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E o Vencedor É, na Rádio Observador, com Judite França, o António Costa e o Anselmo Crespo. Estamos no último dia de campanha eleitoral de umas eleições loucas, de final incerto. Alguém quer fazer uma aposta sobre como é que isto vai correr? Correndo sério risco de ser humilhado na próxima semana no E o Vencedor É. Judite, vá tu.

Não, não aposto nada.

Não queres apostar nada?

Nada.

Anselmo, tu também não?

Eu aposto que vai correr bem para alguns e vai correr mal para outros.

Ora aí está. António? António, bora lá, António.

Vai, António, vai.

Por isso é que eu estou sempre ao risco. O que eu vou dizer, é risco ser humilhado na próxima semana.

Cá estaremos. Não, nunca te faríamos isso.

Vou pôr as coisas nos seguintes termos: uma probabilidade superior a 50%, o que neste contexto é muito arriscado-

Já te estás a defender

...de uma segunda volta entre André Ventura e António José Seguro. Creio que os dados que temos hoje, à data de hoje, a esta hora, exatamente 18h15, são esses.

É o cenário mais provável.

Diria que o segundo cenário, mas eu diria com uma probabilidade de 20, 25%, é Ventura com Cotrim. Mas acho que a probabilidade de Govem eller Marques Mendes passarem à segunda volta é inferior a 5%.

Ou Seguro-Cotrim. É muito baixa.

Também é baixa. Na minha avaliação, com os dados que temos hoje, cruzando entre dados e sentimento de campanha, do que vamos lendo, vamos ouvindo, a dinâmica das campanhas, diria que esse cenário é o terceiro. Seguro-Cotrim é o terceiro.

Anselmo, então quem é que poderemos escolher como vencedores aqui chegados a este momento?

Eu não tenho problema em chamar-lhe um vencedor, independentemente do resultado domingo.

Exato, porque pode haver vencedores que não ganhem.

Sim, é nesse sentido que estou a dizer.

Olhando para aquilo que possa ser um balanço desta campanha, desta corrida presidencial, não apenas estes 15 dias, mas todo o processo, e é preciso lembrar que isto foi uma campanha longa, estamos há um ano a falar de presidenciais. Eu acho que há uma figura claramente que se destaca, independentemente do resultado do próximo domingo, e essa figura é João Cotrim de Figueiredo. E é justo olharmos para o percurso de João Cotrim de Figueiredo, não apenas por aquilo que se passou esta semana, mas por todo o percurso que ele fez até chegar onde chegou. Como é óbvio, nenhum percurso é isento de mácula. Esta semana não correu mal a Cotrim de Figueiredo só por fatores externos, correu mal também por responsabilidades próprias, o que não significa que Cotrim de Figueiredo não tenha também capital de queixa, claro que tem. Mas depois há dois fatores que não dependem daquilo que outros fizeram. Quer dizer, por um lado, os próprios erros políticos que Cotrim de Figueiredo cometeu, desde logo aquele que cometeu na segunda-feira, independentemente de estar abalado ou não pela notícia do assédio sexual, mas também a forma como ele lidou com a notícia do assédio sexual. Cotrim de Figueiredo ouvi-o esta semana a perguntar o que é que ele poderia ter feito diferente. Bem, eu tenho várias ideias sobre como é que ele poderia ter reagido de forma diferente, como é que a Iniciativa Liberal poderia ter reagido de forma diferente, como é que os apoiantes de Cotrim de Figueiredo poderiam ter reagido de forma diferente. Não adianta agora, estamos no último dia de campanha, as coisas são o que são, foram como foram. E portanto, acho que Cotrim de Figueiredo, tendo algum capital de queixa, podia ter gerido toda a situação de outra forma. Isso não retira o facto de Cotrim de Figueiredo ter partido de um ponto muito baixo para esta candidatura e ter feito um percurso absolutamente assinalável. Claro, por demérito também de alguns adversários, sim, mas isso faz parte do jogo. Agora, também há muito mérito de Cotrim de Figueiredo e há muito mérito da campanha e da máquina que Cotrim de Figueiredo montou para esta campanha, que foi profissional, foi bem pensada e foi progressivamente captando eleitorado. E em setembro ninguém acharia que Cotrim de Figueiredo estaria na posição onde está hoje. E a verdade é que ele está. E portanto, independentemente do resultado do próximo domingo, para mim, Cotrim de Figueiredo é a grande figura desta campanha, por isto que eu acabei de explicar. E portanto, para mim, ele é um vencedor nesse sentido. É um vencedor porque mesmo que Cotrim de Figueiredo não vá à segunda volta, há um capital que o vai acompanhar daqui pra frente. Esse capital é dele.

