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Seja bem-vindo à Conversa do Fim do Mundo. O viajante desta semana é mestre em bioquímica, com uma tese de mestrado sobre as interações entre os cinetocoros das proteínas complexas, e foi com o canudo debaixo do braço que pensou: "O melhor é ir por aí de mochila às costas". E é o que tem feito nos últimos anos. Chama-se João Amorim e é conhecido nas redes sociais por Follow the Sun. João, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.

Muito obrigado. Obrigado pelo convite.

Ora essa. João, ainda sabes o que é um cinetocoro?

Muito mal. Eu, por acaso, tenho um problema muito grande. No outro dia disseram-me que eu era muito melancólico. E é verdade, talvez porque eu acho que me esqueço facilmente das cenas. E se queres que te diga, essa cena de eu ter sido bioquímico parece que foi há três vidas e meia atrás.

Muito bem.

Eu não me lembro de quase nada.

Fizeste a licenciatura, a tese de mestrado e ainda chegaste a fazer o estágio, não foi?

Fiz a licenciatura, fiz o estágio de licenciatura, fiz o mestrado, fiz a tese e o estágio de mestrado e depois ainda trabalhei durante uns tempos em bioquímica. Basicamente, eu percebi na altura em que estava a fazer a tese de mestrado que não estava no sítio certo e que não gostava nada do que estava a fazer. Não foi fácil de perceber assim logo à primeira, porque aquela noção ou aquela realidade que tu não queres enfrentar. Tinha estado a estudar cinco anos para fazer uma coisa que não gostava e não foi fácil descobrir isso. Mas quando comecei a perceber aquilo que eu realmente queria fazer, não sabia, não fazia ideia o que eu realmente queria fazer, mas sabia que ali pelo meio queria viajar. E acho que foi um bocado o fato de eu não ter gostado da minha licenciatura, ou melhor, eu gostei muito da licenciatura, eu adorei as festas, adorei os meus amigos, fiz na boa, mas depois trabalhar em bioquímica foi o que eu realmente não gostei. Quando eu comecei a trabalhar e comecei a perceber que não gostava realmente daquilo, acho que foi também um bocado isso que me motivou a virar-me para o lado contrário e ir viajar à procura daquilo que eu poderia realmente gostar ou à procura um bocado de mim próprio. É clichê, mas é verdade.

Estávamos em 2014, tu então renunciaste à bioquímica e decidiste tirar um ano sabático com a associação Gap Year, não foi?

É verdade. Eu nessa altura ainda não sabia que tinha renunciado à bioquímica, ainda estava naquela: "Eu vou viajar e depois vê-se". Só que descobri, enquanto estava a acabar o mestrado, uma associação, que é essa associação que tu falaste, a associação Gap Year Portugal. Que eu acho que tem um trabalho brutal, porque eu vou te ser sincero, eu nesta altura em que estava a acabar o mestrado e que não gostava do que estava a fazer, mas que olhava à minha volta e via pessoas que gostavam, pessoas que não gostavam, mas que estavam naquele rumo e que iam continuar naquele rumo e que continuaram naquele rumo.

A felicidade dos outros mexeu contigo, foi?

Não era bem isso. Eu queria fazer outra coisa e não sabia para onde me virar. Eu queria viajar e achava que era um anormal. Eu pensava: "Ninguém destas pessoas quer viajar, por que eu sou o único dos meus amigos, das pessoas que eu conheço, que quer viajar e quer fazer uma experiência destas?" E na altura, quando conheci a associação Gap Year, percebi que este meu desejo de querer viajar, de fazer uma experiência diferente, tinha um nome, que era isto, um gap year, um ano sabático, parar para fazer uma cena diferente, seja viajar, seja o que for, e não é assim uma coisa tão absurda, ou pelo menos não era noutros países e noutras realidades, e até era uma coisa bem normal em muitos países e para muitas pessoas. E isso foi fixe para mim, porque ajudou-me a perceber que se calhar eu não era assim tão anormal e que se calhar viajar podia ser uma cena fixe para mim e realmente foi.

E foi aí que encontraste o teu eu, como dizias há bocado?

É um bocado clichê. Eu, na altura, quando conheci a associação, percebi que eles estavam a fazer um concurso e que depois desse ano começaram a fazer todos os anos, em que tu podias participar com um projeto e eles ao projeto vencedor davam uma bolsa para uma ou duas pessoas irem viajar. Consoante tu concorresses uma ou duas pessoas. E eu na altura concorri com a minha namorada, ganhamos os dois, ganhamos essa bolsa e fomos viajar.

Foram viajar por onde?

