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O "Vence Doré" na Rádio Observadoras com Judite França, Anselmo Crespo e António Costa. E para quem acha que a vida do moderador é fácil, desengane-se, porque vou partilhar isto com os nossos queridos ouvintes. Fica aqui a lista de temas que estes senhores elegeram pra hoje. Vamos ver. Bandeiras, que o Chega e o CDS querem proibir, a polêmica entre o ministro Castro Almeida e os autarcas, o PTRR, o pacote laboral, a Operação Marquês e a subsidiação dos combustíveis com descontos no ISP. E aqui a questão que o António Costa prometeu tratar hoje, o que criou, António, uma elevada expectativa nos ouvintes do Vence Doré.

Tudo parado nos carros.

Toda mundo pôs um alerta pra esta hora, pra sexta-feira, está toda gente nos carros a levantar o volume neste momento. Por que o desconto no ISP não é uma ideia fixe, António?

Queres mesmo começar por aí?

Quero.

Vamos lá a isso. Vamos ver.

Mas vou ser...

Vou ser rápido, porque toda essa lista de temas, eu devo dizer que eu não sou responsável pela maior parte.

Sacudir a água do capeta.

Não quero lançar a confusão, mas não sei porque que estás a falar da Judite. Mas devo dizer que não é uma grande ideia continuarmos nesta história da subsidiação dos combustíveis por várias razões. Por um lado, porque, na verdade, se o Estado quer apoiar as famílias, devia baixar o IRS e baixar os impostos sobre o rendimento e não andar aqui com subsidiação temporária ao ISP e a medidas deste cariz temporário. E por quê? Por um lado, é regressivo. Na verdade, se nós pensarmos bem, as pessoas que têm carros com maior potência, têm mais dinheiro, gastam mais e portanto, até beneficiam mais do que quem tem carros utilitários, e especialmente beneficiam mais do que aqueles que não têm mesmo carro nenhum e que andam, obviamente, a contribuir com os seus impostos pra esta transferência de subsidiação. Depois, na verdade, eu vou tentar ser rápido, porque temos muitos temas, mas de fato, o problema não está no preço final do combustível, está na origem do problema, que é a escassez de um bem. Ora, o preço reflete o que é o equilíbrio entre a oferta, neste caso, que é pouca, porque de fato temos aqui uma crise por causa da guerra do Irão, e a procura. Quando os governos, e é à esquerda e à direita, fazem isto, mexem, tentam artificialmente manter o preço, não estão a dar os sinais a nós todos, consumidores, de qual é o comportamento que devemos ter em função do preço que existe no mercado. E, portanto, na verdade, o que o governo está a dizer, e no passado também já aconteceu, é: mantenha-se tudo igual, porque é possível manter estes preços artificialmente. Ora, não é possível. Nós não sabemos quanto tempo é que vai demorar a guerra, não sabemos quanto tempo é que isto vai durar. Portanto, o governo deveria centrar os seus apoios nas famílias vulneráveis, nessas, com apoios, obviamente, numa situação de emergência, que é preços aumentarem de uma semana pra outra 15, 20, 30 cêntimos, e não criar esta ideia, que é obviamente enganadora, de que é possível artificialmente não deixar que o mercado funcione e que o mercado, no fundo, dite qual deve ser o nosso comportamento como agentes econômicos. Só mesmo pra terminar. Alternativas, mas não fariam nada? Fariam. Eu até devo dizer que pras famílias vulneráveis deve haver, obviamente, apoios no imediato. Mas se é pra haver apoios, não se faça no ISP e nos combustíveis, faça-se diretamente no IRS.

Rafael.

Eu percebo o ponto do António. Antes de mais, deixa-me dar-te uma recomendação. Cuidado ao sair aqui do Observador, porque podes ter uma espera lá fora. Ainda bem que puseste na garagem, assim ninguém sabe que és tu que estás a sair. Eu percebo o ponto do António, mas eu não sei se estou muito de acordo, porque acho que o António falou aqui da injustiça que pode ser criada para o consumidor particular, mas eu acho que há aqui um outro lado, que é: e as empresas? Que basicamente não têm alternativa.