O que é que vai fazer com ele?

Exatamente. Esse capital é dele, não é da Iniciativa Liberal.

Não, de todo.

Esse capital é de Cotrim de Figueiredo, é um capital político que ele conquistou, depois logo se vê o que é que ele faz com ele, se o leva pra Bruxelas ou se faz outra coisa qualquer. E desse ponto de vista, eu acho que pra mim ele é a grande figura da campanha.

Judite.

Eu, pra não me repetir, porque eu concordo que Cotrim de Figueiredo é a grande figura da campanha, vou escolher António José Seguro, porque António José Seguro começou como uma espécie de underdog, ninguém acreditava que ele ia lá. E convenhamos que tirando aquele deslize inicial na entrevista ao público, onde se recusava a pronunciar a palavra esquerda como se provocasse urticária, acabou por corrigir a forma como estava a fazer a campanha, acabou por assumir que tinha sido um erro e adotou um discurso diferente, nomeadamente em relação às alterações ao Código de Trabalho. E depois, fez uma campanha sem erros, o que numa campanha tão difícil como é uma campanha presidencial, já é dizer muito.

E sem arriscar.

Sim, sem arriscar.

Sem erros e sem arriscar.

Sim, não precisava. Quando se vê que à volta há uma série de erros, por culpa dos próprios ou não Que acabam por desbaratar uma série de eleitorado que, pelo contrário, Seguro, exatamente por esse seu não arriscar, conseguiu granjear esse apoio. E portanto, chegar aqui como um possível segundo lugar para uma segunda volta, ou primeiro lugar para uma segunda volta, seja o que for, para uma segunda volta, é um feito assinalável tendo em conta de onde partiu. Até conseguiu que o PS se mobilizasse à volta da candidatura, o que ninguém diria que seria possível.

E António, quem são os teus vencedores?

Para não me repetir. Isto é o vencedor, mas eu vou trazer um perdedor.

Não, eu já quero ir aos derrotados. Estava a ouvir primeiro sobre quem é que tu achas que sai vencedor.

Claramente o vencedor é João Cotrim Figueiredo. Paradoxalmente, no bom e no mau, de facto, porque dominou a campanha em crescendo. Já tivemos aqui a oportunidade de discutir esse ponto, nomeadamente o período de debates. Não foi um período particularmente positivo para o próprio. Não fez maus debates, mas esperava-se mais.

Mas quando foi pra estrada, a coisa melhorou.

Teve o momento com o gan que foi-

E para as redes. De facto, superou-se, ultrapassou, mobilizou, sente-se uma transferência, que é interessante, dos mais jovens do André Ventura para o do Chega, para Cotrim Figueiredo, que não é exatamente para a Iniciativa Liberal, é para Cotrim Figueiredo. E de facto acabou prisioneiro nesta última semana de um erro que o próprio explica pela notícia que já sabia que vinha sobre uma acusação de assédio. A resposta, de facto, não foi a melhor, teve aquele deslize que quase nos remeteu para aquele silêncio constrangedor de um dos debates, quando começa por tentar explicar o que é que lhe passou pela cabeça e não percebia o que é que lhe tinha passado pela cabeça, que é uma declaração entre o ingênuo, o voluntarista. Ele próprio, naquele momento, esqueceu-se que estava em campanha presencial, no argumento. Depois, reconheço, naquele contexto e perante a galvanização, por um lado, a perspectiva de que poderia ser o candidato da direita, e uma notícia que é uma bomba, que obviamente tem o potencial de dinamitar qualquer campanha, por mais explicações que possa dar, boas ou más. Às vezes costumo dizer que não há muito boa forma de dar más notícias de forma positiva. Aquela é uma má notícia e, portanto, a reação poderia ter sido melhor, poderia ter sido pior. Mas de facto era uma má notícia gerida ao vivo, em direto e a cores. Nós costumamos muito comparar esta corrida louca a 86. O exercício que eu peço para os nossos ouvintes fazerem é: o que seria da pressão se houvesse em 86 o escrutínio, a pressão mediática, o acompanhamento que há hoje a qualquer um daqueles candidatos?

