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Eu não tenho certeza sobre isso, na realidade, porque há artistas israelitas que estão a veicular mensagens interessantes e até contra a situação, que vão ser também silenciados. Portanto, eu não tenho a certeza. Sei que, em última análise, em último caso, o que é que pode acontecer? Tem a ver com as sanções. É obrigar um povo a revoltar-se contra os seus líderes. Eles agora, se tirarem Israel, tirarem o Instagram, o TikTok e a música, começam: "Mas o que é que estes gajos estão aqui a fazer?" E já houve agora um levantamento popular há pouco tempo num país em que também cortaram as redes aos jovens e vieram todos pra rua protestar. E eu acho que, em última análise, poderá servir para isso. Poderá servir para alertar as consciências, para as pessoas acordarem, levantarem o rabo do sofá e tentarem melhorar as suas vidas. Mas isso já é uma análise, percebes? Mesmo em último grau e não tenho 100% de certeza sobre isso. A coisa vai ter que ser pensada e se calhar vai-se ter que excluir Israel do Eurofestival para que ele aconteça.

A sua voz atravessou gerações, embalou histórias de amor e acompanhou revoluções íntimas e coletivas. Cresceu entre o mar de Cascais e a Lisboa dos anos 80, onde tudo parecia possível: a amizade, a liberdade e até a utopia de mudar o mundo com a música. Entre a arquitetura e a rebeldia, entre a coragem de só tirar a carta aos 46 anos e a ousadia de encher grandes palcos, nunca deixou de acreditar no poder transformador da música. Falamos de alguém que não precisou de se reinventar. Já vamos perceber ou não se é assim mesmo, mas para continuar presente, achou sempre que era necessário ser fiel ao essencial, às pessoas e às canções. Miguel Ângelo, em "40 Minutos", bem-vindo à Rádio Observador.

Obrigado. Às pessoas e às canções. Acho que sintetiza muito bem.

Confirma-se?

Confirma-se completamente. As pessoas e as canções é o mais importante. E até mais do que as pessoas, se calhar, o que as pessoas fazem, especialmente no campo cultural e artístico. Até pode ser um grande filho da mãe, mas se tiver uma obra fantástica, vou gostar-

Suscita curiosidade, não é?

Suscita curiosidade e vou aprender com aquela obra e esquecer-me um bocado. Ultimamente, com a história do cancelamento, falou-se muito disto: "Não posso gostar daquele artista porque ele fez isto ou fez aquilo". Isso não o impediu de fazer uma obra-prima. E metade das obras-primas da Idade Média e Renascimento, que são ótimas, eram de grandes bandidos.

Tens algum exemplo que queiras partilhar ou guardas mais pra ti essa questão?

Se calhar até muito recente, o Kanye West, que fritou completamente. Desde que começou a fazer as missas ao domingo de manhã lá nas colinas. Agora tem discos que são completamente revolucionários e vanguardistas dentro do universo do rap e do hip-hop. Há que saber destrinçar entre o Kanye West que as pessoas conhecem agora e as atitudes que ele toma, dos discos que ele gravou numa fase da sua vida. Isso pra mim, não quero saber se é um psycho killer. Aquele trabalho é fantástico, tem lá coisas que me interessam musicalmente, artisticamente, e vai ficar na história.

E a questão do cancelamento, para alguém que começou com muito sucesso nos anos 80, 90. Na altura, como é que isso se manifestava? Não era cancelamento que se chamava.

Não era cancelamento. Acho que os anos 80 foi uma década fantástica, porque ainda não estávamos muito presos à noção de mercado na indústria da cultura e havia muita liberdade de se fazer o que se quisesse. Mesmo, se quisesse levar alguém para o palco, ia, homem ou mulher, no Rock Rendez-Vous, podia esfaquear a perna como o Adolf, o Chucky Hanibal, à vontade. Havia uma noção que havia liberdade total, havia a tal utopia de podermos fazer o que quisermos, independentemente do mercado. Depois dos anos 90, que foi a década dor da indústria da música portuguesa, em termos de performances comerciais, mudou um bocadinho as coisas e se calhar introduziu alguma consciência nos artistas para encontrarem o seu público. Apareceu no fim dos anos 80 aquela palavra que era o target. E qual é o vosso target? Os Delfins saem da primeira editora, da EMI, porque eles não sabiam qual era o nosso target, nem conseguiam descobrir qual era o target dos Delfins, porque achavam que não era pra tipos nem de 20, nem urbanos, nem do campo, não percebiam bem e saímos da editora. Mas não havia essa história do cancelamento. Eu acho que é uma coisa muito recente com a história do woke. E aparece muito na defesa de muitas liberdades individuais, que eu acho que tem que lutar por elas. E se calhar, às vezes chega-se ao exagero. Mas eu acho que vamos encontrar um equilíbrio entre esse exagero e uma resposta em contraponto do outro lado. Acho que vamos ter que encontrar um equilíbrio. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, como se costuma dizer. E por isso, acho, basicamente, que hoje em dia não há essa liberdade que havia nos anos 80, de todo. Ainda agora o Jimmy Kimmel foi cancelado. A América está a avançar para se tornar numa temporada do "The Man in the High Castle", aquela série em que previa uma América nazi depois da Segunda Guerra Mundial. E é preocupante. Mas eu não vou dizer: "Na minha geração é que éramos mais livres e éramos mais fixes". Não, há gente fixe em todas as gerações, gente livre em todas as gerações. Acho que a sociedade, enquanto consciência de si própria, hoje é mais limitativa, disso não restam dúvidas.

Tu falavas aqui da questão do cancelamento. Tu olhas de forma diferente para esta questão enquanto pessoa e artista? Ou seja, consegues fazer essa diferença, estabelecer essa fronteira e os limites?

Sim. Eu, aliás, mesmo nas redes, tenho um perfil que é de pessoal, que não é de artista, que é uma coisa completamente de cidadão e é lá, obviamente, que eu às vezes me exprimo de uma maneira mais direta e mais crua, quando é preciso. Guardo isso para esse perfil pessoal e não para o perfil artista, nem para as páginas das bandas, onde eu milito. Mas quer dizer, sabes que hoje em dia é quase engraçado, entre aspas, contar assim uma anedota proibida ou uma boca proibida. Ganha outra vez assim algo: "Isto é politicamente incorreto, mas tem graça". E eu acho que isso, lá está, é aquele equilíbrio que eu te dizia que tem de haver. Não podemos cair no erro de querermos ser mais, lá está uma expressão que eu odeio, mas vou dizê-la, mais papista que o Papa. Mas eu acho que não podemos ser nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Temos que encontrar no equilíbrio, na moderação e no centro. E acho que como estamos a ver hoje, até politicamente pelo mundo inteiro, a resposta só pode estar no centro. Não vai estar no futuro, não vai haver paz, não vai haver harmonia, se não houver moderação e se não estivermos todos. Como alguém dizia, sou um radical do centro, sou um centrista radical, digamos.

A questão política, tudo o que está a acontecer no mundo, falaste aqui do Jimmy Kimmel e há outros casos também, também te inquieta enquanto artista ao ponto de também Te influenciar nas músicas, naquilo que escreves. Muitas coisas nem vêm cá para fora, mas da forma como escreves também.