Já há gasóleo profissional.

Está bem, mas não há pra todos os setores. Aliás, isso é uma reivindicação. Ainda hoje estava a ver uma reportagem numa pedreira com o setor a dizer que anda há anos a pedir gasóleo profissional.

Mas o preço deve refletir o custo da produção, não é? Senão vais subsidiar, e depois?

Mas esse é o ponto. O ponto é que o mercado não permite a muitos setores que eles transfiram esse custo para o produto final, pro preço final.

Vamos ter todos que nos ajustar.

O que eu estou a dizer é: eu admito que, numa circunstância especial, o Estado tenha que subsidiar da forma mais cirúrgica possível. Por isso é que eu sou contra o IVA zero na alimentação, porque eu acho que o IVA zero é contraproducente, acaba por beneficiar quem não precisa tanto e, sobretudo, há sempre o risco de ser absorvido, mas isso é outra discussão. No caso dos combustíveis, obviamente que eu também defendo, e acho que toda gente de bom senso defende, que tem que haver uma transição e nós temos que fazer, não apenas por questões ambientais, mas também precisamente pela escassez deste produto, temos que perceber que há um caminho que tem que ser feito.

E o preço incentivava.

Está bem, mas, António, não é enquanto durar a guerra do Irão que agora as empresas vão vender as Caterpillar todas e vão passar a comprar Caterpillars elétricas. Só um exemplo. Na agricultura, é um exemplo disso. Sabes quanto é que custa um veículo elétrico que possa ser utilizado na agricultura? É incomportável. Quer dizer, não podes transferir aquilo pra garrafa de vinho, senão ninguém te compra o vinho.

Vamos lá ver Vais poder, porque se isto se mantiver assim, o Estado não vai conseguir manter esta subsidiação.

Como é evidente.

O que eu digo é: eu acho compreensível em situações de emergência e particularmente para famílias vulneráveis, que haja apoios.

Mas como é que se faz essa distinção?

Pelo IRS.

Não é isso que se faz?

É a única para...

Não tenho nada. Pois, não há milagres. Não há milagres e é muito difícil fazer aqui uma raiz quadrada das hipóteses que seja justa, porque também não é justo, neste momento, o que as pessoas estão a passar com o preço dos combustíveis neste patamar. E não é justo o que vai acontecer a seguir.

Isso é uma questão moral, não é?

Pois, não pode ser uma questão moral. Não pode.

Não é justo. Nós não temos nada a ver com a guerra no Irão.

Não pode ser visto como uma questão moral. A verdade é que o cabaz alimentar nunca esteve tão alto como agora e se nós olharmos para o que são os últimos aumentos do cabaz alimentar, em quatro anos subiu €60.

Por isso, mesmo eu acho que essa vantagem orçamental que o governo tem, e é por isso que também a está a dar agora, porque obviamente ganha mais quando o IVA sobe, por via do IVA, no caso do ISP, deve ser transferida no IRS e não no ISP. Esta deve ser devolvida em rendimento, precisamente para as pessoas possam ajustar o seu comportamento com mais dinheiro no bolso, em função do que o Estado está a ganhar a mais por via deste efeito extraordinário.

Aquilo que o Estado está a ajudar é muito pouco em relação àquilo que o Estado está a ganhar.

Sim, vamos ver.

Para já é. A subsidiação é muito baixa. Portanto, não tem compensado minimamente o aumento dos preços.

Claro.

Vamos ver o que o Estado vai fazer, vamos ver o que Castro Almeida já tem preparado. Aparentemente, tem preparado alguma coisa.

Não há milagres. Porque o que quer que seja que tenha preparado, custa dinheiro.

