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Está no ar o E o Vencedor É. Hoje a análise aos protagonistas da atualidade é feita pela Ana Sanles e pelo Ricardo Conceição, que se juntam ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Júlio Magalhães. Carla, esta manhã dedicamo-nos à alta política em vários palcos: na Cimeira do Turismo, no Banco de Portugal, nos Estados Unidos, mas começamos pela Assembleia da República e mais concretamente pelo presidente, Augusto Santos Silva. Ele é o teu vencedor, José Manuel Fernandes, e por quê?

Para variar, eu vou desapontar. Não tenho um vencedor, tenho um perdedor. Não conseguiu ir ao encontro dos desejos.

Do Pedro Benovides, que tem lamentado muito isto nos Vencedores do fim de semana.

É verdade. O que se passou ontem? Passou-se ontem que Augusto Santos Silva foi almoçar na Associação 25 de Abril. Espero que o almoço em termos gastronômicos tenha corrido bem, mas as declarações que ele fez lá é que na minha perspectiva não correram assim tão bem como isso. Augusto Santos Silva, não sei se ele já percebeu que como presidente da Assembleia da República tem o dever de alguma reserva, do mínimo de reserva, e não pode comentar política como se fosse outro agente totalmente livre das responsabilidades de um lugar que o obriga a alguma, não é total, mas a alguma equidistância na relação com os partidos representados na Assembleia da República. E ele ontem, em vários momentos mostrou que não tem essa equidistância. Primeiro, ao desresponsabilizar-se de o facto, neste momento, da Assembleia da República que devia ter quatro vice-presidentes, nos termos da lei e da Constituição, onde é muito explícito que têm direito a nomear vice-presidentes os partidos mais votados. Depois pode haver dúvidas sobre uma personalidade ou outra, mas já se percebeu, e o próprio Augusto Santos Silva parece que está muito tranquilo com essa realidade, já se percebeu que o Chega pode candidatar o Pinóquio, o Rato Mickey, quem quiser, que nunca passará. Até o Dalai Lama, se eventualmente pudesse ser candidatado, não seria votado, porque a proposta vinha do Chega. E ontem as declarações de Augusto Santos Silva vão muito nesse sentido, até porque ele esclarece que a Iniciativa Liberal, que também viu o seu candidato chumbado da primeira vez, numa demonstração da intolerância que existe em certa esquerda, incluindo o Partido Socialista, porque se o Partido Socialista não se tivesse portado da forma como se portou, estes candidatos teriam sido eleitos. Ele disse muito candidamente: "Foram poucos votos que faltaram, agora é só candidatar outros que aquilo passa." A Iniciativa Liberal disse na altura que não estava para entrar nestes jogos e, portanto, não ia andar a propor candidatos atrás de candidatos, sujeitando-os a esta humilhação. E, portanto, é nisso que estamos e é isso que o presidente da Assembleia da República tem para dizer. Não contente com isto, resolveu fazer comentários sobre as eleições italianas, as eleições suecas, o fato de haver neste momento eleitorados europeus que resolveram colocar no poder partidos de que Augusto Santos Silva não gosta. E na perspectiva dele, isso acontece porque a direita democrática abriu as portas à extrema-direita. Eu julgava que Augusto Santos Silva tinha feito parte de governos suportados pela extrema-esquerda, mas talvez ele tenha se esquecido disso, apesar de nas mesmas declarações, o que é absolutamente extraordinário, ele ter dito que era muito bom que na Assembleia da República houvesse dois partidos grandes que alternavam no poder, o PS e o PSD, e que punham no seu lugar os extremos. O que quer dizer que ele também acha que o PCP e o Bloco fazem parte dos extremos. Muito significativa estas entrevistas e penso que no fim de tudo quem acertou foi o presidente da Associação 25 de Abril, o coronel Vasco Lourenço, que disse: "Já que cá vieram almoçar outras pessoas que depois se tornaram presidentes da República, pode ser que..." Eu acho que é claramente por este caminho que Augusto Santos Silva quer ir. Para Augusto Santos Silva, para as declarações, vai uma nota bastante negativa. Eu vou mesmo optar pelo chumbo direto, pelo meu clássico quatro. E para fazer a vontade ao Pedro Benovides, para a sinceridade e franqueza do Vasco Lourenço, vou dar um 14. E pronto, já fica aqui uma coisa mais equilibrada.

Já fica mais equilibrado e já há um vencedor. Ricardo Conceição, queres tentar esse exercício com a escolha que fazes, a ministra Ana Abrunhosa?

Não, também vou desiludir o Pedro Benovides. Só para contextualizar, o Pedro esteve no Vencedor do fim de semana, agora também temos o Vencedor É ao sábado e ao domingo. E o Pedro tentou recentrar o vencedor no programa.

