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Estudou Finanças e ao fim de ano e meio a trabalhar, fez contas à vida. Em conjunto com a namorada, despediu-se e foi para a Noruega com um plano: trabalhar meia dúzia de meses na hotelaria e restauração, lá onde os salários são altos, e depois viajar o resto do ano. Assentaram arraiais nas ilhas Lofoten, no norte da Noruega, terra de pescadores de bacalhau. Então e as viagens? Sim, houve, senão não estaria aqui hoje. América do Sul, Sudeste Asiático, Portugal, Noruega de bicicleta. Recentemente, transformaram, ele e a namorada, uma carrinha em autocaravana e o processo correu tão bem que montaram um negócio a que desejo, desde já, boa sorte, que corra sobre rodas. Bem-vindo, Miguel Neves.

Obrigado pelo convite.

Ora essa. Miguel, por que ir viver e trabalhar para as ilhas Lofoten? Foste com a Cláudia atrás do bacalhau?

Isso é o que normalmente me costumam perguntar.

Ai é?

A primeira pergunta é sobre o bacalhau.

Não são nada original, então.

Eu percebo. O que todos nós recebemos de lá é o bacalhau, é a pergunta que me fazem. Não, a Noruega foi uma escolha quase que aleatória. Na primeira vez que fomos para a Noruega, tínhamos que escolher entre três países, escolhemos a Noruega e mais dois que eu já nem me lembro quais eram. E quando calhou a Noruega, inscrevemo-nos num estágio, na altura daqueles programas de estágio remunerados com pocket money e tudo mais, e calhou as ilhas Lofoten. Eu não fazia a mínima ideia do que eram as ilhas Lofoten.

Então o que são as ilhas Lofoten?

As ilhas Lofoten eu costumo dizer que são um paraíso na Terra. É algo que eu não consigo bem explicar por palavras. Normalmente, o que eu digo para perceberem o quão bom é, é que fui para lá três, quatro meses e acabei por voltar cinco, seis vezes e agora, se tudo correr bem, indo voltar todos os anos, levar pessoas a conhecer as ilhas. E é isso, tem tudo o que eu gosto, tem tudo o que me atrai, que é montanha, mar, trilhos.

É um conjunto de ilhas que fica no norte da Noruega, não é?

Exatamente. É um arquipélago que está ligado por terra à Noruega. Fica mais ou menos a 100 km acima do Círculo Polar Ártico.

Portanto, é um inverno frio e gelado.

No inverno não me veem lá. Eu tento fugir um bocadinho antes. Fico ali mais ou menos para a altura em que as auroras aparecem. Quando elas aparecem, começa a ficar frio e eu venho-me embora.

Ok. Então já viste as auroras boreais lá nas ilhas Lofoten?

Já. Foi durante, se calhar, dois, três meses. Tenho que dizer que era muito difícil dormir, porque ninguém queria ir para a cama e era sair à porta de casa, olhar para cima e estavam auroras por cima de casa, dificilmente conseguia ir deitar-me. Estávamos virados para norte nas ilhas e é o sítio perfeito para as ver quando estava bom tempo, quando não estava bom tempo, pronto.

Que privilégio!

É verdade.

Sítio mágico esse. Como dizia na introdução, tu e a tua namorada escolheram ir viver para a Noruega, escolheram este registo de vida que é trabalhar lá uns meses e depois viajar o resto do ano. Qual foi a primeira viagem que realizaram com as coroas angariadas na Noruega, Miguel?

A primeira foi logo a seguir, em 2018, se não me engano, fomos para a América do Sul durante um mês. Como de costume, íamos sem grande plano. Marcámos um voo de ida para a Argentina, para Buenos Aires, e um voo de volta de Bogotá. Não sabíamos o que íamos fazer pelo meio.

Partiram à aventura, então.

Sim, fomos de mochila às costas. Fui eu, a Cláudia e o pai da Cláudia.

Que também é um grande viajante.

Que também é um grande viajante. E foi connosco também de mochila às costas.

Portanto, foi fácil.

Foi fácil irmos para lá e decidirmos ir. Era o que queríamos fazer, estávamos nesse registo já. E seguimos para a América do Sul, ficámos lá um mês e ficámos a desejar estar lá dois ou três anos e havemos de voltar, certamente.

Correu assim tão bem?

Correu, porque eu gosto muito de pensar que tenho dois sítios que já visitei, que estão para mim no meu top, que é a Patagónia e as Lofoten. As Lofoten têm um sentido muito especial para mim, para além da maravilha que são. E a Patagónia, porque eu estive lá quase 15 dias, só 15 dias. Fiz muitas caminhadas, subi montanhas, vi alguns parques naturais, vi muitas coisas. Parece que foi tudo muito rápido, aconteceu tudo muito rápido em 15 dias.

São paisagens que se assemelham um pouco, ou não? A Patagónia e as ilhas Lofoten no norte da Noruega.

