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Termina hoje a cimeira da NATO, a coincidir com os 75 anos da Aliança Atlântica. Ontem o dia foi dedicado à Ucrânia, com os membros da organização a reafirmarem a intenção de acolher a entrada de Kiev na aliança de defesa. Foram também anunciados novos apoios militares e financeiros. Portugal, por exemplo, anunciou uma ajuda adicional de quase 100 milhões de euros, para além dos 126 milhões que já tinha anunciado. Na declaração final é ainda feita uma referência à China. Os líderes da NATO consideram que Pequim é um facilitador da guerra ilegal da Rússia contra a Ucrânia, de que é exemplo o fornecimento de componentes usados no fabrico de mísseis e bombas. Doutor António Martins da Cruz, seja muito bem-vindo à antena do "Observador".
Boa tarde, muito obrigado pelo convite.
E começava precisamente por esta referência que é feita ao papel da China. Pequim reagiu para negar qualquer apoio às ações militares russas na Ucrânia. Esta cimeira e esta referência no comunicado final pode representar uma viragem, um agudizar das relações diplomáticas do Ocidente com a China?
Uma viragem não é, porque já havia uma referência à China no conceito estratégico da NATO, que foi aprovado há dois anos na cimeira da NATO de 2022 em Madrid, onde se dizia que a China era um desafio aos nossos interesses, à nossa segurança e aos nossos valores. Simplesmente, agora, dois anos depois, com a guerra da Ucrânia e a visão de 360 graus que a NATO está cada vez mais a adotar, é óbvio que a China entra de novo no radar da NATO, se assim podemos dizer, e daí estas referências à China. Não são propriamente uma acusação, nem isto é novo. O que se diz é o seguinte, concretamente diz-se o seguinte: que a China tem um papel determinante na guerra que a Rússia está a ter contra a Ucrânia. Por quê? Fundamentalmente, por duas razões. Pelo apoio político, ou seja, a parceria que existe entre a Rússia e a China, e que já existia antes do conflito se ter iniciado, e depois pelo apoio que a China está a dar numa base industrial, é a expressão do comunicado da NATO à Rússia. E qual é este apoio? É um apoio chamado dual use, ou seja, é material eletrónico, material de fábricas, os chamados mecanismos automáticos das fábricas, que tanto podem servir para as televisões que nós vemos, ou os telefones que nós utilizamos, ou os ares condicionados que temos em nossa casa, como podem servir para aviões, para mísseis na parte eletrónica. Ou seja, é o chamado uso duplo, em português. E é isto que a NATO acusa a China. Simplesmente, também não corta as relações com a China. Antes pelo contrário, diz três vezes: "Nós apelamos a China a agir de maneira responsável, apelamos a China a apoiar os esforços internacionais no comportamento sobre o espaço". E diz à China que espera que a China não tenha atividades maliciosas na área dos ciberataques e nas chamadas guerras híbridas. E claro, a China respondeu. Por que a NATO diz isto? Para quem nos está a ouvir, também temos que entender o seguinte.
Contextualizar.
Exato, é o seguinte: é que os países da NATO e da União Europeia, ou seja, os países da Europa onde Portugal se integra, os países da NATO onde também está Portugal, mas que além da Europa inclui os Estados Unidos e o Canadá, a que se somam o Japão, a Austrália, a Nova Zelândia e a Coreia do Sul, impuseram sanções aos países que apoiam a indústria da Rússia. Simplesmente, essas sanções não são universais, porque não foram determinadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. São sanções parciais e por isso há países como a China, como a África do Sul, como a Índia, como o Brasil, que não respeitam essas sanções que nós impusemos.
E por isso esta menção.
E daí esta menção. Mas a NATO diz também, e eu gostava de citar esta frase: "Nós", ou seja, a NATO, "estamos dispostos a agir com a Rússia de maneira construtiva, por forma a que haja uma grande transparência mútua e com o objetivo de proteger os interesses de segurança da NATO". É evidente que os países da NATO, os Estados Unidos por um lado e os países da União Europeia por outro, impõem restrições à China. Ainda há dias, a União Europeia impôs à China graves aumentos aduaneiros na importação de veículos elétricos, por exemplo, da China. E é óbvio que a China alia-se a quem é inimigo da Europa como uma maneira de responder. E, portanto, também temos que ter em atenção que Este comunicado da NATO é um denominador comum de vários países. Provavelmente, se fossem os Estados Unidos, esta linguagem era mais violenta. Mas no caso de Portugal, esta linguagem para nós chega, até porque Portugal tem relações com a China, através de Macau, por exemplo, que outros países da Europa não têm e que outros países da América do Norte também não têm. E por isso esta linguagem, a meu ver, é objetiva, mas de certo modo também é construtiva.
Desta menção que é feita e que aqui fez referência, pode decorrer algum tipo de sanção de natureza comercial, por exemplo, ou não vamos chegar a esse ponto? Não estamos numa altura em que a guerra comercial sirva para tentar resolver os problemas que resistam no campo de batalha?
