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Começa agora uma nova edição do "Youven Sorê", da Rádio Observador. Carla, esta terça-feira juntam-se a nós Alexandre Machado e o Ricardo Conceição. Hoje temos um caso de insistente violência doméstica para pontuar, mas comecemos com os discursos do 10 de Junho que decorreram ontem. Ricardo, o que destacas dessas intervenções?
Vale a pena ir ao discurso de Rui Rosinha. Ele é um bombeiro de 46 anos. Tinha 39 há sete, quando a 17 de junho o carro em que seguia embateu noutro na Estrada 236.1, na zona de Pedrógão. Nessa viatura seguia o Gonçalo Conceição, que era bombeiro e que morreu na sequência dos ferimentos desse acidente, naquela tragédia que todos estamos recordados. E ontem, o Rui Rosinha foi convidado pelo Presidente da República para fazer um discurso no 10 de Junho. E o Rui Rosinha, que está numa cadeira de rodas, ficou gravemente ferido naquela tragédia que nos aconteceu a todos e que provocou 66 mortos e 253 feridos. Convém não esquecer que morreram 66 pessoas e 253 ficaram feridas. Houve centenas de casas afetadas pelo incêndio, umas destruídas. Eu não consigo falar deste caso sem alguma emoção, porque estive lá. O incêndio foi de sábado pra domingo, foi no final da tarde de sábado e eu cheguei no domingo à noite e na segunda-feira de manhã, quando o sol nasceu, eu estava a trabalhar. Estava em Nudeirinho, onde morreram 11 pessoas e os carros ardidos ainda estavam batidos à porta, à entrada da aldeia, onde num desses carros morreu uma avó e uma criança. E não me esqueço daquilo que aconteceu. Passado sete anos, tenho a sensação de que tudo poderia voltar a acontecer. E o discurso do Rui Rosinha foi muito interessante, porque às tantas ele diz que muito se prometeu, mas pouco chegou ao território. A burocracia é pesada e demorada e todos os dias tentamos transformar a dor em esperança, mas nem sempre conseguimos. E o discurso do Rui Rosinha é um discurso muito equilibrado, não é um discurso que apela a esse lado mais emocional para o qual poderíamos resvalar perante a tragédia a que todos assistimos. É um discurso sobre a falta de oportunidades, sobre um interior que continua esquecido, sobre populações que não têm médico, que não têm autocarro, que quando querem levar o filho ao médico, se não têm carro, é uma carga de trabalhos, porque têm de ir a Coimbra ou porque têm de ir a outro grande centro urbano. E o discurso do Rui Rosinha foi muito equilibrado nesse sentido e desperta-nos para essa realidade, num país que tem umas centenas de quilómetros. Isto é um país pequeno, isto é um quintal.
É uma faixazinha.
É verdade, comparado com outros países, isto é um quintal onde apesar de tudo, as pessoas continuam a não ter as mesmas oportunidades, continuam a não ter os mesmos serviços, o acesso às mesmas coisas. Nós aqui queixamo-nos muito desta vida meio louca que levamos nas cidades, de correrias, presos em trânsito. Todos os dias nos queixamos disto, mas há um país que todos os dias trabalha, que todos os dias tenta trabalhar, que tenta educar os seus filhos, criar as suas crianças e que para ir a um médico tem de acordar às tantas da manhã, tem de fazer não sei quantos quilómetros, sem saber se vai ter consulta, se não vai ter. Apesar de tudo, há coisas que fora dos grandes centros urbanos ainda vão funcionando e o sentido de comunidade ainda se mantém, felizmente. É o caso de Pedrógão, Castanheira, Figueiró. Nós podemos assistir isso quando vamos lá, mas tirando estas datas e tirando estes momentos em que nos recordamos desta tragédia e daquilo que aconteceu, as pessoas continuam esquecidas. E retomo aquilo que disse. Eu tenho, infelizmente, a sensação de que a desorganização a que assistimos, aquilo foi um fenómeno extremo, e convém nós recordarmos que aquilo que aconteceu ali a 17 de junho há sete anos, foi um fenómeno extremo, de extrema violência, raro, mas que aconteceu. Se acontecesse hoje algo parecido, eu não tenho a certeza se a resposta das autoridades não seria igualmente má, como foi na altura.