E foi fixe. Nós fizemos a América Latina toda. Começamos no sul, do sul ao norte, fizemos para aí 13 ou 14 países. E foi engraçado, porque nós saímos de Portugal no final do verão, começamos a viagem no Brasil e estava a começar o verão. E depois, à medida que fomos subindo o continente, o verão "ia subindo", entre aspas. E quando voltamos para Portugal era verão, daí o nome Follow the Sun das minhas redes sociais. Toda gente acha que é porque eu ouvia músicas do Xavier Rudd e escolhi o nome por causa da música dele, do Follow the Sun, mas não tem nada a ver. Foi este conceito, nós íamos a seguir o verão, íamos a seguir o sol. E fizemos por esses países. E foi fixe, porque embora eu fui com muita expectativa no início da viagem, eu queria realmente perceber o que eu gostava, perceber o que eu não gostava, o que eu queria fazer, enfim, ia com essas expectativas todas. Eu acho que depois quando comecei a viajar, comecei a relaxar e comecei a perder expectativas e comecei simplesmente a viajar. A minha expectativa era apanhar o autocarro no dia a seguir, era não gastar muito dinheiro hoje, era conhecer aquele lugar.

Começaste a desfrutar da viagem, é isso? De outra maneira.

Exatamente. E essa tranquilidade eu acho que foi a cena mais fixe que a viagem me trouxe, porque foi essa tranquilidade e essa despreocupação que me ajudou a enfrentar, obviamente, os problemas do dia a dia, que nessa altura era tipo: "Estamos a gastar muito dinheiro, para a semana temos que gastar menos". Mas também me ajudou a enfrentar estes problemas mais intrínsecos na minha personalidade. Descobrir o que eu queria, tranquilizar-me, perceber o que eu gostava e o que eu não gostava. E foi quando eu comecei a desfrutar da viagem, a conhecer as pessoas, a falar com as pessoas, que eu me percebi que, de facto, há muitos caminhos. Nós vivemos num país onde temos muitos privilégios e somos todos um bocado iguais uns aos outros, a mesma cultura, a mesma religião. E quando eu descobri que existem 50 mil milhões de caminhos e que são todos fixes, que são todos bons, eu comecei a ir à procura do meu. E quando voltei da minha viagem grande, foram oito meses, acho eu, desta viagem da América Latina, comecei a me aperceber aos poucos que eu curtia era isso, era viajar, partilhar as viagens que ia fazendo, tirar umas fotos. E depois, sem pensar muito, mas aos bocadinhos também, esta ideia começou a se construir. Eu criei um Instagram, comecei a partilhar as minhas cenas, organizei uma viagem pra Guatemala e percebi que era isso que eu curtia, organizar viagens, levar os meus amigos a viajar comigo, que era uma coisa que eu já fazia, na realidade, em Portugal, mas sem pensar muito sobre isso. E depois tornei-me líder de viagens. As pessoas começaram a me seguir no Instagram e as coisas foram crescendo assim aos bocadinhos e pronto. É por isso que esta cena do João Bioquímico já foi há três vidas e meia atrás.

João, e depois do regresso, já explicaste mais ou menos o que é que fizeste, mas depois continuaste a viajar?

Sim. Eu comecei a viajar bué a partir daí. Antes desta cena toda do Covid, eu viajava sete meses ao ano, mais ou menos, sete, oito meses ao ano. Muitas vezes para os mesmos sítios, porque por ser líder de viagens, o meu trabalho principal era, porque agora com essa cena do Covid já não é, mas era levar pessoas a viajar comigo e levava as pessoas a viajar comigo ao Peru, à Guatemala, à Colômbia e ia começar agora a fazer a Islândia. Portanto, eu viajei muitas vezes para estes mesmos sítios, mas aproveitava sempre o tempo entre viagens pra ir conhecer outros lugares nesses países ou pra fazer outras viagens por mim próprio. Depois dessa viagem de 14 meses e sem ser com estes países que eu voltei por causa de ser líder de viagem, já fui ao Sri Lanka, estive agora antes do Covid na Arábia Saudita, que foi muito engraçado, uma viagem muito fixe.

Por quê?

A Arábia Saudita é capaz de ser o país mais conservador do mundo, ali a par talvez com a Coreia do Norte, digo eu. E a Arábia Saudita abriu as portas ao turismo. Eles tinham turismo religioso, ou seja, tu se fosses muçulmano, podias fazer turismo na Arábia Saudita, mas qualquer outra religião tu não podias ir à Arábia Saudita, a não ser que fosse pra trabalhar. E a verdade é que ainda vivem lá muitos portugueses e pessoas do mundo inteiro a trabalhar na Arábia Saudita porque se faz muito dinheiro. Só que as portas ao turismo eles abriram em setembro do ano passado, ao turismo global. E eu fui lá em fevereiro.

E o que achaste da Arábia Saudita? Pra além de achares que é um país muito conservador.

A resposta ao turismo ainda é muito pura, não são nada interesseiros, são muito curiosos e era sempre engraçado quando eles descobriam que nós estávamos lá a fazer turismo, porque eles não são habituados, de certeza, a ver pessoas que se parecem comigo. E na altura eu fui com o Pedro on the road e estavam habituados a pessoas que se parecessem conosco. Mas quando nós dizíamos que estávamos a fazer turismo, eles ficavam admirados, porque estas pessoas normalmente que se parecem conosco, que estão lá, são as pessoas que vivem lá e trabalham lá. Mas tivemos uma experiência incrível. Nós tivemos um mês a andar à boleia pelo país todo. Olha, posso dizer que, por exemplo, a primeira boleia que apanhamos foi sem querer, porque estávamos à espera de um táxi, parou um gajo qualquer que nos deu boleia e que nos levou pro sítio onde nós queríamos ir, no final é que nos apercebemos que não era um táxi.