Abusando claramente de uma tradição muito bonita.

Exatamente, dizendo que nós nunca damos notas positivas. E não vou dar uma nota positiva e deixa-me arrancar com mais uma citação. António Costa disse em abril de 2016 sobre os seus ministros: "Nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do governo." Ora, o caso da ministra da Coesão e do marido, que faz agora manchete no Observador, fez-me recordar aquela frase. Na altura, António Costa referia-se a João Soares, que era então ministro da Cultura e prometeu via Facebook umas salutares bofetadas em dois colunistas e acabou por sair do governo. Aqui o que está em causa é algo totalmente diferente É o facto de empresas em que o marido da ministra da Coesão tem uma participação terem recebido fundos comunitários em áreas que são tuteladas por Ana Abrunhosa. Neste artigo que está em manchete no Observador, que é assinado pelo Rui Pedro Antunes, jornalista e editor de política do Observador, é explicado que não há aqui ilegalidade. No entanto, há um parecer da PGR, da Procuradoria-Geral da República, que foi pedido pela própria ministra e que sugere uma alteração à lei, precisamente devido a estes casos. A ministra defende-se dizendo que pediu dois pareceres. Um deles já foi entregue depois do cheque estar aprovado. Isto também dizia que a ministra teve noção que estava em terreno movediço e apesar de jurarem e dizerem que as vidas são separadas e que nada tem a ver com a outra, nós sabemos isso, não tem problema nenhum, mas também é óbvio que marido e mulher conversam sobre as vidas profissionais e sobre as suas vidas. Ninguém diz aqui que houve favorecimento, ninguém diz que houve tramoia, mas fica esta sensação estranha de desconfiança, que também é muito motivada pelo historial nacional, que não é bonito. Fica esta sensação que não é boa pra ninguém, de desconfiança. O marido alega que não pode ser prejudicado na vida empresarial por ser marido da ministra. Eu dou-lhe razão, acho que sim, mas há aqui um claro conflito de interesses que poderia ser evitado. Ser ministro é um serviço, é servir a causa pública. Isto implica sacrifício pessoal e sacrifício dos familiares diretos, neste caso, do marido. E as pessoas têm que ter noção que podem ter menos tempo, podem ter menos dinheiro, podem ter menos rendimento e podem sempre recusar o convite de ir para o governo. E esta desconfiança que continuamos a ter em relação a estes casos, mesmo que seja tudo dentro da lei, é tudo legal, mas fica sempre esta sugestão e fica sempre esta desconfiança. E há também aqui uma sugestão importante da PGR, que diz que a lei deve ser alterada. E de resto, tivemos o João Paulo Batalha no jornal das 20:00 aqui da Rádio Observador, também a explicar um pouco isto, ele que é um especialista em transparência. Por tudo isto, e para não me alongar mais, um sete para a ministra Ana Abrunhosa e para mais um caso que nos faz desconfiar, apesar de ser tudo legal, acreditamos na palavra de toda a gente, mas que nos faz desconfiar da forma como o dinheiro público, porque o dinheiro comunitário também é dinheiro dos contribuintes, também é dinheiro público, é gerido.

Por falar em dinheiro público e a forma como é gerido, Júlio, queres falar do aeroporto de Lisboa?

Sim, do aeroporto de Lisboa e de Carlos Moedas, aviso já dar uma nota negativa. Eu percebo que o aeroporto é em Lisboa e Carlos Moedas, como presidente da Câmara de Lisboa, queira defender os interesses de Lisboa. E vem a propósito das declarações que já hoje, quem faz esta pergunta tinha prometido que ia falar disto e repetí-las, fez ontem o presidente da Câmara de Lisboa, porque o país inteiro sabe que o aeroporto é fundamental, é decisivo, é importante e é necessário já há muitos anos pra economia do país, pro turismo, pra tudo. Todo o país sabe disso e o país todo vai pagar o aeroporto. Só que Carlos Moedas ontem, primeiro, quer ter lugar à mesa do PS e do PSD, ou seja, entre António Costa e Luís Montenegro, diz que tem uma palavra a dizer sobre o aeroporto. António Costa já lhe prometeu que vai ter lugar à mesa. Não sei porque é que Carlos Moedas é o único autarca que há de ter lugar à mesa, uma vez que há outras localizações que estão em cima da mesa também e não pertencem à Câmara de Lisboa. Mas ontem acabou por dizer isto que não faz grande sentido, mas percebo, porque defende os interesses de Lisboa e não do país. "Não podemos perder mais tempo. O aeroporto de Lisboa é o aeroporto internacional de Lisboa e por isso tem de estar próximo de Lisboa e dos lisboetas." Diz ainda Carlos Moedas: "Não estou a medir quilômetros, estou a medir proximidade e essa proximidade é extremamente importante para o turismo de Lisboa." Isto é um aeroporto pra o país, não é um aeroporto para Lisboa. E a questão da proximidade pode ser importante, mas a questão, por exemplo, do aeroporto em Santarém, por que Lisboa não pode fazer 90 km até Santarém e o resto do país tem que fazer 300 e 400 pra ir a Lisboa apanhar um avião? Eu percebo, um autarca está lá para defender os interesses da sua autarquia e neste caso, Moedas de Lisboa. Agora, Moedas não tem que ter um lugar, nem tem que ter quase voto na matéria nisto, porque isto é um aeroporto do país que o país inteiro vai pagar e, portanto, a melhor localização é a melhor pro país. E de Leiria pra cima, vive mais gente do que de Leiria pra baixo.