Não, serve. Aliás, o que é que são as sanções? São um "weaponizing the economy", como se diz em inglês. Ou seja, ao impormos sanções, nós estamos a transformar as sanções e a guerra comercial num instrumento de guerra. E é óbvio que vai haver seguramente mais sanções contra a China, não especificamente por causa da Ucrânia, mas sobretudo porque a China é cada vez mais uma superpotência económica e até no plano militar crescente, e obviamente que isso provoca reações, quer da parte dos Estados Unidos, quer da parte de países europeus. O que eu digo é o seguinte: a resposta relativamente à China não é a mesma em todos os países europeus, porque há países europeus, como por exemplo Portugal, onde os investimentos chineses são muito importantes e temos uma relação histórica com a China de mais de cinco séculos, que também tem que ser levada em conta na nossa política externa. Por isso é que a linguagem do comunicado da NATO nos parágrafos 26 e 27, são estes os dois parágrafos onde se fala da China, é uma linguagem que é equilibrada e que tem em conta a posição de todos os países, incluindo Portugal.
Tendo em conta aquilo que aconteceu durante estes últimos dias, durante a Cimeira da NATO que decorre em Washington, parece-me que estamos mais próximos de uma escalada do conflito na Ucrânia ou dos primeiros passos rumo a uma solução de paz negociada?
Eu e muita gente entende, sobretudo na diplomacia, que os conflitos terminam não no campo de batalha, mas na mesa de negociações. E é isso que devemos ter sempre presente, é essa possibilidade que devemos ter sempre presente. Quando estiverem reunidas as condições, é óbvio que o conflito vai acabar na mesa das negociações.
Ainda não estamos a esse ponto.
Ainda não estamos e a própria NATO reconhece isso, porque repare, a NATO diz que a adesão da Ucrânia não é uma questão de se vai ou não aderir, é irreversível, não se sabe é quando. Quando a NATO diz que a adesão da Ucrânia é irreversível, é uma tentativa, na minha opinião, para blindar a futura adesão da Ucrânia, caso mude a administração e a presidência dos Estados Unidos. Porque se o senhor Trump for eleito, é óbvio que os Estados Unidos podem olhar para o conflito da Ucrânia com outras lentes e isso pode ter consequências na adesão da Ucrânia. Portanto, aqui a NATO e os aliados todos tentam blindar. Terá isto algum efeito? Não sabemos. Eu acho que é louvável usar esta linguagem, mas nós não sabemos o que é que ditará uma futura administração americana, sobretudo se ela muda de cor política. Simplesmente, também se diz no comunicado o seguinte: que a Ucrânia irá aderir quando houver unanimidade nos aliados e quando estiverem reunidas as condições. E o que é que isto quer dizer? Quer dizer que enquanto durar o conflito, a Ucrânia não pode aderir à NATO. E não pode aderir à NATO por quê? Porque a NATO tem o famoso artigo quinto. O que é o artigo quinto, pra quem nos está a ouvir? É o seguinte: se um país, por exemplo, por absurdo, se Portugal for amanhã atacado, os outros 31 membros da NATO são obrigados a vir em defesa de Portugal. É evidente que o que interessa a quase todos, e o que interessa a Portugal, presumo eu, é que os Estados Unidos venham em nossa defesa. Eu fui embaixador de Portugal na NATO durante quase cinco anos e costumava dizer, até em entrevistas que dei nessa altura, se a NATO fosse uma empresa comercial, havia um sócio que tinha muito mais de 50% das ações, que são os Estados Unidos. Porque qual é a base do artigo quinto? Por que não há ataques aos países? Por causa da dissuasão. E o que é a dissuasão? A chamada "deterrence", em inglês. É a existência do poderio militar e nuclear dos Estados Unidos, que mete receio e cria dúvidas, se quiserem, mete medo a outros países, incluindo a Rússia, de vir atacar algum membro da NATO. Ora, se a Ucrânia entrasse pra NATO, isto significa que a curto prazo, teríamos uma guerra direta entre a NATO e a Rússia, ou seja, entre os Estados Unidos e a Rússia. E como são as duas maiores potências nucleares do mundo, aliás, a Rússia tem mais armas nucleares que os Estados Unidos O que significa que aderiu ao risco de, a muito curto prazo, cairmos numa guerra nuclear que não nos interessa a nós, não interessa aos Estados Unidos e presumo eu que não interessará ao povo russo. Aos dirigentes da Rússia, não sei.
Há pouco falava das eleições presidenciais norte-americanas e o que pode decorrer para a Aliança Atlântica e também para o conflito na Ucrânia, fruto desse desfecho. Um dos focos midiáticos deste fórum incidiu em Joe Biden, o presidente dos Estados Unidos e também candidato a um segundo mandato pelos democratas, que tem escutado nos últimos dias e depois do debate com Trump, vários apelos para que desista da corrida à Casa Branca a favor de outro candidato. Pergunto-lhe, embaixador Martins da Cruz, se em sua opinião devia fazê-lo.
