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Eu jantaria com Agostinho de Hipona no tempo da sua vida de vaça e depois no tempo em que já estava a deixar a vida de vaça e estava em conflito. Interessa-me o conflito interior.
E depois de, há dois anos, nos brindar com sua obra de estreia, "A Bvedeira de Kant e Outros 49 Episódios da História da Filosofia Para Pensar e Sorrir", eis que David Ehrlich, filósofo e professor luso-argentino, lança "21 Lições de Filosofia Para Viver uma Vida Quase Boa", onde nos convida a regressar à pergunta central da filosofia: como viver? De Sócrates a Montaigne, de Platão a Descartes, de Aristóteles a Nietzsche, de Epicuro a Wittgenstein, este livro mostra que a filosofia pode ser muito proveitosa para nos dar conselhos acerca de temas que preocupam qualquer pessoa hoje, como o luto, o amor, a amizade, o cansaço, a solidão, o ócio, a rotina, o sentido da vida. O que tem a dizer aquele que durante três anos letivos foi o mais jovem professor de filosofia na escola pública sobre o que significa viver bem num tempo de pressa, ruído e distração? Olá, David, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Mais uma vez, bem-vindo de volta a esta tua casa, que é o Observador.
Olá, muito obrigado. Estou muito feliz de estar aqui.
Tu és David.
David, claro. Há malta que diz "Deivid". É engraçado isso.
É porque é um estrangeiro, meio estrangeiro.
Sim, tenho dupla nacionalidade, sou filho de imigrantes.
Mas a tua mãe é David de apelido.
Eu adoro como esta conversa contigo vai diretamente a temas existenciais e psicanalíticos. É verdade, a minha mãe tem como apelido David. Tinha, a minha mãe já faleceu, mas a minha mãe, Lidia Elsa David, um apelido de origem francesa. No fundo, a minha genealogia dava um comitê da ONU.
Era uma ONU, exatamente.
Mas é engraçado perguntares-me se eu sou David.
Mas o teu primeiro nome é David.
O meu primeiro nome é David. No fundo, o meu primeiro nome é o apelido da minha mãe.
Podias ser David Oliva.
Sim, podia ser David Oliva, mas o meu pai preferiu passar-me Ehrlich. Até porque na cultura argentina não é comum passar-se o apelido da mãe.
Não, como em Espanha.
Sim, exatamente. E as pessoas tendem a ter menos nomes e, portanto, em vez de passar o apelido da mãe como acrescento, já que o apelido da mãe era David, decidiram dar-me esse nome. E quiçá com outras simbologias que o inconsciente familiar explicaria. Mas é engraçado perguntares-me se o meu nome é David, porque há malta que me chama David e na aba do livro, que tem sempre estas biografias pomposas, além de fazer as atualizações necessárias relativas à vida que decorreu desde "A Bvedeira de Kant", eu coloquei "nascido em Lisboa".
À resfaca de Kant.
Exatamente. Porque houve malta que veio ter comigo muito surpreendida com o meu primeiro livro, "A Bvedeira de Kant", na mão, a dizer: "Então, mas tu és português? Não sabia, David Ehrlich, pensei que isto era uma obra traduzida". E de facto, na minha biografia-
Quem lê é David Ehrlich. Quem lê é assim à primeira vista.
É isso. E na biografia de "A Bvedeira de Kant" não estava que eu nasci em Lisboa, porque pra mim é autoevidente. Eu sou português, portanto aqui senti necessidade de colocar.
Pelo nome não é nada.
Exatamente. Não, o meu nome.
Sabes que a minha primeira dúvida foi isso. Eu disse mesmo à Planeta: "Olha, gostava imenso de ter a conversa com este autor, mas ele de que língua é que ele fala?" Eles disseram: "Qual autor de que língua ele fala? Ele nasceu em Lisboa." A sério.
Adoro. Mas é normal.
A tua irmã Marina, que vive lá em Ashkelon, e o Miguel, teu sobrinho, o violonista, eles moram lá em Israel?
Não, a minha irmã mora em Israel, mora em Ashkelon. O meu sobrinho vive em Berlim, onde desenvolve exatamente a sua carreira de violonista. Quero confirmar aqui o nome, mas ele recentemente até se juntou a um grupo de música de câmara, dá-me só um instante que eu quero estar certo. O conjunto Viatores Quartet, e portanto recentemente o meu sobrinho Miguel Ehrlich.
Toca viola lá?
Exatamente. Ele chegou a tocar violino numa etapa inicial da sua carreira enquanto estudante de música e há já bastantes anos passou para a viola de arco.
Ele é novinho.
Ele é sete anos mais novo do que eu.
Está bem, então é adulto.
Pois, o tempo vai passando. Já é cada vez menos miúdo. Eu tenho 36. O meu sobrinho tem 30 anos, estou-me a sentir velho. Esta conversa acabou, muito obrigado.