No dia e depois na reposição de tudo o que se perdeu. José Manuel, também achaste importante a intervenção do bombeiro e depois também a intervenção do Presidente da República.
Olha, eu achei muito importante a intervenção do bombeiro, porque é uma chamada de atenção para um território onde, infelizmente, mudou muito menos do que se diz que poderia ter mudado. Eu tenho ido lá algumas vezes desde o incêndio e aquilo que percebo são várias coisas. Primeiro, a transformação da floresta. Não estamos a falar disto dois ou três anos depois. Não, estamos a falar disto sete anos depois. A transformação da floresta Quase não ocorreu e quase só ocorreu nos locais onde havia o capital de investimento das empresas ligadas à indústria das celuloses. Onde esse capital não existia e a capacidade de realizar acordos, realizar operações de reflorestação com pés e cabeça, o que aconteceu basicamente foi o renascer do que lá estava em condições muitas vezes mais perigosas do que aquelas que existiam há sete anos. Portanto, não temos ainda a massa crítica de vegetação suficiente pra um desastre daquelas dimensões, mas a probabilidade de repetição não foi combatida como deveria ser. Não está tudo tão mal como estava naquela altura, mas os progressos são muito reduzidos. Nota-se em boa parte do interior que houve mudanças. Por exemplo, há mais baloiços. Hoje é uma moda daquela zona, daquela região. Mas eu aconselho as pessoas: olhem pro mapa do país e reparem que Pedrógão não está assim tão pro interior como às vezes se fala. O distrito onde ontem o presidente esteve não é um distrito do interior, é o distrito de Coimbra. Ele não foi pra Guarda, não foi pra Castelo Branco, não foi pra Viseu, não foi pra Portalegre, não foi pra Bragança. Esteve no distrito de Coimbra, que é um distrito que tem mar, como costuma ser.
Tem litoral.
Tem litoral. E, portanto, isso também é um indicador de que nós temos enormes dificuldades em lidar com os territórios esquecidos. E também aí pouca coisa mudou de forma muito substantiva. Aquele discurso do bombeiro Rosinha é um discurso que chama a atenção. Eu acho que a frase mais marcante talvez seja: "Muito foi prometido, muito pouco foi realizado, ou aquilo que foi realizado ficou muito aquém daquilo que eram as nossas expectativas". E isso dito por alguém que ficou preso a uma cadeira de rodas e viu o seu companheiro morrer naquelas horas fatídicas, é muito significativo na minha perspectiva. E por isso, eu até acho que aquilo salvou um bocadinho aquela cerimônia, porque eu estive ouvindo o discurso do presidente, percebi que ele foi elogiado por todos, mas sinceramente, não achei que fosse um discurso bem lido. Achei que era um discurso às vezes inculpado, não senti que o Marcelo estivesse com aquele sentimento que em outras ocasiões tem e que, aliás, naqueles dias mais trágicos, esse sentimento foi importante pra muitas pessoas, porque elas se sentiram muito abandonadas naquelas alturas e isso foi importante naquele momento. Mas ontem não o senti assim, sinceramente, e acho que quem salvou aquela cerimônia foi a intervenção daquele bombeiro, que nos fez recordar o que tinha acontecido e que não basta dizer que nunca mais. É preciso, de fato, criar condições para que nunca mais. E essas condições estão muito longe de serem concretizadas.
Alexandra, também te pareceu que o discurso do presidente esteve um pouco fora de tom com aquilo que a ocasião quase que obrigava?
Eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa tinha a difícil tarefa de falar num rescaldo de umas eleições. Eu sei que não era o mote ali para aquela ocasião, mas acho que houve alguma preocupação em não se meter muito em áreas de fronteira política. Ainda assim, gosto de reparar que já não somos fado, nem bacalhau, nem Cristiano Ronaldo, nem Inquisição Portuguesa, ou lá o que é que éramos todos. E esse baixar de empolamento.
Ainda não acabaram as comemorações.
Pois é, porque é isso, no estrangeiro é que puxa a sardinha.
Na Suíça não sei.