É verdade, mas se for uma situação one-off, é evidente que a gente não sabe quanto tempo é que dura a guerra, não sabe quanto tempo é que o Estreito de Ormuz vai ficar fechado. Isso é tudo verdade, mas se pensarmos que é uma situação one-off e que depois desaparece, não sei, talvez o Estado às vezes tenha que meter a mão.

Muito rapidamente uma coisa. Eu acho que a desejável intervenção, eu não a faria era assim: é importante ajudar e apoiar, nomeadamente o tema do cabaz alimentar, de forma temporária, as famílias mais desfavorecidas e com mais dificuldades, mas é preciso fazer outra coisa qualquer que é, do outro lado, do lado da procura, que é criar condições para que, eu não estou falando longo prazo, no curto prazo, para que haja, de facto, uma mudança de comportamento no consumo, porque as pessoas vão continuar. Estou a falar dos combustíveis neste caso. Vamos continuar a comportar-nos como se não houvesse ou como se o aumento fosse limitado, quando o aumento, na realidade, é muito impactante e o preço serve mesmo para arbitrar essa procura e essa oferta.

A expressão-chave no que tu disseste é curto prazo. Eu não podia estar mais de acordo. O problema é que no curto prazo não é possível descortinar soluções alternativas às pessoas. Vou dar um exemplo: eu moro a 15 minutos do centro de Lisboa. Sabes quantos autocarros passam na minha rua ou nas ruas mais próximas? Dois por dia. Para Oeiras não há metro, sequer. Essa discussão eu acho muito importante, só que o problema é quando nós estamos no momento da aflição, nós dizemos: "Bom, nós temos que incentivar as pessoas a procurar alternativa." As que tiverem e as que não tiverem?

O Estado a garantir que há alternativas.

Estamos só a falar de Lisboa, imagina se falássemos do resto do país. Quantas pessoas é que têm alternativa para deixarem o carro em casa?

Sim, claro, mas o Estado é que tem que criar essas condições.

Pois, mas não é no curto prazo.

Não é no curto prazo.

É evidente.

Vamos avançar para a Operação Marquês?

Não vamos avançar muito. Avançamos pouco para a Operação Marquês.

Avançamos aqui cinco minutinhos.

Era uma graça em relação aos 10 dias que os advogados têm para consultar o processo.

Desculpa. Estou preocupado com o tempo e com os temas.

Nós já tivemos o próprio presidente da Associação Sindical dos Juízes a dizê-lo e neste momento sabemos que Susana Seca tem sido irredutível nesta questão dos 10 dias para consultar o processo. Já se percebeu que esta via é contraproducente. Os advogados oficiosos alegam o mesmo que os advogados contratados por José Sócrates, que não se consegue consultar o processo naquele prazo. Parece-me mais ou menos evidente. Já tivemos o presidente da Associação Sindical dos Juízes a dizer que Susana Seca devia recuar, dar o braço a torcer. O Bastonário da Ordem dos Advogados deu uma ideia interessante, que era haver uma equipa de advogados oficiosos que se concentrasse no processo, quando os processos são da dimensão da Operação Marquês. E claro que isso leva a outro problema, que é quem paga e quando é que paga. Para isso também há uma solução. Nós ouvimos hoje a ministra da Justiça, na tarde política, dizer que é da mais elementar justiça que o sistema de pagamento seja revisto e que os advogados oficiosos não tenham de esperar pelo fim do processo para começarem a receber. Vou ser muito rápida, é isto. Parece-me que a solução foi encontrada, então agora é só pôr em prática.

Eu só queria dizer que Sócrates, para mim, neste momento, é um fugido da lei. Não fugiu do país, mas o que ele está a tentar fazer é fugir à Justiça.

António.