Gostei muito de passar por aqui.
Faz um monólogo sobre o meu livro, eu vou-me embora.
O que a tua irmã pensa desta situação toda? É muito atacada ou vive com muito medo? Israel e toda esta situação complicada do país dela.
Essa é uma bela questão. Eu não posso ser porta-voz do pensamento.
Mas tu vê-la triste, vê-la desagradada com o que se passa?
Eu não posso ser porta-voz do pensamento da minha irmã. Posso dizer que-
Preocupa-te?
Obviamente que me preocupa. No ataque do dia 7 de outubro, um rocket atingiu o piso debaixo de onde vive a minha irmã.
Não sabia.
Eu tenho até uma fotografia, depois posso mostrar, mas o edifício onde vive a minha irmã, literalmente o piso abaixo do seu apartamento recebeu um rocket em que o andar ficou desfeito. Felizmente, o risco de vida é reduzido, porque há todo um sistema de proteção da vida civil, há todo um sistema de bunkers, há todo um sistema de alertas.
E portanto, foi acalcada.
Foi uma situação-
Mas é um coração nas mãos que tu vives todos os dias.
Agora menos, mas naquele tempo, sim. Naquele tempo foram tempos duros, foram tempos exigentes, foram tempos de temer permanentemente pela sua vida. E foram tempos também deAlguma surpresa sobre como por vezes se conta apenas um lado da história. E esta é a minha perspectiva.
Já estamos na filosofia, a verdade.
Do mesmo modo como nós não podemos simplificar e dizer que o 7 de outubro justifica todos os excessos militares que aconteceram em Gaza e justifica todas as mortes civis, e do mesmo modo que o 7 de outubro não pode ser utilizado para justificar, não tanto a guerra, porque a meu ver uma guerra contra uma entidade terrorista é uma guerra justa, mas o modo como ela foi feita. E do mesmo modo como a defesa da existência do Estado de Israel não pode justificar aquilo que se faz nos colonatos. De modo inverso, a legítima defesa da causa palestiniana, a legítima defesa da solução de dois Estados, não pode justificar um discurso contra a vida de todo e qualquer israelita. E esta é uma verdade que tem de ser dita, que é: tal como existem vários sionismos, um sionismo não expansionista, um sionismo que defende a mera existência do Estado de Israel, até um sionismo que pretende a regressão das fronteiras do Estado de Israel em 1948, e depois também existe sionismo expansionista, sionismo radical, existem sionismos seculares, sionismos religiosos. A verdade é que também existem várias fações dentro do movimento pró-palestiniano. E uma das fações, e há que dizê-lo sem rodeios, grita "from the river to the sea", e uma das fações tem uma visão eliminacionista relativamente ao Estado de Israel, ou seja, mais do que defender a existência de dois Estados, como eu inequivocamente defendo, uma parte do movimento pró-palestiniano mais radical não defende apenas o direito da Palestina a existir, defende que Israel nunca devia ter existido.
À aniquilação.
Sim. Isto pode ter a ver com uma aproximação filosófica, porque, a meu ver, e isto talvez me coloque de modo mais distante de malta mais próximo da tradição continental ou mais próximo de uma tradição da filosofia muito essencialista ou mais próximo daquilo a que se costuma chamar a teoria crítica. A meu ver, o verdadeiro pensamento crítico, que é importante para a filosofia, é aproximar-nos dos dados sem amarras prévias e sopesar as razões de um lado e do outro, sopesar, analisar a evidência disponível e formular um juízo o mais imparcial possível. Ora, a verdade é que o ambiente de tiktokização que vigora na atualidade, em que tudo é sintetizado em vídeos de 20 ou 30 segundos, que quanto mais zangados sejam estes vídeos, mais têm a nossa atenção, gera que, por exemplo, relativamente ao conflito israelo-palestiniano, têm muito sucesso influencers da linhadura do pró-israelismo, que rejeitam que haja vítimas civis excessivas, rejeitam que hajam crimes de guerra e defendem tudo o que de mais nefasto Netanyahu faz, mas também existem, do outro lado, influencers pró-palestinianos que saúdam o Hamas, que têm visões sobre o Estado de Israel muito similares à do Hamas e que no fundo resumem tudo a uma história de bons e maus, em que os israelitas são os maus e os palestinianos são os bons.
Maniqueísmo.
Sim, é isso. Eu diria que nem Israel é a fonte do puro bem e todos os palestinianos são a encarnação do mal, nem Israel é a encarnação moderna do mal e os palestinianos são uma espécie de entidade sacrossanta. E a filosofia, ao meu ver, hoje entendida como ofício da via intermédia que Aristóteles nos transmitiu, também aqui podemos ser mais pragmáticos e aristotélicos do que essencialistas platônicos, e eu sou mais aristotélico do que platônico, também aqui filosofar pode ser importante para recusarmos visões reducionistas da realidade.