Na Suíça são de sardinha assada ou assim alguma coisa. Mesmo cá em Portugal era bastante enaltecida essa parte. Gostei de ver um bocadinho abaixar as expectativas, embora claro que depois no final sejamos o melhor povo do mundo e não tenho dúvidas disso, mas há que conter um bocadinho estes ímpetos que o presidente tinha e gostei desse puxar pra baixo um bocadinho o apelo aos portugueses. Acho que foi arriscada a tirada de que tragédias como em 2017 nunca mais. Obviamente que esperamos todos que não tenhamos tragédias como as de 2017, mas sabemos que temos um território de alto risco em termos de incêndios e as condições climatéricas também não ajudam e é bastante arriscado, embora possamos todos pôr a mão na consciência e fazer o que estiver ao nosso alcance para impedir que tragédias como a de 2017 voltem a acontecer. Esteve bem em dois pontos o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, no meu entender, o foco no interior, embora, é como o Ricardo e o José Manuel já disseram, este foco no interior e de termos que olhar pro interior e pra todas as terras e pra todos os portugueses esteja nos discursos, mas depois normalmente não está nos atos Está mais nas omissões e nas palavras do que propriamente nos atos. Cerimónias como estas são muito bonitas, fazem-nos estar aqui hoje a falar do interior, mas depois a consequência é quase zero e continua a haver dois países ou três países, a duas ou três velocidades. E isso não são estas comemorações e estes discursos que fazem mudar a agulha. Esteve bem também Marcelo Rebelo de Sousa integrar nestas comemorações aquele discurso que o país somos todos, nacionais e estrangeiros. Acho que foi um ponto importante integrar aqui os migrantes e uma palavra para as migrações, muito en passant, diga-se de passagem, para não criar grandes polémicas, mas esteve bem. Depois, veio o tema das reparações. Marcelo Rebelo de Sousa já tinha cometido o erro de falar no tema naquele jantar com correspondentes. Tenta emendar a mão aqui e ali, mas já vai tarde. O que fez de mal já está feito de mal e não são palavras agora no meio de um discurso que vão reparar o tema das reparações. Marcelo Rebelo de Sousa não consegue mesmo reparar este tema e essa parte é um ponto negativo do discurso de Marcelo, ou pelo menos da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa. Há aqui alguns pontos que saliento como positivos. Dou uma nota positiva a Marcelo Rebelo de Sousa, quer dizer, já me estou a antecipar à nota.
Mas dá, pode dar que está na altura.
Desculpa, mas dou uma nota positiva a Marcelo Rebelo de Sousa, por mais não seja por se ter pensado em Pedrógão Grande para as comemorações do 10 de Junho, mas não consigo extrair um vislumbre futuro muito elevado. Portanto, eu dou um 10 ao discurso de Marcelo Rebelo de Sousa.
Ao discurso, um 10 então. E temos que fazer aqui uma retificação, Pedrógão Grande fica no distrito de Leiria e não de Coimbra, como dissemos erradamente. Obrigada aos nossos atentíssimos ouvintes. José Manuel, vais dar nota a quem?
Sim, Pedrógão fica, mas ontem Marcelo também esteve em Coimbra. A minha referência era ao distrito em que ele tinha estado também. E Castanheira de Pera. Eu vou dar nota ao discurso, não de Marcelo, mas ao discurso do bombeiro.
Do Rui Rosinha.
Rui Rosinha e, portanto, é uma nota mais positiva. É um 15.
Um 15 para Rui Rosinha. Ricardo?
Eu dou um 20 ao Rui Rosinha por várias razões. Primeiro, pelo discurso de ontem, que foi um bom discurso. Depois, por ter ficado marcado para a vida ao serviço do país e depois por se ter posto ao serviço do país enquanto bombeiro e bombeiro voluntário. Acho que temos que agradecer a todos os bombeiros e todos os homens e mulheres que arriscam a vida por todos nós e que todos os anos entram nos carros para combater incêndios, não sabem se vão regressar a casa bem ou mal. E para todos eles acho que devemos agradecer muito e por isso um 20 para o Rui Rosinha.
E para tudo aquilo que ele representa. E parece que estamos aqui a falar de alguns problemas que o país não consegue resolver de todo. É um caso destes que trazes, não é? Violência doméstica ao limite, aqui com um caso que é quase ao extremo, não é, Paulo?
