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Sejam bem-vindos às "Conversas do Fim do Mundo". O convidado desta semana é um dos viajantes portugueses mais carismáticos. Em 2011, foi até Cingapura por terra, à boleia, durante 10 meses. Três anos depois, e durante 15 meses, atravessou a África de bicicleta e em 2018 foi do Panamá até ao México à boleia. Três grandes viagens que resultaram em três livros. Chama-se António Pedro Moreira, @pedro_on_the_road nas redes sociais. Pedro, bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo".

Obrigado, olá. Obrigado pelo convite.

Pedro, acabas de regressar de uma viagem de um mês, mais ou menos, a Cabo Verde. Há quanto tempo não viajavas?

Eu não viajava fora de Portugal há cerca de um ano. Eu geralmente gosto de fazer uma viagem não tão longa quanto aquelas que tu primeiramente referiste, mas uma viagem de um mês ou dois no início do ano.

Foi teu maior período de abstinência?

É capaz de ter sido. Que eu me lembre, foi um ano seguido, porque geralmente também dou um saltito de um sítio a outro em outubro, nem que seja só uma semana, mas um ano inteiro sem viajar é capaz de ter sido. E estava a começar a sentir.

Pois, era isso que te ia perguntar. Tinhas muitas saudades de viajar?

Não é que me tenha apercebido, mas prestei particular atenção a algo de que já me tinha apercebido anteriormente, e é algo que se eu disser te vai soar familiar, e toda a gente que estiver a ouvir vai concordar, imagino eu, que a viagem não começa quando nós entramos no avião, ou no comboio, ou no autocarro, seja onde for. A viagem começa quando nós começamos a pensar nela. E eu estava com muitas saudades de pensar numa viagem. Eu pensava muitas vezes, mas era tudo muito abstrato. E quando eu percebi que já não viajava há muito tempo e tomei a decisão de ir até Cabo Verde, a partir do momento em que eu tomei essa decisão, a viagem começou ali e eu comecei a acalmar mais um bocadinho.

E por que Cabo Verde, Pedro?

Eu gostava de dar-te uma razão muito profunda e filosófica, mas encontrei um voo por 200 € e depois acabou por ser um bocadinho mais caro, porque esse preço era pra duas semanas e eu queria ficar um mês. E foi por isso. Eu era absolutamente ignorante em relação ao país.

E gostaste de Cabo Verde?

Eu vim bem fascinado. Ainda estou um bocado bêbado da viagem, ainda estou como se, imagina uma passagem de ano e já passaram dois dias e uma pessoa já está mais ou menos recuperada, mas ainda está um bocadinho combalida. É um bocado o que eu sinto em relação a Cabo Verde, mas pela positiva, porque ainda estou um bocadinho a dançar com o país.

Mas por quê? O que é que tem de tão cativante Cabo Verde?

Não é que eu evitasse, mas nunca ofereci particular preferência a fazer caminhadas pela natureza e coisas do gênero, mas em Cabo Verde era o que eu fazia todos os dias. E em termos de trekkings é absolutamente fascinante. A viagem começou um bocadinho morna. A ilha de Santiago, que é onde está a capital Praia, é uma ilha fixe, só que não foi logo aquela que me apaixonou com força. A seguir à ilha de Santiago, fui pra ilha do Fogo, tive a oportunidade de subir ao vulcão, comecei a apaixonar-me. E depois fui a uma ilha, que era a Brava, muito pequenina também, e aí rendi-me completamente. E a partir daí foi sempre a subir. Tem paisagens deslumbrantes. As pessoas perguntam sempre como é que são as pessoas nos sítios, e às vezes aborrece-me um bocado, porque eu acho que as pessoas são um bocado como as pizzas. É raro encontrar uma pizza má e assim como é difícil encontrar um povo mau. Há sempre, às vezes, uma coisa que corre menos bem ou outra, mas na sua generalidade, as pessoas são simpáticas. Portanto, não achei os caboverdianos mais simpáticos do que a média, nem menos simpáticos do que a média. Mas convém eu dizer que a média é alta. As pessoas, na sua generalidade, na minha experiência, são sempre convidativas e simpáticas.

Foste bem recebido.

Sim, fui bem recebido. Mas acima de tudo, como eu estava a dizer, acho que a oportunidade quase infinita de trekkings que uma pessoa tem pra fazer foi aquilo que mais me cativou.

Muito bem. Ficaste fã, foi, dos trekkings?

Fiquei fã. Sim, e também, infelizmente, só vi metade filosófica duma cidade, que é a cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente. Toda a gente, quando eu estava lá, me contava como geralmente é bar sim, bar sim, música ao vivo, morna, outros tipos de música caboverdiana, e acho que o carnaval lá é absolutamente fascinante. Só que, apesar do Covid em Cabo Verde estar relativamente bem controlado, ainda assim, ou talvez por isso, os bares fechavam mais cedo, então não havia aquela movida da qual me falavam. E eu gosto também muito desse ambiente. Portanto, sinto que Cabo Verde pode ser ainda mais apaixonante. Talvez uma boa maneira de dizer seja que não é comum eu sentir que mal saio de um país, quero voltar, mas senti isso em relação a Cabo Verde, porque sinto que quero voltar uma vez que passe esta crise toda, pra conhecer, por exemplo, Mindelo e tudo o que tem para oferecer.