Para o pensamento crítico, afinal. Que é isso mesmo.
Sim, é isso mesmo.
É o mais importante para mim. Muitas vezes estas ideias, David, têm muito a ver com falta de informação. As pessoas não sabem, depois não podem julgar, mandam umas bocas porque ouviram umas coisas no X ou no TikTok, como tu estás a dizer, e depois acham que têm a razão toda e aquilo passa a ser a visão deles, quando não são muitas vezes bem informadas e, portanto, demonizam uns, santificam outros. E não é assim, as coisas não são assim, nem de um lado nem de outro.
É isso mesmo. No meu livro, numa das lições, falo da diferença entre razões várias e várias razões. E nós podemos usar a internet de um modo que é sedutor e perigoso, que é definir o nosso ponto de vista à partida e depois procurar de forma afunilada várias razões para defender aquilo que já defendíamos. E a internet, assim usada, torna-se um mecanismo de fechamento do próprio pensamento naquilo que já cria à partida. Pelo contrário, nós podemos usar a internet para pesquisar fontes de vários quadrantes ideológicos, para pesquisar fontes de pensadores diversos, de ângulos diversos, e em vez de fazer o trabalho das várias razões, ou seja, defender com unhas e dentes, ao máximo, a minha tese, procurar as razões várias, que é as razões que há de um lado e do outro. Isso pode levar a uma certa moderação na tradição do David Hume. David Hume era um cético moderado, que dizia que um ceticismo moderado não é uma ideia radical de que nada podemos escolher, nada podemos fazer, mas sim uma ideia de que a mais autêntica das verdades está distante, pode reduzir o dogmatismo. Esta ligação entre um certo ceticismo no sentido positivo da palavra, uma certa ideia de que eu não tenho a verdade derradeira e um certo travão no dogmatismo e, portanto, uma despolarização, parece-me interessante e é um dos lugares da filosofia através de David Hume.
Abre-te os horizontes também e permite esse diálogo saudável, essa discussão que é importante. Falámos da outra vez que vieste cá, deste teu fascínio da filosofia, de onde vinha e tal. Qual é, no teu ponto de vista, agora uma pergunta um bocado genéricaO filósofo mais sobrevalorizado da história.
Essa é uma bela pergunta. Eu diria, e ao dizê-lo, o meu mentor, professor e amigo Santiago Kovadloff estaria em desacordo, e acho que é o tópico que mais nos divide. Eu diria que o filósofo mais sobrevalorizado da história é Martin Heidegger. Eu já o li, já li "O Ser e o Tempo", e parece-me que há dois tipos de escrita convoluta. Há aquela escrita convoluta que quando tu tentas dar conta do que está por baixo, até há uma mensagem muito interessante. Uma escrita convoluta ou uma escrita complexa, porque o que está a ser dito é complexo, ou uma escrita convoluta pelo próprio culto da complexidade linguística. E a mim Heidegger parece-me estar mais nesta segunda linha. Isso por um lado. Por outro lado, eu não defendo que devamos julgar a obra pelo que o autor fez e oponho-me ao wokeismo radical, na medida em que eu acho que nós podemos ouvir. O Kanye West já pediu desculpas, já se retratou e parece haver questões de saúde mental, mas podíamos ouvir Kanye West quando ele ainda não se tinha retratado dos seus comentários antissemitas, sem ser antissemitas. Podemos ler Jorge Luis Borges sem ser racistas.
Ou Celine, como diz o Rui Conceição.
Exatamente.
É mal visto por todo lado, nazi, mas tem livros maravilhosos.
Podemos lê-los. Porque senão, retrospectivamente, quase não tínhamos autores.
Por isso hoje assistimos a livros a serem cancelados ainda hoje, nos Estados Unidos, sobretudo hoje, nos Estados Unidos.
