convencido.
Muito bem. Esse sonho que se concretiza, porque surgiu na tua vida, enfim, na vida de todos nós, essa maldita palavra chamada crise. Foi a crise do subprime que te atirou, digamos assim, para a condição de guia de safari em África, em imensos países, um, dois, três, quatro, cinco, seis, pelo menos nove países. É isso, Pedro?
Não foi logo, mas o que aconteceu comigo, aconteceu com muitas pessoas. A crise foi uma oportunidade, ela veio pro bem ou pro mal, mas foi uma oportunidade para muitas pessoas mudarem de vida. E comigo aconteceu o mesmo, ou seja, eu estava a trabalhar em arquitetura, o ateliê ficou sem trabalho.
Estavas na Dinamarca, não é?
Eu estava na Dinamarca, voltei para Portugal e trabalhei ainda durante um ano em Portugal. Foi quando se instalou essa crise. Em 2009. E nessa altura, foi engraçado, quando eu estava em Amsterdã e em Copenhague, comecei lá a fazer uns roteiros para surfistas. Eles aparentemente são bons surfistas nessas cidades.
Que estranho. Pelo menos em Amsterdã é estranho.
É estranho, mas da mesma maneira que eles lá têm os seus surfistas, nós, portugueses, também há muitos que são esquiadores e snowboards e vão fazer a sua viagem todos os anos à neve. Eles lá têm o mesmo. Muita malta que faz a sua viagem anual com os amigos, por causa do surf. E na altura, a malta ia toda para Biarritz, aquela zona do sul francês, Atlântica. E então, lá no escritório onde eu trabalhava, no ateliê, havia um grupinho de surfistas. E eu comecei a dizer que fazia surf em Portugal e eles não faziam a mínima ideia que havia ondas em Portugal, ficaram surpreendidos de eu dizer que fazia surf em Portugal e eu mais surpreendido fiquei por aquela malta não conhecer Portugal e as ondas que nós tínhamos.
Caramba, basta olhar para o globo. Somos um país com uma costa atlântica tremenda.
Exatamente. Eles ficaram meio surpreendidos.
O que diriam lá desses teus colegas, Pedro?
Sim, eles surpreendidos e eu quase insultado, como bom português, gosto de mostrar e falar sobre as coisas que nós temos de bom. E então lhes expliquei as maravilhas de Portugal, mostrei umas fotos e eles ficaram convencidíssimos. E então fiz um roteiro com os sítios onde surfaram, dormiram, onde comeram, o roteiro completo. Eles vieram a Portugal e adoraram tanto que começaram a passar a palavra. E eu dei por mim, quando estava lá em Amsterdã e depois em Copenhague, a fazer roteiros em barda para vários grupinhos de amigos. E foi aí que eu percebi que havia ali negócio. Na altura, Portugal não era conhecido, aliás, as ondas sempre estiveram cá. Mas não havia a promoção que Portugal hoje em dia goza, da promoção internacional do surf, por causa do campeonato, o fenômeno da Nazaré, aquilo tudo. E então, na altura, quando voltei pra Portugal, fiquei sem trabalho, o ateliê deixou de funcionar e foi aí que eu resolvi montar uma empresa de turismo de surf, uma agência de viagens especializada em surf. Lancei aquilo online e na altura criamos a única agência de viagens para este nicho de mercado com reservas diretas no website, porque os surf camps já existiam alguns, tinham sim uns sites, outros nem por isso, mas não dava pra fazer reservas online. E fomos pioneiros nesse sistema e então aquilo começou a correr muito bem, mesmo muito bem. Na altura havia cerca de 10 surf camps na costa portuguesa, hoje em dia já existe mais de 100.
Uau!
Enfim, o negócio começou a correr bastante bem e aquilo começou a evoluir. Tive que me especializar em project developer, web marketing, SEO, enfim, aquelas coisas todas das tecnologias dos sites.
Até que?
Até que, exato, pra não continuar essa conversa, porque senão dá outro programa. Se quiseres podemos fazer outro programa sobre isto, João.
Até que foste vítima do sucesso, foi?