Em termos de montanha, sim, mas a Patagónia é muito mais aberta, quase com um horizonte que tu não vês o fim. Às vezes vais numa estrada sem fim, olhas para a frente, entras em planaltos. Neste caso, nas Lofoten, não tens, estás sempre à altura do mar e tens as montanhas a sair, quase que a nascer do mar ali diretamente. E na Patagónia, às vezes apanhamos planaltos sem fim, onde não consegues sequer ver o fim da estrada e estás se calhar duas horas sem chegar a uma cidade. E quando chegas àquilo que esperas ser uma cidade, é uma bomba de gasolina com três ou quatro casas sem teto. O que nos aconteceu várias vezes. Tem muita montanha, mas difere muito nesse prisma. As Lofoten é tudo muito mais próximo às montanhas, em cada canto há uma montanha para subir.

Conta-me o itinerário dessa primeira viagem pela América do Sul.

Nós aterrámos na Argentina, marcámos logo um voo para Calafate, para a Patagónia, e tínhamos a vontade de, para além de subir, fomos ao Parque Nacional das Torres del Paine. Queríamos ir ver o glaciar, fomos ao Perito Moreno. Andámos também pelo Fitz Roy e alugámos um carro, era tudo muito mais barato do que é agora. Agora também não sei como é que estão os preços, mas era tudo muito acessível. Alugámos um carro e seguimos a ruta Del Fin del Mundo, como lhe chamam, e fomos até Ushuaia, que é a cidade, penso que mais a sul do mundo, se não me engana, a maior, mais a sul do mundo. Talvez posso estar aqui a dizer algo de errado, mas penso que sim. E foi aí que começámos. Fomos a Ushuaia, voltámos para cima e já que tínhamos um voo em Bogotá, queríamos muito ficar na Patagónia, mas tínhamos um voo em Bogotá, portanto seguimos para cima, fomos para o Peru. No Peru, fomos directamente para Cusco. Depois de um dia em Lima, fomos directamente para Cusco para depois irmos visitar, claro, o Machu Picchu, que nos deu ali no primeiro dia, um Machu Picchu completamente coberto e não conseguimos ver nada.

Pois, há esse risco, há muitos viajantes que dizem isso.

Há esse risco e o que nós pensámos? "Olha, vamos ficar aqui mais uma noite, amanhã de manhã logo se vê. E se estiver bom, subimos, se não estiver..." E foi o que aconteceu. Toda a gente nos dizia: "Não, tens que marcar isso com muita antecedência." E nós no dia de manhã fomos ao office deles, perguntámos se dava para subir, se havia bilhetes, então subimos uma segunda vez e tivemos tudo aberto para nós e quase 100 pessoas. Fomos muito cedo e foi uma maravilha. Subimos duas vezes o Machu Picchu. Uma em que não vimos nada e a segunda em que tivemos um panorama bestial, como toda a gente sabe e conhece.

É um local tão mágico quanto parece ser nas fotografias que nos chegam do Peru?

É, se calhar ainda mais. É dos poucos sítios que eu já visitei que se cria tanta expectativa. Há sempre aqueles sítios turísticos em que é criada tanta expectativa, que depois chegas lá e às vezes não é, ou porque tens muita gente à tua volta, ou por alguma razão, não é aquilo que estavas à espera, mas é sem dúvida maravilhoso como a expectativa cria.

Portanto, não te sentiste defraudado.

Nada. Fui as duas vezes e se tivesse sido a terceira, também não me importava. Tinha subido mais uma vez.

Portanto, Patagónia.

Peru. E depois do Peru seguimos para o Equador, onde estivemos cerca de oito, nove dias. Fomos visitar o vulcão Cotopaxi, fomos a Baños. Baños é uma cidade próxima da selva, muito virada para desportos radicais. E foi lá que passámos a véspera de Natal e o Natal 2018.

No Peru?

No Equador.

No Equador, desculpa.

Em Baños.

Em Baños. E como é que celebra o Natal em Baños, no Equador?

Fomos os três jantar fora.

Foi?

Na véspera comemos uma comida lá em Baños, num restaurante muito giro.

Não comeram bacalhau?

Não comemos bacalhau, mas eu lembro-me que tínhamos os três uma camisola de Natal vestida, já não me lembro, qualquer coisa assim com uma rena. E celebrámos assim a nossa véspera de Natal e o nosso dia de Natal foi celebrado a fazer rafting, num rio, que diziam eles, também não sei, que é muito procurado e muito bom para fazer rafting e foi uma aventura maravilhosa, em que só caímos acho eu na última vez e acho que o guia fez de propósito para nos mandar à água, porque também não tinha piada fazer aquilo tudo sem cair.

Foi um banho abençoado para fechar a atividade. Atividade radical no dia de Natal, isso é muito inusitado.

Exato. E foi sem dúvida o Natal mais radical que tive. E depois do Equador, para os dois, três dias finais fomos só visitar Bogotá. Já estávamos tão cansados de tanta caminhada, mais numa de estar tranquilos na cidade dois, três dias antes de voltar.

Se bem que não é uma cidade muito tranquila, pois não? Bogotá.