Sim, e é uma pulsão censória que vem dos dois lados e eu abordo isso no meu livro. No Heidegger, eu não estou certo de que não haja uma ligação. Isto é apenas uma hipótese, os heideggerianos não fiquem demasiado revoltados comigo. Mas eu não estou certo de que o nazismo em Heidegger seja completamente acidental à sua filosofia, porque estas filosofias continentais, muito assentes numa espécie de relação do eu consigo próprio, numa espécie de ontologia do eu. É verdade, depois ele fala do ser no mundo, mas que começam por uma visão do eu consigo próprio, e que colocam como que a existência antes de qualquer essência, nomeadamente essências judaico-cristãs, como o amor ao próximo, não sei se não têm o perigo de não serem críticas o suficiente de totalitarismos. É uma questão que eu gostaria de investigar um dia, mas é apenas uma hipótese, sublinho, isto é mesmo uma hipótese, porque do outro lado, nós no fundo quando falamos do existencialismo, Heidegger nunca se intitulou existencialista, mas em muitos volumes aparece como um autor existencialista. E depois temos o existencialista que realmente se intitulou existencialista, que era Sartre, e Sartre apoiou muitas ditaduras de inspiração comunista. Eu não sei se é acidental ou se há uma relação possível em relação ao facto de os dois autores maiores do existencialismo, o existencialismo propriamente dito do Sartre e uma espécie de ontologia existencial do Heidegger, terem sido nomes que apoiaram os totalitarismos, respetivamente de esquerda e de direita no século XX. Não sei se, por exemplo, filosofias mais práticas, mais amigas do social, como na linha britânica, mais amigas do empirismo, toda a filosofia, toda a tradição liberal britânica. Não sei se também não é acidental que todo o empirismo, excetuando quiçá Hobbes, seja mais amigo da democracia liberal e de uma relação livre e fraterna de uns com os outros. Mas isto fica para pensar e para discutir.
São pistas. Qual é, para ti, o filósofo mais injustamente esquecido?
Essa é uma bela questão.
Mas não desenvolvais muito. Diz só quem é.
O filósofo mais-
Um filósofo que seja esquecido injustamente, porque merecia ter mais destaque e não se fala dele, está muito apagado.
Deixa-me pensar sobre isso cinco segundos.
E quando pensas também, que filósofo é que convidavas para jantar?
Um filósofo esquecido. Lembrei-me assim de repente em associação automática. Ele não é bem um filósofo.
Ok.
Mas ele legou-nos escritos muito interessantes, menos densos que os de Platão. Mas nós quando falamos dos diálogos socráticos, falamos sempre dos diálogos escritos por Platão.
Mas é Sócrates.
Claro, mas os diálogos socráticos eram um género literário.
O Sócrates não escreveu nada.
O Sócrates não escreveu nada, mas muitos autores na altura escreveram diálogos socráticos. O diálogo socrático era um género literário. A seguir à sua morte, muitos autores escreveram diálogos em que Sócrates era a personagem principal. E nós não temos hoje em dia, apenas os de Platão restaram até os dias de hoje, sobreviveram. Também os de Xenofonte e os diálogos socráticos de Xenofonte, muitas vezes não sabemos que existem, nem sequer são estudados, nem sequer são lidos. É verdade que têm menos profundidade filosófica, são mais uma espécie de retrato de virtudes morais. E Xenofonte nem sequer é um filósofo, era um general, era um militar, mas diria que é um autor esquecido, porque também ele nos legou algo sobre Sócrates. Exatamente, e não apenas Platão.
Convidavas algum para jantar, algum desses todos que tu estudaste, o que é que tu dizias? Adorava jantar com o...?
Eu adorava jantar, também assim em modo associação automática, adorava jantar duas vezes com o mesmo filósofoQue era o Agostinho de Hipona da juventude.
Isso é o Santo Agostinho?
Sim, Santo Agostinho.
Enquanto era grande pecador?
Exatamente.
Da vida devassa? Até a conversão, até às confissões.
Sim, o Agostinho de Hipona da vida devassa.
Que era muito moreno, quase negro, senão negro mesmo.
Sim, o Agostinho de Hipona era africano.
Porque era do Norte África.
Sim, era do Norte de África.
Era pesteando de raça.
É isso.
É muito engraçado, quando vê às vezes um santo negro numa igreja, e em certas igrejas é Santo Agostinho, as pessoas pensam: "Santo Agostinho? Mas não é o que a gente estava a pensar."
Claro, nós ocidentalizamos a ideia de Santo Agostinho, esquecendo que o Ocidente, esta ideia do Ocidente, esta bela ideia do Ocidente, que hoje em dia tantas vezes é atacada, é uma ideia que vai para lá da fronteira territorial. E Santo Agostinho nasceu no Norte da África, nasceu em Tagaste, depois foi bispo de Hipona, ali perto da actual Líbia, se não me engano. Ora, eu jantaria com Agostinho de Hipona no tempo da sua vida devassa e depois no tempo em que já estava a deixar a vida devassa e estava em conflito. Interessa-me o conflito interior.
No caso deve ser um jantar fascinante.
Sim, mesmo não sendo cristão, não sendo religioso, interessa-me isto, o conflito interior. Porque uma das maneiras de caracterizar a nossa espécie seria como a única espécie cujos indivíduos são duplos. Cada um de nós é um diálogo consigo próprio. E é por isso que há filosofia, é por isso que há conflito interior e basicamente as confissões de Santo Agostinho são isso. E interessar-me-ia jantar com ele nestas duas fases da vida.