Fui vítima do sucesso, porque algumas empresas começaram a copiar, empresas internacionais, e tinham acesso a orçamentos bem superiores àquilo com que eu trabalhava. Alemãs, britânicas, francesas. Então comecei a perder um pouco o comboio. E foi mais ou menos nessa altura que fui fazer o outro safári à África. E foi aí, mais uma vez, a minha vida mudou outra vez. Conheci o guia do safári que eu marquei, fui fazer um safári da África do Sul até às Cataratas Vitória, passando pela Namíbia, Botswana e Zimbábue.
Espetacular.
Espetacular, 24 dias.
24 dias?
24 dias, sim. Já tinha feito a outra parte da África e agora fui fazer esta mais ao sul. Era mesmo carimbar a caderneta toda dos sítios que queria visitar em África. E marquei um safári overlanding, que são aqueles caminhões todos equipados, que é aquilo que eu faço. Um caminhão com o equipamento todo de campismo, pra cozinhar, enfim, tudo. Só não dormimos lá dentro.
Portanto, os 24 dias foram os 24 dias junto do caminhão a acampar, é isso?
Sim, o caminhão é o que nos leva para os vários sítios. E depois tem o equipamento todo de campismo, as tendas, os colchões, as camas, isso tudo, e montamos o acampamento em cada um dos sítios onde ficamos
Ok. Portanto, não dormiste em hotéis.
Dormi sim. Algumas noites dormimos sem ser em camping, porque senão também é muito cansativo. Tentando equilibrar a coisa.
Muito bem.
Portanto, foram 24 dias com grupo, foi muito tiro. E eu fiquei muito amigo do guia, porque comecei a lhe dar dicas. Ele ia montar a sua própria empresa operadora de safáris.
Boa.
Ele, aliás, nem era para ter feito essa viagem, foi a substituir um amigo.
Ainda bem, boa substituição.
Foi. Isto é uma série de coincidências.
Mas a vida é mesmo assim, não é?
É mesmo. Tive muita sorte. E então, comecei a dar aquelas dicas todas sobre website, web marketing, e depois de eu me vir embora, continuamos a trocar e-mails e passei a ajudá-lo cada vez mais na empresa que ele montou. Aquilo começou a correr bastante bem e às tantas ele liga-me e diz: "Pedro, eu vou comprar mais caminhões e o projeto está a crescer, o que tu achas de vires morar para a África do Sul, ajudas-me aqui a gerir isto e tens é de te mudar para cá". E eu nem pensei duas vezes.
É já.
Disse logo que sim, é já. Estava a precisar de mudar um pouco de vida e aceitei logo.
Muito bem, portanto, do surf para os safáris. Grande pirueta.
Do surf para os safáris. Foi uma boa pirueta, sim. Passar do mar para o sertão. Foi engraçado. E então lá fui eu, em 2014. Não, 2014 foi quando fiz o safári com ele, 2016 mudei-me para a África, para uma pequena aldeia ao pé do Kruger, chamada Hoedspruit.
Do Kruger Park, na África do Sul.
Sim, exatamente. Aquilo é muito tiro. Aquilo é uma aldeia que já fica dentro de uma reserva privada e todos os dias temos lá a bicharada a vir beber à piscina, a entrar lá no quintal. A bicharada, zebras, antas.
Pois, define bicharada.
Não são senhoriscos, nem raposas, é mesmo bicharada maior. Muito giro. Portanto, hoje em dia passo cerca de metade do tempo lá e metade do tempo cá.
Em Portugal, não é?
Em Portugal.
Portanto, seis meses lá, seis meses cá. Muito bem. Boa.
Mais ou menos, sim. Vou e volto consoante o trabalho que há lá para fazer. Eu lá trabalho com várias agências, muitas delas sul-africanas e internacionais, e cá em Portugal trabalho com a Landscape.
Muito bem. Já vamos ter a oportunidade de falar na segunda parte desse continente do qual tu estás apaixonado, o continente africano. Eu gostava só de perceber como é o teu perfil de viajante. Antes de te atirares de cabeça para a África e para a organização ou condução de safáris, já eras um viajante ou não, Pedro?
Eu acho que era viajante, não era assim tão viajante quanto gostaria. Mas isso acho que todas as pessoas que viajam gostam sempre de viajar um pouco mais.
É verdade. Independentemente da sua condição financeira.
Exatamente.
Queremos sempre ir mais, não é?
É.
E se só viajássemos todos os dias do ano, ainda assim nos queixávamos. Se calhar, talvez não.