Eu acho que sim. Acho que gostamos sempre de ter uma agenda, mesmo que, no meu caso e a carreira toda de Del fins, em que abordamos temas como o serviço militar obrigatório, a guerra do Ultramar, Timor, etc. Tentamos nunca ser panfletários e literais diretamente. Nós fazemos é canções. Basicamente, as pessoas e as canções é que importam. E eu gosto que as canções tenham uma vida própria. Ainda aqui em off estávamos a falar com o assistente. O Tiago a dizer: "Epá, aquela canção do filme do 'Adeus Pai', do Luís Filipe Rocha". Foi uma canção que os Del fins gravaram para o filme, para a personagem principal, o Filipe, o miúdo, que era o "Não vou ficar", acabou por se tornar uma canção que diz muito a muita gente que nunca sequer viu o filme. Eu gosto de ter esse cuidado. Lá está, a guerra do Ultramar estava presente naquele inverno, mas não há ali uma referência completamente limitativa em relação a isso. Hoje podes falar sobre a Ucrânia, podes falar sobre o que se passa na Palestina usando aquele inverno, que é uma canção que fala sobre os horrores da guerra e uma perspectiva longínqua, que é o que nós temos tido em Portugal. Ainda bem. Essa vasta perspectiva, ok. A Ucrânia já é na Europa, mas ainda é um bocadinho longe, a Palestina é muito longe, o que se passa no Sudão então. E nós temos aqui neste cantinho, à beira-mar plantado e longínquo do fim da Europa, temos um bocadinho essa distância que nos permite analisar, se calhar, com este conforto, as coisas desta maneira. Se calhar, se eu estivesse na Ucrânia, eram palavras de ordem que eu escreveria nas minhas canções.

E as canções seriam certamente diferentes.

Claro.

Há bocadinho falávamos aqui da década de 80, 90. A música nessa altura transformava mais do que agora?

Olha, eu acho que a música continua a ser importante. Havia obviamente aquele sonho que vem dos anos 60, da revolução cultural, de mudar o mundo. Algumas coisas mudaram. Acho que a música ajuda a um certo tipo de campanhas. Ainda estava agora a ouvir esta polémica por causa de Israel e da participação no Eurofestival.

Já te ia também perguntar a tua opinião sobre isso.

E haver agora um boicote, onde há uma série de artistas, nomeadamente Massive Attack, que põe uma campanha para tentar banir a música israelita do streaming. Isto é sempre um território um bocadinho pantanoso. Há artistas israelitas que estão a veicular mensagens interessantes, e até contra a situação, que vão ser também silenciados. Portanto, eu não tenho a certeza. Sei que, em última análise, em último caso, o que é que pode acontecer? Tem a ver com as sanções. É obrigar um povo a revoltar-se contra os seus líderes. Eles agora, se estiverem em Israel e tirarem-me o Instagram, o TikTok e a música, começam: "Epá, mas o que é que estes gajos estão aqui a fazer?" E já houve agora um levantamento popular até há pouco tempo num país em que também cortaram as redes aos jovens e vieram todos pra rua protestar. E eu acho que, em última análise, poderá servir para isso, poderá servir pra alertar as consciências, pras pessoas acordarem, levantarem o rabo do sofá e tentarem melhorar as suas vidas. Mas isso já é uma análise, percebes? Mesmo em último grau e não tenho 100% de certeza sobre isso. Acho que a música tem que refletir os dias que vivemos, sim. Pode citar o passado e apontar pistas para o futuro, mas eu acho que é um espelho daquilo que a gente faz, daquilo que a gente lê, daquilo que a gente ouve, dos filmes que vemos, dos livros. É aquele chavão, mas é verdade. Tenho uma conversa com um amigo num bar em que estamos a discordar e eu fico a pensar naquilo e vou fazer uma canção. Portanto, acho que sem ser completamente o filme da nossa vida, acho que temos nós que assumir a pele de algumas personagens.

Eu estou-me aqui a lembrar, por exemplo, da participação da Iolanda, que foi há dois anos. O ano passado tivemos o Snap. Aliás, este ano, há dois anos a Iolanda. Quando da sua participação, as unhas estavam pintadas na altura, penso eu, a motivar aqui a questão da Palestina e o apoio à Palestina. E Portugal, nessa altura, estou-me a lembrar, foi prejudicado na publicação do vídeo dessa atuação, na altura, só surgiu muito mais tarde, por causa disso.

Sim, porque há regras. Repara, há regras do festival que impedem a parte política. Lembro-me que antes disso, já o Salvador Sobral tinha usado uma sweatshirt numa conferência de imprensa a apelar à questão dos refugiados na Europa e também foi censurado, entre aspas, e ele não pode usar mais aquela camisola. Mas lá está, há regras. Eu acho que têm que se mudar essas regras pra depois se poder fazer isso. Chamar a atenção dessa maneira, também acho que é válido. Claro, podemos ser penalizados e cortarem as imagens e substituir o direto por uma coisa pré-gravada. Isso é o que fazem. Mas eu acho que vale a pena chamar a atenção quando há não sei quantos milhões de pessoas a assistir.

Mais ainda com um festival que tem tanta audiência, não é?

Claro, eu acho que está toda a gente lá mais para se divertir e dançar do que pensar em questões políticas.

Porque o festival é isso mesmo, na verdade. O festival é uma celebração de tantos países, tantas culturas, mas com esta questão agora de Israel, há já vários países, Espanha, Eslovénia, Irlanda, Islândia e também os Países Baixos, que já informaram que seguramente não vão participar.

Sim, eu acho que este ano a coisa vai ter que ser pensada e se calhar vai-se ter que excluir Israel do Eurofestival para que ele aconteça, acho eu.

Olhando aqui pra tua geração e pra aqueles que hoje têm 20 anos e que se estão a iniciar no mundo da música, o que achas que eles ainda procuram na música e o que vocês também procuravam nos anos 80? É diferente aquilo que se procura neste momento?

Eu posso responder muito diretamente a isso, porque eu desde há uns anos liguei-me aqui a uma escola, que é a TIC, e que sou coordenador.

E que és professor, não é?