Não sei. Isso é um assunto muito americano. Nós vimos, aliás, nos últimos três dias, na sessão da abertura da NATO, que as televisões deram em direto e nós pudemos ver. E na intervenção do presidente Biden na cimeira, na sessão de trabalho da cimeira, apareceu um Biden completamente diferente, com energia, falando bem, não se enganando. Eu acho, mas é a minha opinião, como isto era constantemente televisado também para dentro dos Estados Unidos, mais do que para nós, mais do que para os aliados, o discurso de Biden, o vigor de Biden no discurso era para os eleitores americanos, para ser exatamente o contrário do que tinha acontecido no debate. O que nós verificamos agora é que importantes figuras do Partido Democrata nos Estados Unidos, por exemplo, ainda ontem a senhora Nancy Pelosi, que foi durante largos anos presidente da Câmara dos Representantes, vem apelar a Biden para desistir e para dar tempo ao Partido Democrata de escolher outro candidato. Vimos também que alguns artistas de Hollywood, que têm muito peso na opinião pública americana, porque quando aparecem na televisão ou nas redes sociais, são escutados pelos futuros eleitores americanos, também estão a solicitar a Biden. Por outro lado, temos figuras importantes do Partido Democrata e sobretudo aqueles que estão em volta de Biden a dizer que não. E ele próprio diz que está em condições de se candidatar. Eu penso é que, provavelmente, Biden vai esclarecer as dúvidas na entrevista que tem programada daqui a uns dias num canal de televisão americano. Agora, se Biden quer continuar, tem que dar sinais muito claros que está em condições e talvez não fosse mau tornar público, é a minha opinião, um boletim médico. Um boletim médico, que é uma coisa que fazem às vezes os presidentes para afastar dúvidas.
E caso Donald Trump venha a vencer essas eleições contra Joe Biden ou contra um outro candidato democrata, consegue antecipar que consequências é que daí podem advir para a guerra na Ucrânia e também para a NATO, para a Aliança Atlântica e para o papel que a NATO hoje tem na geoestratégia internacional?
Repare uma coisa, o que é que Trump tem dito? Trump disse na cimeira da NATO, que teve lugar há 10 anos. Não, ainda era na presidência Obama, mas Trump reafirmou isso, que os países da NATO tinham que gastar pelo menos 2% do PIB em defesa. Neste momento, até ao final deste ano, dos 32 aliados, 23 já estão a gastar ou vão gastar pelo menos 2% do PIB em defesa. Aliás, o primeiro-ministro português, e muito bem, afirmou na Cimeira de Washington que um dos nossos objetivos, objetivos de Portugal, é até 2029 estar a gastar 2% do PIB em defesa. São 6 mil milhões a mais que vamos gastar em defesa. É um dos argumentos que Trump usou no passado e que deixa de ter validade no que diz respeito à NATO. Por outro lado, a própria França, que dizia há dois ou três anos que a NATO estava em morte cerebral, o senhor Macron já interiorizou que com o conflito da Ucrânia, a NATO é cada vez mais importante e isso também tira argumentos futuros a Trump. Quanto ao conflito na Ucrânia, é conhecido que Trump tem uma relação privilegiada com o presidente da Federação Russa, com o senhor Putin, mas isto não quer dizer que Trump traiu os chamados interesses dos Estados Unidos. Eu penso que os que podem ser os futuros conselheiros de Trump em política externa, dois ou três têm dado recentemente entrevistas, e é gente que está muito próxima de Trump, apontando caminhos para uma paz negociada. Como nós começamos esta nossa conversa, eu penso que o conflito vai acabar na mesa das negociações, quando houver condições para isso. Se Trump for eleito, eu não penso que ele vá deixar cair a Ucrânia, o que ele vai é fazer pressão para que a solução passe do campo de batalha para a mesa das negociações. Será isto em prejuízo da Ucrânia? Também não sabemos, porque depende de quem são os intermediários, os mediadores. Se os Estados Unidos forem mediador, é evidente que a posição é diferente. Não sabemos. Sabemos é que muito provavelmente, e isso pode nos afetar a nós, portugueses, o grande "inimigo" de Trump, se ele for reeleito, será a China. Muito mais do que a Rússia, será a China. E isso, como a NATO tem uma visão 360 graus da sua segurança, vai recolocar a China com mais vigor no radar da NATO. Essa pode ser uma das consequências de uma possível eleição do senhor Trump.
Embaixador António Martins da Cruz, muito obrigado pela sua análise e pelas reflexões que partilhou connosco a pretexto da Cimeira da NATO, que termina hoje e que coincide com os 75 anos da Aliança Atlântica. Até breve.
Muito obrigado.