De certeza teríamos frases memoráveis.

Não só frases, mas qual deles resistiria perante essa pressão a que hoje estão sujeitos estes candidatos.

Os tempos são o que são.

Não há desculpa, é um enquadramento. Para dizer que, tenho uma opinião muito pessoal. A minha opinião é muito pessoal.

Tu tens uma opinião muito impessoal.

Enquanto pessoa humana, tens uma opinião muito pessoal.

Uma opinião muito pessoal, que é a minha opinião, e é muito pessoal, que é a resposta e a crítica tão agressiva de João Cotrim Figueiredo ontem aos jornalistas, foi pensada e com o objetivo de dramatização e de vitimização e de criar aqui um choque. Eu creio que a campanha de Cotrim Figueiredo e o próprio devem ter pensado: "Se isto resulta com André Ventura e com Trump, se calhar também pode resultar comigo, que eu vou aqui aparecer como a vítima de um sistema que me quis expulsar, que quis acabar com a minha candidatura."

Isso é um padrão de Cotrim desde o início.

Eu diria nesta campanha.

Não, desde o início da campanha.

Da campanha, sim, porque não estava propriamente no seu perfil. Obviamente que é diferente. Tu acompanhaste de perto, seguramente, a pressão ou a queixa, o capital de queixa que tentou ter quando não foi a alguns debates e conferências.

Nomeadamente um da CNN, onde ele ficou muito irritado. Mas não era sobre isso, era pegar nos comentadores, era pegar nas notícias, nas sondagens. Tudo aquilo é a estratégia André Ventura, que é tornar uns instrumentos políticos.

Sim, arranjar aqui um ponto de fricção e de confronto que mobilize o seu eleitorado.

Encontrar um inimigo.

Sim, e o seu eleitorado e aquele que potencialmente pode ser e que não era. Obviamente que o dramatismo da natureza da notícia faz com que a reação e este confronto tenha ontem, nomeadamente, atingido uma proporção mais grave.

Mas António, posso só dizer uma coisa sobre isso, só para não perder o raciocínio? O que me preocupa mais no que se passou esta semana e naquilo que eu vi de Cotrim Figueiredo, não é tanto as críticas aos jornalistas, não é tanto as gafes ou as coisas que se dizem, é sobretudo perceber a instabilidade de Cotrim Figueiredo perante a pressão que estava a sentir.

Perante a adversidade.

Perante a adversidade. A presunilidade e a instabilidade, só na medida em que eu nunca o vi nesta situação. E nós sabemos, Cotrim Figueiredo aconteceu isto, a outros políticos em Portugal e no mundo já aconteceu isto e 10 vezes pior do que isto.

Em momentos críticos.

Nós estamos a falar de um cargo que não é um cargo qualquer, não é um cargo irrelevante, não é um cargo de deputado, é um cargo de presidente da República. Pressão faz parte do cargo, vem no job description.

E é uma escolha direta, não é? É daquela pessoa.

Exatamente. E é um cargo unipessoal. Tem um staff, mas não há um partido, não há uma máquina por trás.

É um cargo em que tu depositas-

Votas naquela pessoa

...esperança que consiga lidar com uma situação.

Sim, que passe uma imagem de segurança.

Quando a coisa está acirrada.

Uma imagem de segurança, com carapaça. E atenção, eu não desvalorizo o lado humano do que ele está a atravessar. Eu não desvalorizo de todo.

Mas é esse que tens visto.