Eu li com atenção o teu artigo esta semana no Solo sobre isso e tens razão, de facto, mas isto é muito caricato. Eu acho que as pessoas já desistiram disto. O cidadão comum olha para isto com um misto de

De cansaço e eu diria até quase de indiferença. Não devia, não deveríamos todos. Eu próprio confesso, apesar das responsabilidades jornalísticas, olho para isto e de facto é difícil.

Mas não dá para desistir, António.

Não, não dá. Mas eu confesso o meu próprio cansaço.

Este cansaço? Claro que sim.

Visto como fomos bem comportados, agora tens tempo a mais. Podemos continuar.

Agora sobraram-me três minutos. Se calhar vou pôr uma música dos Primitive Reason.

Eu tenho uma coisa do PTRR que é muito rápida e demora menos de três minutos.

Ainda ninguém deu notas hoje?

Devemos dar notas.

Pois, não demos notas.

Notas, bora.

A esta ideia da ministra da Justiça vou dar um 15, acho que é uma boa ideia.

Ok.

Eu vou dar um 11 à subsidiação, pela urgência, mas eu acho que é preciso mais qualquer coisa do que isto. Eu vou pela negativa, já que a Judite foi pela positiva. Não vou dar nota a José Sócrates porque eu acho que já não há nota possível, mas vou dar à justiça, porque eu acho que se este caso não dá para mudar alguma coisa, não é apenas no caso dos advogados oficiosos, há aqui um conjunto de coisas. Luís Rosa anda a pregar no deserto há não sei quanto tempo sobre isso, sobre o excesso. Não é o excesso de garantias, eu nem sei se há excesso de garantias, é a forma abusiva como muitas vezes se tenta usar essas garantias. Se isto não é suficiente, com o diatismo todo que este caso tem, para haver uma reflexão profunda, eu já nem falo em pacto de regime, esqueçam lá o pacto de regime, que essa expressão está endiabrada, mas para se fazer qualquer coisa que permita que a justiça de facto funcione de alguma maneira, então eu já não sei o que é preciso acontecer.

António, PTRR, um minuto.

PRTR para dizer que foi anunciado há um mês. Já passou um mês. Foi anunciado quase como um novo programa de governo. E entretanto não sabemos nada.

Estamos na fase de recolha, não é? Era para abril.

Acho que, se a memória não me falha, dia 23 de março acaba o processo de consulta. Mas é estranho que um plano que tenha mobilizado e tenha posto o primeiro-ministro a falar ao país: "Venha em PTRR, porque a zona centro, o país via zona centro em particular, precisam disto", tenha desaparecido não é da agenda mediática, é da agenda política do próprio governo. Desapareceu. Eu digo assim: "Mas se calhar não era assim tão importante ou tão impactante". Foi uma grande expectativa.

O primeiro-ministro, na esperança que ninguém se lembrasse disso e tu agora vens para aqui para a rádio falar do assunto.

Tenho a expectativa de que venha a ser apresentado. Estou à espera.

Não sei, eu acho que ainda vais para a cama quentinho hoje. Não vais dizer mal do ESP.

Só a arranjar amigos.

Sim. E sem jantar. Já voltamos para a segunda parte. Segunda parte de "E o Vencedor É", na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com Judite França, o Anselmo Crespo e o António Costa. Vamos falar de bandeiras, Anselmo, e aqui cada um ou cada instituição hasteia a que quiser, é isso? Queres contar a história num instante?

Sim, a história: hoje foi ao Parlamento uma proposta do CDS e, salvo erro, do Chega, para colocar na lei a obrigatoriedade de todos os organismos públicos só poderem usar as chamadas bandeiras oficiais, a bandeira do país, a bandeira da União Europeia, aquilo que forem consideradas bandeiras oficiais. Basicamente, o que estes dois partidos queriam ou querem é que deixe de ser possível um organismo público hastear uma bandeira LGBT ou hastear uma bandeira da Palestina, em nome de uma causa qualquer. Estou a dar estes dois exemplos, porque são basicamente os dois exemplos mais recentes.