Muito bem. Anteriormente, tinhas estado na Arábia Saudita, país que só há pouco tempo é que se abriu ao turismo. Que país é que foste encontrar?

A Arábia Saudita é um país particularmente interessante, porque encontra ali algumas paradoxalidades que uma pessoa tem algum interesse em ver. É um país, em termos de coisas para ver, que tem muito a pra oferecer, é um país enorme, estranho seria se não tivesse.

É o berço do Islão, não é?

Sim, foi aí que Mohammed, no Monte Hira, no ano 618, viu o anjo Gabriel, que lhe trouxe uma mensagem nova. Curiosamente, estou a ler o Corão, porque me ofereceram na Arábia Saudita. Eu sou ateu, confesso, mas tenho tantas conversas sobre religiões que acho que é importante saber do que estou a falar quando estou a falar disso. É o berço do Islão e é um país também muito conservador. Como tu disseste, e bem, a Arábia Saudita abriu-se, creio que em outubro de 2018, para turistas. Até então era impossível entrar, só com vistos de trabalho. Agora já dá e é um visto feito na net. Foi mesmo uma mudança bastante radical, sendo que não é preciso carta de convite nem nada do gênero. Uma pessoa faz o visto na net, paga cerca de € 100, já vem com seguro de saúde e está tudo tranquilo.

Ia regressar à pergunta original: que país é que foste encontrar? Sentiste que era um país muito fechado ou preparado para receber estrangeiros turistas?

Olha, em Cabo Verde, numa ilha onde eu não fui, que é Sal, há lá uma cratera que tem um efeito semelhante ao que acontece no Mar Morto, que são águas que têm uma concentração de sal tão forte que uma pessoa não consegue ir ao fundo. E eu sinto que a Arábia Saudita era tipo isso. Eu estive lá um mês, estive com o João Amorim, outro viajante, e levámos um cameraman também. A nossa ideia é fazer um documentário, que sairá. E nós tentávamos ir ao fundo. Só que como esses lagos de água extremamente salgada que nos puxam sempre para cima, também na Arábia Saudita era difícil. Às vezes eu tentava, respirava fundo e nadava mesmo para tentar chegar o mais fundo que podia e chegava se calhar até a tocar com os meus dedos no solo, mas logo era expulso para cima, porque as pessoas mostram um bocado de si e do que pensam, mas não mostram tanto quanto aquilo que eu gostava de saber, nomeadamente em questões mais óbvias, como o que eles acham em relação ao MBS, o Mohammed bin Salman, que é o príncipe regente atualmente, ou mesmo em relação às diferenças. Eu gosto muito de viajar nos países muçulmanos e no início também estava completamente enamorado e vim para Portugal disposto a defendê-los de todos os preconceitos que há. E se calhar eu próprio coibia-me de ver algumas coisas que são menos positivas. E a verdade é que em países como a Arábia Saudita, a diferença entre géneros é abismal. Até em Portugal, não temos uma verdadeira igualdade de género, quanto mais a Arábia Saudita.

Mas isso vê-se onde na Arábia Saudita?

Vê-se em todo lado.

Há locais reservados só para homens e lugares só reservados para mulheres.

Sim, há lojas onde só podem entrar famílias ou mulheres, não podem entrar homens sozinhos. Nos transportes que apanhas, nós fizemos tudo à boleia, os transportes que apanhamos foram barcos, mas nos barcos que apanhamos há zonas só para mulheres. E é estranho, eu sei que dizer estranho pode parecer ofensivo, mas é realmente estranho para mim. Nós vemos como se fosse um Mar Negro, só de burcas. E lá está, eu não tenho esse juízo de valor sobre todo um povo baseado nisto, mas posso ter um juízo de valor sobre uma coisa em específico, que é esta, porque acho que todas as culturas têm algo que não é bom, a nossa também o terá. E para mim, isto da diferença entre géneros, que eu denoto muitas vezes em vários países, é algo que eu não consigo ultrapassar. O fato de um homem poder se casar com quatro mulheres, mas uma mulher não se poder casar com quatro homens, acho que é trágico. E a maneira como a mulher não tem uma voz. E é verdade que é algo que está a mudar. As mulheres há alguns anos podem conduzir e tudo mais. E eu louvo essa evolução, mas custa-me aceitar a diferença que se vê em todo lado.

Mas condicionou a tua avaliação que fazes do país?

Condicionou, porque acho que é demasiado importante para eu passar assim ao lado. Esta característica contou para a minha avaliação da minha experiência do país e do próprio país, mas não foi a única. Como eu disse há bocado, nós fizemos tudo à boleia e fomos sempre muito bem tratados, a pessoa ficava em nós, levava-nos a jantar, não deixava pagar nada. Também é um país muito seguro.

Mas havia uma fronteira, é isso?

Sim.

Faziam questão de mostrar que havia uma fronteira, a partir da qual os turistas não podiam passar, é isso?

