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O Miguel Cordais está esta tarde conosco para mais uma edição do Euromilhões. Falamos de desporto até bem perto do jornal das 19h. Olá, Miguel, boa tarde.
Alô, boa tarde.
Tema do dia: Pepe também está fora da seleção, este por lesão. Já vi também ao longo do dia algumas críticas ao reparo Fernando Santos, porque substitui Rafa por Gonçalo Ramos, mas agora também não vai buscar propriamente um central pra substituir Pepe.
Sim, já tinha tirado, creio, Rafael Guerreiro por Mário Rui, logo numa fase inicial, e agora por Pepe não encontra ninguém. Ou seja, sai Pepe e não entra ninguém para o lugar do defesa central, que, à partida, teria a titularidade nos próximos jogos. Mas, de facto, é uma das notícias do dia. Pepe está fora da convocatória, está fora da equipe da seleção nacional. Isto foi informado pela Federação Portuguesa de Futebol, foi dispensado. O jogador ontem não trabalhou às ordens de Fernando Santos. Hoje também não trabalhou às ordens de Fernando Santos, fez apenas o trabalho de ginásio por problemas físicos e hoje foi anunciado que está dispensado da seleção nacional. É importante esse ponto que referias, Nelson. Fernando Santos opta por não convocar ninguém para este lugar, uma posição onde tem, de acordo com a convocatória que foi divulgada, tem apenas Danilo, que aparece como defesa central, ele que originalmente é um médio defensivo, mas aqui aparece já como defesa nesta convocatória. Tem também Rúben Dias e Tiago Djaló. Pepe era o quarto homem para este eixo, mas Fernando Santos opta por não trazer ninguém para a seleção. Bruno Vieira Amaral, não sei o que te parece esta decisão do Fernando Santos e também perguntar-te, olhando para os convocados, quem achas que vai jogar, vamos supor, ao lado de Rúben Dias, que tem esse lugar praticamente garantido nesta defesa da seleção. Parece-me uma decisão errada de Fernando Santos em não convocar mais nenhum central, porque era importante ter mais um jogador para aquela posição, caso fosse necessário, e porque seria uma oportunidade para convocar jogadores jovens, centrais, que serão o futuro da seleção, como por exemplo, Gonçalo Inácio ou António Silva.
David Carmo?
David Carmo.
Não está na melhor forma.
Ainda não está. Por tudo aquilo que já fez no Braga, sim, mas entretanto está vindo de uma lesão e ainda não está completamente recuperado. Pelo menos ao nível exibiicional, ainda não é o mesmo David Carmo que conhecemos do Braga. Mas claro que é um dos centrais pro futuro desta seleção. E parece-me, saindo Pepe e não entrando ninguém pro lugar dele, que Fernando Santos não está ou não estará muito preocupado com esse futuro. Isto já terá uma ideia para o presente imediato da seleção portuguesa nestes jogos. Creio que aí a dupla será Rúben Dias e Danilo.
Quem joga então é Danilo nesta posição.
A não ser que haja uma grande surpresa. O fato de Fernando Santos não convocar mais um jogador, mais um central para a vaga aberta por Pepe, leva-me a crer que ele irá apostar numa dupla que lhe oferecerá algumas garantias, jogadores que ele já conhece bem, como é o caso de Rúben Dias e Danilo.
Muito bem.
E Danilo também tem ocupado essa posição de quando e vez no PSG. Tem jogado mais como central. Mas não deixa de ser uma solução. Agora, não tanto porque tem jogado mais nessa posição, mas não deixa de ser uma solução de recurso. Temos que ser honestos.
Não é da origem.
Não, Danilo já era convocado anteriormente e a verdade é que funcionava como uma espécie-
Do pivô ali no meio-campo com o William, não é?
Essa era a posição dele, mas Fernando Santos sempre teve a ideia de o poder utilizar como central. É o indicado, agora sim, agora pode-se dizer que tem alguma rotina, ainda que num sistema diferente, mas tem alguma rotina como central no Paris Saint-Germain. Mas não foi por essa razão que Fernando Santos o convocou antes, e já o utilizando também em certas situações como central.
Muito bem, já olhamos para o tema do dia, a saída da convocatória de Pepe. Vamos ao futuro e no futuro está a criação do Prêmio Sócrates. Miguel, o que é isto, o Prêmio Sócrates?