Mas é esse que eu tenho visto. E é mais, que eu, por algum motivo, não me candidato a presidente da República, nem a primeiro-ministro. Eu conheço-me o suficiente. E isso foi a dimensão. Todo o resto pode ser mais criticável, menos criticável, mas esse lado assustou-me um bocadinho. Ainda assim.

Desculpa, António, há um momento desta campanha que eu acho muito curioso, com Eduardo Barroso, que é mandatário de Marcos Mendes, e que diz que tinha sido desafiado várias vezes para ser candidato à Presidência da República e nunca quis. Por quê? Porque eu nunca votaria em mim. E eu acho que esse exercício é muito interessante.

Dito isto, foi o que trouxe um discurso diferente, de facto. Esta campanha, sem João Cotrim Figueiredo, seria uma campanha igual às outras, sem graça nenhuma, bastante estafada na forma, no conteúdo, na discussão. Ele de facto trouxe aqui uma disrupção e criou num universo de eleitores muito para além da Iniciativa Liberal. Isso talvez explique por que Mariana Leitão não apareceu em toda esta campanha, que a campanha queria ser muito para lá da própria Iniciativa Liberal, um sentido e um sentimento de esperança e de confiança de que é possível mudar aqui alguma coisa.

Já vamos voltar a este assunto, obviamente, na segunda parte do "E o Vencedor É". Estamos em cima das 18h30, está na hora de atualizar as notícias. Segunda parte de "E o Vencedor É", com a Esdite França, Anselmo Crespo e o António Costa. Estávamos a falar dos vencedores desta campanha. Esdite França, Ventura não é um vencedor?

Também é um vencedor, claramente, porque Ventura fez uma campanha em pista própria, consoante os dias e consoante o contexto, foi atacando os outros adversários, nomeadamente Marcos Mendes, por ser o candidato apoiado pelo governo. E se chegar a uma segunda volta, nessa segunda volta vai ter uma vitória expressiva, seja ela qual for, porque é dividir por dois. Serão só dois candidatos. E vamos imaginar que termina com 30 e muitos, 40% dos votos, aparecerá como líder destacadíssimo da direita em Portugal.

Isso pode ser um problema depois para Luís Montenegro.

Isso pode ser um problema para Luís Montenegro. Eu acho que Luís Montenegro preferia que Seguro ganhasse com uma larga margem do que André Ventura conseguisse sequer que fossem esses 40%.

António, Ventura também é um vencedor desta fase?

É um vencedor se passar à segunda volta. Ao contrário de Cotrim, que será um vencedor necessariamente desta campanha, André Ventura será um vencedor se passar. Agora, vamos lá ver. Ainda por cima, parece-me que esta última semana, especialmente a última semana, já foi um André Ventura com uma farda, e não é apenas uma alusão à farda.

Ao camuflado.

