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Começa agora mais um Directo ao Assunto das manhãs 360. Ao telefone temos já o nosso convidado, é o fundador e director-geral da Everything Is New, Álvaro Covões. Bom dia e muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Bom dia, obrigado pelo convite também.

O Álvaro Covões e a sua promotora são os responsáveis por grandes festivais de música e por trazer a Portugal grandes artistas internacionais. À data de hoje, com a pandemia de Covid-19, já teve que cancelar muitas dezenas de concertos previstos para este verão?

Ora bem, para já tivemos a sorte, porque todos os espetáculos que estavam agendados para abril e maio estão a ser adiados para datas futuras. E estamos a trabalhar nesse sentido. Portanto, até agora, temos tido essa sorte de não ter cancelado nenhum espetáculo, mas apenas estamos a adiá-los.

Adiar. Em relação ao Nos Alive, Álvaro Covões, que é o cabeça de cartaz, digamos assim, da Everything Is New, continua previsto para os dias 8 a 11 de julho. Vai manter-se, vai ser adiado?

Nós temos aí várias questões. Para já, hoje estamos a 98 dias do primeiro dia do festival. E eu acho que é muito difícil, apesar de todo o discurso das autoridades de saúde, é muito difícil tomarmos uma decisão séria sobre o que vai acontecer em julho. E, portanto, nós, em conjunto com os artistas, estamos a trabalhar. E não somos só nós, são muitos festivais que acontecem em julho na Europa. Estamos atentos ver o que é que acontece nestas primeiras semanas de abril e depois tomar uma decisão em conjunto. Sendo que, por incrível que pareça, temos aqui um problema também legal, porque aquilo para o qual podemos invocar força maior não existe para julho. O que significa que se alguém nos cancelar, está a fazer uma quebra de contrato, ou se nós cancelarmos ou adiarmos, estamos também a fazer uma quebra de contrato. Isto não é uma situação só portuguesa, é uma situação que se passa no mundo inteiro e portanto temos que aguardar também. Portanto, são dois factores.

Mas é preciso uma intervenção das autoridades aí, no sentido de poderem invocar então essa razão de força maior?

Sim, mas eu acho que até as próprias autoridades não podem decidir hoje como é que nós vamos estar em julho. Essa é que é a grande questão. Evidente que há uma ideia, mas não passa de uma ideia. Isto é uma situação nova que estamos a viver no mundo. Nós estamos a entrar na terceira semana, salvo erro, estamos em casa. Sim, vamos completar três semanas que estamos em casa. É uma coisa muito nova, portanto ainda há três semanas íamos a restaurantes, andávamos por todo o lado, ainda há um mês íamos a concertos. E quando estamos a falar para algo que é daqui a 98 dias, é meio estranho. E portanto temos que aguardar com paciência.

Álvaro Covões, ainda antes de olhar para essas situações contratuais, disse que estão a avaliar a situação e que vão ter que a tomar mais tarde. Há algum deadline, alguma data limite para definir essa decisão?

Eu penso que até final de abril temos que tomar uma decisão.

Até o final deste mês.

Sim, final de abril, início de maio, temos que tomar uma decisão. Se calhar estamos a tempo, não é? Porque de maio para julho ainda falta muito tempo. Mas eu penso que vamos ter que chegar aí. Mas isto vai ter que ser feito em conjunto também com as autoridades, porque nós sozinhos temos este problema. Porque ninguém pode unilateralmente romper um contrato sem haver, de facto, uma razão de força maior. E, portanto, até agora a proibição de ajuntamento de pessoas está decorrendo no prazo de estado de emergência e portanto vamos ter que aguardar.

Ainda sem essa decisão, há muitas pessoas que já têm bilhetes comprados. E perante a possibilidade de ser adiado ou mesmo cancelado um festival, o que é que acontece a quem já comprou bilhetes para estes espetáculos?

Perante o quadro legal, se for cancelado, obviamente que o reembolso é imediato. Se for adiado e se conseguir garantir o espetáculo tal qual como foi apresentado, os bilhetes são válidos para a nova data.

Portanto, não pode ser devolvido o valor.

Não pode ser devolvido o valor, era o que estávamos a tentar saber, Álvaro. Imagina, há uma data em que essa pessoa já não pode. É atendível o reembolso nessas situações?