É um novo prêmio, France Football, a equipe anunciou a criação do Prêmio Sócrates, o famoso jogador brasileiro, que era muito mais do que um jogador e daí a criação deste prêmio. É um galardão para distinguir ações solidárias levadas a cabo por jogadores ou, neste caso, como descrevem as publicações, por campeões comprometidos. Sócrates, como sabemos, internacional brasileiro, tinha também muitas lutas fora dos relvados. Ele próprio era médico, tinha formação em medicina e, portanto, era apelidado de doutor por isso mesmo. Era médico de profissão e dedicava-se a muitas causas, muito também em luta pela democracia.
Nos clubes?
Sim, democracia dentro dos clubes, a participação. Famosa democracia corintiana.
Exatamente. E, portanto, por todas estas razões, surge este Sócrates Awards, é um prêmio para quem leva a cabo, jogadores que levam a cabo ações solidárias. Bruno, acredito que concordes com este prêmio, mas se identificarias alguém à partida do futebol mundial que pudesse ser candidato a este prêmio.
Por acaso não concordo com este prêmio, porque aquilo que Sócrates representou, mesmo do ponto de vista político, não tem nada a ver com a criação deste prêmio. Os jogadores hoje, muitos têm ações e que serão Tem todo o mérito, eu não quero retirar o mérito nisso, mas muitos têm esse tipo de ações de beneficência, de apoio a instituições. Faz parte do pacote. Muitas vezes isso é programado pelos agentes, tem a ver com relações públicas. Mas há ações, por exemplo, eu recordo-me de Rashford que tem aquela campanha. Mas eu não estou a falar dos efeitos reais. O que eu acho é que com a criação deste prêmio, vamos ver muitos mais jogadores a fazer solidariedade. Claro. Os agentes vão fazer com que eles façam esse tipo de coisa. Isso faz parte. Eu há uns tempos falei com o Micael Correia, que é um historiador que fez uma história popular do futebol, e estávamos a falar precisamente numa entrevista que lhe fiz, desta questão dos jogadores hoje participarem neste tipo de ações. Muitas vezes resguardam-se quando é preciso assumir certas posições, por exemplo, das grandes vedetas como Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo, em questões relacionadas, por exemplo, com o racismo. Muitas vezes eles escondem-se. Para outra questão. São questões sensíveis, então não se querem envolver, mas depois participam noutras mais seguras, ou então têm as suas instituições e apoiam outras instituições. Isso é tudo muito bem, e eu não estou a dizer os efeitos, e citaste um caso do Rashford, que foi justamente elogiado. Acho que era um programa que tinha a ver com refeições para crianças nas escolas. E não vinha do clube. Não é uma iniciativa que tivesse vindo diretamente do clube. Com certeza, e isso eu acho que é de louvar. Agora, a criação de um prêmio, quanto a mim, vem reforçar esta ideia de que é mais um item- Que os jogadores têm que ter. Exatamente. Na imagem pública dos jogadores. E é só por isso que eu não concordo muito com esta premiação do trabalho ou daquilo que os jogadores fazem ao nível de apoio a instituições, com todo o mérito que tem e com os efeitos reais que isso possa ter. Claro. Ou seja, eu percebo que o que estás a dizer é: passamos a estar a premiar os jogadores por uma categoria que, por regra ou por base, não é pedida aos jogadores. Claro. Ou se tem um caráter humano, ou não se tem. Claro, mas haver aqui um prêmio é só esta questão. É um pouco como aquela ideia de monetize everything. Ou seja, transformar tudo numa fonte de rendimento. Aqui é transformar tudo numa fonte de rendimento, mas em termos de imagem. Os especialistas em marketing das causas ao tratar disso. Exatamente. Eu acho que é esse o risco. Não estou a criticar as ações dos jogadores, que eu acho que são de muito valor e em alguns casos, estou a lembrar, por exemplo, do Sadio Mané. Estava a lembrar desse também. Exatamente. Tem feito muito pelo seu país, pelo Senegal, e eu acho que isso é de louvar. Sim, claro. Não estou a pôr em causa essas ações. Agora, quando começamos a premiar isto, entra aqui uma espécie de competição para ver quem é o mais humanitário. Até porque este prêmio Sócrates acho que é na gala da Bola de Ouro. Da France Football. Muito bem, vamos à memória do dia. A carreira de Mourinho começou há 22 anos? Sim, começamos a falar disso ontem, precisamente por causa dessa gala na Cidade do Futebol. Mourinho recordou esse 22 anos- Como treinador principal. Como treinador principal, sim. Até tradutor, antes. Há 22 anos deixa o Barcelona. Começa como