Não é muito tranquila, mas eu vou te ser sincero, nós passeámos e maioritariamente saímos do hotel à procura de comida, e pouco mais.

Foi?

Passeámos nas ruas, estivemos lá a passear, mas foi aquela já a fase final de uma viagem tão intensa e se calhar numa viagem que se podia ter feito em três, quatro meses espaçadamente. Carregámos ali tanta coisa num mês, que soube muito bem aqueles dois dias em Bogotá, em que passeámos pelas ruas perto do hotel, fomos comer comida típica e foi mais para desanuviar propriamente.

Portanto, foi uma viagem muito condensada. Onde é que na América do Sul tu despenderias mais tempo se pudesses repetir essa viagem, Miguel?

Provavelmente para o ano que vem vamos lá voltar.

Boa.

A Patagónia, sem dúvida, é o sítio onde eu vou voltar e se tudo correr bem, provavelmente até pensamos em estar por lá uma temporada, seis meses, talvez um ano, para trabalhar e para viajar. Queremos fazer a Ruta 40 de bicicleta, que vai do norte da Argentina até Ushuaia. São 5 mil e tal quilômetros. Essa é uma vontade que continua aqui bem viva. Havemos de fazê-la. Se não fizermos já para o ano que vem, fazemos só uma parte, que é a Carretera Austral, não sei se conheces.

Sim.

Essa aí é certa, porque era a viagem que íamos fazer quando fizemos a viagem de bicicleta pela Europa, que foi uma viagem que eu depois, mais à frente, se calhar ainda posso falar.

Sim, claro.

Quando fizemos uma viagem de bicicleta pela Europa, estava planeado irmos para a América do Sul, mas depois, com a questão do Covid, não podíamos sair. E essa viagem da Carretera Austral estava nos planos e não aconteceu, mas certamente vai acontecer agora.

Muito bem. Então vamos já falar dessa viagem de bicicleta. Em que contexto é que se deu essa viagem?

Essa viagem surgiu depois da segunda temporada na Noruega. Nós íamos sempre para a Noruega de carro, íamos sempre num Citroën C1, já bem velhinho, que entretanto já não é vivo.

Carro pequenino.

Um carro muito pequenino.

Citadino, não é?

E dormíamos no carro.

Valentes.

Dormíamos no carro, fazíamos lá a cama. Quando não dava, metíamos uma tenda ao lado e pronto. A verdade é que fizemos viagens daqui até às Ilhas Lofoten, que são 5500 km. Fizemos viagens em que gastámos 240 € de gasóleo, portanto, o carro era muito nosso amigo. Íamos completamente independentes, com comida daqui.

Isso parece quase impossível.

Exatamente.

Desligavam o motor nas subidas.

Desligávamos, íamos a 80, íamos sempre em estradas em ponto morto. Íamos muito devagarinho, tínhamos muita paciência e foi uma viagem baratíssima de se fazer.

Nesse tal Citroën C1 citadino, quantos quilômetros fizeram nesse carro entre Portugal e a Noruega?

O carro era do pai da Cláudia. Eles já tinham viajado muito pela Europa com o carro. E nós, quando começámos a fazer essas viagens à Noruega, o carro tinha à volta de 400 mil km, talvez 400 e pouco, e a verdade é que ele morreu nas Lofoten. Foi entregue numa sucata nas Lofoten com 630 mil km.

Caramba. E por onde andaram com esse carro? Faziam Portugal-Noruega, sempre.

Fazíamos Portugal-Noruega, mas, por exemplo, viajávamos com ele porque no fim do primeiro ano demos uma volta maior. Fomos pelo norte, pela Finlândia, e descemos Estónia, Lituânia. Fizemos toda a Europa, uma viagem quase de 20 dias pela Europa com o carro. E como eu estava a dizer, esta viagem no C1 criou-nos sempre o bichinho de: "Temos que ter uma carrinha. Nós conseguimos dormir aqui, mas nós temos que ter uma carrinha." E no fim do segundo ano comprámos a carrinha. Tínhamos a viagem planeada para-

Para regressar à Noruega de carrinha

...para regressar à Noruega, não de carrinha ainda, porque ela não estava pronta, mas decidimos ir de bicicleta.

Bicicleta. Pronto. Why not? Porque não?

Porque não?

E aí foram vocês. Partiram de onde? Do Alentejo, não foi?

Nós partimos do Alentejo, exatamente.

E estamos a falar de uma viagem em pleno Covid. Essa de bicicleta.

Estamos a falar de uma viagem em pleno Covid. Entretanto, eu estou a saltar um ano de viagens. Isto foi no terceiro ano, exatamente. Ou seja, no segundo ano, nós ainda fizemos uma viagem de sudoeste asiático, mas podemos voltar lá.

Já falamos na segunda parte.

Nós o que decidimos foi, como já não íamos fazer a viagem à América do Sul, dissemos assim: "Ok, vamos então viajar de bicicleta na mesma e vamos para a Noruega." Nós já vamos para lá no verão. Partimos em janeiro, que estava frio, mas nós não nos importámos, também íamos para mais frio ainda. Partimos em janeiro e temos tempo de chegar lá.