Sim, é um bocadinho mais naquele mundo mais íntimo. Por exemplo, há um bocado disse que quando nós fazíamos perguntas em relação ao príncipe, era impossível encontrar alguém que nos desse uma opinião negativa acerca dele. Quando ganhávamos um bocadinho mais confiança e falávamos precisamente acerca das mulheres terem, não que usar por lei, mas têm que usar por costume e os costumes podem ser tão imponentes como uma lei. E quando falávamos sobre isso, o pessoal evadia sempre, brincava e dizia: "O quê? As mulheres têm ainda mais direitos que nós". Quando, na verdade, por exemplo, de acordo com o Corão, o testemunho de uma mulher vale metade do testemunho de um homem. Portanto, isto não faz com que eu não tenha gostado da minha experiência. É um país que eu recomendo visitar, vale muito a pena, mas tem esta característica que para mim também é importante. Percebes? Não julgo o país todo a partir disso, mas também não posso esquecer isso.

Muito bem. Então Cabo Verde e Arábia Saudita foram os últimos países que visitaste. Na introdução do programa, resumi de forma muito breve o teu percurso. Portanto, começaste a viajar em 2009. Foste à Índia, foram duas semanas, mas foi aí que tu percebeste: "A minha vida tem que passar por aqui." Foi aí?

Sim, foi aí que eu de certa forma me vi, e vi-me nos corpos e nas caras das outras pessoas, porque eu na altura estava a trabalhar em Birmingham, era psicoterapeuta.

No Reino Unido?

Exato. Sim, porque também há um Birmingham nos Estados Unidos, é verdade. E gostava do que fazia, só que deixava-me ficar por algo que era apenas bom e não me tinha permitido ainda ir atrás daquilo que poderia ser espetacular. Talvez porque vivia um bocado naquele medo que todos nós temos, é natural, de arriscar e nem sequer considerava, se quer que te diga.

Mas as viagens não te diziam nada? Era uma coisa que não te interessava sequer?

Eu gostava de viajar, mas gostava de viajar como qualquer pessoa gosta de viajar, de ir ali duas semanas ou ali três. Agora há muito mais e nesses últimos 10 anos ter visto essa transformação tem sido muito bonito. Mas como nunca tinha conhecido nenhum português, nenhuma pessoa de carne e osso que tivesse feito uma grande viagem, eu nem sequer considerava aquilo para mim. Eu ouvia histórias nos filmes e nos livros. Só que essas pessoas dos filmes e dos livros, ainda que fossem inspiradas em pessoas reais, para mim não eram bem reais, porque eu não as conhecia.

Mas foi então na Índia que tu percebeste: há pessoas a fazer isto constantemente, foi?

E além disso, essas pessoas são banais como eu e como tu e como todos nós. São pessoas normais. E não são super-heróis. E eu naquele momento percebi: "Ah, afinal aquilo que eu achava que era só para os Hércules desta vida ou para os Ulisses, afinal também é possível para mim".

Portanto, regressaste ao Reino Unido e despediste, foi?

Sim, regressei ao Reino Unido, apresentei-me e disse: "Olha, não vou renovar", porque eu tinha ido para um ano, mas eu trabalhava com adultos vulneráveis e não queria estar a ganhar a confiança deles ao longo de um ano e depois desaparecer. Então decidi ficar dois anos. E eu percebi que estava prestes a tornar-me-- toda a gente conhece vários emigrantes tugas, um que foi um ano e ficou 10, outro que foi dois e ficou 20. E eu quando vim da Índia decidi que não ia ser dos emigrantes que vão um ano e ficam 10 ou dois e ficam 20, e tinha que ir embora.

Portanto, deixaste o teu emprego como psicólogo no Reino Unido. Diz-me só uma coisa, é preciso ter uma grande dose de autoconfiança e autoestima para tomar uma decisão dessas ou é uma decisão que deriva de um ato de loucura?

Nem um, nem outro. Eu sei que nós usamos loucura no sentido figurativo, "ai, esse homem é maluco".

Loucura no sentido da inconsciência, não é? De não medir as consequências do ato.

Sim, foi uma decisão consciente, apesar de eu não ter consciência do efeito que poderia ter. Isso já foi há 10 anos, eu já há vários anos que vivo dos meus livros e felizmente tem corrido bem por aí. Só que na altura não sabia isso. Só sabia que eu devia-me a mim próprio essa experiência e sabia que correndo, eu tento evitar o máximo que posso os lugares-comuns, mas a verdade é que por vezes eles fazem algum sentido. E toda a gente conhece aquele lugar-comum de é mais fácil tu arrependeres-te do que não fizeste do que daquilo que tu fizeste. E eu sabia, e aí, sim, talvez seja a parte mais consciente dessa empreitada baseada em alicerces um pouco frágeis na altura, é que eu sabia que era muito improvável eu arrepender-me. Tinha que acontecer mesmo uma tragédia qualquer para eu me arrepender. E eu sabia que essa tragédia era possível, mas avaliei a probabilidade dela acontecer e percebi que não valia a pena estar a resguardar-me por causa de algo tão improvável quanto uma tragédia que me fizesse arrepender de algo que tinha todo o potencial para ser mágico, como foi.

É engraçado porque olhando para o teu percurso como viajante, portanto, 10 meses à boleia até Singapura, um ano e pico a pedalar até à África do Sul, quatro meses na América Central, tens um discurso muito racional para justificar uma decisão que para a maior parte das pessoas é incompreensível, que é largar tudo para ser viajante profissional.