Da Ucrânia também, por exemplo.

Da Ucrânia, por exemplo. O princípio em si, não tenho nada contra, mas eu hoje estava a ouvir essa notícia e a pensar: "Mas os deputados não têm mais o que fazer?" Por um lado. Não há outras prioridades? Esta manhã de Parlamento não teria sido mais bem gasta? Não temos problemas nenhuns, não há uma guerra no Irão, uma crise económica à espreita, um conjunto de problemas que estão por resolver. Isto, por um lado, mas por outro lado, há aqui uma dimensão que me parece que é muito parecida com aquilo que nós vimos acontecer no extremo oposto do espectro político há uns anos. Que de repente a esquerda andou, envolveu-se aqui numa quantidade de causas, umas fraturantes, outras nem eram nada fraturantes, mas daquelas coisas pequeninas, grandes, médias, depois deu origem ao movimento woke.

E deu espaço à direita para crescer.

E que foi exatamente o que deu espaço à direita para crescer. Era exatamente aí que eu queria chegar. E agora vejo a direita a fazer exatamente a mesma coisa. Lá está, nada contra que fique na lei, que as bandeiras que se podem usar são estas e não outras. Nada contra. Agora, quero muito ver quando for o Charlie Hebdo, não é uma bandeira, é verdade, mas quando for o Charlie Hebdo ou quando são acontecimentos muito impactantes e que levam muitas vezes câmaras municipais, organismos públicos, até redações, o que seja, de alguma forma a demonstrar solidariedade com uma causa qualquer, ou empatia com alguém ou com alguma coisa. Quer dizer, parece-me um bocadinho absurdo estar-se a perder tempo, sobretudo os deputados estarem a perder tempo a debater e a votar uma coisa que não passa de uma pequena obsessão da direita.

É um problema que não existe.

E que eu acho que as pessoas, o cidadão comum, terá muita dificuldade em compreender qual era a urgência disto. Por quê? Sobretudo, eu acho que nunca dá bom resultado guerras culturais.

Isto é uma guerra cultural?

É uma guerra cultural e desnecessária, obviamente. Temos pouca coisa para nos entreter. Só temos uma guerra no Médio Oriente com os efeitos que aqui estamos a discutir. Temos uma região centro do país destroçada e que não ficou bem porque deixou de ser falada.

Judite, o hastear do pavilhão merece comentário?

Merece. Eu acho que, neste momento, nós temos, desde 2022, por exemplo, o Reichstag hasteia a bandeira LGBT no Dia Internacional contra a Homofobia, que é 17 de maio. Qual é o problema? Eu não vejo nenhum problema. Se alguém vê algum problema e se choca com isto, é que tenha um problema. Não é a bandeira em si.

Está a falar do Bundestag.

Sim, o Bundestag. O que eu disse?

Tu disseste Reichstag e eu pensei assim: "O que está a escapar?"

Estou um bocadinho atrasada.

Não, é que eu não estava a ver o Reichstag hastear essa bandeira.

Olha, se calhar aconteceu.

Eu já vi muita coisa.

Grandemente errado.

Bundestag.

Mas isto para dizer o quê?

Não, guardem para os bloopers.

Bundestag é o Parlamento alemão.

Certo.

O Reichstag era o Parlamento do nazismo.

Mas o Parlamento Europeu faz a mesma coisa no dia 17 de maio. A Comissão Europeia também faz a mesma coisa com a bandeira LGBT. Há vários parlamentos nacionais e estrangeiros, vários parlamentos nacionais e vários países que fazem a mesma coisa ou que iluminam o edifício. Vai haver uma diferença entre hastear a bandeira ou iluminar o edifício? Acho que isto, de facto, é uma guerra cultural que não vale a pena alimentar e é um não problema.

A mensagem que fica, Anselmo, é ir trabalhar.

Deixai a bandeira em paz.

Então vamos falar da polémica entre Castro Almeida e os autarcas, Anselmo.