Então.

Ele parou e perguntou onde é que nós queríamos ir e nós entramos e pronto, ele levou-nos lá. Depois a segunda boleia que apanhamos-

Assim do nada.

Assim do nada. A segunda boleia que apanhamos, nós estávamos numa autoestrada à saída de Riad, que é a capital, e queríamos ir até um lugar nas montanhas que se chama Abha, e era a 1000 km. E nós pensamos: "1000 km", já nem era assim tão cedo, "nós vamos demorar, sei lá, pai, no mínimo dois dias e a correr, fixe". Esperamos 15 minutos, parou um carro, era um miúdo que ia pra Abha. A primeira boleia que apanhamos fizemos 1000 km, que levou-nos exatamente ao sítio onde nós queríamos ir, e chegamos lá em sete horas.

Mas ele ia pra lá?

Ele ia pra lá. Foi alta coincidência, mesmo espetacular. Mas mesmo noutros dias em que fizemos mais 800, 1000 km à boleia, era sempre superfácil. As pessoas paravam, ajudavam-nos, ofereciam-nos comida, ofereciam-nos dinheiro, ofereciam-nos o café, ofereciam-nos o pequeno-almoço. Houve um dia que eu comi três pequenos-almoços, porque o pessoal estava sempre a me oferecer pequenos-almoços. E de facto, nós já estávamos um bocado à espera disto. Eu não tenho muita experiência em países muçulmanos. Por acaso, em abril e maio deste ano era pra ter ido ao Irã e ao Paquistão e acabei por não ir porque não deu. O Pedro já tinha muito mais experiência que eu em países muçulmanos e já estava habituado a este tipo de recebimento. As pessoas recebem mesmo superbém, são superacolhedoras, abrem-te as portas das casas. E eu, sinceramente, estava à espera disto, mas é sempre fixe quando chegas a um sítio e de facto és recebido dessa forma. Abriam-nos as portas das casas delas, deixavam o trabalho delas pra andar conosco, vinham ter conosco, perguntavam-nos o que nós precisávamos, o que nós não precisávamos, ofereciam-nos comida, ofereciam-nos dinheiro, ofereciam-nos tudo. E de facto, eu acho que foi Foi aquilo que nós trouxemos, sem dúvida, de melhor deste país, foi esse tipo de interação com as pessoas. É engraçado, porque nós estamos habituados àquela imagem dos árabes, neste caso, porque estava na Arábia Saudita, superdura e séria dos filmes e das imagens que nos passam. E essa é mesmo a imagem deles. Eles estão, no dia a dia deles, supercarrancudos, com cara de sérios e parece que estão zangados com o mundo. Mas tu passas por eles, dizes um "salam", "good morning", "hello", e eles desmancham-se logo, dizem-te logo: "Welcome, marhaban". A palavra que nós ouvimos mais foi welcome, sem dúvida, e eu ouvia-me 157 vezes por dia. O pessoal estava-nos sempre a dizer: "Welcome, sir". Foi muito fixe mesmo.

Isso na Arábia Saudita. E o fato de seres português mudava alguma coisa?

Acho que não. Não sei se eles teriam algum preconceito especial sobre alguma nação. Acredito que sim, principalmente sobre os rivais, por assim dizer, iranianos. Nós chegamos a falar muitas vezes com eles sobre a política externa e sobre os problemas que eles tinham nacionalmente. Mas acho que nós éramos super bem tratados e não era por sermos portugueses. Eles perguntavam sempre de onde é que nós éramos e reconheciam, acho eu, onde é que era Portugal, até porque, obviamente, por causa do Cristiano Ronaldo.

Nosso maior embaixador, não é?

O nosso maior embaixador, sem dúvida.

Muito bem. João, tu és um dos viajantes portugueses com maior presença nas redes sociais. Tua fotografia de perfil, tens uma aranha na cara. Há algum significado para teres uma aranha na cara? Que aranha é aquela?

Não há significado nenhum, acho eu. Um dos sítios que eu mais gosto no mundo é, sem dúvida, a Guatemala. E na Guatemala, um dos sítios que eu mais gosto é Tikal. Tikal é uma antiga cidade maia que esteve mil anos coberta por selva e que agora é explorada para o turismo e tem uma série de templos descobertos, mas continua rodeada por selva. Tanto que há muitos turistas que veem jaguares e pumas. Eu, por acaso, nunca vi, mas já estive lá uma das vezes com um grupo e passamos por dois javalis gigantes, continuamos a andar e passado um bocado veio a correr até conosco um guia dizer que a seguir aos javalis passaram dois pumas. Portanto, imagina, aquilo é mesmo no meio da selva. E o guia que costuma ir comigo, quando eu vou com os grupos, é o Samuel. Basicamente, ele simplesmente pegou numa tarântula que encontrou no chão e estava a brincar com ela, e depois passou para nós também brincarmos com ela, de certa forma.