Eu percebo perfeitamente e acho que tens razão. E por acaso acertaste em cheio que uma das coisas que eu mais valorizo é a lógica e a racionalidade. Às vezes as pessoas podem tomar uma decisão qualquer que seja mesmo por puro instinto, mas, por exemplo, até eu ter ido para a África, quando todas as pessoas me diziam que ia ser muito perigoso, eu percebi que havia um conjunto de falácias que estavam a ser cometidas. Uma delas é que as pessoas associam criminalidade à pobreza. Como em África as pessoas são pobres, logo vão ser criminosas.

Não sentiste isso?

Não, senti zero vezes. E outra, por exemplo, as pessoas muitas vezes falam em valores absolutos para descrever algo como perigoso, quando deviam falar em números relativos. Por exemplo, às vezes alguém diz: "Ai, mas tu sabias que em Ruanda mataram não sei quantas pessoas?" Esse valor absoluto a mim não diz nada, porque imagina, com todo o respeito pelas pessoas que acabam por ser malogradas, se em Ruanda matarem um português no meio de 10, quer dizer que eu tenho 10% de probabilidade de ser um deles. Aí já não vou. Não vou arriscar a minha vida por 10%. Mas se for um em mil ou 10 mil, aí já vou ter uma análise diferente. E quando eu me apercebi dos poucos entraves que poderia haver para eu ir pedalar a África toda, por exemplo, eram sempre um pouco falaciosos, por exemplo, nunca ninguém me apresentava uma estatística da porcentagem de pessoas que morre a atravessar a África a pedalar.

Sim.

Então não quis deter-me por causa de números que na verdade para mim não significavam nada.

Pedro, já vamos percorrer algumas das memórias dessas tuas grandes viagens. Estamos quase a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem. Pedro, dos 93 países que já conheces e das grandes viagens que já realizaste, guardas algum objeto que tenhas trazido desses países com especial carinho e um objeto que encerra uma boa história?

Guardo vários, mas quando colocaste essa questão, o primeiro que eu pensei foi uma pulseira que eu tenho ainda hoje. Já tenho há cerca de 10 anos. Estava no Irão à boleia e eu enquanto Eu represento o fenótipo tuga, tenho cabelos escuros, olhos escuros e, como tal, pareço iraniano também. Estava nas montanhas, à boleia, em direção ao Paquistão e apareceram uns bacanos. Mostrei-lhes o meu sinalzinho escrito em persa a dizer: "Sou da Europa". Não dizia Portugal pra não perder tempo a explicar onde é. "Sou da Europa, estou a caminho do sítio X, se vocês forem..." explicar o que era a boleia, basicamente.

Sim.

Eu passei uma noite com estes dois rapazes a beber vodka caseira iraniana. No Irã é ilegal beber álcool. E foi uma noite espetacular numa aldeia vinha muito pequena nas montanhas do Irã. Eles chamaram os amigos todos pra me vir ver, porque não parecia muito comum aparecer por lá um português. E foi muito bonito. No dia seguinte, nós acordamos, eles deram boleia até a estação de autocarro, pagaram-me o autocarro, deram-me 10 dólares em riais iranianos, em dinheiro. Eu não gosto de aceitar dinheiro. Não me importo que me paguem coisas, tipo um almoço, mas não gosto muito de aceitar dinheiro. Só que no Irã eu não tinha hipótese, porque eu não podia levantar dinheiro. Não sabia que não havia lá Visa nem Mastercard, então estava um bocado encalacrado e aceitei. Depois deram-me também esta pulseirinha que tem uns versos do Corão, que além de ser bonita também é de metal e é muito gira.

Que versos são?

Disseram-me que são versos que protegem os viajantes. Se for mesmo isso, é mesmo bonito. Eu, infelizmente, não sei de cor. Seria bom agora poder sacar essa, mas não sei.

Muito bem, estamos à conversa com António Pedro Moreira, Pedro On The Road. Curta pausa na conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Regressamos já a seguir. Segunda parte da conversa do "Fim do Mundo", o meu convidado é António Pedro Moreira, Pedro On The Road, nas redes sociais. Português que foi de Portugal até Singapura à boleia, foi de bicicleta de Vale de Cambra até à África do Sul e andou à boleia do Panamá até ao México. Pedro, na primeira parte já falámos um pouco das tuas últimas viagens, Cabo Verde e Arábia Saudita. Gostava de recordar aqui alguns momentos destas três grandes viagens que tu realizaste. Vamos começar por esta entre Portugal e Singapura. Tu eras psicólogo em Londres, despediste-te do teu emprego para realizar esta viagem. Percorreste mais de 50 mil quilómetros durante 10 meses. E quando chegas ao Paquistão, tens um encontro invulgar com um velho hippie que saiu da Europa, mas que parece que ficou pela Ásia Central. É isso?