tradutor. Ele há 22 anos deixa o Barcelona para seguir para o Benfica, onde estava na altura já como treinador adjunto, e depois segue para o Benfica para ser treinador principal e, portanto, tem aí o primeiro cargo. Ontem, na gala do futebol, na Cidade do Futebol, nas Quinas de Ouro, ele olha para esta carreira de forma curiosa. Diz que a única coisa que mudou na maneira como encara o futebol é a cor do cabelo. Passou a ter cabelos brancos, porque de resto continua a festejar as vitórias da mesma maneira, continua a gritar com os árbitros da mesma maneira, continua a ficar chateado ou contente com os jogadores da mesma maneira, ou seja, aquela questão de ter a mesma paixão que tinha há 22 anos. A verdade é que ele fala também, e disse ontem também, que estes 22 anos mostram que ele não foi um treinador de momento, foi um treinador que conseguiu ter sucesso ao longo da história. E para isto, ele exemplifica que nos anos iniciais, não com o Benfica, mas depois no futebol clube do Porto, consegue conquistas europeias, consegue fazer o mesmo depois quando está no Inter, anos mais tarde, consegue depois com o Manchester United e consegue depois com a Roma. E isto olhando para o panorama europeu, consegue continuar a ganhar. Agora, há esta questão: há diferenças entre o que ganha. Uma coisa é ganhar a Liga dos Campeões, outra é ganhar uma Liga Europa, outra é ganhar a terceira divisão das competições europeias. Há esta questão, mas a verdade é que ele coloca neste ponto: ele continua a ganhar e continua a ter prazer em ser treinador de futebol. Bruno, o que tu achas destes 22 anos de carreira de Mourinho e também deste ponto de vista, deste ato do treinador português? Eu creio que tem um início de carreira fulgurante, descontando aqui a parte do Benfica, mas a partir do momento em que chega ao Porto, tem uma carreira fulgurante em termos de títulos, em termos de qualidade de jogo. Se olharmos para o Chelsea, que foi a equipe do Mourinho, talvez tenha gostado mais de ver. Ainda hoje tem o recorde de melhor defesa da Premier League. É incrível, porque eu lembro-me nesse ano, 2004, 2005, quando ele chega à Premier League, toda gente estava a dizer: "Não, no jogo a seguir é que o Chelsea vai cair. O Chelsea vai cair no jogo a seguir, porque normalmente os treinadores quando chegam à Premier League ainda precisam de um tempo de adaptação e as primeiras épocas não correm muito bem." E ele é campeão nessa primeira época no Chelsea. O Chelsea já tinha uma grande equipe, mas o Mourinho transporta a equipe para um outro nível e só fica a faltar o sucesso europeu, que depois vai reencontrar no Inter, uma equipe também diferente, um momento diferente O Real Madrid, esse grande desafio a seguir, representa, quanto a mim, o zênite, mas também o início de algum declínio, um certo declínio.
Mas ele consegue, nesse Real Madrid, destronar um Guardiola e um Barcelona.
Mas é isso que eu estou a dizer, ele consegue. O Real Madrid há muito tempo não passava de, creio, que era dos oitavos de final da Champions e começa a ir às meias-finais. A equipa jogava muito futebol, consegue ganhar um título com recorde de pontos ao Barcelona, e isso é tudo mérito, mas a partir daí as coisas começam a declinar.
Eu acho que nos últimos anos ele faz um percurso que podia ser muito mau, porque entra numa fase em que salta muitas vezes de clube, não tem grandes resultados. A fase de Tottenham não é boa.
Eu diria que essa foi a pior fase. Mesmo o United.
E no United igual. E ter aparecido agora a Roma. Sim, e ganha o último título que o United ganhou. Mas esta Roma eu acho que vem segurá-lo aqui um bocadinho ainda na elite dos treinadores, quando em termos de resultados recentes, eles estavam uns furos um pouco abaixo do que tinha feito com o Porto e com o Chelsea no início da carreira.
E essa experiência na Roma demonstra outra coisa. A forma como os adeptos olham para ele, em Itália, é como um dos grandes treinadores do mundo. Continua a ser visto dessa forma, não só em Itália, mas muito em Itália, e os adeptos continuam, parece-me, do lado dele. E isso é um mérito, porque carreiras de 20 e tal anos são raras.
22 anos.
E deixa-me só terminar com isto. Ele ontem diz, quando discursa por ter ganho um troféu na época passada, diz: "Enquanto em Portugal me quiserem ver longe, eu vou continuar longe". Foi o que disse Mourinho, apesar de destacar esses 22 anos de carreira.
22 anos de Mourinho no fecho do Euromilhões, hoje com o Miguel Cordeiro. Miguel, um abraço. Obrigado.
Um abraço.
Rádio Observador