Muito bem, David Herlitz, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa, até já. Estamos a conversar com David Herlitz. Ele é filósofo e professor que nos traz o seu segundo livro, "21 Lições de Filosofia Para Viver uma Vida Quase Boa", onde nos convida a pensar em como viver bem num tempo de pressa, ruído e distração. O que dizem os filósofos antigos acerca de temas que preocupam qualquer pessoa hoje, como o luto, o amor, a amizade, a solidão, a rotina, o sentido da vida? Estava aqui a pensar, agora de repente veio-me uma dúvida à cabeça: o que é mais perigoso, pensar pouco, não pensar, ou pensar mal?
Essa é uma bela questão. Se nós tivermos uma concepção meramente descritiva de pensamento, ou seja, se pensamento é atividade cerebral, se tivermos uma concepção não valorativa de pensamento, isto é algo que é interessante para a filosofia. Já vou chegar ao ponto, mas por exemplo, em teoria de arte, distingue-se a palavra arte no sentido apreciativo, "aquela jugada é uma obra de arte", da palavra arte no sentido classificativo, "olha, isto não é um móvel, isto é uma obra de arte, boa ou má". Então, se nós usarmos a palavra pensar, o verbo pensar, num sentido não apreciativo, apenas num sentido classificativo, como uma atividade cerebral de ligação conceptual. Ou seja, algo que acontece no cérebro e na mente, de ligação de conceitos uns aos outros. A verdade é que pensar mal pode ser mais perigoso do que não pensar. Mas eu quero ser bem compreendido quanto a isto. Não estou aqui a falar do erro, estou a falar, por exemplo, da concepção de totalitarismos. Ou seja, Hitler teve de pensar muito para escrever o "Mein Kampf". Normalmente as pessoas que se radicalizam, por exemplo, as pessoas que agora se radicalizaram com o Covid.
Vacinacionistas e anti-vacinas.
Sim, e algumas delas, como o Gustavo Santos, que a Joana Marques tão bem satiriza, parece que o Covid marcou um antes e o depois. Muitas destas pessoas que se radicalizam estão o dia inteiro a pensar, estão o dia inteiro a pesquisar, estão o dia inteiro a fazer, aqui estou a fazer aquele sinal de aspas com as mãos, as suas pesquisas.
Daí pensar mal, pensar muito, mas não quer dizer que seja bom.
O pensamento radicalizado é muitas vezes um pensamento insistente, feito com pouco rigor, mas com muita insistência e com muita intensidade.
Isto é um tema que te apaixona muito, és tu e a Arendt, a questão dos totalitarismos, e tu distingues muito bem isso. Uma coisa é ditadura, não é igual a totalitarismo. Totalitarismo, tu dizes, tens que ser ferranho da ideia deles. Ditadura pode dizer não pensas nisso, não escreves isso, apaga o livro.
Sim, eu aí subscrevo a tese da Hannah Arendt, que até tive a oportunidade de trabalhar sobre o pensamento dela num curso que eu oriento no âmbito cultural do Acordo de Inglês, que é um curso de sociopolíticaE tenho tido a oportunidade, cada vez que oriento esse curso, eu estudo. Um dos motivos pelos quais eu adoro ser professor.
Como fizeste as três opções do pensamento e do ensinamento.
Tu sabes onde vive a minha irmã, o que é que faz o meu sobrinho. Esse curso das três opções do pensamento, o mais engraçado é que esse curso das três opções do pensamento só foi feito uma vez no âmbito cultural do Porto. O curso que eu mais oriento é o da pólis entre 10 filósofos e de filosofia política, é o curso que eu mais oriento. Tu até sabes o nome do curso que eu só orientei uma vez. Isso é incrível.
Não foi escondido.
Tu sabes mais de mim do que a minha psicanalista. Tu andas a contactar com a minha psicanalista?
Perguntei-lhe sobre tu.
Mas deixa-me voltar a esta questão, já que falamos de Arendt. A tua questão é muito interessante.
O totalitarismo é um tema que te diz muito.
A montante, esta questão do pensar mal ou pensar pouco. Por um lado, o pensar mal pode ser mais perigoso que o pensar pouco, porque o pensar pouco pode levar a um certo conformismo, um nada fazer, ou seja, nem fazer bem, nem fazer mal. E o pensar mal pode levar a uma espécie de espiral de ideias radicalizadas.
A um extremismo.
Eu acho que aqui nós agora temos que trazer a ideia do contexto, porque não pensar quando o contexto é pacífico, quando as liberdades estão garantidas, quando ninguém nos vai bater à porta a dizer: "Denuncie o seu vizinho, torture este cidadão". Nós podemos passar pela vida e não ter impacto, positivo e negativo. A mim parece-me que não pensar também é bastante perigoso. A Arendt valoriza isso, sobretudo em sistemas que obrigam o indivíduo a fazer algo de errado. E para tentar sintetizar, porque a tua pergunta realmente fez-me pensar. Eu acho que em termos de construção de um sistema de ideias radicalizado, pensar mal e com suposta profundidade é mais perigoso do que pensar pouco. Em termos de obediência a um sistema radicalizado já instituído, pensar pouco pode ser mais perigoso do que pensar mal. Porque aqui estamos a falar de um pensar para construir o sistema de ideias radicalizado e polarizado, ou se estamos a falar de um pensar já dentro desse sistema. É uma pergunta interessante.