Sim, era o Quayum. O Quayum foi das pessoas mais bonitas que eu conheci. Ele era um paquistanês que nos anos 80 vivia em Ibiza, a vender colares feitos à mão na praia. O homem não sabia ler nem escrever. E entretanto, as leis de imigração começaram a apertar e ele teve que voltar ao Paquistão. E então abriu um hostel em Gilgit, no Hunza, no Vale Hunza, que é dos sítios mais bonitos onde eu já estive na minha vida. Sabes que nós muitas vezes dizemos que alguém é uma boa pessoa quando, na verdade, queremos dizer que essa pessoa é fixe. Ele era mesmo boa pessoa. Ele vivia numa pequena casa contígua a uma vivenda, que era o albergue dele, e no albergue dele estava só eu. E pra teres uma noção um bocado da onda dele, eu me lembro de vir um bocado tramado pra encontrar aquilo.

Mas já ias referenciado.

Ia referenciado porque eu estava quase a chegar à Índia e conheci os únicos turistas que eu conheci no Paquistão, e eles insistiram tanto que eu devia ir ao Vale Hunza, que eu tive que voltar pra trás 30 horas até às montanhas perto da China.

À boleia.

Não, no Paquistão não fiz boleia, fiz autocarro. E eles disseram: "Olha, tens que ir conhecer este velho só porque sim. O sítio não é grande coisa", vai ver, e era excelente, "mas tens que ir conhecer este velho". Eu lá encontrei o senhor e quando o encontrei, estamos ali a jantar e eu digo: "Olha, por que tu não metes aqui um sinal a dizer Hostel Serena?" Ele: "Pedro, sabes, eu gosto de estar aqui contigo na boa, fumar contigo, comer contigo. Se eu tivesse sinais e fizesse publicidade, ia ter muita gente e não vim a conseguir privar com ninguém". E eu: "Uau, esta é a resposta mais anticapitalista que eu já ouvi". Ele prefere ter menos pessoas e ganhar menos dinheiro, mas ter tempo de qualidade com as pessoas do que o inverso.

Se calhar é preguiçoso e não quer trabalhar, pensaste nisso ou não?

Também pode ser, também há de haver as coisas.

Se calhar tá em serviços mínimos desde sempre, não é?

Sim, e se calhar não é preciso mais.

Exato.

Tive um momento super bonito com ele. Lá na altura, nesta zona do Paquistão, só havia luz oito ou 12 horas por dia, não me lembro. Eu me lembro que estava a ler o "1984", do Orwell, no seu alpendre, e a luz foi abaixo e ele veio ter comigo e disse: "Olha, encontrei ali uns cães abandonados, geralmente vou lhes dar de comer, queres vir?" Eu: "Ok". Ele disse que era ali perto, mas ali perto era meia hora. Nós demoramos meia hora e nós estamos mesmo no topo do mundo. Parece que as estrelas quase que dá pra tocar. E particularmente estamos em lua nova, creio, porque o céu estava super estrelado e era uma cena completamente fantástica. E vamos caminhando, a caminho dos cachorros abandonados que o Quayum tinha descoberto, e encontramos uma luz ao fundo, um foco. E o Quayum fica assim meio: "Não sei o que é este, tem que estar ali alguém". Eles aproximam-se e falam um bocado, e o Quayum diz: "Olha, é um amigo meu, afinal. Vamos fumar um." E eu: "Ya, ok." E nós sentamos os três a fumar lá um produto das montanhas do Paquistão. Eu penso: "Eu estou aqui nas montanhas com dois velhotes no Paquistão, debaixo de um céu estelar", e é daqueles momentos que me oferecem algo que eu adoro em viagem, que é eu perceber que eu estou ali Que estou vivo. É verdade que eu vou morrer um dia, mas naquele momento eu estou vivo. Eu sei que eu também estou vivo agora a falar contigo, mas naquele momento é como se houvesse algo mais.

Mas é o quê? É uma sensação de te sentires completo?

Sim, porque eu analiso todos os fatores que me levaram até ali e aquilo que eu sinto dentro de mim, a pessoa com quem eu estou e a beleza, não só de Valunza no geral, como naquele momento em particular, com todas as estrelas a cair sobre mim. E eu penso: "Uau, isto está a acontecer agora". Porque às vezes, no nosso dia a dia, quando a vida é de momento, nós esquecemos que ela está a acontecer. E acontece a todos. É preciso ser um budista iluminado para estar sempre presente dentro de si a qualquer momento. Infelizmente, eu não sou um budista iluminado e se calhar, às vezes, preciso de estar no topo de uma montanha no Paquistão para ter esse sentimento mesmo a palpitar dentro de mim.

Foi o maior momento de consciência de ti mesmo que tiveste durante essa viagem de 10 meses à boleia de Portugal até Cingapura, ou houve outros?

Não foi o maior, mas talvez tenha sido o maior derivado de uma experiência que à partida parece banal. Porque se tu estás a fazer algo extremo ou está a acontecer algo extremo, é normal que tu te sintas presente ali, porque até o teu corpo dispara adrenalina por todos os lados. Mas numa situação que aparentemente possa parecer banal, acho que foi aquilo que mais me fez sentir dentro de mim. E foi bonito. Fui preso também nessa viagem.

Onde é que foste preso?

Essa história é um bocado longa, ocupava esta parte toda, mas fui preso no Laos, fui vítima de polícias corruptos. Tive duas noites na prisão, foi a pior experiência da minha vida. Durante algumas horas, achava que tinha sido raptado, porque a polícia estava à paisana e o carro era normal e a prisão era um bloco de cimento no meio da floresta, horrível. Acho que foi a única grande experiência da minha vida que eu tive que foi má. Mas vamos deixar isso para a curiosidade das pessoas que quiserem ler os meus livros, porque é um bocado longa.