Com uma tarântula.

Com uma tarântula, que as pessoas costumam perguntar se era domesticada. Não, não é domesticada. E costumam perguntar se era venenosa. E sim, era venenosa. Mas há uma cena engraçada nas viagens que me acontece um bocado e até agora acho que nunca fui desafiado pela minha própria teoria, mas normalmente quando as pessoas fazem, eu também faço. Portanto, se ele me diz que é tranquilo comer aquilo ou mexer naquilo, e se eu o vejo a fazer, eu também faço.

Mesmo que seja colocar uma tarântula na cara. Estamos à conversa com o viajante João Amorim, mais conhecido por Follow the Sun nas redes sociais. Estamos quase no fim da primeira parte, altura para abrir o álbum de viagem. João, que objeto queres partilhar com os ouvintes que tenhas trazido de uma viagem e que tenha um significado especial para ti?

Olha, eu não sou muito agarrado a objetos, se quer que te diga. Eu acho que não é mesmo daquelas coisas. Eu nunca colecionei muitos objetos nas viagens que faço, até porque depois tenho sempre aquela coisa de ter que andar a carregá-los e então não costumo comprar muitas coisas, mas há uma cena que eu tenho em casa e que tenho guardada com muito carinho, de um dos lugares que eu também mais gosto, que é o Peru. No Peru, há uns tempos atrás, eu descobri, por assim dizer, uma aldeolazinha que se chama Pacchanta. E esta aldeola fica no sopé de uma montanha que se chama Ausangate. Montanha Ausangate é a montanha mais alta da zona de Cusco, que é onde fica Machu Picchu. Isso tudo no Peru, nos Andes. E esta montanha, Ausangate, era um deus para os incas e continua a ser um deus para os povos que lá vivem. Tem 6.400 metros de altitude, aproximadamente, e esta aldeiazinha é aos 4 mil e tal metros de altitude. Uma vez fui para essa aldeia e passei-me com aquele lugar. É um sítio mesmo especial. As pessoas são mesmo pouco habituadas ao turismo, mesmo puras. Os miúdos são superfelizes, os miúdos reagem com uma alegria enorme quando me viam, porque eu depois voltei lá muitas vezes com grupos e já me conheciam e tirava-lhes fotografias e levava-lhes as fotografias. E então uma vez, uma das famílias ofereceu-me duas prendas feitas por eles, um cachecol e uma bolsinha. Normalmente, nas bolsinhas é onde eles costumam levar as folhas de coca, que usam para conseguir caminhar e trabalhar a essas altitudes, e um cachecol que se usam para abrigar do frio, feito por uma das mulheres da aldeia com as lamas, neste caso as alpacas, porque ela é de alpaca, que crescem também lá por essa montanha De facto, é uma aldeia e uma família com quem eu criei relações mesmo fixes, por causa de lhes trazer turistas e por causa de lhes trazer também as fotografias que lhes tirava. E também porque eu já fiz duas caminhadas bastante puxadas com o Juan, que era o chefe de família, por aquela zona, onde basicamente começávamos a caminhar desde Pachanta, da aldeia, e fazíamos um círculo inteiro à volta dessa montanha de 6400 metros. Eram basicamente cinco dias, quatro dias a caminhar entre os 4000 e os 5300 metros de altitude. Muito duro, mas uma brutalidade. Por exemplo, nessa caminhada passávamos por um dos sítios mais famosos agora do Peru, que são as Rainbow Mountains, que agora até costumam estar cheias de turistas, porque eles fizeram uma estrada alternativa para lá chegar. Mas sempre que eu fui para lá com ele, chegava lá de madrugada, às 4h00, o sol nascia às 5h00, portanto, estava lá sozinho. Tenho umas fotografias bem fixes dessa experiência toda no meu Instagram e sem dúvida que foi das coisas mais difíceis que já fiz, porque a caminhada é muito puxada a essa altitude e são os objetos que guardo com mais carinho, sem dúvida, de todas as viagens que fiz.

Muito bem. João Amorim, Follow the Sun, um dos mais populares viajantes portugueses nas redes sociais, na conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Na segunda parte, vamos à Guatemala e perceber porque é que este país do continente americano é o preferido do João. Até já. Segunda parte da conversa do "Fim do Mundo". O viajante desta semana chama-se João Amorim. João, na primeira parte disseste-me que a Guatemala é o teu país favorito. Por quê?

Olha, eu acho que a Guatemala tornou-se o meu país preferido, porque a primeira vez que eu lá fui, talvez fosse o país que eu tivesse menos expectativas e aquele que depois acabou por me surpreender mais. Eu lembro-me que estava na Costa Rica e as pessoas diziam: "Cuidado que tu na Guatemala vais ser raptado". Estava em Nicarágua e as pessoas diziam: "Cuidado que tu na Guatemala vais ser raptado". Depois cheguei à Guatemala, não fui raptado e foi incrível. Os Maya, que é a cultura que vivia lá há 2000 anos e que continua a viver lá, porque eles continuam a ser todos Maya, são um povo mesmo puro, mesmo carinhoso e fácil de lidar. É fácil fotografá-los, é fácil interagir com eles, é fácil falar com eles. São muito simpáticos, estão-te sempre a dizer bom dia.