O governo legislou agora recentemente, neste último pacote de medidas. Foram sete decretos-leis que saíram, salvo erro, e uma delas foi relativamente à cultura e aos espetáculos ao vivo. E o que o governo, em conjunto com a associação do setor fez, foi tentar fazer uma lei que já existe em vários países, como a Bélgica, Itália, e tantos países da Europa estão a seguir no sentido de proteger a indústria. E uma vez que não é por responsabilidade do artista, não é por responsabilidade do promotor, não é por responsabilidade da sala de espetáculos que os espetáculos são adiados, o que os governos têm entendido é que por esse motivo, força maior, sendo o espetáculo adiado até uma determinada data, esses bilhetes seriam válidos e não havia direito ao reembolso. Isto foi a forma equilibrada de todos apoiarem um setor que foi o primeiro setor a fechar portas Em primeiro lugar, tudo indica que vai ser o último a abrir portas, porque pelo discurso das autoridades, quando nós começarmos a voltar para os trabalhos, percebe-se que não vai ser tudo. Não vamos imediatamente começar a ter espetáculos, ou ter jogos de futebol, ou ter a vida que estávamos habituados a ter. Isso será feito, eventualmente, por duas fases. Portanto, o governo decidiu apoiar o setor no sentido de: a pessoa adquiriu um bilhete para um espetáculo, se o espetáculo for adiado por esta razão, esse bilhete é válido e não se efetua o reembolso.

E portanto, há uma redistribuição dos prejuízos.

Não são prejuízos, porque o consumidor que comprou para, por exemplo, vamos ver, um espetáculo dos Chutos e Pontapés, vai continuar a querer ver os Chutos e Pontapés. Ele comprou para ver um espetáculo, o espetáculo simplesmente foi adiado porque estamos a passar por um estado de pandemia.

Fica então essa explicação, mas Miguel Cordeiro continua.

Sim, eu perguntava se no caso de um festival da dimensão do Alive, se está de facto em cima da mesa a possibilidade de adiamento ou se esse é um cenário difícil de realizar.

É muito difícil. Se nós tivermos que tomar uma decisão de que o festival não aconteça em julho. Estamos a falar hoje, não é? Nós estamos no dia 1 de abril de 2020 e apesar de dia das mentiras, não estamos a falar mentiras, estamos a falar verdades. É muito difícil hoje. Nós não sabemos como é que vamos estar em julho, como também não sabemos como é que vamos estar em setembro ou outubro. Portanto, é uma decisão que temos que amadurecer mais e só daqui a mais três, quatro semanas é que vamos estar em condições de perceber mesmo, com mais certeza, como é que vai ser a evolução da nossa forma de vida.

E é isso mesmo, Álvaro Covões. Num setor que trabalha com grande planeamento a longo prazo, porque há as agendas dos artistas, os espaços para marcar isso tudo, como é que se está a trabalhar neste momento? Não digo em relação aos festivais ou aos concertos que já estavam marcados, mas como é que se prepara o outono ou o inverno, por exemplo, do próximo ano, já?

O mercado está mais parado neste momento. O grande movimento está a ser na remarcação de espetáculos e estão a aparecer muito poucos projetos novos para o futuro. Aqueles que estávamos a trabalhar, continuamos a trabalhar. Eu, por exemplo, nós ainda na sexta-feira passada recebemos a confirmação de um espetáculo, que foi uma coisa rara, porque de repente um agente a confirmar-nos um espetáculo para 2021. Aquilo até foi um dia de festa, porque já não estávamos habituados. Apesar de estarmos nessa situação há apenas três semanas, já não estávamos habituados.

Podemos saber quem ou ainda é segredo de negócio?

Não se trata de segredo de negócio. Trata-se de um espetáculo que, pelo que está planeado, é para anunciar em maio. E portanto é uma tour europeia, portanto obviamente temos que respeitar o planeamento do próprio artista. Mas isto só para dizer que está mais lento, porque a grande preocupação é a remarcação dos espetáculos. Porque isto é assim: por que os artistas também estão a remarcar espetáculos? Porque cada vez que há um espetáculo, há muita gente a trabalhar, há muitas famílias que dependem do trabalho. Portanto, é muito difícil cancelar, porque cancelar significa não ter trabalho. E nós não podemos esquecer que isto é um setor em que é isso mesmo, espetáculos ao vivo. Tem que ser ao vivo, não há outra forma de o fazer. E em Portugal, neste momento, estamos até a passar uma situação muito difícil. Muitos artistas, muitos autores, muitos técnicos estão a passar uma situação muito difícil, por quê? Por vicissitude das alterações das leis tributárias, eles viram-se obrigados a constituir-se como empresa. E estamos a falar de grandes artistas de teatro, de música. Eles constituíram-se como empresa e ao constituírem-se como empresa, tornaram-se sócios-gerentes da empresa. E portanto, o que é que está a acontecer? Eles não têm acesso a qualquer tipo de apoio pelo fato de estarem proibidos de exercer a sua profissão, porque nós estamos naquele grupo, como a restauração, como o comércio, que estamos proibidos de exercer a nossa profissão e o nosso trabalho. Proibidos no sentido de ao vivo.