Mas acabou bem?

Acabou bem porque estou aqui.

Pois. Não, acabou bem no sentido de não te magoaste.

Tive de pagar um suborno, infelizmente. E foi um bocado traumático, mas não foi traumático o suficiente para me fazer pensar em ir embora, nada disso. Mas foi algo que me custou um bocadinho. É como eu digo, foi talvez a única verdadeira má experiência que tive. Mas como sobrevivi, como não parti nenhum membro, valeu a pena.

Bom, a experiência extrema também foi a tua grande viagem 2014, 2015. Foste de Vale de Cambra até à África do Sul de bicicleta. São muitos quilómetros. Quantos quilómetros de viagem, Pedro? Sabes isso de cor?

Sim, fiz 15 mil de bicicleta e mil de boleia.

Quinze mil de bicicleta e mil de boleia. Eras um grande ciclista ou nem por isso?

Eu não era de todo um grande ciclista. Eu tinha 30 anos quando fui e o máximo que eu tinha feito na minha vida tinha sido 24 km num dia, quando eu tinha 15 anos, que foi Vale Cambra, São João da Madeira, São João da Madeira, Vale Cambra. Eu só aprendi a remendar uma câmara de ar em condições no Gabão, quase a meio da viagem.

No Gabão.

Porque eu sabia remendar e sabia que temos que lixar a câmara de ar e tudo mais, mas não sabia que quando pomos cola temos que a deixar secar por uns segundos e soprar. E isso faz uma diferença abismal.

Antes de colocar o remendo, não é? Porque senão o remendo escorrega e o furo não se remenda.

O que eu sofri lá, a sério. Quando eu estou no Gabão e estou ali quase a dar em doido e aparece um bom samaritano que me ajuda e eu vejo-o a soprar para a cola. E eu: "Porque é que estás a fazer isso?" Ele: "Assim cola melhor". E eu: "Ah, ok!" Mas eu gosto da cena de não ter muita experiência em algo.

Claro.

Por exemplo, na minha primeira viagem de boleia, nunca tinha andado à boleia, depois fiz 20 mil km de boleia. Nesta viagem de África também não tinha experiência nenhuma de bicicleta, depois fiz 15 mil. Gosto da ideia de ir assim.

Experimentar coisas novas. E quantos remendos estragaste até aprender a remendar o pneu de uma bicicleta no Gabão? Tens ideia? Não. Quantos atos falhados até ao Gabão?

Foram largas cenas. Eu conseguia na mesma, só que era muito difícil e tinha que esperar muito tempo, e muitas vezes não resultava à primeira. Foi uma dor de cabeça tremenda, mas pior que remendos era partir raios. Parti muitos raios.

Tens ideia de quantos?

50 vezes. Eu faço contas de quase tudo. Tenho uma tabelinha no Excel onde aponto essas coisas todas.

Ai é?

Mas não apontei os raios. Mas se eu tivesse que adivinhar, diria uns 50 ou 60.

Cinquenta raios de bicicleta. Olha, foi no Gabão, aparentemente foi nesse país que aprendeste a remendar convenientemente o pneu de uma bicicleta. Foi no Gabão que tiveste uma experiência, como é que eu vou dizer, psicótica. Participaste num ritual xamânico. Conta-me isso.

Eu manteria o prefixo do psico, mais para psicadélica do que psicótica.

Sim, psicadélica, era o que eu queria dizer.

Na medida em que não cheguei realmente a dissociar-me na realidade, simplesmente mergulhei nela de uma forma que eu não queria, não estava à espera. Eu fui parar a uma espécie de tribo, que não andava sempre vestida como quando nós pensamos numa tribo, mas que também se vestia dessa forma. Era uma família de 14 pessoas no meio da floresta. Foi a meio de uma viagem a caminho da República do Congo, em que eu fiz duas semanas precisamente pela floresta. E todos os dias eu pedia para acampar e as pessoas davam-me um quarto, que era espetacular. E nesta família, eles convidaram-me para uma cerimónia. E eu já tinha ouvido falar nesta cerimónia, só que quando eu tinha ouvido falar desta cerimónia, houve alguém que veio e disse: "Shh, não digas isso ao branco". Quer dizer, havia um certo secretismo à volta daquilo. Então quando me convidaram, obviamente que eu quis fazer parte O que aconteceu foi que eu fui falar com o chefe e dizer: "Olha, estou a fim de convidão pra cerimônia, não sei se é na boa ou não". E ele disse: "Claro". Tive sorte, o homem queria partilhar a sua cultura. E eu perguntei-lhe como é que se processava aquilo, e ele disse-me que há uma substância cujo nome científico é iboga, ibogaína. É uma raiz, e eles chamam madeira sagrada, bois sacré em francês. E o xamã come desta raiz, tem visões e é Deus a falar através dele. Ora, ele disse-me que eu não ia ver nada e eu disse a ele: "É pena, eu gostava de ver alguma coisa". Mas o que eu queria dizer com isto era pra ele me dar alguma dessa raiz. Mas o que ele pensou que eu queria dizer, foi que eu queria tomar o lugar dele como xamã. Não era isso o objetivo.