Sou professor e coordenador dum curso de produção e criação musical. É um curso, aliás, que tem três anos, tem uma licenciatura inglesa, que nós importamos, e dá-te uma licenciatura, um BA, um Bachelor of Arts, em Produção e Performance. E os alunos que lá chegam vêm todos com 19, 20, 21. Portanto, eu lido muito diretamente e sei exatamente responder essa pergunta. Obviamente que é diferente É diferente. Mas há uma minoria, que eu espero que se torne uma imensa minoria, que está lá pelas mesmas razões que eu estava nos anos 80. E não é toda a gente, não é uma turma inteira. Se calhar, há três pessoas, quatro por turma, que carregam esse facho, esse sonho de fazer da música a sua vida. Alguns vão conseguir, outros não vão conseguir. Isto não é um curso como se fosse de advogado ou de engenheiro. E eu vejo que realmente há uma necessidade de lhes transmitir as coisas de uma maneira completamente diferente, se calhar, do que eu as aprendi. Mas isso é normal. Vejo que há um grande desconhecimento, embora o YouTube e outros providers ofereçam tudo o que aconteceu nos últimos 100 anos da música às pessoas, desde o blues até agora, para as pessoas conhecerem, há um grande desconhecimento, muitas vezes, da história da música. Eu acho que é importante eu saber o que aconteceu nos anos 60 e como é que começou o rock'n'roll e o movimento da house music e o techno. Eu acho que é importante sabermos tudo. E nós focamo-nos um bocadinho em tentar aprofundar essa bagagem para que as canções novas que surjam tenham alguma lógica cultural e não sejam fogos fátuos que depois se dissipam rapidamente. Porque, às vezes, há alunos que dizem: "Ah, mas eu daqui..." Eu pergunto: "Onde é que tu vês daqui a cinco anos?" E há muitos que estranhamente dizem: "Daqui a cinco anos, se calhar, já não estou a fazer isto". E eu fico: será que estás no sítio certo? Eu sou arquiteto e trabalhei enquanto arquiteto nos primeiros anos da minha carreira. Houve uma altura em que eu deixei voluntariamente de trabalhar como arquiteto, porque escolhi não. Eu se quero me aperfeiçoar como artista, eu vou ter que fazer isto a 100%.

Eu já vou querer perceber essa ligação e perceber como é que da arquitetura se vai para a música.

Não, mas é que eu já estava na música. Eu fui para a arquitetura depois.

Como é que a arquitetura, pelo menos penso eu, leva-nos aqui uma certa disciplina. E depois a música e aquilo que tu fazias em palco, se calhar, era totalmente o oposto. E é engraçado pensar nisso.

Isso também não é completamente verdade em relação à indisciplina que possa haver no mundo das artes. Muito pelo contrário.

Pelo menos para quem vê. Porque vê-se uma liberdade final. Vê-se uma liberdade tão grande que muitas vezes até nos apetece estar ali convosco, não é?

Sim. Muitas vezes, ultimamente, se calhar a pop mais contemporânea, essa liberdade é muito encenada. São passos que têm que ser dados daquela maneira, por causa do jogo de luzes, por causa do sincronismo com o vídeo, das explosões, etc. É muito encenado, mas não deixa de ser um espetáculo, como o teatro é encenado ou o cinema é dirigido. No caso dos Delfins, as coisas são muito ensaiadas. Eu ia te dizer que se calhar uma canção que as pessoas ouvem na rádio, um single novo, quando saiu "Sou como um rio", as pessoas vão é ouvir a canção e vê-la ao vivo e não têm que saber que estivemos seis meses a mudar aquilo, a estrutura, a reescrever a letra, a gravar, a regravar, porque ficou mal a voz, depois aquilo não funciona, vai para trás. Há uma regra também que tem a ver com a arquitetura. Antes de chegar ao projeto final, eu tenho ali uma série de situações de distribuição do espaço, dos vãos, das orientações norte e sul, das varandas.

E é engraçado transportar isto para a música, como se fosse um projeto.

Mas há uma cadência rítmica nos pilares que eu ponho nas sapatas para a estrutura da casa, para aquilo crescer até chegar à fase final, que é no fundo o master da música. Havia muitos músicos em arquitetura, o Nuno Rebelo, o Larif Dadá, por exemplo, ex-Street Kids, arquiteto, o baterista Radar Kadafi, irmão do Manuel Aires Mateus, arquiteto, o Carlos Mendes, que é mais da geração anterior dos anos 60, também é arquiteto, cantor, músico. É engraçado porque encontrei muitos músicos na faculdade, enquanto lá andei em Belas Artes, ainda era na Escola das Belas Artes quando eu tirei o curso. Mas eu acho que há uma ligação estética, pelo menos, também importante. Eu sou da pop, no sentido, agora quase que dizia que a minha filha ficaria contente, mais nova, porque eu quase que disse sou da pop. Não, não disse sou da pop, eu disse sou da pop. E gosto da parte estética, gosto muito que a parte estética tenha ligação às canções, às letras, às capas dos álbuns, às roupas que vestimos. Isso para mim faz parte de todo o universo da pop. Eu não sou daquelas pessoas que acham que a cultura pop é o mesmo que cultura popular, de todo. Eu não acho. E ninguém percebe quando eu digo isto, mas eu dou sempre aquele exemplo que é, também quando se fala em pop art, não se está a falar em arte popular. Embora o Andy Warhol fosse buscar elementos da cultura popular, as latas de sopa, etc, para fazer arte. Mas é completamente diferente arte popular e pop art. Isto acho que todos os entendidos o confirmarão. E vejo a música pop também, a cultura pop, como algo que não é exatamente a cultura popular. Até que a cultura pop hoje, quando se fala em cultura pop, vai muito para anime e para uma série de diários de adolescentes. E os tempos mudam, é como o hip-hop. Há bocado falávamos do Kanye West, quer dizer, quando o rap começou nos anos 70, falava-se em rap como o braço musical do movimento que era o hip-hop, que também tinha o scratch para os DJs, tinha o breakdance, e o hip-hop começou como uma junção de vários braços, digamos. E hoje fala-se em hip-hop como se fosse um estilo musical. Hoje quando falas em R&B, pensas numa série de nomes da R&B. R&B dos anos 70 eram os The Who. As coisas vão mudando realmente com os tempos.

Vão mudando ao longo do tempo e depois vêm novas referências também.

Claro.

Já vou querer saber as tuas também. Já lá vamos. Penso que Genesis está lá, de certeza.

Está, porque foi o primeiro espetáculo que eu vi ao vivo. Eu tinha oito anos, na realidade, quase a fazer nove. Tive a sorte de, a seguir à revolução ao 25 de abril, logo no ano a seguir Começar a existir uma cadência maior de espetáculos, mais ligados à música que eu ouvia, porque antes havia o Cascais Jazz e coisas assim, que não era provavelmente o que eu, com seis ou sete anos, ouvia. Mas eu comecei muito cedo a ouvir, com seis, sete anos, o segundo disco dos Led Zeppelin, depois os Genesis, Elton John, T.Rex, por aí.

Que luxo!

E eu ouvia muito aqueles discos. Quando os espetáculos começam em Cascais, a seguir à revolução, com uma cadência grande, eu tinha um irmão mais velho de quase três anos, meus pais também foram ver os Genesis e aquilo deslumbrou-me. Os Genesis, especialmente aquele disco com o Peter Gabriel, depois os Genesis a seguir à saída do Peter Gabriel já não me dizem muito, mas aquela fase mais do rock progressivo, com o Peter Gabriel a assumir vários personagens, que era um pouquinho do que depois o David Bowie também fazia. Aquilo fascinou-me muito e esse espetáculo é marcante porque é o primeiro que eu vejo e fiquei completamente fascinado. Há que referir que foi um espetáculo que para a época usavam três ecrãs com projeção de slides sincronizados, que era uma coisa extraordinária para 1975. E o fato do Gabriel com ilusões de ótica, ter manequins com a roupa dele em que enganava as pessoas e vestia-se de Rael, que era a personagem. Tinha efeitos cenográficos, porque não havia grandes tecnologias, mas tinha efeitos cenográficos completamente incríveis. E esse Genesis foi marcante, mais pelo espetáculo ao vivo. Eu ouvia os discos todos, mas quando vejo aquilo é que parece que há aquele clique.