Vamos a isso. Primeiro, para fazer aqui não exatamente uma defesa, que não sou advogado de defesa de Castro Almeida, mas para tentar enquadrar aqui um bocadinho a personalidade. Castro Almeida, que eu até acho que é um dos melhores ministros deste governo, tem esta coisa de frequentemente, quando está a falar em público, se esquecer que, um, é ministro, e dois, que está a falar em público. O que é uma coisa um bocadinho chata para quando se está no cargo dele. E se é verdade, por exemplo, aquela tirada dele.

Inconfidência, não sei.

Mas depois as declarações não são todas iguais. Aquela coisa que ele disse na SIC do: "Usam o salário do mês anterior", foi claramente gafe. Gafe no sentido de: "Não sei o que responder, vou responder aqui qualquer coisinha." Quem nunca? Só que como ministro, depois dá nisto. E desta vez, eu não li, nem no tom, nem na forma como Castro Almeida disse o que disse, exatamente uma crítica aos autarcas. Ainda que eu perceba, e eu se lá estivesse, teria feito exatamente essa notícia, ainda que eu perceba que se retire dali uma crítica aos autarcas, no sentido de as câmaras municipais não estão a conseguir dar resposta. E agora que fiz esta meia defesa de Castro Almeida, vamos ao ponto mais importante. É que isto é um fado português de cada vez que há grandes incêndios ou cada vez que há uma tragédia e o Estado promete apoios e promete ser rápido. Prometer ser rápido é fácil, ser rápido é mais difícil. E na verdade, Castro Almeida, ainda por cima, que foi autarca e sabe perfeitamente os recursos que as câmaras municipais têm, há de imaginar que se já são escassos numa situação em que não há uma crise, quando há uma crise e uma tragédia, tornam-se ainda mais escassos. E é essa parte da incompreensão que eu tenho sobre aquelas declarações. Não é tanto o eu achar que ele quis ser crítico publicamente com as câmaras, é o facto de, logo antes de anunciar a forma como estas inspeções iam ser feitas, o ministro ou o staff dele, ou o ministério, ou alguém no governo não ter dito: "Mas como é que as câmaras vão conseguir fazer isto? Tem ideia quantas casas são, quantas empresas são, quantos peritos é que são precisos para fazer?" É que aquilo, não estamos a falar de uma ou duas, estamos a falar de milhares de casas. E, portanto, essa impreparação e esse improviso e esse desenrascanço português é: "Ok, eu já resolvi o problema. Olha, o dinheiro foi transferido para as CCDRs, agora façam o favor de ir lá os senhores fiscalizar."

Há um atirar da responsabilidade para as câmaras que não é justo. Não é justo atirar essa responsabilidade.

Por isso é que eu disse, eu faria a notícia assim, claro. Eu acho que ele não quis ser crítico com as câmaras, ele atira, de facto, a responsabilidade para as câmaras.

Não quis ser crítico com as câmaras, mas não quis ficar com a responsabilidade.

Percebo que é uma zona cinzenta.

Há outro ponto, vamos ver. Por exemplo, nós ouvimos esta semana o presidente da Câmara de Leiria, a mais afetada na primeira depressão, dizer: "Ainda não recebi um euro do Estado." Não recebeu um euro do Estado. Aliás, o único dinheiro que recebeu foi a antecipação de 5 milhões de euros de uma seguradora, da Fidelidade, e até tem que se endividar em 25 milhões para conseguir responder no curto prazo às exigências. Para lá disto, o que Castro Almeida, que foi autarca, se há experiência que melhor Castro Almeida tem, é de ser autarca. Construiu a sua reputação aí, nas autarquias. Precisando o governo que as autarquias respondam, com mais problemas, com menos problemas, com mais dificuldades, com menos dificuldades, o que ganha o ministro da Economia em antagonizar e gerar esta tensão neste momento? Até podia acabar todo este processo e depois de estar resolvido, dizer: "Isto não correu bem. Os senhores autarcas não responderam como eu achava que deviam ter respondido. Já estava o problema resolvido, vamos lá fazer as lições." Normalmente, fazem-se as avaliações no decurso Depois, quando isto acabar, ninguém vai fazer as avaliações do que é que correu bem, do que é que correu mal. É estranho o fato de Castro Almeida ter nos habituado ao longo deste último ano e meio, dois anos, mas diria com alguma peso aqui no último ano, a declarações que são inoportunas para o próprio. Estão a criar problemas para o próprio.