Pois, só que em março desataram a fechar países, não foi?

Não, isto já foi no terceiro ano, isto foi em 2020. Em 2019 foi quando tinha fechado, correto?

Sim. Não, em março de 2020 começaram a fechar os países.

Exatamente. Isto foi 2021. 2019 foi quando fizemos o Sudeste Asiático. 2020 e 2021 já estava tudo mais ou menos aberto. Nós tínhamos planeado que no próximo sábado íamos arrancar de bicicleta, isto do Cartaxo, e vimos nas notícias num domingo, dizia que quarta-feira as fronteiras iam fechar novamente. Era domingo, íamos no sábado a seguir, mas como as fronteiras iam fechar na quarta-feira, nós pensámos: "Ok, temos tudo mais ou menos pronto, é só meter o resto nas malas." Pedimos a alguém que nos leve ali até ao Alentejo, perto da fronteira, e passamos a fronteira antes de quarta-feira e já estamos em Espanha. Depois feche o que fechar, já lá estamos.

Pois.

E foi assim que começou. Começámos a viagem em direção ao sul de Espanha, até que começámos a ver os mapas das regiões. À nossa volta estava tudo vermelho, menos a região onde estava e teoricamente não podíamos andar de região em região. Andámos ali uma semana e meia, de bicicleta, ficámos basicamente fechados numa região, não podíamos sair para lado nenhum. Pensámos: "Vamos apanhar um comboio para Madrid e depois para Barcelona." Foi o que fizemos. Foi a pior logística. Andar nas estações de comboio com as bicicletas foi péssimo.

São pesadas, malas, é preciso subir para cima dos comboios.

Nós escolhemos os piores sacos para levar a bicicleta ainda por cima, portanto íamos muito mal. Mas fomos para Barcelona para apanhar o barco para a Sardenha. E na Sardenha estava aberto, podíamos entrar. Então fizemos a Sardenha de norte a sul, saltamos de barco para a Itália, fizemos Itália de um lado a outro, depois subimos e passamos para a Croácia, que foi quando começamos a subir, estava tudo mais ou menos ok. Sempre tudo muito vazio, poucos turistas, tudo muito barato de viajar. Até que chegou ao ponto em que estávamos na Croácia, no norte da Croácia, e não nos deixavam entrar na Hungria, porque o teste COVID, já não lembro da regra, mas era qualquer coisa que o teste COVID não era aceite na Hungria, o que era feito na Croácia.

Sim.

Mas nós tentámos à mesma.

Não vos deixaram passar.

Não nos deixaram passar.

Ok, muito bem.

Tentámos tudo.

Então vamos guardar o resto da história para a segunda parte, porque temos que abrir aqui o nosso habitual álbum de viagem. Miguel, guardas em casa algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens?

Em casa, na minha não, porque não cabe, porque eu moro na carrinha, portanto tentamos manter tudo ou em casa dos nossos pais ou alguma coisa assim. Mas guardamos, claro, essa foi sem dúvida a maior recordação que trouxemos das nossas viagens, porque representou quatro ou cinco anos de viagem daqui para a Noruega, da Noruega para cá e pela Europa fora. E antes de deixarmos o Seum na sucata, na Noruega, tirámos-lhe a matrícula, perguntámos se podia ser, tirámos a matrícula, trouxemos e está pendurada na parede.

Muito bem. Sabes a matrícula de cor?

Sei que é HL. Nós chamávamo-lhes de HL.

E ela está lá, não é?

Ela está lá pendurada e guardada. É claramente a maior recordação que temos das viagens, até porque não compramos assim muita coisa quando vamos em viagem.

Ser poupadinhos.

Exatamente.

Muito bem. Final da primeira parte das Conversas do Fim do Mundo desta semana. Estamos à conversa com o Miguel Neves. Regressamos já a seguir a uma curta pausa. Até já. Segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com Miguel Neves. O Miguel estava a contar-nos na primeira parte o porquê de ter ido para a Noruega, o porquê de ter escolhido este modo de vida, de trabalhar na Noruega uns meses e depois dedicar o resto do ano a viajar. Já nos contou um pouco da sua viagem que fez pela América do Sul. Contou-nos que fez muitas viagens num carro citadino entre Portugal e a Noruega, ao ponto até, Miguel, do carro ter morrido lá na Noruega, não foi?

O carro não tinha mais condições para andar.

Estavas a contar-nos a tua viagem que realizaste com a tua namorada, a Cláudia, do Alentejo para a Noruega.

E com o pai da Cláudia.

E com o pai da Cláudia, em plena pandemia, e quando chegaram à Hungria, eles não aceitaram os documentos emitidos pela Croácia. E como é que atravessaram a Hungria?