Consegues ainda transportar agora para esse momento?

Sim, consigo. Há partes que não me esqueci, mesmo sendo muito novo. Quando ele aparece nos dois lados do palco e a gente não sabe quem é que está a cantar. Que um deles é um manequim exatamente como ele vestido e ele parado a cantar e a gente: "Qual é que está a cantar?" Depois é engraçado, porque aqui há uns anos, há uma banda chamada Musical Box, que faz uma coisa engraçada, que fazem concertos imitando não os discos antigos dos Genesis, mas as turnês. Replicam as turnês. E vieram fazer um espetáculo à la Magna há uns anos, desse espetáculo de Cascais. E eles trabalham com elementos dos Genesis, documentos, usam os mesmos instrumentos da época, é tudo feito mesmo de uma maneira incrível. Não é bem uma banda de covers, aquilo é mais do que isso.

É mais do que isso.

E toda a gente que lá estava, eu e pessoas mais velhas, com as lágrimas nos olhos e de homens bem vestidos, tipo engenheiros ali a chorarem. Quando o concerto começa e o cantor aparece com a sombra do capacete no ecrã a dizer: "Nós estamos muito contentes por tocar neste novo Portugal". Foi exatamente o que o Peter Gabriel disse em maio de 75 em Cascais, e ficou tudo: "Uou!" E houve um revisitar, porque eles usaram exatamente as mesmas coisas, usaram o mesmo set de slides, que foram recuperados do Steve Hackett, o guitarrista, e nós ficamos: "Isto é uma viagem no tempo incrível". Ainda mexe e acabou por avivar as memórias que eu estivesse mais esquecido desse espetáculo.

Miguel Ângelo, a conversa está muito boa, mas vamos só fazer aqui uma curta pausa. Já voltamos para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com o Miguel Ângelo. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com o Miguel Ângelo. Já estávamos aqui a falar em off, que entretanto já me estavas a contar mais pormenores desse concerto, desse primeiro concerto do Genesis, em Cascais, que viste o concerto perfeitamente bem porque estavas às cavalitas de alguém, não foi?

Sim, eu lembro que aquilo estava completamente cheio, estava lotado. Foram dois dias, eu fui no primeiro. Tive sorte, depois no segundo houve problemas, cassetada com a COPCON, que era na altura a Polícia Militar que existia. Pessoal queria entrar sem bilhete e tal, aquelas coisas. Mas o que aconteceu foi que toda a gente se pôs em pé em cima das cadeiras, mal os Genesis começaram, e estava um hippie ao meu lado, que achou graça estar ali um miúdo e empurrou-me e vi o concerto no primeiro balcão, nas cavalitas dele. Foi impecável. Daí ter visualmente muitas memórias fixes e bem claras do palco, e das luzes e da movimentação dos músicos.

Nós já vamos aqui falar dos Delfins e da série de espetáculos que aí vem, que vão começar agora no final de dezembro e se vão estender ainda durante o mês.

Princípio de dezembro.

Princípio de dezembro, sim. Vão se estender até meio de janeiro, mais ou menos, já vamos lá. Eu queria te perguntar, Resistência e Delfins, olhando para trás e para este caminho que tu fizeste na música. Ainda vou querer saber, porque tenho aqui informação, porque tu, não sei se quiseste ser jornalista numa parte da tua vida, já vamos lá falar isso também, mas Portugal enquanto país e naquela altura, estava pronto para o sucesso que foi os Delfins e os Resistência? Tudo aquilo que tu fizeste naquela altura, tu sentiste que estava definitivamente pronto para aquilo que foi?

Eu acho que estávamos a sentir que estávamos a chegar lá depois de muitos anos de trabalho. A Resistência foi fim de 91 e é um êxito incrível, mas depois em 95, 96 e 97, os Delfins foi estratosférico. Já basicamente mais de 10 anos depois de termos começado, porque começámos em 84. Portanto, houve um movimento-

Festival da Canção, também?

Sim, mas aí ficámos em último lugar. Isso foi em 85, isso foi outra aventura muito específica.

Em que muita gente disse que podia ser o fim, não foi?

Não, disseram. Os editores disseram-nos que estávamos queimados, que tínhamos que mudar de nome para fazer carreira. E nós fomos teimosos. É isso que eu digo às vezes, há bocado falei da malta dos alunos da ETIC, que eu nem gosto de chamar alunos, porque há ali muitos deles que já acabaram em palco comigo, passado uns anos, o que é fixe. E gosto de dizer: "A primeira coisa que vocês têm que ser é teimosos. Se acreditarem naquilo que estão a fazer, é ser muito teimoso e que vão contra tudo e contra todos, porque nesta indústria não há certezas, ninguém sabe qual é que vai ser o próximo hit. A editora aposta milhões num single, não dá nada, há outro que estava esquecido há um ano, torna-se viralmente o sucesso desse verão, portanto sejam teimosos". E nós quando começámos tínhamos essa teimosia. Claro, qualquer miúdo quando começa quer ser o maior lá do bairro e depois o maior do país ou o maior do mundo. E houve um trabalho Árduo para isso ser feito. Eu lembro que ensaiávamos seis dias por semana. Os Delfins só não ensaiávamos ao domingo. Sábado era um ensaio aberto que os nossos amigos iam lá ter e depois íamos sair todos juntos.

Com copos.

Exato, claro. Mas havia muita disciplina, na realidade, e muito trabalho. Repara, quando nós vamos gravar o primeiro álbum, que somos nós que vamos pagá-lo, porque ninguém o quer, onde havia Cascais e a versão do António Variações, nós obviamente temos que ter cabecinha. Temos que ir para o estúdio com isto já tudo feito, vamos ensaiar mil vezes pra quando chegarmos lá, fazermos uma grande gravação. Houve sempre essa componente muito de trabalho diário, de pensar nas coisas, de repensar as coisas. E quando esse êxito começa, tem a ver com muitas coisas. A resistência tinha aberto um bocadinho o caminho. Por quê? Eu acho que a resistência tornou um bocadinho mais sérias as canções pop dos Delfins, que à altura eram vistas com alguma sobranceria pela elite cultural.

Desdém, talvez?

Sim, especialmente em Lisboa, que no Porto, não. E curiosamente, na cintura industrial do Alentejo, também não. Aqui em Lisboa, houve sempre essa coisa. Quando as canções da resistência, com aquele inverno, "Nas Selvagem", "Lugar ao Sol", "No Meu Quarto", aparecem, se criar despidas da eletricidade do pop e com o acústico e com as palavras a ouvirem-se melhor, eu acho que as pessoas aí aproximaram-se das canções e da mensagem. Não é uma palavra que eu goste muito, a mensagem, mas o teor das líricas. E depois, quando os Delfins aparecem, há muita coisa a acontecer neste país. Há realmente um Estado que legaliza as televisões privadas, onde aparecem os canais privados que arrebentam com tudo em termos de audiências. Há realmente um poder de compra grande das pessoas em meado dos anos 90.