Qual é a nota que dá a Carlos Moedas, então?

Um sete. Percebo que esteja a defender os interesses da Câmara de Lisboa e os interesses da autarquia a que preside, mas estamos a falar de um aeroporto nacional pro país, não é um aeroporto para Lisboa e para os lisboetas.

Pago por todos. Mas Ana Salés, Carlos Moedas não foi o único ontem na Cimeira do Turismo a falar sobre o aeroporto, pois não?

É verdade, não foi. Eu estive aqui nos últimos minutos a pensar se conseguia dar a volta a isto pra fazer a vontade ao Pedro Benvidos, mas não. Como o Ricardo dizia há pouco, também não há nada de bom pra ninguém. O aeroporto é um tema que desperta paixões, não é? E eu que o diga, porque falo dele aqui tantas vezes E também é um tema que parece que desperta o pior das pessoas e uma vontade incontrolável de passar culpas por tudo e mais alguma coisa. Ontem foi dia de turismo, houve a tal grande conferência organizada pela Confederação do Turismo, juntou o setor todo, e eu estava a ver as notícias a sair ao longo do dia e aquilo a certa altura parecia-me uma batalha campal. Primeiro foi o primeiro-ministro que atacou violentamente o regulador da aviação, a ANAC, a propósito do aeroporto complementar do Montijo, que foi vetado no ano passado pela ANAC, porque havia dois municípios contra, e António Costa arrasou o regulador por, imagine-se, cumprir a lei.

Que coisa estranha.

Citando que a ANAC faz parte do grupo. É ou não é? O regulador cumpriu a lei e o primeiro-ministro não percebeu por quê. Eu adorei a frase: a ANAC faz parte do grupo de entidades independentes que após os anos 80 entenderam que devem governar para libertar os governos, ou melhor, para impedir os governos de tomar decisões, etc. Lá está, eu não sei o que é que o primeiro-ministro queria que a ANAC fizesse, mas sim, o regulador cumpriu a lei. O governo não gostou, tanto que acabou por mudá-la e isso hoje já não é um problema. E como dizia há pouco o Miguel no vilão, parece que já nada é problema, porque o primeiro-ministro que há uns meses foi tão lesto a exigir um consenso para o aeroporto, desautorizou o ministro por decidir sozinho. Parece que mudou, entretanto, ligeiramente de opinião e ontem já dizia que qualquer solução vai ter sempre 80% das pessoas contra e se não haver acordo é a vida. E aqui também estou a citar: quem tem maioria tem de a usar. Esta frase deve estar algures emoldurada em São Bento. Mas António Costa não foi o único a disparar. Já sobre outro tema, não o novo aeroporto, mas o velho aeroporto. Tivemos José Luís Arnaut, que também não foi nada meigo, mas com João Leão, o ex-ministro das Finanças anda a ter umas semanas difíceis, depois de ter que deixar cair a candidatura para o Mecanismo Europeu de Estabilidade, foi acusado pelo presidente da ANA de ter sido a força de bloqueio que atrasou as obras de melhoria na Portela. E Arnaut disse que foram enviadas seis cartas para que basicamente o ministro se mexesse e que isso não aconteceu. Portanto, João Leão mal, chumbo direto da ANA para o ex-ministro das Finanças. E isto não foi para dizer o quê? A cimeira do turismo foi um grande alguidar, não é? Lavou-se muita roupa suja na Fundação Champalimaud. Sim, e a minha nota não vai ser positiva.

Então.

Mas eu espero que esta limpeza de alma e de consciência dos nossos responsáveis tenha ficado por aqui. Espero que já tenham chorado tudo e que finalmente deixem de passar a culpa uns aos outros e que façam alguma coisa. Aliás, isto não há fome que não dê em fartura. Hoje vamos ter a apresentação do TGV, da linha de alta velocidade. Escrevei de fora de Portugal esta semana, pensa que somos um país onde se tomam decisões rápidas.