Nós fizemos 30 km para a Hungria, para a fronteira, e eles riram-se da nossa cara. No momento em que não chegava ninguém à fronteira, chegam três portugueses de bicicleta que apresentaram um contrato de trabalho da Noruega e que diziam que iam para a Noruega e estavam de bicicleta na Hungria. E eles riram-se da nossa cara, claro. Disseram: "Aqui não passam, é completamente impossível."

Sim.

E então nós agarrámos nas bicicletas, fizemos mais 30 ou 40 km e fomos tentar a fronteira ao lado, que era a fronteira da Eslovénia.

Sendo que aqui o ao lado eram quantos quilómetros?

Eram 40 km, mais ou menos. Portanto, já tínhamos feito 30, fizemos mais 40.

É meio dia a pedalar.

Também era sempre a direito.

Era fácil.

Era fácil.

Então foram?

Fomos para a Eslovénia. Na Eslovénia, riram-se da nossa cara na mesma. Nós aí percebemos que não tínhamos grande hipótese. Ou insistíamos ou então não tínhamos para onde ir. E eles disseram: "Ok, podem entrar, mas têm seis horas para sair do país." E nós já com os 70 km em cima.

Porque era o tempo previsto para atravessar a Eslovénia.

Era o tempo de trânsito que eles tinham, ou seja, sem fazer testes. As pessoas não podiam ficar lá. Eu já não me lembro bem da situação em si.

Eram tantas regras sanitárias durante a pandemia que era difícil memorizá-las.

E então lá encontrámos nos mapas uma fronteira com a Áustria a 40 km. Já tínhamos feito 70, fizemos mais 40. E chegámos já ao fim do dia à Áustria. Lá era malta do exército na fronteira, não nos deixavam entrar. Lá disseram: "Podem entrar, mas têm que estar constantemente em movimento". Havia regras na Áustria que não podias ficar em hotéis, só por questões de trabalho e tudo mais, portanto, nós não tínhamos essa justificação. E eu estava a tentar marcar uma noite, porque já tínhamos feito 100 km. Não conseguia. Pensámos: "Vamos dormir aqui na tenda. Já nos deixaram entrar, não tem mal." Até que vieram ter conosco e nos disseram: "Têm mesmo que entrar nesse comboio." Levaram-nos à estação, um militar veio ter conosco, pediu-nos identificação, ligou para a fronteira a confirmar a nossa história, mandou-nos de comboio para Viena para irmos embora do país.

Não brincam.

Não brincam. Em Viena íamos chegar à 01:00, só queríamos um sítio para dormir, porque sabíamos que tínhamos um comboio às 07:00 para a Polónia, que era o único país aberto na altura, que recebia pessoas. Eu tentei ligar para os hotéis, ninguém aceitava, até que à quarta, quinta vez, isto já era meia-noite, estava no comboio, liguei para um e contei a nossa história toda. Ele gostou tanto da história que disse: "Vocês não podem ficar aqui, mas eu deixo-vos ficar aqui." Dormimos lá três horas, tomámos um banho que só pela vida e apanhámos um comboio às 7h da manhã para a Polónia.

Para a Polónia.

Estávamos no sul da Polónia, em Katowice.

Na Polónia.

Na Polónia.

Deu-se o caso de...

Deu-se o caso de apanharmos Covid. Nós fizemos sete dias ainda a pedalar de sul a norte.

Ainda conseguiram pedalar sete dias na Polónia?

Foi ao sétimo dia, já sentimos tanto que pensámos: "Ok, temos que parar."

Já tinham sintomas, não é?

Tínhamos alguns sintomas.

E foram fazer um teste.

Fomos fazer um teste, deu positivo, não havia bem instruções do que fazer e nós atuamos como achávamos que devíamos atuar, não sei. Fomos para um apartamento e ficámos lá duas semanas até dar negativo. Na verdade, acabámos por ficar três semanas, porque já estávamos bem, mas o teste não dava negativo e queríamos voltar para Portugal, porque perdemos o timing de fazer a viagem até às Lofoten. Até porque na Suécia era tão comprida, eram quase 2 000 km a subir.

Ou seja, já não tinham tempo de regressar às Lofoten, na Noruega.

Não tínhamos tempo de chegar antes de trabalhar.

Vocês já tinham um dia em que tinham de começar a trabalhar.

Sim, exatamente. Mais ou menos uma data. Então pensámos: "Vamos voar de volta para casa" e voltamos com o C1, como já estamos habituados, por que não? E foi o que fizemos.

Voltaram com o Citroën?

Fomos para Portugal de avião e passado uma semana e meia, metemos as bicicletas em cima do C1.

E foram para a Noruega.

E fomos para a Noruega.

É, valentes.

Essa viagem de bicicleta foi...

Muito bem. Olha, o que fica dessa experiência de andar por aí a fintar países em plena pandemia, de bicicleta com a namorada e o sogro?

Exatamente. Foi um jogo de cintura a toda hora. Nós não planeávamos nada, não tínhamos nada marcado. Marcávamos a noite no dia anterior. Decidíamos o destino no dia anterior, olhávamos para os mapas e dizíamos: "Vamos para aqui". Definíamos o caminho no dia.