Tu, aliás, foste jurado em alguns concursos.

Eu também fui jurado, comecei na RTP, depois estive na SIC e depois tive um programa próprio, que era o "Cantigas da Rua", que tinha três milhões de pessoas a ver aquilo ao domingo.

Que é surreal nos tempos de hoje. Hoje o máximo, se calhar, anda ali um milhão, um milhão e meio, tirando o futebol.

O futebol, exato.

Mas três milhões é surreal pensar na audiência.

Não havia ainda as distrações das redes que há agora. Não havia isso, havia pouco. Portanto, as pessoas viam televisão e viam televisão àquela hora. Estávamos presos aos horários e às programações, o que também, felizmente, hoje já não acontece. Mas aquilo era uma coisa de música e o que eu gostei eram as canções despidas também. Não havia prêmios, sequer. Eles eram apurados, mas não havia prêmios semanais. E as pessoas iam cantar pra cantar, tinham que saber a letra, porque aquilo era uma versão. Aquilo, o Rangel, que já não está entre nós, falou-me que queria fazer uma versão em português de um concurso karaoke italiano, que acontecia em Itália, nas praças. Eles queriam comprar aquele modelo e eu disse: "Agora, karaoke, não. Vamos fazer de uma maneira que as pessoas saibam a letra, pelo menos, da canção. Vamos escolher música portuguesa, majoritariamente, e as pessoas saibam a canção". Aquilo era simples, as pessoas da Terra cantavam, toda gente cantava, batiam palmas, assoviavam, um cara cantava mal, um cara cantava bem, não interessava, e havia uma festa à volta de canções com milhares e milhares de pessoas em cada sítio. Durante anos, houve agências que ligavam pra comprar o "Cantigas da Rua", quando já não havia programa de televisão, a produtora que o tinha feito já não fazia, porque aquilo era um produto de televisão, e eles queriam aquele espetáculo na sua terra, para ter as pessoas à volta do palco e das canções. Claro que não podíamos fazer, mas é engraçado a força que as canções tinham e têm, acho eu, para juntar pessoas.

Tu, com esses papéis todos que tiveste ao longo da tua vida e de muito sucesso que aconteceu e que te levou depois também até à televisão, tu sentias-te, com a exposição que tinhas, uma espécie de ídolo ou na altura nem sequer pensavas nisso?

Aquilo é tão rápido, eu acho que não se pensa nisso. Eu acho que o que acontece quase a toda gente é passado uns anos, dizermos: "Se calhar, desesperei, se calhar não devia ter feito isso, se calhar não devia ter feito aquilo".

Chegaste a questionar muitas vezes?

Não, o problema é que eu não questionava muitas vezes.

É esse o problema.

O problema é que as coisas são rápidas e nós queremos ir a todas e agradar sempre qualquer coisa. Eu cheguei a escrever pro jornal O Crime.

É daí que vem a questão do jornalismo ou já vinha de trás?

Já vinha de trás. Eu, na altura, antes de ir pra faculdade, tinha opção entre Arquitetura e Jornalismo. Acabei por ir pra Arquitetura porque achei, se calhar até erradamente, estupidamente, achei que seria mais fácil fazer jornalismo enquanto arquiteto do que o contrário, à partida. E comecei a escrever, eu escrevi sobre arquitetura pro El País, comecei no Fórum Estudante a escrever, escrevi na Capital, sei lá. Até no Crime fazia uns artigos meio estranhos, mas eram engraçados, uns contra a pena de morte, outros contra não sei o quê. Só que depois tu começas a não ter tempo pra fazer tudo e começas se calhar a deixar as coisas pra última da hora. E depois chega uma altura que percebes: "Não, eu estou exausto. Depois já não estou a fazer as coisas bem". E eu acho que o problema é esse, nós queremos ir a todas e fazer tudo. Podia haver aquela atitude: enquanto estou na berra, vou aproveitar o momento, depois não sabe o que pode acontecer. Eu acho que nem é isso, é a velocidade estonteante. Repara com os Delfins, eu nesses anos dava 110 espetáculos por ano, muitos deles no estrangeiro, portanto, com viagens e tal. Andava muito tempo fora e a velocidade era uma droga. "E agora vou escrever pra alguma coisa".

Sentes que passou tudo muito rápido?

Acho que passou o tempo certo. Não tenho aquela visão. Não parece que foi ontem, parece que foi há muito tempo, já foi há muito tempo, foi há 30 anos. Não acho que foi rápido, acho é que se calhar não se dá a devida atenção a certo tipo de coisas, mas também não há nada a fazer. Eu acho que se voltasse atrás, se calhar fazia tudo igual, mesmo sabendo que há coisas que se calhar fiz mal e, se calhar, por ter feito essas mal, depois fiz outras bem a seguir. Essa coisa de correção do destino através da viagem no tempo é algo muito perigoso. Não comungo dessa coisa de alterar o acerto.

E a nostalgia também é, podemos dizer assim, boa até um certo ponto. Estar preso, se calhar, também é demasiado.

Eu não gosto nada de nostalgia e sempre, mesmo na carreira a solo, sempre desbravei caminhos, coisas que não tinham feito. A maior parte delas não são tão populares como as outras, é óbvio, não resultam. O que a idade nos dá e o que nos deu aos Delfins pra voltar, pra celebrar 40 anos de canções, desde 84? Chegas a uma altura em que aceitas o teu passado. É um bocadinho isso. Eu acho que passamos a vida a renegar o passado e as relações que correram mal e aquela amizade e aquilo que eu fiz. "Como é que eu fiz isso?" Tesourinho deprimente. Depois chegas a uma altura, dá uma maturidade, eu acho que estamos todos os Delfins nessa altura da maturidade, em que aceitamos o passado e se calhar até não é tão desprezível. Se calhar até tem alguma piada isto naquele contexto, mas agora recuperamos isto noutro contexto Repare, quando recuperas as 20 e tal singles de Delfins pra tocar e tens as pessoas, como tivemos este verão, a cantar do princípio ao fim em festa, não é muito diferente do cantigas da rua, uma coisa popular, de jukebox de singles, ficas: "Epá, que bom estarmos aqui, que as pessoas estão ali, que podemos fazer com alguma qualidade de vida aquilo que gostamos". Ok, já fizemos, não estamos a fazer nada de novo. Sim, mas os Stones também de vez em quando fazem um disco, mas ninguém vai ouvir o disco novo. As pessoas querem ouvir dos Chuts, dos U2, dos GN'R, querem ouvir as canções que lhes marcaram uma vida, marcaram uma época, como as pessoas vão ouvir os concertos de Schubert e de Mozart. É a mesma coisa, são obras, ou dos Beatles, que ficaram. Nós tivemos a sorte de termos muitas canções que ficaram e que passam na rádio ainda. Não somos só nós que as tocamos na nossa jukebox. Nós quando voltamos, em 2019, pra tocar com uma orquestra sinfônica, a premissa foi: estas canções, desde que nós interrompemos a atividade em 2010, continuam a tocar por semana 100 e tal vezes nas rádios em Portugal. As pessoas continuam a gostar de as ouvir, há gente nova a ouvi-las que nunca nos tinha visto em palco.