Exatamente.
Então mas conta, viagens que tinhas feito até te dedicares ao continente africano, Pedro.
Então outras viagens, percorri os países europeus quase todos. Só aqueles ali da ex-Jugoslávia, que ainda não fui ali a alguns. Estados Unidos, fiz umas quantas viagens de surf, Maldivas, Açores, também tinha que conhecer o produto que estava a vender. E África. África sempre foi o meu local de eleição.
Mas a África, por exemplo, a África Saariana, não. Essa não.
Não, essa ainda não. Essa está nos planos. Estive em Marrocos, agora África Subsaariana, ainda não. Aqueles países ali do deserto, do Chade, Mali, esses estão aqui na lista.
Muito bem. Também tem bicharada para ir ver.
Tem, tem muita bicharada. Mas tem outros desafios, viajar para esses sítios.
Já agora, que desafios é que vislumbras nesses países, Pedro?
Alguns desses países estão ainda a atravessar alguns conflitos políticos, portanto, se calhar é melhor aguardar um pouco mais até ir lá.
Gostas de tranquilidade, é isso?
Os sítios para onde eu viajo não são assim muito tranquilos. Mas esse tipo de restrições, prefiro esperar um pouco.
Mexem contigo.
Eu não me importo de viajar para sítios com bichos com dentes grandes e venenosos, isso não me importa.
Muito bem.
Estou bastante tranquilo.
E deves ter muitas histórias com encontros imediatos do terceiro grau, com bicharada diferente. Bom, estamos à conversa com o líder de viagem Pedro Quirino. Vamos abrir o álbum de viagem. Pedro, guardas em casa aí algum objeto que seja especial para ti, que contenha uma boa história para partilhar com os nossos ouvintes?
Eu tenho vários objetos, mas eu sou um pouco apologista da máxima do "Leave nothing but footprints and take nothing but pictures".
Ok. Não deixes nada a não ser pegadas, não tragas nada a não ser fotografias.
A não ser fotografias, exatamente. Ou seja, tem aquela máxima da sustentabilidade para não estar ali a retirar coisas do ambiente onde elas pertencem. Trouxe muita bugiganga, por assim dizer, como aquelas esculturas em madeira, cobertores Maasai, máscaras tribais, lanças e setas. Enfim, gosto daquelas coisas tribais.
Sim.
E tenho uma predileção por máscaras.
Máscaras? Máscaras africanas, deduzo.
Máscaras africanas, sim. Aquelas máscaras tribais.
Mas que compras nos mercados?
Sim.
E sabes de cor quantas máscaras tens, Pedro?
Não as contei. Se contei, já me esqueci do número. Deve ser umas quase 20.
Quase 20.
Talvez, sim. À volta disso.
Há muita diversidade de máscaras em África, não é?
É, especialmente ali naquela zona da África Equatorial. O Congo, Gana, essa zona tem muita arte desse gênero. É muito giro, algumas máscaras são fascinantes.
Muito bem, fantástico. Pedro, já nos disseste que eras apaixonado por África. De onde é que vem essa paixão pelo continente africano? Terá alguma coisa a ver com os documentários de vida selvagem, como dizias um pouco na primeira parte?
Claro que sim. Enfim, minha paixão por África começou logo com os safáris que eu fazia na televisão. Desde criança.
Assistias a muitos documentários de vida selvagem.
Sim, os meus pais até perguntavam se eu não queria ver os desenhos animados, mas não, eu queria era ver aquelas coisas da National Geographic e a bicharada, quase sempre de África, porque aquela bicharada mais pequena, às vezes não me interessava por aquilo. Eu ficava muito desiludido aos sábados de manhã, quando não tinham programas sobre insetos. Eu queria era sempre ver a bicharada de África. Eu acho que nasceu aí.
Muito bem.
Paixão por África, mesmo desde criança.
Mas só pisas o continente africano anos depois, não é? Muitos anos depois, já na idade adulta. Andaste entretido com a arquitetura e com a vida. Foi?
Foi, basicamente, sim. Então parece que foi crescendo cada vez mais essa vontade de zarpar rumo à África.
E tu dedicas-te a essa atividade chamada fotografia de vida selvagem ou não tens tempo pra isso?
Tento.
Tentas?