Álvaro Covões, este é de facto um setor que enfrenta grandes dificuldades perante esse cenário mais negativo, de cancelamento de festivais consecutivos neste verão. A sobrevivência da indústria como a conhecemos pode estar em causa?

Sim, mas nós até agora temos assistido maio e junho. Julho ainda estamos muito seguramente a tempo.

Se eu tiver um cenário mais negativo, há essa possibilidade?

Sim, claro. Nós temos que ser realistas, ninguém sabe como é que vamos dar a volta a esta situação pandémica. E, portanto, temos que estar preparados para tudo.

Perante esse cenário, acha que o Estado devia ajudar os promotores?

A Comissão Europeia teve uma grande preocupação exatamente com isto e autorizou todos os governos a darem apoios às organizações dos eventos. Obviamente que nós sabemos que somos sempre o patinho feio, mas os portugueses às vezes esquecem-se que esta atividade é capaz de empregar mais de 100 mil pessoas Porque não são só os grandes festivais. Nós temos que pensar até nas simples animações, por exemplo, que fazem os casamentos, as festas, os pequenos eventos. São milhares e milhares de pessoas que trabalham nisto. As empresas de audiovisuais que estão completamente paradas, que têm leasings para pagar. Muitas vezes são empresas que têm um quadro de pessoal mais reduzido, porque não têm trabalho diário e recorrem muito a trabalho de freelancers. Se esses freelancers tiverem constituído a sua própria empresa, neste momento não têm nenhum meio de subsistência. Enfim, é muita gente que depende deste setor. E é um setor muito interessante. Ainda ontem eu estava a pensar nisto. Sempre que há uma grande tragédia em Portugal e no mundo, eu lembro-me quando foram as cheias na Madeira, quando foram uma vez umas cheias em Moçambique, os incêndios de Pedrógão, a primeira coisa que a sociedade lembra, ou o primeiro setor que a sociedade se lembra, é o nosso setor. E então as salas de espetáculos, as empresas de audiovisuais, os artistas, os técnicos, todos pro bono aparecem para salvar os que foram prejudicados. E hoje é a primeira vez que temos um setor precisamente ao contrário. Fomos os primeiros a ter que fechar portas, porque se se lembrarem, os espetáculos foram primeiro recomendados que não acontecessem e depois proibidos. Fomos os primeiros a ter que fechar portas, nós e o futebol e as maratonas. As grandes provas desportivas e os espetáculos foram os primeiros a ser proibidos e tudo indica que vamos ser os últimos a ser abertos. Acho que o Estado tem que se lembrar que cada vez que precisa de nós, nós dizemos "presente". Se se seguir este planeamento de ir abrindo aos poucos, tem que vir forçosamente um apoio para o setor.

Álvaro Covões, você estava aqui a dar o exemplo de como os artistas são sempre os primeiros a avançar em situações de crise ou de dificuldades, e até isso, num certo sentido, tem acontecido agora, porque muitos artistas têm se mobilizado e têm literalmente oferecido concertos, nomeadamente em lives no Instagram. Esta pode ser uma forma de encontrar também novas formas de negócio, de profissionalizar estes momentos e de os conseguir rentabilizar?

Será uma forma, mas nunca suficiente para dar emprego a 100 mil pessoas. Obviamente que para alguns artistas poderá ser uma forma de sobrevivência, de conseguirem ter um rendimento, mas não para o setor inteiro, porque nós estamos a falar de muitos tipos de profissões. Por exemplo, as pessoas que trabalham nas bilheteiras deixam de trabalhar. As pessoas que trabalham como iluminadores ou que fazem projetos de iluminação, técnicos de som, todos eles estão sem trabalho, todos estão em casa. As salas de espetáculos, por exemplo, é um caso muito sintomático, porque a maioria das salas de espetáculos em Portugal são públicas. E depois existe um conjunto delas, que curiosamente são as maiores, que são privadas. E é sintomático por quê? Porque as salas privadas não têm qualquer tipo de apoio do Estado, ao contrário das públicas. E neste momento não têm fonte de rendimento, não têm nenhum tipo de receita, não têm nenhum apoio do Estado, estão todas a entrar em lay-off e vamos ver o que vai acontecer no futuro. Mas não deixa de ser curioso que na cultura, às vezes, exista esta divisão entre o público e o privado, porque o público está garantido e o privado sabe-se quem perde.

O fundador e diretor-geral da Everything Is New, Álvaro Covões, muito obrigada pelos seus esclarecimentos e por ter estado conosco na Rádio Observador.

Muito obrigado e todos os que estão a ouvir, cuidem-se, porque nós precisamos de muitos espetadores para o futuro.

Muito obrigada, Álvaro. Até já.

Obrigado.

Antes das despedidas, temos uma no-- Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.