Foi um "lost in translation".

Total. E eu só me apercebi, imagina o que é eu estar numa roda de 14 pessoas, toda mundo come uma colher desta substância e eu não como nada. Eu pensei: "Bem, ele arrependeu-se, mas já estar aqui já é espetacular". O pessoal todo vestido de uma forma tribal, eu próprio também com indumentária tribal, uma coisa mesmo muito autêntica e genuína. Até que eles assomam e pintam-me todo de branco e eu começo a estranhar, porque eu era a única pessoa pintada de branco. Mas ok, vambora. E depois o chefe chama-me e eis que quando todos os outros 13 tinham comido 25% do prato, eu sozinho comi 75% do prato. Só aqui é que eu percebi: "Eu vou ser aquele cara". Ok. Eu já tinha visto imagens assim.

Mas o que pensaste na altura?

Na altura, eu pensei: "Vambora, agora também não há nada a fazer. Já estamos nisto, vamos ver no que é que isso vai dar". Eu há bocado disse que quando fui preso no Laje, foi a única verdadeiramente má experiência da minha vida. Esta experiência no Gabão ofereceu as piores 12 horas da minha vida.

Por quê?

Mas não foi a pior experiência da minha vida, porque no final eu retirei uma lição positiva. Porque durante meia hora o efeito foi agradável em mim.

Dessa tal ibogaína. Da raiz da iboga.

Exato. Durante meia hora tive ali uma leveza fixe e sentia-me bem. Mas depois, durante 11 horas e meia, ao longo dessas 11 horas e meia, tinha sempre a responsabilidade de ter visões, porque eu tinha um trabalho ali, era ser o xamã, e não podia escusar-me disso, ou não queria. Só que essas 11 horas e meia eram acompanhadas do maior desespero que eu sentira até então, porque eu infelizmente fui brindado com um pequeno poder de análise da vida, que é uma bênção e uma maldição também.

Era aí que eu queria chegar. Já percebemos que tiveste aquilo que se chama uma bad trip, foi?

Sim.

Mais ou menos.

Sim, foi mesmo isso.

Mas há muita gente que relata contactos com substâncias psicotrópicas como sendo uma experiência quase de introspeção. Passou-se contigo ou não?

Passou-se comigo a um nível que eu não queria que se tivesse passado. Hoje em dia, como está tudo bem, aquela experiência enriqueceu-me. E eu só posso falar em nome do iboga, não quero estar a teorizar sobre outras substâncias, mas o que aconteceu foi que eu, há um bocado estava a dizer que acho que tenho uma certa capacidade de análise da vida que me permite viver uma vida mais ou menos analisada, mas que também me permite viver em constante entendimento de que um dia eu vou ser nada. Um dia vou morrer, vou desaparecer, e isso é algo com o qual eu consigo lidar no meu dia a dia. Tenho ferramentas intelectuais pra isso, como a maior parte de nós. Não me deprimo, não ando a chorar pelos cantos, mas tenho pena que vá morrer. Durante aquelas 11 horas e meia, as ferramentas intelectuais que eu e nós temos, que me permitem lidar com a minha mortalidade, desapareceram todas. E eu era habitado por um buraco negro de emoção. Eu era feito de agonia e desespero perante o fato de que um dia, mais cedo ou mais tarde, eu vou desaparecer. Isto era muito duro. E eu não conseguia pensar em mais nada. E era como se eu visse toda a vida, esta vida que eu adoro.

E abateu-se sobre ti uma profunda angústia, é isso?

Uma profunda angústia, porque um dia vais desaparecer e é como se tudo fosse por nada. E eu senti uma falta de sentido. Eu, no meu dia a dia, realmente acredito que não há nenhum significado extrínseco, mas que eu crio o significado e crio o significado no bem-estar e nas relações interpessoais. Mas durante aquelas 11 horas e meia, eu não conseguia. E a vida era como se fosse nada. Não é assim que eu penso, mas foi muito duro por causa disso.

E o psicólogo Pedro, que análise é que faz dessa experiência com essa substância alucinogénia?

Pra mim, acabou por ser positivo. Eu tenho sempre o cuidado de dizer que isto não é algo que eu recomendo a qualquer pessoa, porque eu senti que joguei ali um bocadinho com a insanidade mental. Saí bem do meu outro lado e isso fortaleceu-me. Eu acho que o que acontece quando alguém morre, é que nós fazemos o luto da pessoa e seguimos em frente. E eu senti que o que aconteceu ali, naquelas 11 horas e meia ou 11, eu iniciei de certa forma um processo de luto de mim mesmo, porque eu tenho que mesmo aceitar que vou morrer pra depois poder seguir em frente.

Mas era uma verdade que tu não aceitavas até esse dia?

Eu aceitava, mas há uma certa dissonância cognitiva na medida em que uma pessoa aceita não aceitando Imagina tu perguntares a um jogador do Rio Ave se ele já aceitou que nunca vai jogar no Real Madrid. Imagina que ele tem 31 anos, ele se calhar aceita, mas não aceita. É um exemplo talvez um bocado estúpido, mas talvez ilustre aquilo que eu quero dizer. Eu já sabia que ia morrer e aceitava, porque não tinha outra opção.