Tento. Eu gostava muito. É daquelas coisas que está nos lugares primeiros da minha lista de coisas a fazer, que é tirar um curso de fotografia pra saber fotografar decentemente e começar a fotografar a vida selvagem decentemente, porque a maior parte das vezes eu não consigo ter tempo. Como guia, tenho que conduzir, cozinhar, explicar as coisas, montar acampamento, enfim. Os clientes, obviamente, têm lá o seu interesse em tirar fotografias, algumas bem boas. Agora, pra mim é mais complicado.
Pois.
Mas gostava, gostava muito.
Não há tempo.
Não, mas eu tiro umas fotos fantásticas com o meu telemóvel. Depois vais ver, eu vou postar no Instagram.
Boa! Olha, e encontros estranhos com animais. Há pouco dizias que as chitas, essas sim, saltam pra cima do caminhão e dos jipes.
Eu não posso contar essas pepetas.
Porque senão perdes clientes.
Exatamente.
Ninguém nos ouve. Anda lá, conta lá tudo, Pedro. Ninguém nos ouve.
É sempre a mesma pergunta, a mesma resposta. Eu só conto essas histórias quando lá estiverem.
Não, vá lá. Mas também quem viaja para fazer um safári deseja não ter uma experiência deste tipo. Mas se calhar lá no fundo, se acontecesse qualquer coisa, enfim, era porreiro, não é não?
É, é isso. Depois dá bom pra contar por casa.
Pois.
Não, já aconteceram várias situações.
Vamos lá. Arruína o teu negócio e conta-nos tudo.
Vou contar uma história. Depois dos últimos safáris, diz últimos porque nesta temporada, neste lapso temporal chamado Covid, infelizmente não pude fazer muitos safáris, de maneira que esta história aconteceu no Botswana, num acampamento, no Botswana. É sempre no Botswana que essas coisas acontecem. Sim, o Botswana é o local mais selvagem que existe em África, não há cercas, não há nada, e então está sempre bicharada por todo lado. Chegamos, montamos o acampamento e como eu costumo fazer, em cada sítio eu faço um briefing daquilo que vai acontecer nesses lugares. Um briefing pro dia seguinte. Montamos o acampamento, tínhamos já a mesa pra jantar, tudo montado, e eu vou fazer o briefing e expliquei, isto foi em inglês, um grupo canadiano. Então eu comecei a explicar: "Bom, se o Botswana é selvagem, este lugar então é mesmo muito selvagem. Portanto, aqui vamos ter que ter um cuidado redobrado. Se estiverem fora da tenda à noite, vocês utilizem aqui a lanterna a apontar pra todo lado, a ver se veem algum animal. Se precisarem de ir à casa de banho, chamem por mim, não vão sozinhos".
Ir à casa de banho em overlanding significa o quê, Pedro?
Significa que há uma tenda especial montada uns metros mais afastada, com um buraco no chão e um assento para as pessoas fazerem o que têm a fazer.
Muito bem. Então estavas tu a fazer o briefing.
Estava eu a fazer o briefing e começa-se a ouvir umas pegadas atrás, pisando a erva seca e nas folhas secas. Eu não liguei, pensava que era um animal qualquer, sei lá, umas hienas, que elas às vezes andam assim ali à volta. Não liguei. E então continuei a falar.
Sim.
E continuava-se a ouvir o mesmo barulho. E às tantas viro-me pra trás e pego numa das lanternas e aponto pra ver o que se passava. Então tinha um leopardo, um bicho enorme, a uns cinco, sete metros de nós, em posição de ataque, a vir mesmo a rastejar na nossa direção.
Ai, ai, ai.
Parei o briefing, pedi a toda a gente para se levantar e apontar as luzes.
Sim.
O animal ficou a olhar para nós durante uns segundos e às tantas já se levantou, levanta a cauda e muito placidamente vai-se embora. Como quem diz: "Eu só não vou porque não quero". Então, foi-se embora.
Curioso. Imagina esses batimentos cardíacos nessa altura.
Foi mesmo. Como se estivesse a trepar o Everest, foi mesmo.
Olha, Pedro.
Espera, ainda não acabou.
Ah, não acabou?
Espera. O bicho era teimoso. Mas ainda temos um bocadinho de tempo.
Temos.