Que caótico.

E, na verdade, foi o melhor que fizemos, porque era tudo tão incerto. Depois não podíamos entrar naquele país, depois afinal já podíamos. Depois não podíamos ir a restaurantes, estava tudo fechado. Foi claramente a viagem mais caótica, no bom sentido, que tivemos. Mas para mim, nada iguala o sentimento que é chegar com uma bicicleta a um sítio. É uma liberdade. Eu não sei como explicar, mas eu costumo dizer, não há janelas, não estás num carro, estás envolto em tudo que está à tua volta e nunca me senti tão envolvido com os locais onde passava como com a bicicleta.

Apesar de seres um viajante em plena pandemia, não te olhavam com estranheza nem com hostilidade?

Não. Na verdade, nunca aconteceu, até porque nós sentíamos um bocado os únicos turistas na Europa. Eu sentia que andávamos ali sozinhos e os locais olhavam para nós do género: "O que estes estão aqui a fazer? Estes não são de cá. Isto não é altura para andar aqui." Sentíamos isso, que éramos as únicas pessoas ali a passear.

Uns estranhos.

Se calhar na Hungria riram-se e disseram que não entrávamos, mas de resto, acho que fomos sempre bem. Aconteceu tudo muito naturalmente e correu superbem, na verdade. Eu gosto de viajar nas épocas baixas e acabou por ser o que aconteceu. Fomos a todo lado e em todo lado não havia confusões de turistas. Fomos a parques nacionais na Croácia que custavam €30 ou €40, pagávamos €10 de entrada porque não havia ninguém.

Não, é um bocadinho triste também.

É um bocadinho. Eu senti, se calhar, mais isso. Nunca tinha ido a Barcelona, nem nunca fui a Barcelona normalmente, por exemplo, e estive em Barcelona com a cidade completamente vazia. Se calhar, sim, nesse sentido, via as cidades, mas também não tinha comparação naquele caso. Se calhar, via as cidades pouco vivas e tudo mais, e aí sim.

Também é um privilégio poder ver as cidades dessa forma.

Inclusive andar de bicicleta, metendo bicicleta por ruas e ruelas, que se calhar com as pessoas todas não o fazia nunca. E isso foi muito giro.

Boa. Portanto, uma experiência com boas memórias.

Com boas memórias, exatamente. E a repetir, certamente, viagens de bicicleta.

É?

É, sem dúvida. Viajar de bicicleta é algo que quero continuar a fazer. Há de ser na América do Sul a próxima, se tudo correr bem.

Muito bem. Falaste há pouco que durante estes anos que vocês levam já a viver e a trabalhar na Noruega, também foram ao Sudeste Asiático.

Sim, essa foi a tal viagem que eu saltei. Nós tínhamos planeado ir três meses em janeiro. Fomos em dezembro, acho, já ainda em dezembro, final de dezembro de 2019. Fomos fazer uma viagem ao Sri Lanka, Índia e Nepal.

E passaram o Natal onde?

Não, mas aí passámos o Natal cá.

Passaram o Natal cá.

Fomos a seguir ao Natal. Eu acho que foi fim de dezembro, início de janeiro, foi ali qualquer coisa assim. Fomos ao Sri Lanka, Índia e Nepal também sem nada planeado. Tínhamos o voo de ida para o Sri Lanka e de volta de Katmandu. Foi o que planeámos. E depois pelo meio fomos jogando o nosso itinerário.

Portanto, gostam de ir à aventura e partir rumo ao desconhecido, é isso?

Estamos tão habituados no nosso dia a dia. Levamos a vida muito lentamente e muito sem planos.

Sim.

Às vezes gostava de estar mais organizado.

O que é que isso quer dizer?

Às vezes dava jeito estar um bocadinho mais organizado no sentido de ter as coisas planeadas, mas no fundo, o viver nesta, entre aspas, "instabilidade", é o que me tem dado gozo de viver e portanto também acho que planear uma viagem do início ao fim, acho que era algo que não conseguia. Que o fiz agora, mas não para mim, para outras pessoas.

Pois, agora estás a trabalhar como líder de viagem para uma empresa portuguesa.

Exatamente.

Portanto aí é necessário.

Aí é necessário e está tudo planeado e não se preocupem que está tudo bem planeado.

Ter planos, horários, logística montada, enfim, criar uma expectativa no cliente. Mas quando é para ti, é para ir à aventura.

Quando é para mim, gosto de ir. Gosto de ir em frente.

Então houve surpresas no Sudeste Asiático?

