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Vamos ao encontro do Bruno Cardoso Reis, o historiador que está em Washington e que, de resto, tem estado sempre aqui na Rádio Observador, no "América Dividida", agora no dia das eleições. Bruno, bom dia. Temos Trump cada vez mais perto de ser o próximo presidente dos Estados Unidos ou achas que ainda é muito cedo para fazer uma afirmação tão categórica?

Eu tenho procurado ser sempre bastante cuidadoso, mas neste momento não vejo essa possibilidade. Ou seja, eu estou aqui a olhar para o mapa que mapeia a mudança do sentido de voto em cada círculo eleitoral. Basicamente cobre metade, neste momento, dos Estados Unidos, não tem metade a oeste e não inclui os dois swing states, o Arizona e o Nevada. Mas realmente é uma tendência muito clara de viragem, ou seja, reforço da votação do candidato republicano, que provavelmente ganhará o voto popular, não se vê como é que aí haverá uma inversão. Portanto, de facto, não vejo caminhos para isso, ou seja, mesmo que a Kamala Harris vencesse na Pensilvânia, o que não parece o mais provável neste momento, ela está a perder com margens significativas no Wisconsin e no Michigan. E realmente os estados do oeste, depois o Arizona e o Nevada não têm votos eleitorais suficientes para inverter essas perdas. E a tendência é mais ampla do que isso, ou seja, os republicanos estão a ganhar o Senado e provavelmente vão ter uma maioria, já vão em 51, portanto, mesmo sem o vice-presidente, têm uma maioria e provavelmente vão conseguir mais um ou dois lugares, portanto, vão ter uma maioria bastante clara para aquilo que são sempre eleições, apesar de tudo, renhidas. Mas realmente parece-me que neste momento não vejo que seja realista esperar que a Kamala Harris consiga inverter esta tendência.

E Bruno, na Câmara dos Representantes, nesta altura 183 para republicanos, 155 para democratas, o Trump pode mesmo conseguir aqui um all in, um pleno?

Sim, pode. Já vimos isso, aliás, na esfera diária.

Exatamente, sem esquecermos o Supremo. Mas já lá vamos.

Mas não é assim tão invulgar que no início do mandato, o presidente consiga ter o controle das duas Câmaras do Congresso. É muito mais difícil depois manter isso. Isso tem sido mais difícil nos últimos anos, nas últimas décadas, se quisermos, e ainda mais para um presidente republicano. Portanto, desse ponto de vista, é mais excepcional digamos, do que normal. E realmente a ideia era que muito dificilmente os democratas, mesmo que vencesse a Kamala Harris, venceriam o Senado, porque era realmente um ano muito propício aos republicanos. Os democratas estavam a defender o dobro dos lugares e muitos deles em estados bastante conservadores. Mas realmente, se ainda por cima a tendência for para uma vitória de Trump, isso acaba por ajudar os senadores também republicanos e, portanto, por exemplo, em lugares muito disputados na Pensilvânia, etc. Neste momento, o candidato republicano está a vencer, portanto, para o Senado. No caso da Câmara dos Representantes, não é impossível realmente que ainda assim os democratas consigam evitar perder o controle da Câmara dos Representantes, mas, mais uma vez, por esse efeito de arrastamento, é possível que Trump consiga isso. E, portanto, isso significa que não só o controle da Câmara e do Senado, com uma margem razoável para o que tem sido habitual nos últimos anos, como o facto de muitos destes candidatos serem candidatos trumpistas, realmente dá-lhe um nível de controle do sistema político, esta ideia do sistema de pesos e contrapesos. Sobretudo num Partido Republicano que está tão radicalizado, está tão alinhado com Trump, está tão receoso de entrar em choque com o Trump. Dos sete senadores, por exemplo, que votaram o impeachment do Donald Trump, neste momento restam dois. Dos 10 representantes que se atreveram a votar pelo impeachment do Donald Trump, neste momento, eventualmente dois conseguirão ser reeleitos e se calhar nenhum. Portanto, realmente esse velho Partido Republicano morreu. Aliás, isso eu já dava por adquirido que seria o caso, mesmo que Trump não vencesse esta noite, mas parece muito claro agora com estes dados que já temos.

E com estes dados, e isto, Bruno, é mais do que semântica, espero eu, é Trump e este Partido Republicano que vencem as eleições ou é Kamala Harris que as perde?

É sempre uma combinação dessas coisas. Ou seja, o Partido Democrático realmente subestimou durante muito tempo a questão da inflação e a questão da fronteira. Aliás, no programa que tínhamos do Café América, várias vezes falámos dessa questão da inflação e do efeito também até de reforço da inflação, que algumas das políticas de estímulo de Biden, que eram bastante populares no imediato, mas que era previsível que iriam ter e realmente tiveram. É evidente também que há aqui um lado de radicalização cultural, uma insistência nesta ideologia woke, etc, que leva a uma grande rejeição da parte de muita gente. E historicamente é muito difícil a um vice-presidente ser eleito, ou seja, eu volto a este número e portanto eu disse sempre, insisti sempre, esta era uma eleição que se Trump conseguisse perder, era sobretudo realmente por culpa dele, porque a partir de um candidato republicano, um candidato alternativo ao Partido Democrático, tinha muito para vencer. A questão da inflação e as pessoas realmente não gostam de ver as coisas a custarem muito mais. Para quem vive aqui, isso é bastante evidente, as coisas estão realmente bastante mais caras. E a questão da fronteira, depois estas dimensões culturais e portanto aí realmente o facto também de Biden ter insistido em recandidatar-se numa altura em que já era bastante evidente que não tinha condições para isso e depois não deu a oportunidade a emergirem candidatos fortes. No fundo, eu acho que ainda assim foi melhor ter sido a Kamala Harris a avançar, porque quando ele desiste, realmente o risco era que fosse para outros candidatos.

Foi a melhor solução perante o cenário que estava em cima da mesa.

Ou seja, com Biden eu não tenho dúvida que o resultado seria muito pior. Aliás, era isso também que as sondagens já indicavam. Agora, apesar de tudo, Kamala Harris realmente não conseguiu fazer aqui a diferença que seria eventualmente necessária, se é que isso era possível, mas ela realmente, também fomos referindo isso muitas vezes, não é uma candidata particularmente carismática, não é propriamente um Obama ou um Clinton, e inclusive cometeu alguns erros. Enfim, isso agora é fácil também apontar erros, mas, por exemplo, eu apontei esse erro e muitos outros analistas. A questão, por exemplo, quando lhe é perguntada o que ela faria diferente de Biden, quando se sabia que Biden estava com uma popularidade muito baixa, ela diz que não lhe ocorre nada. Quer dizer, essa é uma daquelas perguntas mais do que previsíveis e que evidentemente não podia ter essa resposta. Ela tinha de tentar aqui aparecer como alguém com uma agenda um pouco diferente. Sendo que isso é difícil, é por isso que realmente, como eu estava a dizer, mas entretanto interrompi-me a mim próprio esta questão do vice-presidente.

Não fui eu.

Daqui a pouco somos nós, Bruno.

Exatamente. Há um século que basicamente um vice-presidente não consegue vencer uma eleição a seguir ao seu presidente. A exceção foi George Herbert Bush, George Bush pai, mas beneficiando uma enorme popularidade de Ronald Reagan, que era o seu presidente, em 1988. Portanto, isso é normal deste ponto de vista histórico.

Friamente, seria o mais expectável. Bruno Cardoso Reis, muito obrigada por teres estado conosco mais um dia aqui a olhar para as eleições, quando Donald Trump continua na frente e está cada vez mais perto da Casa Branca.