Se calhar tinha a ver com a tua idade. Há quem diga que até aos 40 achamos que somos todos imortais.

É um bocado isso. E parece que eu vivo também, ainda agora não aceitei plenamente, aceitei só no domínio da consciência e daquilo que eu posso controlar, mas parece que inconscientemente penso: "Não, mas vai acontecer qualquer coisa, isto não vai ser bem assim. Afinal, somos produto de uma programação e eu vou conhecer o programador e depois ele vai mandar-me para outra simulação." Sei lá, qualquer coisa, mas eu sei que isso não é verdade. Eu tenho que aceitar que vou morrer, basicamente, e depois seguir em frente. Tendo dito isto, também acho que o profundo desagrado que eu tenho para com a morte me faz viver a vida mais intensamente. Portanto, é como se vivesse numa pequena corda bamba e não sei para qual lado é que hei de cair. Se devo aceitar totalmente que vou morrer ou se aceito parcialmente que vou morrer e guardo algum desagrado comigo mesmo para poder desfrutar mais a existência.

Se calhar o melhor é andar na corda. Assim nem para um lado, nem para o outro, vais em frente. Muito bem, Pedro, temos poucos minutos até ao final do programa. Vamos fazer check-out?

Vamos fazer check-out.

Vamos lá. Peço que completes as seguintes frases: na minha mala vai sempre...?

Vai sempre o meu computador, porque eu escrevo, mesmo que eu não vá editar um livro, escrevo sempre sobre as minhas viagens.

Também levaste o computador quando foste de bicicleta até à África do Sul?

Sim, levei.

Muito bem. O carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje foi?

Foi o de Angola. Tive que mostrar que tinha 6 mil dólares na conta, uma carta de convite autenticada no notariado em Luanda, registro criminal, uma data de coisas. Foi complicado.

A viagem com mais peripécias que realizei até hoje?

Foi a de Portugal à África do Sul de bicicleta, quando mais não seja porque durou muito tempo e então estava mais propício a isso.

A tal onde só no Gabão é que aprendeste realmente a consertar o furo da bicicleta.

Exatamente.

A refeição mais estranha que comi?

Estou a pensar em espetada de cobra no Camboja.

Então explica-me. Sabe a quê a espetada de cobra?

Não sabe a grande coisa, sabe a um peixe sem grande carne lá dentro. E acima de tudo tinha muita espinha. Também, se calhar, não era a melhor cobra para comer, imagino.

É uma refeição a repetir?

Não, porque eu infelizmente tornei-me vegetariano entretanto.

Ok, muito bem. Mas fora isso, é uma refeição a repetir?

Mesmo assim, não. Não gostei muito, porque não tinha realmente grande sabor.

Muito bem.

Por exemplo, uma coisa estranha da qual eu gostei foi barata.

Comeste barata?

Comi.

Onde?

Acho que foi na Tailândia. É bom, é estaladiço, tem um sabor porreiro, dependendo das especiarias que se lhe mete.

A recordação de viagem mais cara?

A recordação de viagem mais cara talvez seja um candeeiro que eu trouxe do Dubai, custou cerca de 100 €.

E gostavas de viajar com?

Gostava de viajar com o Sam Harris, talvez. Pensando assim de repente, é um filósofo que eu sigo e que aprecio muito, e adorava poder conversar com ele, e acho que estar em viagem com ele seria excelente.

E o que é que dirias ao Sam Harris?

Era mais o que eu lhe perguntava.

Qual era a primeira pergunta que farias ao Sam Harris, então?

Tem algumas intrincâncias, porque não sei o sexo de trabalho dele, mas eu confrontá-lo-ia com uma ou outra contradição na qual eu já o apanhei. Afinal de contas, ele é apenas humano. E ele é uma pessoa muito vocal contra as religiões, mas já o apanhei, por exemplo, a dizer que preferia receber refugiados yazidis porque são cristãos, logo é menos provável que sejam terroristas. E também já o apanhei a dizer que não julgaria ninguém por fazer parte de um grupo, então acho que ambas estas afirmações são contraditórias e eu confrontá-lo-ia com isso.

Muito bem. Pedro, o tempo passa a correr, podíamos ficar aqui horas. Que música escolheste para fechar o programa?

Eu escolhi "The Trip", do Steel Corners. Como o próprio nome indica, "The Trip" é uma música que envolve uma pequena viagem, começa com "time has come to go" e ouvindo a música dá mesmo para ter aquela onda de quem está num carro com a mazita de fora a sentir o vento.

Muito bem, vamos ouvi-la. Steel Corners com a música "The Trip" a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Pedro On the Road ou António Pedro Moreira, foi um prazer estar à conversa contigo.

Obrigado. Já agora, para quem ouviu e quiser conhecer os meus livros, pode conhecê-los em daquialí.com ou seguir-me no Instagram.

Muito bem. O "Conversas do Fim do Mundo" está de regresso na próxima semana. Até lá. Time has come to go. Pack your bags, hit the open road. Our hearts just won't die. It's the truth, keeps us alive. So many miles. So many miles. So many miles away. The falling sun burns alive. Tearing into the night. Watching you fall asleep. The sweetest death in a dream. So many miles. So many miles. So many miles away.

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