Não, mas espera lá.

Estou um pouco embaralhada. A minha nota vai para quem?

Vai para quem?

Diz-me. Sim.

Sobre o TGV, já que vamos hoje ter mais um anúncio, eu estava aqui a ver os arquivos. 11 de dezembro de 2009: José Sócrates anuncia sábado vence tudo o primeiro concurso de TGV.

Num sábado.

Exatamente, foi há 13 anos. Portanto, isto é só basicamente uma digressão passada.

É hoje às 10h30.

E deveria custar cerca de 2 mil milhões de euros. Vamos ver quanto é que custa agora. Sim, falta a minha nota, não vos vou atrasar mais. A minha nota vai para este jogo do passa-culpas, que não abona a favor de ninguém e é mesmo um zero, porque não poderia ser outra coisa.

Pronto, e fica um zero. O Paulo tem uma nota positiva e uma nota negativa. Como é que vais fazer isto em três minutos?

Três minutos, não sei se consigo. A nota positiva é para Mário Centeno. Ontem falou, o governador do Banco Central avisou que a inflação vai ser mais elevada e menos temporária do que pensávamos há um ano. Voltou a alertar, e ele já tinha feito esta visão mesmo, voltou a alertar para o caráter temporário que devem ter as medidas do governo, neste caso, ou dos governos, que elas não devem alimentar a inflação, porque senão o pico das taxas de juro vai se manter. E ele diz que não podemos pensar numa descida de juros antes do pico da inflação. Portanto, vamos ter isto por longos meses. Christine Lagarde, do BCE, já tinha na segunda-feira, de facto, criticado bastante a forma como muitos governos, incluindo o português, estão a colocar as medidas no terreno. E portanto, nós temos neste momento, numa altura que é complicada, já temos aí uma crise, começar a olhar para aquilo que os banqueiros centrais, que estão mais libertos das coisas da governação e da popularidade, nos dizem. Portanto, mais depressa eles nos contam a verdade do que governos ou presidentes da República. E depois deste discurso de Christine Lagarde, aliás, o Miguel já falou disso há pouco no bom mau e vilão, tivemos o presidente da República, que há uma semana dizia: "Digam a verdade, os portugueses têm que saber com quem é que contam para o governo". Depois vem alguém, que não foi o governo, mas foi a presidente do BCE, dizer o cenário que temos em cima da mesa e o que é que diz Marcelo Rebelo de Sousa, que foi um discurso muito dramático, este da presidente do BCE, que Christine Lagarde veio travar as quatro rodas, que isto é uma transição muito brusca para um discurso muito dramático e depressivo, porventura, estou sempre a citar o presidente. Que temos que entrar numa fase marcada com a vontade de criar confiança. Esperemos que isto não seja excessivo. Talvez tenha sido, de repente, uma mudança do oito para o 80. Isto é surreal. Portanto, o que o presidente não quer é que digam a verdade. O que o presidente quer é que se vão dizendo coisas na praça pública para ir entretendo o povo, para entreter o pagode. E isto, de facto, é surreal, de um presidente que há um mês não reparou no corte das pensões e, entretanto, tem estado em silêncio sobre o assunto, agora anda a fazer comentários sobre cenários macroeconômicos, que ainda por cima são esquizofrênicos, que uma semana diz uma coisa, outra semana diz outra. E pronto, não sei se estou a chegar aos três minutos.

Estás.

Mas olha, quero dar um 15 positivo a Mário Centeno e a Christine Lagarde, porque vão dizendo aquilo que se passa, vão colocando os cenários que estão em cima da mesa, mesmo os cenários negativos, vão fazendo críticas àquilo que acham que devem criticar. Do lado interno, nós já percebemos, antes de mais, que o governo não perderá uma oportunidade para enganar os contribuintes sempre que puder, e a questão das pensões foi absolutamente transparente a esse nível. Portanto, não podemos contar com transparência deste lado, nem podemos contar com o presidente da República que seja lúcido e que, em vez de andar a comentar discursos de banqueiros centrais como quem comenta o final da partida de futebol, como aconteceu ontem, em vez de fazer isso, deveria ter um pouco mais de recato e, no fundo, ser, se quiseres, um farol e um bastião de alguma transparência nestes tempos são difíceis. Cinco para Marcelo Rebelo de Sousa.

E para Centeno e Lagarde?

15.

15. Aqui está então, o cinco e o 15 dá uma média de 10. Está ali résvés no vencedor. Até amanhã.