Mas isso é no país todo?

Sim, até mesmo nos sítios mais turísticos, por exemplo, Antigua, que é a antiga capital da Guatemala, que hoje em dia é um dos sítios mais turísticos ali da América Central, é uma cidade muito bonita de se visitar. As pessoas continuam a ser supersimpáticas e acho que essa simpatia foi o diferencial, porque quando as pessoas são assim simpáticas, viajar torna-se fácil.

Claro. Mas sentiste que essa simpatia era trabalhada, ou seja, era uma espécie já de produto turístico para agradar ao mercado?

Nada, de todo. Até pelo contrário. Era genuíno e por isso mesmo é que se torna fácil, porque é desinteresseira. Se caso fosse trabalhada ou calculada, não seria interesseira, porque eles eram simpáticos porque me queriam vender alguma coisa ou eram simpáticos para eu lhes tirar uma fotografia para depois me pedirem dinheiro, e não é nada assim. E para além disso, depois tem o que todos os países dali daquela zona da América Central têm, que é muito verde, vulcões. E a Guatemala tem uma coisa especial também, que é muita história antiga. Esta parte dos templos Maia tem muitas cidades Maia. E eu adoro estes lugares com esta história, e estes lugares que nós não entendemos bem, fazem-me, de certa forma, sonhar e imaginar como é que as pessoas viviam, e viajar também dessa maneira. E eu fiz uma das experiências mais incríveis, ou talvez mesmo a experiência mais incrível da minha vida, porque eu fui fazer uma coisa que toda a gente faz quando está na Guatemala, que é visitar Tikal, a tal cidade Maia que eu falei há bocado na história da aranha.

E acampaste lá.

E acampei lá, exatamente. Tikal foi, durante quase toda a história clássica da civilização Maia, o sítio mais importante e maior desta zona da Guatemala e do México, da zona Maia. E portanto, é uma cidade impactante, com templos gigantes, muito importante e muito grande. Hoje sabe-se, através de estudos que se fizeram, que viveram lá 250 mil pessoas, que é uma coisa completamente absurda.

E hoje o que é que existe, João, lá?

Olha, hoje existem par de templos, um complexo arqueológico muito grande e selva. Basicamente é isso.

E como é que se chega lá? Como é que se chega a Tikal?

Tu apanhas um autocarro desde uma cidade lá perto, que é a capital ali daquela zona, que se chama Flores, que é uma cidade numa ilhazinha de um lago, e o autocarro passa pela selva e deixa-te à porta do centro arqueológico. Ali na porta do centro arqueológico existem um ou dois hotéis e existe um parque de campismo, separados da parte dos templos. E eu quis ficar nesse parque de campismo a dormir porque queria visitar Tikal ao nascer do sol, queria visitar Tikal ao pôr do sol e queria ter tempo para desfrutar daquilo. Mas foi engraçado porque eu ia para lá, apanhei boleia de um casal Norte-americano, já com alguma idade, que tinham comprado uma pão de forma no Peru e estavam a viajar desde o Peru até a Guatemala. E o homem desse casal, na realidade, era original da Guatemala. Os pais dele tinham fugido quando ele era criança para os Estados Unidos na altura da guerra civil. E ele contou-me que nessa altura da guerra civil havia muita instabilidade e havia muito pouco controle. E a família dele tinha ido visitar Tikal e tinham ficado durante a noite em Tikal. E eu pensei: "Não, isso era a cena mais incrível de sempre, uma cidade com 2000 anos, sem ninguém, no meio da selva, eu ficar lá no meio da noite, quem me dera". Mas nunca pensei que fosse possível. Mas a verdade é que depois falei com o guarda, falei com o senhor que estava no parque de campismo, falei com aquele, falei com o outro e toda gente me dizia que não. Mas depois vieram dizer que sim. Veio o senhor do parque de campismo e disse-me assim: "Olha, se tu quiseres, podes entrar". Dás ali uma bonificaçãozinha ao guarda. Na altura foram 50 quetzales, mas imagina, eu dei 50 quetzales ao guarda. Só que para ver o pôr do sol, tinha pagar 100 e para ver o nascer do sol tinha que pagar 150. Mas como eu dei os 50 quetzales ao guarda, nem paguei nem uma coisa, nem outra. Portanto, acabou por ficar mais barato. E ele deixou-nos à entrada do complexo arqueológico, só para chegar à praça principal tinhas que caminhar 30 minutos no meio da selva, no meio do nada, e disse: "Vão para onde quiserem". E nós fomos para onde quisemos e fomos até à praça principal de Tikal, subimos acima do Templo dois, com vista para o Templo um, que se chama o Templo um ou Templo do Jaguar, que é o templo mais conhecido de Tikal, e ficamos lá a dormir. A lua nasceu atrás do Templo um. Foi uma experiência mesmo surreal.