No Sudeste Asiático, a maior surpresa foi que nós não tínhamos planos para o Nepal até quatro dias antes de ir para o Nepal. E começámos a pesquisar na net o que é que poderíamos fazer, treks ou alguma coisa parecida, e pensámos: "Ok, vamos fazer o circuito do Annapurna." E no dia a seguir lembrámo-nos de ir ver a meteorologia, como é que estaria a meteorologia lá e percebemos que íamos estar à volta, durante a noite, se calhar -8, -10. Estamos a falar aos 3000, 4000 metros de altitude, -8, -10 graus e pensámos assim: "Nós temos estado no Sri Lanka de t-shirt com 30 graus e na Índia a mesma coisa e não temos sequer um casaco e queremos ir fazer o circuito do Annapurna." Estou cá a pesquisar e em Nova Déli acontece que há uma Decathlon, que acabou por ser a nossa melhor amiga.

Uma loja de desporto.

Uma loja de desporto, com coisas para montanha. Comprámos umas botas, uns casacos, umas coisas térmicas e tal, muito improvisado. E seguimos para o circuito do Annapurna. Fizemos ainda seis dias de circuito até que percebemos, à sexta noite, que poderia ser fazível, mas nós pensámos: "Temos mais que tempo para aqui voltar e fazer esse circuito com as coisas como deve ser, com roupa."

Com equipamento à séria.

Com roupa adequada. Escusávamos de como aconteceu. Foi onde tomei o banho mais difícil da minha vida. Estavam -9 graus e a casa de banho, como é óbvio, era uma casa de banho aberta. Tive porque sentia que precisava de tomar banho e tomei banho com água gelada com -9 graus. A Cláudia não tirou a roupa e foi diretamente para a cama. Ela escolheu claramente melhor que eu. Por acaso, foi mesmo depois dessa noite.

Não te constipaste? Não.

Eu acho que não.

Já nem havia forças para te constipares.

Já estava tão entranhado o frio que acho que não.

Ainda assim caminharam seis dias, foi?

Caminhámos seis dias, depois voltámos para trás e acabámos por vir de jipe naquelas estradas que não são bem estradas. Acho que a viagem de jipe ainda foi pior do que o caminhar. Uma viagem de jipe a descer o Annapurna com um senhor a mexer num Nokia 3310 enquanto conduzia. Não sei bem o que ele estava a fazer. Isso aí para nós foi claramente em estradas que não eram estradas.

Se calhar ia acontecer e ia jogar o jogo da cobra.

Ia jogar Snake, exatamente.

O jogo da cobra.

E essa viagem, deste cabeçadas no teto, a ver jipes caídos.

No fundo das ravinas.

No fundo das ravinas. Eu a pensar: "Bem, se calhar não acabamos esta viagem." Acabou, felizmente. E voltámos para Portugal mais cedo, por acaso, e acabou por calhar bem, porque voltámos mesmo antes de fechar tudo. No ano de 2020, quando tudo fechou em março. Calhou bem. Decidimos por acaso voltar seis dias antes, porque não acabámos, então voltámos seis ou sete dias antes e calhou bem, porque voltámos antes de tudo fechar com a pandemia.

Pois.

Foi isso.

Mas conta-me o que é que viste no circuito dos Annapurnas?

No circuito do Annapurna. Dos Annapurnas, porque eles são muitos, são vários Annapurnas, na verdade. Essa foi uma experiência incrível e que me fez querer voltar também aos Himalaias e vou fazê-lo agora em outubro, se tudo correr bem. Caminhas ao lado de picos de 7, 8 mil metros de altitude que te fazem sentir minúsculo.

Uma formiguinha.

Minúsculo, que te fazem pensar que realmente a natureza é muito maior que nós e a natureza é quem manda.

É verdade.

E nós andamos aqui às vezes sem ter noção do que nos rodeia e sítios como os Himalaias são mágicos também.

Mágicos.

E fazem-nos perceber essas coisas e o quão pequeninos somos.

Eu tenho alguma curiosidade, nunca lá fui, aqui me confesso. As imagens que chegam são sempre de montanhas lindas, bicudas, com cumes brancos e um céu azul. Nem sempre é assim, pois não?

Nem sempre é assim. Às vezes dói.

Dói o quê?

Às vezes dói andar com o vento.

Ah, o vento?

Sim. E é como tudo, ou seja, as viagens, nós acabamos por às vezes tender a mostrar as fotografias aos amigos e partilhar isto e aquilo das paisagens bonitas, mas tal como nas Lofoten, nos Himalaias e tudo mais, às vezes ventanias loucas que também fazem parte e, na verdade, às vezes é tão ou mais bonito do que um dia de sol.

Porque é desafiante?

É desafiante e porque também estás a assistir à natureza na forma mais pura que podes assistir.

No seu estado bruto.

No seu estado bruto. Eu lembro-me de passar noites na Noruega, na janela de casa, a comer cereais e a ver as ondas a bater no pontão e a passar por cima da casa. O mar estava louco, com ventanias. Eu já nem sei a velocidade do vento, não faço a mínima ideia. Isso eram espetáculos.

Isso faz aumentar o respeito, não é?

Faz aumentar o respeito.

Que se tem pela natureza.

Muito. Ando muito na montanha e muitas vezes volto para trás a meio caminho, porque sei que não sou mais que a montanha, ou seja, muito menos, aliás. E tendo a respeitar muito. Portanto, quando temos que voltar para trás, voltamos para trás.