Boa.
E isto é só uma hipótese. Não creio que tenha chegado aqui a uma conclusão definitiva.
Sim, fica em aberto. É engraçado porque estas 21 lições de filosofia, tu tens aqui temas como identidade, a morte, o sentido, o prazer, a liberdade, o corpo, o espanto, gostei imenso deste do espanto. Amor, felicidade, empatia, amizade, ócio, muito interessante. Rotina, arte, solitude, muito bem. E eu pensei: aqui temos também que merecem ver outro livro chamado "Mais 21 lições" ou "Mais 20" ou "Mais 15 lições". Estava a pensar aqui coisas. Por exemplo, este tratar do totalitarismo, da ditadura política, era um ótimo tema para teres trazido aqui. Paternidade, maternidade, era um ótimo tema para teres aqui. Dinheiro. Isto é, cruzando a filosofia antiga e o que dizem os filósofos com essas coisas do dia a dia, porque isto preocupa as pessoas. O trabalho, o emprego, redes sociais, a escola, saúde e a doença, a ficção e as histórias. Ficção e histórias era giro.
É verdade, tens razão.
Religião, guerras, silêncio, verdade. Há imensas coisas que tu podias pegar aqui e tu pensas: "Que engraçado". Há filósofos que vão na linha de outra pélvia, por exemplo.
Os temas seriam quase inesgotáveis.
Claro que sim, são maravilhosos.
Eu tive de fechar o livro.
Ficaste com uns de fora?
Eu tive de fechar o livro com os temas sobre os quais eu podia escrever algo em tempo útil. Ou seja, há temas que acabaram por ficar de fora. Eu dou-te o exemplo de um que eu cheguei a pensar escrever sobre ele, mas que uma limitação de tempo e também de conhecimento meu. Ou seja, eu para me sentir à vontade para escrever sobre o tema.
Porque cada um é muito investigado, tens imensas citações.
Sim, ou seja, este livro resulta em parte.
Nota-se, dá um trabalho insano.
E ainda dás a tua nota, muito importante, do humor, que é uma ferramenta que tu usas muito bem, e é muito importante num tema que pode ser pesado como este, ou denso. E usas o humor para ligeirar, tens aqui umas historinhas no meio dessas explicações que são hilariantes e que aliviam muito o ambiente, mas ao mesmo tempo continuamos a aprender coisas muito interessantes. Eu fico feliz que aches isso.
E tens muitas citações, tens muitos filósofos.
O humor é-
É uma ferramenta importantíssima pra ti
Mais do que uma ferramenta. É uma ferramenta pra mim, mas é também o meu modo de habitar o mundo. A mim fascina-me este triplo milagre.
E é sinal de inteligência. É verdade, sabes por quê?
Acredito que sim. Embora às vezes o meu humor é muito parvo.
O que é essa tripla realidade que estavas a falar?
O triplo milagre, que é o milagre de existirmos, o milagre da existência da vida. É fascinante. Nós olhamos pra trás no universo e é fascinante que exista vida. Depois é muito fascinante que exista vida autoconsciente. Nós, quiçá num grau bastante reduzido, outros seres vivos do reino animal. E finalmente, e isto parece-me ser especificamente humano, a autoconsciência que se ri de si própria, que se ri do que lhe acontece, que se ri à sua volta. Porque rirnos, por exemplo, de cócegas, é um fenômeno puramente físico. Rirnos de comédia física já é um nível maior, ou seja, é um passo adicional na abstração. Agora, rirnos de ideiasO stand-up é um milagre. A malta que faz stand-up está a encarnar um milagre, eles estão a chegar ao terceiro nível do milagre da vida: o milagre da vida, o milagre da vida autoconsciente e o milagre da vida que se ri de si própria. Relativamente aos temas, um tema que ficou de fora era o sono. Interessar-me-ia ter escrito sobre o sono, mas precisaria de mais tempo para isso e mais estudo. Outros temas, para mim acabou por não fazer sentido autonomizar. Por exemplo, na lição sobre o corpo, eu penso que estão reflexões sobre a saúde. Na lição sobre empatia, eu falo do que é a empatia na arena política e da necessidade de despolarização.
Capacidade de escuta. Falas aí. É tão importante isto.