Mas conta, consegue-se dormir ou a excitação é tão grande que não se prega olho?

É um bocado isso. Basicamente, havia sempre aquele medo das aranhas ou das cobras que podiam aparecer no meio da noite, que é quando elas estão ativas. Nós dormimos ao relento em cima do templo, portanto, não era a coisa mais confortável. Tentamos dormir, descansamos, deitamo-nos ao relento em cima do templo. E a verdade é que a sensação que eu tinha quando estava a fazer aquela experiência era que provavelmente eu seria o primeiro português a dormir em Tikal em cima do Templo dois. Porque, como eu te disse há bocado, aquela cidade tem cerca de 2500 anos, depois de ter sido abandonada, mais ou menos em 900 depois de Cristo, foi coberta por selva e esteve coberta por selva até há 50 anos. E depois disso, estava a ser explorada pelos arqueólogos e as pessoas não podiam entrar lá dentro assim à vontade. E eu estava ali dentro a fazer aquela experiência única, e era essa a ideia que eu tinha, que aquela experiência era única, eu de facto estava mesmo ali, aquilo estava mesmo a acontecer e acho que isso marcou-me tanto e fez com que eu também ficasse tão apaixonado por este país onde o turismo é tão pouco que essas coisas ainda podem acontecer.

Fantástico. Olha, João, já falaste aqui do teu gap year, dessa viagem por 14 países no continente americano, depois de teres renunciado à bioquímica. Já me disseste há pouco que fizeste já várias viagens de meses. O que te puxa, o que te leva a viajar? Que destinos te levam a sair de Portugal?

É uma boa pergunta. Eu acho que não tenho nenhuma viagem de sonho. A viagem de sonho que eu tinha, já a fiz. E portanto, as pessoas quando me perguntam: "Qual é a tua viagem de sonho?", eu não tenho resposta. A minha viagem de sonho é a próxima viagem que eu vou fazer e não tenho aquelas viagens. Sei lá, acho que estás a entender o que eu estou a dizer. E então nunca soube como escolher os sítios, eram assim tipo impulsos. Me dava para ir para ali, ia para ali. Me dava para ir para acolá, ia para acolá. E foi engraçado o ano passado. Eu já o ano passado queria ter ido ao Irão, só que tinha prometido a um amigo meu que ia viajar comigo. E ele não queria ir ao Irão, queria fazer outra coisa. Então andamos ali a ver e decidimos ir ao Sri Lanka. E compramos os voos para Sri Lanka e o meu voo foi no dia a seguir ao domingo de Páscoa. E infelizmente, o ano passado, no domingo de Páscoa, no Sri Lanka, existiram uma série de atentados que mataram centenas de pessoas, direcionados para os cristãos e direcionados para os turistas. E foi impactante. O meu voo foi no dia a seguir a esse dia, continuavam a explodir bombas, eles continuavam a encontrar detonadores e bombas em todo lado.

Mas chegaste a fazer a viagem?

Cheguei a fazer a viagem, sim, nós adiamos o voo um dia para repensar nas coisas e ver como é que as coisas evoluíam. Mas engraçado, quando eu decidi adiar o voo, decidi logo no momento a seguir que não, que no dia a seguir ia.

E foste.

E fui.

E quanto tempo durou essa viagem?

Foram quase três semanas e fizemos a viagem de uma forma muito fixe, porque alugamos um tuk-tuk e conduzimos nós o tuk-tuk as três semanas pelo país. E foi uma experiência espetacular, porque tu no Sri Lanka, se és branco, não és de lá. E quando eles vinham um branco a conduzir um tuk-tuk, tu não tens noção da reação deles. Era hilariante. Os gajos passavam-se quando nos viam, começavam a buzinar, começavam a dizer adeus, ficavam todos a olhar, ficavam todos a comentar. Nós chegávamos a qualquer lado, estacionávamos o tuk-tuk, saíamos do tuk-tuk, o pessoal passava-se. Foi muito engraçado. E foi numa altura, como podes imaginar, depois desses atentados, difícil para eles, porque o país estava mesmo numa situação complicada e estavam com medo, eles estavam realmente com medo. As pessoas não entendiam, eles perguntavam-nos mesmo: "O que vocês estão a fazer? Por que vocês estão de tuk-tuk? O que estão aqui a fazer?" E era engraçado, que sempre que nós dizíamos que tínhamos ido para o Sri Lanka depois dos atentados, eles ficavam Super admirados e super agradecidos.

Engraçado.

Exato, porque eles próprios estavam cheios de medo e não entendiam: "Mas por que vocês vieram para aqui depois dos atentados? Por quê? Não têm medo?" Eles estavam sempre a dizer: "Sri Lanka, big problem".

Ia te perguntar como é conduzir no Sri Lanka, porque toda a Ásia é caótica em termos rodoviários. E num veículo de três rodas, suponho que nunca tenhas conduzido um tuk-tuk na vida, portanto estreiaste logo no Sri Lanka. Como é que foi?