Ao camuflado, mas é uma farda para uma segunda volta. Isto é, antecipando que estando com um candidato obviamente mais moderado, qualquer que ele seja, que será sempre mais moderado que André Ventura, a trazer aquele discurso de: "Eu estou aqui é para discutir ideias, não estou aqui para criticar ninguém pessoalmente." O próprio tem, obviamente, uma vantagem e uma desvantagem. Tem um eleitorado seguro, mas tem um teto de crescimento. E essa é a vantagem e a desvantagem de André Ventura. Todas as sondagens, todas, o tracking poll e as sondagens que saíram, estão a alinhar basicamente as intenções de voto pela votação que o Chega teve nas legislativas. Isso mostra a dificuldade de André Ventura em arriscar não passar à segunda volta, eventualmente. Acaba por beneficiar aqui da divisão entre Cotrim Figueiredo e Marcos Mendes, mas chegar à segunda volta, ter ali uma limitação. E creio que obviamente fez uma campanha menos histriónica do que outras. Mais, diria até, contida. Teve ali um debate terrível com Catarina Martins, foi de facto talvez o pior debate de todos no tom, na agressividade, de parte a parte, também justiça seja dita, de Catarina Martins também para André Ventura. Mas acabou por ter, por estratégia, por cansaço, por desgaste, porque é sempre o mesmo, é sempre o André Ventura, tudo à volta do André Ventura, a ter uma campanha que não teve, por exemplo, a sonoridade, a vários níveis, positivos e negativos, que teve a de Cotrim Figueiredo. Não aconteceu noutras campanhas, nomeadamente quando Cotrim Figueiredo também foi a votos. Portanto, nesse sentido, diria que Cotrim Figueiredo também reconhecia nos últimos quatro ou cinco dias. Enfim, a natureza de André Ventura é a natureza de André Ventura. Ela não muda em quatro ou cinco dias, como é evidente. Está a construir ou esteve a tentar construir nesta última fase de campanha, um modelo para as próximas três semanas. Anselmo, Ventura é vencedor ou não? Claramente é vencedor, desde logo, porque devo lembrar que quando Ventura decidiu avançar, a questão colocava-se nos seguintes termos: se não for à segunda volta, é uma derrota, ele próprio colocou assim a fasquia, se for à segunda volta, é uma vitória. Ora, neste momento, não há nenhum dado que aponte que André Ventura não vai à segunda volta. O que é para mim mais motivo de reflexão sobre André Ventura é o seguinte: ao contrário do que eu dizia há pouco, o que é que Cotrim Figueiredo fará com o resultado que tiver no domingo, se não for à segunda volta, naturalmente. A minha questão é: eu sei o que é que André Ventura vai fazer com o resultado que tiver no domingo. Isso sabemos. E com o resultado que tiver numa segunda volta, se for lá. É porque André Ventura, se não for presidente da República, volta para o sítio onde estava. E o sítio onde ele estava era tentar ser primeiro-ministro e tentar substituir Luís Montenegro. E portanto, eu sou daqueles que acha que as sondagens estão a subestimar a votação em André Ventura. Tu dizias e bem, elas estão mais ou menos alinhadas com a votação que ele teve nas legislativas. Ora, até agora, as sondagens ficaram sempre abaixo daquilo que André Ventura normalmente consegue ter. Aliás, o discurso hoje de André Ventura, há bocado vinha ouvir o Miguel Cordeiro, é já nesse sentido. Nós vamos ter mais do que aquilo que as sondagens estão a dizer que nós vamos ter. E eu acho que André Ventura fez uma campanha usando um bocadinho a máxima que António José Seguro usou, que é: quando os teus adversários estão a cometer erros, não vás lá atrapalhar. E foi isso que ele fez. Isso permitiu-lhe vestir o fato presidenciável, permitiu passar às pessoas uma ideia de que ele, de facto, consegue vestir esse fato e não tem que ser sempre o André Ventura que nós estamos habituados. E sobretudo, eu acho que ele fez uma campanha muito tática. Ele foi muito cirúrgico nos ataques, ele não atacou quem não queria atacar, ele atacou quando queria atacar. Escolheu. Escolheu quem queria atacar. Mesmo nos debates, há dois Venturas nos debates. Há o Ventura com os partidos de esquerda e depois há o Ventura com os restantes. Com Marques Mendes, o debate foi completamente diferente do debate com Gouveia e Melo, por exemplo. Ou até mesmo com António José Seguro, se quiseres. Obviamente, o alvo de André Ventura nesta campanha chamava-se Luís Marques Mendes, porque Marques Mendes representa o governo, representa o PSD, e esse é sempre o alvo de André Ventura, porque para chegar ao poder, ele precisa de derrubar o PSD. Portanto, claramente, André Ventura também me parece um vencedor óbvio destas presidenciais. Vamos às vossas notas para os vencedores, António. Pois, eu dou antecipadamente um 14 a João Cotrim Figueiredo. Veremos se na próxima semana não vamos ter que aumentar isto ou não. Anselmo. Ou baixar. Mas abaixar, não vou baixar. Para não estar a repetir o António, eu subscrevo a nota do António, mas eu também dou um 14 a André Ventura, claramente. Judite?

E eu dou um 14 a António José Seguro.

E quem são os derrotados? Ora, ora.

Os derrotados são os outros.

Isso é mais fácil. Quem são os derrotados em oito minutos?