Sim, de nos ouvirmos uns aos outros e de podermos bater uns com os outros e pegando no que tu disseste há bocado. E critico aí as pulsões sensórias que vêm não apenas do ultraconservadorismo, do qual não surpreende as pulsões sensórias. A nós não nos surpreendeu que um sketch da Porta dos Fundos a satirizar Jesus Cristo tivesse uma pulsão sensória dos ultraconservadores. Agora, não esqueçamos que a pulsão sensória recentemente também vem de outro setor. Não esqueçamos Leo Lins no Brasil. E então eu falo disso na empatia. No capítulo sobre a liberdade, falo do livre-arbítrio, mas também tenho todo um capítulo sobre liberdade de expressão. Repara, no capítulo sobre equidade, falo da ideia da lotaria social e da lotaria natural como a ideia de não te gabes demasiado daquilo que conseguiste.
Não cancelem retroativamente o meu amor a isto.
É verdade. A política não tem um capítulo autónomo, mas há reflexões políticas, não partidárias, mas políticas, ao longo do livro. De saúde não há algo direto, mas no capítulo sobre o corpo ou de saúde mental.
Hiperiotização, falas disso.
Exatamente. Ou no capítulo da solitude sobre a saúde mental e o estar conosco próprios. Portanto, tens razão. Há temas que podiam ter estado autonomizados, mas estão tratados no livro dispersamente dentro destas lições. E há outros temas, por exemplo, o mistério do sono. A mim fascina-me o mistério do sono. Eu durmo pequenas sestas, eu sou um acólito das power naps. Eu durmo no mínimo uma sesta de 10, 15 minutos por dia, às vezes até duas ou três.
Acordas sozinho de madrugada.
Não, ponho o despertador, mas eu dormecendo dois ou três minutos, ponho.
És tu e Napoleão, que conseguia dormir sestas de 10 minutos antes de uma batalha. Como é que isso é possível?
Sim, o Ronaldo também, os Navy Seals.
Tenho um grande amigo meu padre que também faz isso. Ia à paróquia com ele, o António Vaz Pinto. "Vamos agora, partindo daqui a um quarto hora." Ele também: "Vou só dormir 10 minutos no meu escritório." E dormia 10 minutos e acordava fresco como alface.
Que maravilha!
Como é que é possível?
Eu vou fundar uma associação que é a Associação da Promoção da Power Nap, APPN.
APPN.
APPN. Por quê? Porque sabes que há resistência cultural. Eu agora, já nos últimos quatro anos, já não tenho vergonha nenhuma. Eu durmo estas sestas desde os 26, mais ou menos há 10 anos. E no início com algum tabu. Eu agora dormia sestas clandestinas. Só algumas funcionárias da escola que sabiam que eu estava a dormir na biblioteca, no intervalo de almoço, em que a biblioteca fecha, o professor David está a nos faz. Eu agora já não tenho vergonha nenhuma. Mas é engraçado, se tu dizes assim: "Olha, eu vou ali fumar um cigarro, já me junto a vocês." Está tudo bem. "Vou ali fazer uma chamada." Está tudo bem. "Olha, eu vou ali dormir 10 minutos no carro." A malta: "É pá!" A malta está com surpresa. Isto para dizer o quê? Para dizer que eu durmo pequenas sestas. E eu nesses 10 minutos, eu sonho. É fascinante. Mas são micro sonhos.
E lembras-te sempre?
Lembro muito pouco. Lembro apenas de imagens. Surge uma imagem. Às vezes consigo interpretar, são imagens relacionadas com coisas que aconteceram de manhã ou com preocupações que me estão a habitar e faço uma autoanálise. Outras vezes não, outras vezes acordo com: "Estava com uma imagem muito bela", mas não me lembro qual é que é. A mim fascina-me o tema do sono, a relação do sono com a criatividade. E da altura eu queria ter escrito, por exemplo, um capítulo sobre o sono e pensei: "Bom, eu para escrever um capítulo sobre o sono, o livro vai ter de ser seis meses mais tarde." E a editora, a Planeta já estava: "David, grande respeito pela tua liberdade criativa, mas o livro já devia estar aqui do nosso lado."
Há uma coisa muito curiosa, porque foi o teu lançamento deste "21 Lições de Filosofia", dia 28, no El Corte Inglês, a Catarina Barosa, uma das que lançou o livro, é deste festival Espanto, Festival Internacional de Filosofia, chamado Espanto. A segunda edição vai decorrer agora de 13 a 28 de junho, aqui na Casa das Histórias de Paulo Rego, onde tu vais estar.
É verdade.
É muito importante haver um festival com a ambição de retirar a filosofia do espaço académico, aproximar da sociedade. O tema do ano passado foi o medo. Não, vai ser o medo este ano. O do passado foi o desejo?
Não, é ao contrário. Foi medo o ano passado.
E este ano é que é o desejo?