Por um lado, eu acho que foi mais fácil conduzir um tuk-tuk do que conduzir um carro, porque no Sri Lanka tu conduzes do lado contrário.

À inglesa, ok.

E como o tuk-tuk, seja do lado direito ou do lado esquerdo, o carro é assim e é, não altera nada. Portanto, isso até foi mais fácil. E depois, para mim, foi mesmo superfácil habituar-me ao trânsito, até porque, de certa forma, a minha cabeça já está formatada para esse tipo de situações, porque embora não tenha conduzido muito noutros países, já viajei muito e o trânsito não é uma coisa que me preocupe. E depois tu basicamente tens que te deixar fluir, é habituares-te àquilo, veres com olhos de quem nunca viu, ou seja, perder os preconceitos que tens e depois fazeres igual a eles. Se eles passam por cima do passeio, tu passas por cima do passeio, se eles não querem saber de nada, tu não queres saber de nada, fazes igual e as coisas funcionam bem.

E de vez em quando fechar os olhos também.

Basicamente. E era engraçado porque eles respeitavam muito os limites de velocidade. Acho que o tuk-tuk só podia andar a 40 km/h. Só que a nós deram-nos um tuk-tuk novo, que andava muito mais que 40 km/h, então nós estávamos sempre a dar gás e quando passávamos por eles, nós temos isso filmado, a reação deles era mesmo hilariante. Foi espetacular. Isto tudo para te dizer o quê? Deixa-me só concluir rápido. Isto tudo para te dizer que quando eu fiz esta viagem e percebi que o fato de eu lá estar, estava a quebrar os meus próprios preconceitos em relação ao medo de lá estar e de ter ido, e àquilo que pode ou não acontecer, e aos atentados, e a isto e aquilo. Quebrei os meus próprios preconceitos, mas também ajudei as pessoas que me seguiam a quebrar os seus.

Que te seguiam nas redes sociais.

Nas redes sociais. E sei, porque recebi muitas mensagens, que muita gente foi para o Sri Lanka depois de eu ter ido, por causa de eu ter ido, e muita gente não deixou de ir porque viu aquilo que eu partilhei.

Engraçado. Isso leva-me a uma pergunta. Tu sentes que, de alguma maneira, as pessoas que viajam, que são grandes viajantes e que têm uma forte presença nas redes sociais, sentes que são, de alguma maneira, agentes da compreensão mútua, que é este lugar caótico em que nós vivemos chamado planeta Terra?

Acho que deviam ser, deviam tentar ser. Acho que muitos não são e muito daquilo que se partilha nas redes sociais é um bocado oco, na minha opinião. Há muita gente que não gosta quando as pessoas comparam o viajante e o turista, e eu gosto de comparar, porque eu acho que, de fato, há diferenças. E eu não estou a dizer que sou melhor do que uma pessoa que vai para um resort, não tem nada a ver, mas eu acho que há diferenças e é importante reparar nestas diferenças e falar sobre as diferenças. Quando tu fazes uma viagem em que sais do teu lugar de conforto, em que realmente conheces as pessoas, em que dás de ti, em que estás com elas, em que falas com elas, tu ganhas muito mais do que se não fizeres. E as pessoas também ganham muito mais. Se tu fores um viajante consciente, as pessoas vão ganhar mais com isso também. As culturas que tu conheces deixam de estar tão corrompidas pelo turismo. E é este o impacto que eu tento ter e que eu gostava que os outros viajantes tivessem e que muita gente tem. E também respondendo à outra pergunta, quando eu fiz esta viagem do Sri Lanka e voltei, percebi que as viagens que eu queria fazer neste momento eram viagens deste gênero, que me desafiassem a mim, desafiassem os meus preconceitos, mas que também pudessem contribuir para desafiar os dos outros e das pessoas que me seguem nas redes sociais. Já que tenho um bocado de visibilidade, curtia aproveitá-la neste sentido.

Muito bem. João, uma resposta muito rápida, porque estamos quase a chegar ao fim. Ainda temos aqui o checkout para fazer e a música. Como é que tu estás a viver este período particular em que estamos todos a viver, em que quase nem podemos sair de casa?

Eu literalmente agora não posso sair de casa, porque estou em confinamento, porque testei positivo para o Covid. No entanto, não tive sintomas, quase nenhuns ou até nenhuns, e estou super bem e também não infetei ninguém, pelo menos que eu saiba, o que é fixe. Mas se queres que te diga, estou a viver bem esta fase. Eu acho que viajar nos ajuda facilmente a adaptar. E este ano foi um bocado isso, foram coisas a correr menos bem e adaptar-me. Eu cancelei seis das minhas viagens que ia fazer como líder de viagens, aquelas que me davam o meu salário, mas consegui adaptar-me. Não pude ir para fora, mas viajei bué em Portugal, que é uma cena que eu adoro e que eu sempre fiz, mas que aproveitei para fazer mais e melhor agora. Portanto, tive pelos Açores, tive pela Madeira, tive na Costa Vicentina, fiz a Costa Vicentina a pé, tive no norte, tive em todo lado e nós temos um país brutal, portanto, tive bem. Acho que me consegui adaptar bem e continuo a conseguir me adaptar.