Marques Mendes, Gouveia e Melo, para além de não falar dos três à esquerda, acho que não vale a pena. E acho que Gouveia e Melo foi derrotado por culpa própria também, porque aquele ataque a Marques Mendes acusando-o de misturar política e negócios e a chamar-lhe de facilitador, acabou por manchar a imagem de Marques Mendes, mas Gouveia e Melo não tirou partido nenhum disso. E portanto, acho que Marques Mendes teve de digerir o tema com cuidado, acabou por deixar o tempo passar e o assunto desaparecer, mas acho que Gouveia e Melo não ganhou nada com isso e portanto, tivemos uma situação em que os dois perderam. Para além disso, Gouveia e Melo fez uma campanha muito errática. Ora era do espaço socialista, ora ideologicamente era o centro, ora estava a agradar a todos, quer dizer, acabou por não convencer ninguém e eu acho que a falta de experiência política também foi muito evidente ao longo da corrida presidencial.

António. Olha, eu encontro três derrotados, e não são os três à esquerda. Tivemos uma ilusão, que foi Gouveia e Melo. O país iludiu-se.

Esvaziante.

Foi esvaziante, de facto. Dizia a Judite, aquela estratégia destruiu Marques Mendes, mas não ajudou a construir Gouveia e Melo. Depois as mudanças táticas, sobretudo entre a esquerda e a direita, e se quer ser de esquerda, se quer ser de direita, também não ajudaram. Tivemos uma desilusão, que foi Marques Mendes. Eu diria a desilusão desta campanha, porque Gouveia e Melo, apesar de tudo, marcou esta campanha também. Mesmo que venha a ter uma votação abaixo daquela que se dizia há seis meses, estava com 25% de intenções de voto, 30%. No caso de Marques Mendes, foi de facto uma desilusão. Como é que um político tão experiente? Descobrimos que, afinal, a experiência de televisão não chega. Dez anos sentado a fazer comentário não chega para a rua. Comparativamente, até podemos dizer, os erros não foram os mesmos, da mesma natureza, mas do ponto de vista político, estou a falar isso, estou a falar nesse contexto, é mais grave ou mais surpreendente os erros

E a desilusão de Marcos Mendes, com a experiência que tem, de que a forma atabalhoada e até desastrada com que Cotrim Figueiredo respondeu à pressão nos dois casos desta última semana. E temos um terceiro derrotado, se Marcos Mendes não chegar à segunda volta, que é Luís Montenegro. E será tanto mais derrotado quanto menor for a votação de Marcos Mendes e maior for a votação de André Ventura. As eleições presidenciais têm um valor por si próprio, obviamente, por todas as suas competências que o presidente tem, pela capacidade ou não de mobilizar mudanças, mas têm, no nosso caso, nestas eleições, um efeito muito particular na governabilidade. Ou vão ter, ou podem ter, dependendo do resultado. E Luís Montenegro, a forma como se envolveu, e não foi o PSD, que foi o governo. É que podemos dizer assim: "Foi o PSD que se envolveu." Não, quem se envolveu nesta campanha foram os ministros.

Com a presença dos ministros.

Mais do que o PSD.

Muito mais do que o PSD, como se vê nas bases.

Foi a carne toda no assador.

Um dos derrotados desta noite e veremos como é que vai lidar. Teremos muito tempo, obviamente, pra discutir isso, como é que vai lidar com uma derrota pesada e já se anuncia, sem fonte oficial, mas com fontes que se percebem oficiosas, e eu acho que é o segundo erro, que não vai assumir posição na segunda volta se for Ventura e Seguro.

Ele está numa tenaz. Se for Seguro, é mau, se for Cotrim, é mau.

Eu vou arriscar.

Se for Ventura, é mau.

Mário Soares apoiou Cavaco, não apoiou oficialmente. Criou condições pra Cavaco ir a eleições com o PRD.

Mas repara uma coisa: com quem Montenegro tem estado a governar? É com o PS? É com o Chega. Agora vai dizer que apoiou o candidato do PS?

Não precisava ir tão longe.

É que aí é que Ventura se arrisca mesmo a ser presidente da República.