Sim. Ainda bem que tu cometes alguns enganos, porque eu começava a achar que a tua preparação para a entrevista já era no plano paradigmático, no plano das ideias platônicas.
Eu aprendo imenso. Continuo a aprender contigo.
Sim. Foi o medo o ano passado e vai ser o desejo este ano.
Acho uma ideia giríssima e é a tua cara.
Envio o meu props, utilizando aqui uma linguagem jovem, envio props para a Catarina Barosa. Excelente ideia que ela teve de fundar o Festival Espanto. Super grato por me ter aberto a porta, por contar comigo.
Nesta ocasião haveria o seu irmão Marcos, que vai se fazer lá.
Exatamente. E é um momento muito beloO ano passado, curiosamente, eu acabei por ficar com FOMO, fear of missing out, porque eu fui convidado do festival, estive a dar uma palestra baseada no meu primeiro livro, "A Bedeira de Kant para Jovens". Só que estava no meio das avaliações escolares, estava com turmas do décimo, então acabei por não conseguir participar naquele mundo, porque estava superaterrefato com avaliações escolares. Este ano acho que o festival é um pouquinho mais tarde, não tenho a certeza, mas eu estou a acabar o ano letivo um pouquinho mais cedo.
A 28 de Junho.
Sim, e estou com turmas de 11º ano e 12º, portanto o ano letivo acabou mais cedo. Vou poder participar nas atividades como espectador e vou lá estar, como tu disseste, e aproveito para divulgar. Ou seja, vou lá estar no dia 13 de junho.
É quando abre.
Exatamente. Vou estar logo a seguir à sessão de abertura, às 11h00, com uma palestra baseada num capítulo aqui do meu livro sobre o desejo e a esperança.
Deste novo.
Exatamente. A minha palestra vai estar baseada, mas não limitada ao capítulo 18 do meu livro sobre a esperança: "Observa com perspicácia". O meu livro, como sabes, cada lição tem um título: amor, felicidade, empatia, e um repto. E o da esperança é observa com perspicácia.
Agora o da amizade, que é: responda à chamada do amigo.
Exatamente.
Gosto imenso.
Nem sempre. Porque às vezes temos esta ideia: "Ok, vou devolver a chamada, criar o tempo certo". Andamos às vezes com uma espécie de alergia às chamadas. Já vi num artigo que há uma geração mais abaixo que a nossa que já não gosta de chamadas sem aviso, gosta que haja uma mensagem prévia a avisar que se vai ligar. Mas vou estar no dia 13 de junho, às 11h00, no Bairro Novo do Pinhal Galiza, em Cascais, com uma palestra sobre desejo e esperança. Apareçam.
Na Feira do Livro vais estar quando?
Na Feira do Livro de Lisboa vou estar no dia a seguir, 14 de junho, às 18h00, no stand da Planeta.
A assinar os teus livros.
A assinar os meus livros, se as pessoas aparecerem, senão vou estar a ver as pessoas passar e a ver a fila crescer. Também não é mau, de caipirinha na mão.
Última pergunta e rápida: quem é o Fálic Ehrlich?
O Fálic-
É uma criança, irmão teu avô, alguém assim?
É uma bela pergunta.
Porque o livro está dedicado a ele.
É uma bela pergunta.
Se é rápido.
Muito rápido. O Fálic Ehrlich é um dos quatro mortos na Shoah, no Holocausto, da primeira família do meu avô. O meu avô, Rubino, pai do meu pai, emigrou para a Argentina e deixou a sua mulher e dois filhos numa localidade, Koval, que então era Polónia, e planeava depois levá-los para a Argentina, mas nunca conseguiu. A primeira mulher do meu avô, Eva, e os seus dois filhos, Tamara e Fálic, bem como um irmão do meu avô chamado Isaac, foram mortos prévios aos campos de concentração, numa execução naquelas execuções que se fazia dos guetos, às vezes até em florestas próximas. Eu, na "Bedeira de Kant", dediquei o livro à Tamara, à Eva e ao Isaac e ainda não tinha descoberto o nome desta criança. E entretanto concluí as minhas investigações. Foi importante para mim, em termos de pacificação, dar nome e concluí esta investigação e descobri o nome que faltava: Fálic Ehrlich. E portanto, homenageio a memória.
Uma criança que até há pouco tempo era desconhecida e agora finalmente conseguiste nomeá-la.
Consegui dar-lhe o nome.
E fechar esse ciclo.
E com isso homenageá-la.
E assim também temos que fechar aqui este ciclo, porque o tempo não perdoa.
Sempre um gosto de conversar contigo. Muito obrigado.
Muito obrigado. Simpatia tua, David. "Ehrlich", já sabe, "21 Lições de Filosofia", uma edição Planeta. Tudo para uma vida quase boa. É só este quase que dá outro programa, numa próxima ocasião. Muito obrigado por teres vindo.
Um abraço.