É também um ato de humildade, não é?

É, exatamente. Temos que perceber quando é que é o nosso tempo de estar lá ou quando não é o nosso tempo de estar lá. Às vezes a montanha não nos quer lá e nós voltamos para trás.

É o nosso limite e também o limite da natureza, não é?

Sim, exatamente. Nos Himalaias, por acaso tivemos alguma sorte com o tempo, mas não com a temperatura. Não tivemos grandes tempestades, mas a temperatura realmente estava a -8, -10. Estávamos a caminhar e passados cinco minutos tínhamos as mãos e os pés congelados e não conseguíamos mexê-las e tínhamos que fazer algo, não sabíamos bem o quê. Nesse caso, foi um caso em que nós fizemos bem, voltamos para trás, percebemos: "Ok, não é a altura de fazer isto. Há de haver outra altura."

Muito bem. Miguel, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer o checkout.

Força.

Vamos embora. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Roupa para correr na montanha. Equipamento para correr na montanha. Eu às vezes vou para um sítio e a única coisa que levo na mala é roupa de corrida.

Só isso?

É, porque uma troca de roupa chega e às vezes vou dois, três dias, levo se calhar duas trocas ou três para correr e levo uma camiseta para trocar.

A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?

Foi sem dúvida de bicicleta em plena pandemia.

Pandemia. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?

Está a ser agora para a Índia.

Não está fácil?

Não, vou fazer um curso de montanhismo e já me rejeitaram uma vez o visto. Dizem que eu vou fazer expedições. Eu se calhar vou e não sei, mas acho que não. É um curso de montanhismo onde também vamos à montanha. E eles dizem que se calhar preciso de outra coisa. Portanto, estou há dois meses à espera que me digam qual é o visto que eu preciso e sem saber se vou ter o visto ou não para ir em outubro.

Vais conseguir. A recordação de viagem mais cara?

Aqui eu acho que a recordação de viagem mais cara que tenho, não foi a mais cara, mas em relação àquilo que eu esperava pagar por um tuk-tuk no primeiro dia que chegasse ao Sri Lanka, que achava que ia pagar 1 ou 2 € por uma viagem de cinco minutos, paguei 30 e qualquer coisa, porque foi um senhor ao meu lado a falar durante muito tempo e acabou por me dizer, e "empurrar" para um tuk-tuk e dizer-me que ia haver um ritual de elefantes no meio do Sri Lanka. E eu, como meu primeiro dia e um português muito inocente-

Caíste

...caí, entrei no tuk-tuk e depois acabei por não conseguir sair.

E não viste o ritual de elefantes?

Não vi, nada.

Acontece. A refeição mais estranha, qual foi?

A refeição mais estranha foi se calhar na ceia de Natal no Equador, que eu estava a falar há bocado, porque eles puseram na mesa algo que eu não sabia bem o que era. Tinha uma tacinha com amendoins e com umas especiarias e eu achei por bem, se eles estavam a pôr aquilo ali, podia meter tudo no prato e pus em cima da refeição e parece que era das coisas mais picantes que eu alguma vez experimentei na vida e, portanto, tive uma refeição complicada. Suei muito, mas consegui acabar a minha ceia de Natal.

E gostava de viajar com?

Eu aqui vou dizer que gostava de viajar comigo, porque na verdade nunca viajei sozinho.

Pois.

E é algo que eu gostava de fazer.

Viajaste com a Cláudia.

Viajei muito com a Cláudia, viajei muito com o pai da Cláudia também. Ainda não viajei sozinho e é algo que vou fazer e quero fazer.

Onde?

Não sei. Mas também é como tudo, como não planeio, há de haver aí um sítio e um momento certo em que uma viagem qualquer vai surgir.

Vai aparecer.

E eu depois partilho.

Claro que sim, estamos à espera. Olha, Miguel, chegamos ao fim. Para fechar, qual foi a música que escolheste?

Eu escolhi uma música que nos acompanhou na viagem, que era quase que um ritual ao lado do café obrigatório para começarmos a conduzir no Citroën C1 em direção à Noruega, que é o "Think About Things", que é uma música que nos alegrava e que nos punha a cantar e de vidros abertos logo pela manhã, ainda com sono, enquanto bebíamos o café. E foi sem dúvida a música que marcou a viagem.

Música em inglês, mas cantada por uma banda islandesa.

Islandesa.

Cujo nome eu não me atrevo a pronunciar.

Eu também não.

Tu também não?

Eu também não. Eu digo só o nome da música, normalmente. Há bocado, como sabes, não te consegui dizer o nome da banda. E pronto, já percebeste porquê.

Muito bem. Tem imensas consoantes e algumas vogais. Eu não vou dizer isto. Miguel.

Acho que eu daria um pau de procurar depois Dá para tentar ler.

Miguel, foi um gosto. Obrigado.

Obrigado pelo convite.

Think About Things, música de fecho da conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso todos os oito dias. Sejam bons e boas viagens.