Então, o leopardo foi-se embora e continuei o meu briefing. Às tantas, jantámos. Quando acabámos de jantar, comecei a levar a malta para as tendas. E nisto, um dos senhores que estava na tenda disse: "Ah, preciso ir à casa de banho." Então fui pô-lo à casa de banho. E então, obviamente, como mandam as regras, comecei com o foco de luz a apontar para todo lado, não fosse o leopardo estar ali ainda à volta. Quando estávamos a uns três metros da tenda, por acaso aponto a lanterna para baixo, para a porta da tenda, porque aquilo é tela. Estava o leopardo deitado à porta da tenda da casa de banho. Aí então é que eu azulei. Se na altura as pulsações atingiram o estado pico Everest, ali foi mesmo a descarga de adrenalina completa. E então é fazer aquilo que mandam as regras, que é não mexer, é ficar ali parado com o cliente. Disse para ele não se mexer, absolutamente nada, só respirar e pestanejar o menos possível. Aí ficar e esperar que o leopardo se vá embora. E foi isso. Ficámos cinco minutos a olhar para o leopardo a três metros de nós e ele a olhar para nós.
Cinco minutos?
Sim, à vontade. O bicho estava ali intrigadíssimo a olhar para nós.
Ou foram 20 segundos daqueles que parecem cinco minutos?
Se calhar até foi isso. Daqueles cinco segundos que mais parecem cinco horas.
Exato.
Mas foi uma coisa muito demorada. Ficámos ali muito tempo à espera que ele se fosse embora.
Essas coisas estudam-se, não é? Tu estudaste isso tudo, não é?
Tive que tirar um curso. Foi das melhores experiências que já tive.
Tiraste um curso?
Foram três meses na África do Sul. Foram três meses na selva com uma academia de guias, sem eletricidade, sem telemóveis, só a aprender sobre a bicharada, o ecossistema, técnicas de sobrevivência, orientação, a ler as pegadas, enfim, superinteressante.
Muito bem.
E então, leopardo.
Ainda continua a história do leopardo. Foi-se embora, mas a história continua.
O leopardo foi-se embora. Ainda bem que se foi embora, senão tinha-me comido a sangue. O leopardo foi-se embora, fui lá para a casa de banho e às tantas eu voltei e pedi à malta toda: "Malta, a noite pode ser um pouco longa, este leopardo está aqui para ficar. Ele vai andar aqui à volta do acampamento, portanto vocês não ousem ir à casa de banho sem chamar por mim, está bem? Vocês gritam, eu acordo, sem problema, vou ter convosco e vamos à casa de banho. Não saiam da tenda esta noite, está bem?" "Ok". Pronto, fui para a minha tenda também, dormi e tal. No dia seguinte acordo com o despertador. Estava o sol a nascer, estou a preparar o pequeno-almoço, aquelas coisas, antes dos clientes acordarem também, meia hora antes. Mas quando eu acordo percebi que ninguém tinha chamado, ou seja, eu dormi a noite toda. Foi aí que eu fiquei preocupado, aquilo eram casais com os seus 55, 65 anos, e normalmente essa malta pede para ir à casa de banho. Eu pensei: "Oh, diabo, será que eles chamaram e eu não acordei?" O que é chato, é muito pouco profissional. Será que foram todos comidos? Fiquei muito preocupado. E às tantas, saí da tenda, bastante cauteloso, não fosse o leopardo estar ali à volta. Olho para todo lado e percebi que a malta estava toda a dormir, ouvia assim o ressonar dentro das tendas, tudo tranquilo. Começo a preparar o pequeno-almoço ali, a cortar a fruta e essas coisas, e às tantas o sol começa a clarear.
Sim.
Quando eu olho para a frente de duas das tendas.
Sim.
Eu não sei como é que hei de dizer isto assim aqui neste programa. Tinham dois cocós à porta da tenda. Duas delas. Ou seja, foi aquela malta que teve medo a chamar por mim e então não quiseram ir à casa de banho. Eu não consigo imaginar como é que eles fizeram aquilo. Portanto, querias peripécias? Esta pode ser uma delas.
Muito bem.
Portanto, isto são as coisas que acontecem em safári.
Tudo por causa de um leopardo.
Tudo por causa de um leopardo.
Tudo por causa de um leopardo. Olha, falavas dessa situação perigosa que é estar perto de um leopardo. Tu andas armado, Pedro, ou não?