Bastava ele ter acrescentado uma frase. Ele estava a dizer aquilo, bastava ele ter acrescentado: as câmaras claramente não estão a ter capacidade e nós, governo, vamos ter que encontrar uma forma com as câmaras de resolver um problema que foi criado. E estava resolvido o problema.

Queres dar uma nota, Anselmo?

Eu vou dar a nota ao tal desenrascanço e a todo o processo. Eu acho que isto é miserável. Eu acho que isto merece um seis, porque repara, cá estamos nós outra vez e daqui a uns meses vamos estar seguramente ainda a debater este tema e isso é um triste fato.

Olha, Judite, eu fiquei aqui com o polegar atrás da orelha e fui confirmado. Portanto, o palácio chama-se Reichstag, em Berlim, mantém o nome, mas o Parlamento é o Bundestag.

Então, tendo em conta que eu estava a falar do edifício.

Estavas bem.

Estava certo.

Mas quem decide é o Bundestag e não o Reichstag.

Certo, mas o edifício fica iluminado, é o Reichstag.

Portanto, é menos mau do que o que parecia ainda há uns minutos.

O prego é menos prego.

Isto é jornalismo.

Em andamento.

Em andamento. Exatamente. Bom, ainda temos mais um tema. Está a ser incrível. O pacote laboral na ótica do Chega e do PS. Anselmo.

O pacote laboral na ótica do Chega e do PS é para morrer, é para matar. E parece-me que isto é tão evidente que eu não vejo muito bem como é que Luís Montenegro vai descalçar esta bota.

E também não vejo como é que o António José Seguro se meteu nisto.

Meteu-se na campanha, na verdade.

Não, e agora dizendo: "Sentem-se lá", porque depois falhando a palavra, a conclusão vai ser: afinal, a palavra do presidente foi logo a primeira, não tem assim tanta força.

Atenção, ele agora, depois de presidente, até foi bastante mais equilibrado, para usar a expressão dele, do que é normal.

Sim, claramente. Diz: "Sentem-se lá, eu quero que se sentem." Eles vão se sentar.

Ele pede um acordo equilibrado, que é um eufemismo para aquilo que ele disse durante a campanha, que é: "Eu dificilmente promulgarei isto sem a UGT." Um acordo equilibrado é isto. Não pode vir só com o acordo com os patrões, tem que vir com acordo com a UGT. Agora, como é que vai haver um acordo se a UGT basicamente não quer este pacote laboral, quer outro qualquer que não existe. Este não quer. O Partido Socialista também não quer este pacote laboral, quer outro qualquer que não existe, mas lamentavelmente não é o Partido Socialista que está no governo, é o PSD. E o Chega também não quer este pacote laboral, quer outro. E, portanto, eu não sei o que é que ainda vão negociar na segunda-feira.

Vão fazer, digamos assim.

Vão fingir que vão negociar.

Ao frete, porque o presidente da República, na sua primeira intervenção, logo no segundo dia útil disse: "Não acabem já isto." Dizer: "Ok, vamos nos sentar outra vez." E a minha conclusão, complementando o que disseste, é: como fica a palavra do presidente? É a primeira vez que intervém. É o primeiro tema em que põe a sua palavra num dossiê e não havendo acordo.

Mas apelam ao diálogo, no fundo.