Se calhar nem vos conhece, são muito jovens.

E depois olhamos e sabem que mais? E nós ainda as gostamos de tocar. Essa também é uma razão importante.

E é por isso que agora vão estar em digressão a mostrar "O Outro Lado". É assim que se chama, não é?

"O Outro Lado", sim.

Começa dia 1 de dezembro em Lisboa, prolonga-se até janeiro de 2026. Vão estar em Lisboa, Coimbra, Braga, Porto e Aveiro.

Sim. Para já.

Para já. Mas sei que vêm coisas novas também.

É porque essas são as datas da produção da turnê, mas há à venda também, e já sei que há mais algumas datas no primeiro trimestre, é só uma coisa de inverno. É só uma tour de inverno, de auditórios, de teatros e auditórios, espaços fechados. E lá está, nós voltamos com o jukebox dits pra fazer grandes festas e festivais de verão. Agora é o oposto, é o outro lado. É as canções de álbum.

Gostei muito deste cartaz, uma fotografia de frente e uma fotografia de costas, que se calhar diz muito e abre o apetite daquilo que vai ser. É conhecer-

É conhecer o outro lado das pessoas. Este concerto tem uma componente também de conversa, não é só música.

O que também é importante, tu gostas dessa componente dos teus concertos, até mesmo a solo.

Gosto bastante. Já caímos no exagero. Havia um programa andante, um espetáculo andante no norte chamado Contamos Histórias, que é muito engraçado. Eu adoro fazer, já fiz uma série de vezes. E às vezes é estranho, estamos ali e as pessoas estão a adorar, e estamos ali duas horas e tal no teatro e só cantei cinco músicas. Isso se calhar foi demais. Mas eu acho que as pessoas também gostam desse outro lado, não é só as histórias, são também as histórias, mas às vezes podemos pôr o Fadigas ou a Dora a falar, que falam um pouco normalmente, e perguntarem o que aquela canção lhes diz, como é que pensaram naquela voz, naquela linha de baixo, o que é que andaram a fazer na altura, como é que acabou aquela relação, como é que os Delfins o salvaram da sua vida dos anos 90. Eu acho que é um bocadinho essa dinâmica que vai tornar este espetáculo único e muito especial. Além das canções que não estão nesse jukebox dos singles, e não vão estar nos espetáculos de verão, nunca. São canções mais intimistas. Há também essa componente mais dinâmica. A minha ideia inicial pra isto foi que todos trocássemos de lugar durante as canções. E não estou a falar na troca de instrumentos, estou a falar mesmo em termos de protagonismo. De podermos ter ali o Jorge, o baterista, a ser o protagonista daquele momento e a falar ele, e a cantar ele qualquer coisa, e ele a explicar qualquer coisa, e ver ali realmente pras pessoas conhecerem um bocadinho mais. Lá está, "O Outro Lado Existe" é o nome do segundo álbum dos Delfins, saiu em 88. Há uma canção que se chama "O Outro Lado", que nós aproveitamos esse título para o espetáculo. Não é só um espetáculo do disco "O Outro Lado Existe", atenção. É um espetáculo que tem a ver com canções de uma fase da carreira do grupo, até ao Saber Amar, onde nós vamos cantar canções do álbum, versões que gravamos e uma outra surpresa.

Não vamos revelar tudo também.

Não, não vamos.

Falavas aqui de salvar. Os Delfins salvaram-te em alguma parte da tua vida?

Sim, salvam todos os dias. Não, é verdade, porque é aquilo, quando tu tens um objetivo, e temos agora a meta da turnê, estamos a decidir o guarda-roupa, estamos a decidir a ordem das canções e que tipo de coisas. Isso é salvar-me, é dar-me uma ocupação pra eu não pensar muito em mim. Eu acho que a coisa boa disto é nós não pensarmos muito em nós. Sabes, quando começamos a pensar muito em nós, lá vem a ansiedade e a depressão. Eu acho que o truque pra não deixarmos ir por esses túneis mais escuros é não pensarmos muito no nosso umbigo, nem naquilo que dizemos, nem naquilo que fazemos. É fazer, conhecer pessoas, avançar, desbravar terrenos e distrairmo-nos do nosso lado mais existencialista, se calhar.

Serias um homem diferente se não tivesses estes grupos pelos quais passaste? A tua carreira seria certamente diferente daquilo que terias hoje.

Seria. Não sei se seria de mais sucesso, porque eu acho que o engraçado nos Delfins é uma combinação de seis pessoas, neste momento, muito diferentes em tudo mesmo. No feitio, na música que ouvem, em tudo, o que é realmente incrível. E eu, olhando pra trás, e aquilo que te disse há bocado, eu acho que isso sempre foi aquela razão que as editoras e os editores tinham ao dizer: "Não sabemos qual é o vosso target". Vem um cara de quarto betinho, vem outro que é cabeludo, vem outro que é drogado, vem outro que é não sei o quê, outro gosta de heavy metal.

Onde é que vocês se situam?

E realmente demorou tempo, demorou algum tempo, isso foram esses 10, 11, 12 anos que te falei, mas quando chegou ali a uma altura, eu também digo isto aos meus alunos de ética: mais vale vocês acreditarem numa ideia híbrida, que não diz nada a ninguém ainda, mas quando chegar o futuro, ouves a primeira nota, ouves a primeira linha de voz e sabes o que é, e define-te. E é ganhando essa marca, digamos, que eu acho que se pode ter uma carreira longa. Sem essa marca, é muito difícil ter uma carreira longa.

Olha, como é que tu olhas para o estado atual da música portuguesa? Vamos chamar-lhe o estado da arte. Podemos lhe chamar assim?

O estado da arte? Pode ser. Eu acho que é uma arte.

E é, no fundo. Está de boa saúde, recomenda-se?

Sim, completamente. Tens uma diversidade hoje de talento em várias áreas musicais que não havia antes. Há, obviamente, um mercado novo que não depende da compra do formato físico. E quando estivemos aqui a falar dos anos 90, nós fomos alimentados pelas vendas de CDs, toda a gente.

É um mundo diferente hoje em dia.

É um mundo diferente, e portanto a atividade é basicamente o ao vivo, e o ganha-pão dos músicos é ao vivo, vender merchandising nos concertos, quando se começa, tudo muito do it yourself, tem que ser. Agora, isso não tem impedido que haja gente nova a fazer coisas extraordinárias todos os dias, muito interessantes. Especificamente, não daqueles nomes que têm maior plays no Spotify da música portuguesa. Falo mais de uma classe desalinhada, em que produz coisas extraordinárias e às vezes tem a visibilidade, o que também é bom, e que não é propriamente aquela música de entretenimento puro, que tem o seu lugar e sempre houve ao longo das décadas, agora se calhar um bocadinho mais presente, mais forte e definidora da indústria. Mas eu acho que o importante é continuar a haver alguém que esteja nisto não só por uma razão comercial, mas por uma razão artística, pessoal ou cultural, que as faça ir mais longe na análise da nossa sociedade, como falávamos há pouco, na maneira de se exprimirem também. E isso há muita gente interessante, posso dar três, quatro nomes.