Muito bem. João, tenho muita pena desta conversa não estar a ser feita ou a decorrer olhos nos olhos, mas são os constrangimentos a que estamos todos obrigados. Vamos fazer checkout

Bora.

Vamos embora. Então, checkout, vou te pedir para completares meia dúzia de frases. Pedia-te que fosses muito breve, João. Na minha mala vai sempre...?

Na minha mala vai sempre um telemóvel.

É a tua ferramenta de trabalho.

Para partilhar, para stories, para fazer isto tudo. Ya, sem telemóvel não dava.

O carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje?

Olha, o carimbo de passaporte mais difícil de obter foi o do Panamá. Não me queriam deixar entrar no Panamá porque eu tinha que ter um voo de saída.

A viagem com mais peripécias que realizei...?

Foi a minha viagem grande, sem dúvida, de oito meses.

A tal do gap year.

A tal do gap year.

Olha, queres contar um episódio muito rápido, um episódio muito curto?

Talvez a maior peripécia foi que uma vez apanhei um autocarro na Colômbia, estava eu e a minha namorada, adormecemos, e quando acordamos, estamos no meio da estrada, de uma estrada de terra no meio do nada e não fazíamos a mínima ideia do que estávamos lá a fazer, porque não era suposto. E de repente, quando nos apercebemos, começaram a correr dezenas de pessoas para frente e para trás do autocarro e começaram a encher a estrada cheia de pedras e de troncos. E nós pensamos: "Pronto, vamos ser aqueles gajos que desaparecem na Colômbia no meio da selva e vamos começar a ser narcotraficantes". Mas não foi nada disso. Passado um bocado percebemos o que era, depois de morrermos um bocadinho de medo. Mas basicamente estavam a fazer uma manifestação numa aldeola qualquer que já não tinha eletricidade há cinco meses e o motorista feito o engraçado desviou-se da estrada principal, mas o pessoal da aldeia não curtiu e foi atrás do autocarro e parou o autocarro mesmo ali no meio. Mas passado um bocado, as pessoas do autocarro revoltaram-se, saíram todas, tiraram as pedras, tiraram os troncos e começamos a andar e safamo-nos.

Muito bem. A refeição mais estranha que comi?

Foi porquinho-da-índia, no Peru.

No Peru?

Ya.

Contexto dessa refeição, muito rápido, 20 segundos.

O porquinho-da-índia é uma comida típica de lá. Eles comem porquinhos-da-índia, chamam-se os cuy. E para mim foi nojento, não curti nada. É tipo uma espécie de um leitão, mas não tem carne, só tem pele.

A recordação de viagem mais cara?

Olha, lá está, acho que nem tenho nenhuma recordação cara.

Não és viajante de souvenirs. Muito bem. Gostava de viajar com?

Olha, eu gostava de viajar com o meu irmão.

Por alguma razão especial, João?

Porque gostava de fazê-lo viver grande parte destas experiências que eu vivi. Acho que foi fixe para mim, vai ser bom para ele. Eu sou o irmão mais velho de três. Tenho um irmão e duas irmãs mais novas. E na realidade gostava de viajar com quase toda a gente, por isso é que também sou líder de viagens, porque gosto mesmo de viajar com pessoas e levar pessoas a viajar e levar pessoas a viver estas viagens e estas aventuras. Mas com o meu irmão, gostava um dia de viajar com ele, fazer uma viagem fixe.

Fantástico. Oxalá ele esteja a ouvir e aceite o teu convite. Estamos a chegar ao fim. Como é hábito, fechamos esta conversa do fim do mundo com uma música escolhida pelo viajante. O que é que trouxeste, João?

Olha, eu trouxe uma música que se chama "Vagabond", e não é porque eu acho que seja um vagabundo, mas é porque eu ouvia esta música pela primeira vez quando estava, há 10 anos, a fazer uma viagem pela Costa Vicentina com a carrinha do meu tio, uma daquelas carrinhas de nove lugares. E foi uma das experiências mais fixes da minha vida, porque eu acho que foi esse gostinho de liberdade, de estar a fazer essa viagem com os meus amigos, que me trouxe depois tudo o resto. Trouxe-me curiosidade para mais viagens, foi perceber que podia organizar isso para os meus amigos na Guatemala e no Peru, e foi isso que me trouxe e que me levou a ser líder de viagem. Portanto, esta música para mim cheira a viagem e faz-me viajar e é mesmo aquela música que eu ouço sempre que estou a viajar ou sempre que me quero inspirar e sentir-me bem. Traz-me essa memória, portanto, por isso é que eu escolhi esta música dos Wolfmother.

Fantástico. "Vagabond" dos Wolfmother no fecho da conversa do fim do mundo desta semana. João, as melhoras e obrigado por partilhares connosco os teus pensamentos e aventuras.

Obrigado eu, foi brutal. Espero que tenham gostado.

Estamos de regresso na próxima semana com mais um viajante. Boas viagens.

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