Não.
Não andas?
Não posso.
Ah, não podes?
Não, porque é complicado ter a posse de arma.
De arma de fogo.
E ter que andar a fazer as viagens que eu faço, porque nos safaris de overlanding, normalmente nós passamos por dois, três ou às vezes quatro países. E ter que andar com essa burocracia toda, levar uma arma no caminhão para todo lado é uma chatice.
Portanto, se fores atacado por um leão ou por um leopardo mais afoito, estás por tua conta e risco das tuas mãos e possivelmente de um cajado e mais nada.
Mais ou menos. E uma faca maçaia.
Acabaste de perder todos os potenciais clientes que tinhas.
Eu sabia. Por isso é que eu nunca quero entrar nestas histórias.
Não, nada disso. As pessoas estão à procura de aventura. É isso que procuram as pessoas, aventura, não é?
Não, mas para te tranquilizar e nos tranquilizar, muitas vezes quando nós estamos nesses parques ou quando fazemos as caminhadas nesses parques, que é a atividade mais gira, caminhar com essa bicharada toda à volta. Vemos mesmo leões e leopardos a pé, a curta distância. Essa malta, os guias locais, que às vezes nos levam para ver os animais a pé, esses às vezes vão armados.
Pedro, estamos a chegar ao final do programa, vamos fazer o habitual checkout?
Bora.
Vamos lá. Na minha mala vai sempre?
Na minha mala vai sempre, além do material de campismo, os meus calções da Patagonia, da marca Patagonia.
Ah, OK. Tens um fetiche com esses calções, é isso?
Tenho, é o meu talismã. Por várias razões. Aqueles calções são ultrarresistentes. Podiam dar aquilo aos comandos e os comandos não conseguiam gastar aqueles calções. Depois, são superversáteis, dá para tomar banho e depois em que são feitos. Eu sou uma pessoa que gosto de seguir as normas de sustentabilidade, turismo responsável. Não sei se sabes, mas aquilo é feito de plástico reciclável, de redes de pesca. Enfim, é o meu talismã.
Olha, a viagem com mais peripécias.
Socotra. Ou então, se calhar, essa do Botswana.
A do leopardo.
A do leopardo. Com esse grupo aconteceu mais uma história semelhante com um leão. Esse grupo levou com tudo, coitados. Temos mais meia hora para contar a história do leão?
Não, vai lá rápido, em um minuto. História do leão.
Um minuto? Está bem, resumidamente: estávamos no Botswana, obviamente, mais uma vez, isto no Delta do Okavango. Voámos para lá, para uma ilha no meio do delta, tudo muito giro. Aliás, também estávamos lá a almoçar, já depois de uma caminhada, onde vimos também leões e leopardos a pé. Estávamos no lodge a almoçar e vem um dos guias locais perguntar se queríamos ver uma leoa com as crias, porque tinha acabado de atravessar a pista de aterragem, porque se voa para lá, para essa ilha, ou se queríamos esperar pela caminhada da tarde. E eu esperava, chamei o grupo, falei com o grupo: "Malta, como é que é? Querem ir esperar pela tarde ou vamos ali ver uma leoa que acabou de atravessar a pista de aterragem com as crias?" E eles, como se não tivesse bastado o leopardo, decidiram ir ver o leão. Então lá fomos ver a leoa e às tantas tínhamos visto a leoa ao longe e deixámos de ver a leoa. E o guia, que ia a comandar a caminhada, continuou a andar em direção à leoa. Ele julgava que a leoa poderia estar ali à base de umas árvores, havia ali uma linha de árvores. Quando eu ia dar um toque no guia para cancelar a caminhada, porque sabendo que está um leão ali na zona, não se pode continuar a caminhar assim às cegas. Tem que ir para um sítio mais elevado, ganhar contato visual ou simplesmente recuar. Às tantas, quando eu ia dar o toque para cancelar, salta a leoa a dois metros de nós, da erval, impossível ver. Um rugido, mas um rugido, para nós, toda gente estremeceu. Aquilo foi um barulho, toda gente estremeceu e logo em seguida um outro rugido e foge. Volta para trás, toda a gente petrificada, brancos, e eu também. Lá se cá, eu já tinha feito um briefing antes, que é: aconteça o que acontecer, há três regras fundamentais no mato. Não fugir, primeira regra. Segunda regra, não fugir. Terceira regra, já toda a gente sabe, não fugir. E eu reportava isso permanentemente. Ninguém fugiu. Mesmo se as pessoas quisessem fugir, eu acho que as pernas não respondiam.