Eu ia-te pedir isso mesmo.

Ainda ontem soube que a Maria Reis, por exemplo, está nos Estados Unidos a tocar com o Panda Bear numa turnê. Tem um dos discos do ano. A Na Lua Kaiyafa também, tem um disco fantástico. Quer dizer, e há muita gente que eu gosto, desde o Sambado ao Shinask, à Surma, que também está a tentar uma carreira internacional.

Isso são pessoas que já trabalharam contigo, não é?

Sim, algumas delas já. O Sambado, a Surma e o Shinask, neste caso, já trabalharam. Mas há muita gente nova aí agora. Já agora, para pôr isto mais no presente da música portuguesa, eu estou muito sempre atento ao que se passa. Acho que está a haver um comeback da canção e como começámos a falar de canções. Nós vemos os casos dos Napa, bandas agora como Duque Província, os Vizinhos, são coisas muito pop, muito comerciais, mas têm uma escrita. São comerciais, mas têm uma escrita.

E que eu acho, não sei se concordas com isto, que as pessoas estão a voltar a dar importância às letras e aquilo que se diz.

Sim, e às bandas, que também é importante. Nós vivemos uma época em que não havia quase bandas, eram artistas, backing tracks, produções caseiras e agora está a haver aquele espírito. Porque a malta mais nova, o mais fixe é: "Vamos todos ensaiar, vamos pra garagem, vamos fazer uma viagem de carrinho. Se depois correr bem, vamos pro aeroporto, vamos apanhar um avião para ir tocar para os portugueses que estão na Alemanha". Quer dizer, isso é que é fixe, isso é que é a vida, a vida das pessoas. Isso é que é a vida, o resto é estar em casa, ter um disco muito fixe como a Billie Eilish e tal. E só isso, não. Depois é teres uma comunidade à tua volta, que também podem ser os managers, os agentes, os promotores, mas também especialmente aqueles que trabalham contigo em estúdio, produtores, músicos. Isso é que é interessante, isso é que é giro, isso é que é divertido. Porque senão, pode ser só um trabalho exaustivo, que te consome a cabeça e que te dá problemas de consciência e coisas assim. Eu acho que temos que sempre aliar essa parte da comunidade, a parte social da carreira, para que isto valha a pena, porque não é fácil e estamos muito pendentes sempre de uma auscultação popular que é feita disco a disco e turnê a turnê.

Claro. Olha, nós estamos aqui a falar com alguém que já fez tanta coisa: arquitetura, já pensou em ser jornalista, é músico. Como é que tu me explicas o fato de só teres tirado carta aos 46 anos?

Se calhar por isso tudo, não é? E do verdão. Ontem me perguntaram: "Vais ser o Woody no Toy Story 5?" Ainda me disseram nada.

Pois, e as dobragens? Toy Story.

Não me disseram nada.

O Woody.

Fiz o Woody, fiz o Pocahontas, o Hércules.

Ainda há pessoas que te pedem?

Sim, e malta assim nos 30, que viveu o Toy Story nos anos 90. É engraçado, pedem pra fazer a voz, claro, o Woody, de vez em quando faço.

Qual é a frase que tu costumas fazer?

Eu faço várias, até porque há um boneco, na altura, nos anos 90, que foi lançado, que puxas o cordão e sai lá um sample com uma linha de voz. Mas eu gosto muito de uma logo do Toy Story 1, quando há uma discussão entre o Buzz Lightyear e o Woody, quando eles vão ao Pizza Planet, no parque de estacionamento, em que o Buzz está convencido que é um ranger do espaço e o gajo, com uma lucidez incrível pra um boneco, diz: "Tu não és um ranger do espaço, tu és um brinquedo, um brinquedo de crianças".

Isto é tão bom. Estou a sentir agora toda a minha infância a transportar-se para aqui.

Não, eu acho que é assim, eu posso-te dizer o que aconteceu. Eu ia tirar a carta, mas os Delfins começaram a gravar. E eu pensei: "Agora a seguir à gravação do disco, tiro". E depois entrei pra faculdade. Na altura era cinco anos o curso, eu dizia: "Agora tiro, agora não tenho os trabalhos pra entregar". Fui adiando mesmo, depois acabei o curso, e depois veio a Resistência. Quando eu acabei o curso, veio a Resistência e os Delfins, e depois os Delfins dos anos 90, e eu estava sempre, sempre, sempre a adiar. E uma bela noite, num jantar de aniversário, eu estava só com a família mais próxima no restaurante no Estoril, e a minha mulher, na altura namorada, organizou uma conspiração que foi: pediu a um grupo de amigos todos pra me oferecer a carta. E então eu lembro-me perfeitamente disso. Estava sentado no fim da refeição, entra um grupo, não sei quantas pessoas pelo restaurante adentro, sem dizer nada, com um olhar fulminante, e em vez de tirarem da pistola, tiram de um envelope e entregam o envelope. Eu fiquei como: "Ei, não estava..."

Nem imaginavas.

Nem imaginava, estava alheio. E abro aquilo e eles todos tinham me oferecido a carta. E eu disse: "Agora até tenho que tirar, esta malta gastou dinheiro". Depois tirei rápido. Tirei em menos de um ano, foi assim.

E conduzes bem, que é o mais importante.

Sim. Acho que sim, eu não me aventuro. Eu não sou nada apaixonado de motores. Há malta que gosta de motores, de carros, de motas.

Talvez também por isso nunca tenha fascinado.

É, eu acho que isso também não me fascinou. E depois foi o tempo, eu sempre estive muito ocupado a fazer muitas coisas e isso era preciso ali uma cadência e uma regra regular. E a minha vida é assim: hoje tenho que fazer alguma coisa às 9:00, depois ao meio-dia ali, amanhã já não tenho às 9:00, mas tenho às 11:00. E é muito difícil às vezes conseguires marcar coisas fixas e não desrespeitá-las, claro.

Quero ainda falar de ti, Miguel Ângelo, enquanto pai. Pai de três filhos, a Máxima, o Martim e a Glória, que é a mais nova, tem que idade?

Tem nove anos, vai fazer 10 agora em outubro.

Ser pai nesta altura e viver aqui é uma fase diferente. Os outros dois são muito mais velhos.

Sim.

O que também te ensinou?

Olha, eu fui pai novo pra minha geração. Que eu fui pai, tinha 25 anos, pai pela primeira vez, e portanto fui pai novo e fui pai numa altura em que a minha carreira estava. Eu fui pai em 91. E foi em 91, justamente com a Resistência, com o aparecimento da Resistência.

Foi o auge, não foi?