Não precisava ir tão longe. Eu sei que o caminho é difícil, claro que o Partido Popular está a deitar-se na cama que fez.

Eu diria que entre um democrata e um não democrata, a escolha é óbvia. Mas eu acho é que a tática política o impedirá de fazer isso. Rapidamente, sobre os derrotados. Eu acho que o Gouveia e Melo está na posição onde fez esta campanha, que foi a meio da ponte. Se olharem pras sondagens, é onde ele está. Nem está à frente, nem está atrás. Antes pelo contrário, está no meio. É um retrato, é uma metáfora da campanha dele, do ponto de vista de posicionamento. Acho que a mudança de estratégia, percebo-a no sentido em que ele precisava de chamar a atenção, ele precisava de fazer qualquer coisa, de fazer um fogo de artifício à volta dele pras pessoas voltarem a olhar pra ele. Mas eu acho que a estratégia usada resultou em deitar fora a água do banho que o bebê lá dentro, porque aquele que era o grande capital de Gouveia e Melo era a simplicidade, era a honestidade com que as pessoas olhavam pra ele e viam uma pessoa normal. E passaram a ver um político formatado, tal como todos os outros políticos.

Mas com um desempenho, ainda por cima...

Mas com um desempenho diferente. E, portanto, Gouveia e Melo, que tinha como sua grande bandeira: "Eu não sou um político tradicional, eu não venho dos partidos, eu sou diferente", de repente tornou-se igual, mas em cópia. E eu acho que esse foi provavelmente o grande erro, o grande tiro no pé de Gouveia e Melo, mas é inevitável falar de Marcos Mendes. Marcos Mendes estava a fazer uma campanha até ao debate de Gouveia e Melo, estava a fazer uma campanha como António José Seguro fez, que era tentar andar entre os picos da chuva, sem erros, mas também sem arriscar, sem fazer grande foguetório, e estava a subir progressivamente. Reage muito mal. Reage mal não é na reação, é lida mal com o ataque, não sabe gerir crise. Aquilo era uma crise e ele tinha que ter sabido gerir aquela crise. Ele não sabe gerir aquela crise. E depois ficou na posição daquele tipo que vai na autoestrada em contramão e acha que toda gente é que está errada e ele é que está certo. E reparem, se domingo Marcos Mendes passar à segunda volta, cá estarei eu na segunda-feira a dizer: "Eu é que ia em contramão e Marcos Mendes é que estava certo". Não tenho problema nenhum em fazê-lo. Parece-me que nos últimos 15 dias, se perguntarmos às pessoas que mensagem de Marcos Mendes é que elas têm na cabeça, eu responderia: nenhuma. Eu não sei o que Marcos Mendes disse estes 15 dias. E eu ouvi-o todos os dias.

Celmo, vamos às notas pra os derrotados.

Eu, apesar de tudo, entre os dois derrotados, tenho que dar nota a Marcos Mendes, porque parece-me mais derrotado até do que o Gouveia e Melo. E eu vou dar um oito a Marcos Mendes. Não dou menos, porque apesar de tudo, há uma sondagem que ainda lhe dá a possibilidade de ir à segunda volta.

Eu dou um 10 a Gouveia e Melo, porque trouxe alguma coisa diferente. E eu até acho que a campanha foi melhor do que nos debates. Ele até mais liberto, mais informal.

Libertou-se um pouco.

Libertou-se. Eu dou um oito a Marcos Mendes e dou um seis a Luís Montenegro, porque está a hipotecar governabilidade que aparentemente tinha assegurado.

Judite.

E eu dou um oito a Gouveia e Melo e um nove a Marcos Mendes.

E amanhã é dia de reflexão, mas há "E o vencedor é..." amanhã, nas manhãs 360. Sim, Judite, vamos manter o "E o vencedor é..." porque há mais mundo.

Boa sorte pra quem tiver que vir amanhã.

Porque há mais mundo além das eleições.

É verdade.

Por exemplo, esta é uma boa época, de certeza, para plantar algumas plantas.

Exato.

Groenlândia. Tive de dizer alguma coisa, não sei, assim de repente.

Temas laterais.