Não, sentem-se. Mais que apelar ao diálogo, sentem-se. Sentem-se lá e eles vão se sentar outra vez.

E vão.

E depois saem de lá sem acordo.

Mas achas que isso pode fazer ricochete?

Eu acho que faz total ricochete.

Na medida em que falha.

Tira peso à palavra do presidente.

Não sei se eu tenho por aí. A influência do presidente não foi suficiente para haver um acordo.

Logo na primeira, não é?

Porque eu imagino que para além desta palavra pública, o presidente esteja a falar também, nomeadamente na reunião ontem com o primeiro-ministro. Portanto, eu imagino que o Presidente da República também exerça a sua magistratura de influência nos bastidores. Agora, o Presidente da República também tem um problema, é que ele também não gosta desse pacote laboral. Neste momento, os únicos que gostam desse pacote laboral é o PSD e o CDS. Mais ninguém gosta desse pacote laboral.

E as confederações patronais, vamos admitir.

E também umas mais convictas que outras.

Elas veem ganhos de causa em alguma coisa que ali está.

Eu temo que isto seja uma daquelas reformas que antes tu seres já o era, porque não estou a ver grande caminho para isto.

Porque indo para o Parlamento, não há grande saída.

Não, não há. O PSD está a dizer. Ninguém a quer.

Vamos ver como é que o Chega. Enfim, não diria que o Chega chumbará tudo.

Pois, provavelmente.

Eu, aliás, tive a oportunidade de entrevistar André Ventura semana passada e falei precisamente sobre este pacote. E para mim ficou claro que o tema do outsourcing é uma linha vermelha para o Chega.

Que é extraordinário.

Exato.

O partido mais à direita de Portugal é contra o outsourcing.

Uma agenda económica.

Devia ser notícia internacional.

Mas diria que pode aprovar outras medidas. E é uma pergunta que é interessante fazer. Para lá de nós considerarmos que é mais reforma, menos reforma, há uma série de medidas no Parlamento, mas mesmo na concertação e seguramente no Parlamento, que podem passar. Podem não passar todas, mas podem passar algumas.

Mas isso é uma forma coxa.

Desvirtua o que era a dita reforma.

Vai manter as que têm acordo, por exemplo, com o Chega, nomeadamente o alargamento dos contratos a prazo. O Chega aceita, por exemplo. O banco de horas individual, o Chega aceita. Não aceita o outsourcing. O governo, estou a falar destas três ou quatro que são críticas para a UGT, para o PS, para o governo, para os patrões, para os sindicatos. O governo deixa cair tudo e diz:

Ou aproveita algumas.

Ou aproveita algumas. Não sei, e se calhar vai aproveitar algumas. Mas, por exemplo, a dúvida que me assalta é: se passar uma medida como o banco de horas individual ou como o alargamento dos contratos a prazo, são duas medidas que a UGT não está disponível sob posição nenhuma a aceitar, que o Chega aceita, que o PSD aceita, o que é que vai fazer o presidente António José Seguro se isso lá lhe chegar?

Vamos a uma ronda rápida de notas?

Essa é uma boa questão. Que fará Seguro com uma reforma retalhada?

Parcial e retalhada, mas que tenha medidas que a UGT não aceita, que não passem pela concertação.

Judite, tens nota?

Não tenho para isto.

Não? Está bem.

Eu tenho um 11 para António José Seguro.

Anselmo?

Eu tenho um oito para esta reforma e só não é mais baixa porque ainda pode haver aqui um caminho qualquer que eu não estou a ver qual é, mas pode haver.

E vocês foram incríveis, porque conseguimos falar disso sobretudo.

Não sei como é que o fizeste.

Bandeiras, polémica Ministro Castro Almeida e autarcas, PTRR, pacote laboral, Operação Marquês, estou a contar pelos dedos, e ISP. Incrível. Bom fim de semana a todos.

Bom fim de semana.

Bom fim de semana.