Começa a ser o auge, e depois o auge maior é mais tarde, quando nasce o Martim, em 95, que é aqueles anos de 95, 96, 97, foi uma loucura, mesmo. E, portanto, claro que estive mais ausente no verão Porque no inverno nunca se passava grande coisa, porque a rede de teatros só começou a ser recuperada a partir do ano 2000 e pouco. Que é um dos projetos político-culturais que funcionou, que tem que se dizer. Curiosamente, é daqueles poucos projetos que, havendo mudança de cor política, o projeto continua e não é deixado na gaveta. E são duas figuras polêmicas também, mas não há aqui cancelamentos. Começou com o Santana Lopes, quando estava Secretário de Estado da Cultura, e o Carrilho depois continuou, e muito bem. Portanto, os dois têm uma enorme responsabilidade de hoje haver um circuito de inverno para as bandas, de teatros com bom equipamento, bons palcos recuperados. Mas na altura não havia. No inverno não havia grande coisa. E eu como pai, no inverno era o pai que estava de serviço, ia levá-los à creche, ia buscá-los, com a ajuda dos meus pais, que estavam vivos ainda. Mas eu estava muito presente no inverno. No verão, não. Agora, com a Glória é diferente. Um pai mais velho, é pré-avô . E portanto há uma ligação diária mais presente, embora agora no verão também estive muito ocupado e ela já notou um bocadinho. Mas eu lembro perfeitamente. Nós a uma altura passávamos algum tempo no Brasil, três, quatro meses. E lembro-me que resolvi fazer uma surpresa e aparecer cá para os anos da minha filha, da máxima. Vir num fim de semana sem dizer nada a ninguém. Nós estávamos em estúdio no Rio de Janeiro e vim fim de semana. E lembro que o Martim devia ter um ano e pouco. Sim, um ano e meio. E lembro que abro a porta de casa, para dar a surpresa, e vejo o Martim pequenino, que ainda estava a dar os seus passinhos, a andar, olha, vira-se e vai-se embora.

Como é que isso te fez sentir na altura?

Me fez sentir: "Será que estou a fazer as coisas bem?"

Foi um murro no estômago?

Foi um murro no estômago, mas eu com essas coisas não fico ali a fazer grandes dramas. Digo: "Como é que eu posso melhorar isto? Se calhar foi um exagero." Aliás, tivemos um convite para ficar seis meses no Brasil e seis meses em Portugal. Um convite direto da BMG Brasil, em que disseram: "No Brasil acontece muita coisa. Tu vais-te embora três meses, quando voltares lá já ninguém sabe quem és, tens que começar do princípio a fazer a comunicação". E então eles fizeram uma proposta que era: "Perfeito, vocês passam seis meses em Portugal, que é o vosso verão, que é o nosso inverno, e depois vivem aqui outros seis meses". Porque isto está a pegar, já tínhamos feito cinco coisas pra MTV Brasil, o Jô Soares, até ao programa da Xuxa fomos. E nós: "Isso muda as nossas vidas. Temos miúdos pequenos, havia recém-casados na banda, isto vai tudo ao ar, se a gente fizer isso". E optamos também porque tínhamos uma situação muito boa aqui, a dar 100 e tal concertos por ano, como te disse, a vender discos como sabonetes. Portanto, na altura achamos: "Não vamos dar cá das nossas vidas, vamos lá indo, logo se vê". Claro que não se passou mais nada no Brasil. E passado uns anos, a maior parte de nós estava divorciada. Ficamos: "Se calhar devíamos ter aceito". Não, mas eu acho que foi a decisão certa.

Fica esse arrependimento, mas no fundo a intuição também ajudou, se calhar, naquele momento, a tomar a decisão certa.

Sim, eu acho que foi a decisão certa. Se tivéssemos ficado no Brasil, provavelmente ainda estávamos lá. Teríamos ficado lá, se calhar vinha aqui falar contigo e já falava assim um português.

Sim, eu estava precisamente a pensar nisso. Como é que seria a nossa conversa e o que tu terias para contar.

Porque aquilo é muito intenso, a música realmente tem um papel na vida das pessoas muito mais forte do que cá em Portugal. Eles respiram música de manhã, ouvem música, vão a espetáculos, aquilo o mercado é gigante. Há grandes artistas de São Paulo que não são conhecidos no Rio e vice-versa, para as pessoas terem uma ideia, aquilo é brutal. E nós, provavelmente, se aquilo tivesse corrido bem, teríamos uma carreira cá e lá. Mas nós optamos por ficar cá e acho que na altura foi a decisão certa.

Miguel Ângelo, vamos fechar este nosso "Em 40 Minutos". O que ainda te inquieta e te apaixona na música ao fim destes anos todos de carreira?

Olha, eu-

Mais de 40

Mais de 40, sim.

41.

Não quero pôr pressão nisso. 41. Há uma coisa que ainda me faz correr, que é engraçado, que é: eu gosto imenso de ver música ao vivo. E também farto-me de chatear os meus alunos que não vão ver música ao vivo, e eu não percebo por quê. Vocês querem ser profissionais da música ou da indústria da música, têm que ir ver música ao vivo, até porque é lá que está o dinheiro neste momento. E eu vou ver espetáculos e cada vez que vou fico sempre: "Épa, que grande ideia, épa, muito fixe, e se eu fizer isto assim?" Fico logo mortinho para ir pisar o palco e incorporar algo que eu roubei, entre aspas, daquela noite, seja o David Byrne no Clube de Jazz, com aquele espetáculo fantástico do American Utopia, que é groundbreaking, mais uma vez, o David Byrne. Que era outro espetáculo de uma banda nova que vejo no Clube do Coliseu e que digo: "Epa, grande pinta estes miúdos, grande onda". E isso faz-me querer voltar a gravar um disco, porque acho que tenho alguma coisa a dizer depois de ser influenciado por esses outros artistas. E são as pessoas, é aquilo do início. O que as pessoas fazem, são o motor da minha vida. Não é bem uma inquietação de estar: "O que é que eu vou fazer? Próximo disco, e agora será que as pessoas vão ouvir canções novas feitas por mim? Só gostam das antigas. Isto é uma injustiça". Em vez de ficar nessa, a torturar-me. Não, entro naquela: "Que fixe ter ouvido isto desta pessoa, este livro é fantástico, este podcast que eu ouvi é muito bom, grande ideia, grande atitude, se calhar estava errado, devo é encarar as coisas desta maneira". E isso não considero que seja inquietação, é aprendizagem contínua e é prazer. É prazer, é como veres uma exposição e estás ali 20 minutos a olhar para um quadro que está a transmitir qualquer coisa que sentes de quente por dentro. Não sei explicar isso, é algo químico, obviamente. Eu não sou uma pessoa espiritual, para dizer que é espiritual, embora agora com essas novas teorias do cérebro .

Esteja aqui muito no ar.

Esteja aqui tudo muito no ar, se a alma existe e pode ser explicada cientificamente. Há muitas questões ainda no início da exploração, mas para mim é uma coisa orgânica. Eu estou ali, estou a assistir aquilo e comovo-me, choro e fico quente. Ou então acho que: "Epá, que disparate, vou-me embora". Também acontece algumas vezes.

E faz parte.

E faz parte.

No fundo, isto vai ser sempre, e como disse na introdução, sobre as pessoas e as canções. É aquilo que tu sentes.

É isso. É isso mesmo.

Miguel Ângelo, muito obrigado por teres vindo aqui à Rádio Observador. Foi uma grande viagem por mais de 40 anos e conhecemos ainda outras facetas que ainda não conhecíamos sobre ti. Muita sorte para o teu percurso e que continues a escrever muitas histórias nesse teu caminho. Um abraço.

Continuamos. Obrigado. Um abraço. Obrigado.