Esse casal canadiano é pródigo em encontros com animais selvagens. Um dia tens que os chamar para vir a Portugal e leva-los a Rio Maior. Talvez eles consigam o leão de Rio Maior.
Indo a agenda por lá.
Olha, vamos avançar. O carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje, qual é que foi, Pedro?
Talvez em Socotra. Isto foi uma história.
Socotra.
Temos meia hora, João?
Não, não temos meia hora, Pedro.
Socotra é uma ilha fantástica no Oceano Índico. É uma ilha que pertence ao Iémen, mas não tem ligação ao Iémen. Abu Dhabi, os Emirados, é que estão a tomar conta da ilha. É uma ilha que esteve esquecida durante décadas e é paradisíaca, aquilo tem paisagens deslumbrantes. Eu estou a ouvir a tecla, estás a bater no computador à procura de Socotra?
Estou. Já encontrei.
Socotra-
Confirma, é paradisíaco
...simplesmente maravilhoso.
Sim, senhor.
E abriu recentemente ao turismo, passado décadas de isolamento. Portanto, aquilo é uma ilha paradisíaca que parou no tempo. No entanto, aquilo tem uma burocracia enorme para lá se chegar, por causa desses constrangimentos políticos todos, não sei o quê.
Mas foi difícil obter o carimbo de passaporte por quê, Pedro?
Sim, permitem que se tire antecipadamente o visto, fácil, não sei o quê. Depois, no dia, para carimbarem o visto que já foi pedido no aeroporto de Abu Dhabi para voar para Socotra, aquilo temos que passar por uma série de sítios, levar com cinco carimbos, mais o passaporte, e às tantas aparecem pessoas que tu só olhas para elas e nem sabes se eles trabalham ali. Não sei. Lá consegui os sete carimbos no passaporte e no visto e fui para Socotra.
Socotra, muito bem. A recordação de viagem mais cara, qual foi, Pedro? Onde é que perdeste a cabeça?
Foi talvez nas máscaras, todas acumuladas.
Todas acumuladas.
Eu não sou muito consumista, não compro muitas coisas, nem a minha carteira está assim tão folgada para comprar coisas caras, mas talvez o conjunto de máscaras já pese um bocado.
A refeição mais estranha?
Aquelas larvas, minhocas gordas.
Onde?
No Botswana.
No Botswana. Cruas, grelhadas, fritas?
Frito, mas fica bem tostadinho.
E é bom?
É que elas ficam assim. Não. Porque ainda por cima, é que nem um bocadinho de alho, nem um temperozinho, nem uns orégãos. Não, é assim à bruta, fritam aquilo e depois elas vêm mais secas, ainda mais ou menos se come. O problema são aquelas que ficam com recheio, que explodem na boca.
Blecaute.
Portanto, esta é uma fotografia.
Muito bem. Olha, gostava de viajar com?
Gostava de viajar, sem dúvida, com David Attenborough.
David Attenborough, Sir David Attenborough, muito bem.
Exatamente. Esse senhor que foi pioneiro numa série de viagens, apresentou montes de lugares deste planeta a todos nós nos documentários e eu, lá está, desde criança que sou, que é o meu ídolo.
Já o foste ver ao vivo em conferências?
Ainda não, infelizmente, não. Um grande respeito e admiração por esse senhor.
Quem sabe? Boa sorte, Pedro.
Talvez, sim.
Quem sabe? Olha, chegámos ao fim. Que música trouxeste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana, Pedro Quirino?
Trouxe aquela do "Rei Leão".
"Rei Leão".
É difícil de pronunciar.
Pois é.
"Nants ingonyama bagithi Baba".
Mas estás a dizer muito bem.
Se vocês procurarem, vocês vão descobrir qual é.
Muito bem, eu vou resumir a coisa.
Vais cantar, João?
Não, não vou cantar. Não provoques. A música do "Rei Leão" a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Pedro Quirino, foi um gosto, obrigado.
Muito obrigado, João.
Obrigado. Regressamos na próxima semana, neste horário, até hoje oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.