É, e este caso já aconteceu na quinta-feira. Entretanto, andámos todos, o país, de alguma forma preocupado com as eleições, e bem, com as eleições europeias. Mas eu acho que este caso, por aquilo que ele revela, não deve ser esquecido. Isto é, devemos falar dele e devemos pedir explicações. Pode ser mais um caso de violência doméstica fatal. Eu acho que é mais do que isto. Este caso é particularmente chocante pela forma como ocorreu, mas também por aquilo que revela sobre, mais uma vez, uma área de funcionamento do Estado. Uma mulher de 37 anos foi atropelada mortalmente pelo ex-companheiro em São Mamede de Infesta. Isto foi na quinta-feira. Ela chamava-se Daniela Alejandra Padrino. Os relatos falam de um atropelamento, e desculpem ser demasiado gráfico nisto, mas é assim mesmo. Três passagens de carro, ele pega no carro, atropela no passeio, depois faz marcha atrás para voltar a passar por cima dela, volta a arrancar. Os relatos dizem que houve o propósito de uma das rodas passar por cima da cabeça da vítima para garantir que ela morria. Assim aconteceu. E além de particularmente hediondo na forma como foi feito, o que este caso tem de diferente? Várias coisas. Esta mulher tinha feito ultimamente sete queixas na PSP, a última das quais duas semanas antes de ser assassinada. Ela foi assassinada na semana passada, no dia 6, se não erro. A queixa tinha sido feita no dia 24 de abril. Portanto, sete queixas na PSP. Não se sabe o que é que aconteceu, que seguimento é que foram dados. E repare-se nos contornos deste caso. O homem, o assassino, basicamente, duplamente assassino agora. Ele estava em liberdade condicional por ter matado já outra ex-namorada em 2009. Na altura, matou essa namorada com 23 facadas. Foi julgado nessa altura, foi condenado a 16 anos de prisão. Acabou por cumprir apenas 10 anos. Saiu em 2020, saiu em liberdade condicional. Portanto, é também preciso perceber aqui em que condições é que se faz a avaliação das penas e se decide que a liberdade condicional é concedida antes de terminar a pena Ele quando saiu em liberdade condicional em 2020, envolveu-se com outra mulher, que também acabaria por fazer queixa dele por violência física. Na altura foi aberto um inquérito, que o podia ter levado de novo à prisão, porque no fundo era reincidente, mas acabou por não ter sequência nenhuma porque estávamos com as limitações causadas pelo Covid. Agora voltou a matar, depois de sete queixas. E eu acho que há aqui um falhanço imenso do Estado, que tem que ser apurado. Uma das funções nobres do Estado é garantir a nossa segurança, sobretudo a pessoas em risco. Das duas, uma: se os procedimentos foram seguidos, então esses procedimentos têm que ser profundamente revistos, porque não funcionam. Se eles não foram seguidos neste caso, há que saber por que não foram seguidos, por quem é que não foram seguidos e tirar as devidas consequências. Eu acho é que isto não pode ficar impune. Além, obviamente, de se fazer justiça sobre este, novamente, assassino. Há que perceber o que falhou, porque nós não podemos passar a vida preocupados com a violência doméstica, e bem, a pôr bandeiras a marear haste e esse tipo de discursos e de simbologias, e depois quando o Estado tem que atuar em casos de flagrante risco, e este caso parecia-me de flagrante risco. Estávamos a falar de um ex-condenado por crimes destes já, e sete queixas depois, não acontece nada. Esta mulher foi deixada sozinha, em risco, e o Estado falhou.
Com muitos pedidos de ajuda.
Com muitos pedidos de ajuda. É preciso também perceber como é que o Tribunal de Execução de Penas faz a avaliação para a concessão da liberdade condicional. E eu acho que é muito importante que as ministras que neste momento ocupam estas pastas da Justiça, Rita Larcom Judice, e da Administração Interna, Margarida Blasco, peçam informações e venham explicar o que falhou. Por que esta mulher, que gritou várias vezes por ajuda, foi assassinada desta forma, com o Estado a falhar rotundamente. Temos que pedir explicações e aguardar por elas. Eu dou um dois, espero que haja inquéritos a decorrer já para perceber o que se passou aqui. Isto é tudo demasiado triste e demasiado duro. Dou, para já, um dois às entidades que eventualmente deviam ter, de alguma forma, prestado ajuda e não prestaram.
E é assim que passamos do 20 ao Dois. Amanhã há mais um e o vencedor é. Até amanhã.