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Bom dia e muito obrigada por estar com a Rádio Observador. No explicador de hoje, o nosso convidado é Jorge Touguia, especialista em doenças infecciosas e medicina tropical. Bom dia. Muito obrigada por estar em direto nas manhãs 360.

Bom dia! Obrigado eu.

Chegaram ontem os portugueses repatriados de Wuhan. Vão ficar em quarentena. Esta é uma decisão importante para garantir que não há contágio caso sejam portadores do vírus?

Sim, é verdade. No estado atual do conhecimento, que não é muito extenso e muito profundo em relação à relação entre o vírus e o hospedeiro, aquilo que se calcula é que o período de incubação vá até no máximo 14 dias. Isso, no fundo, é um pouquinho inferido em relação aos outros coronavírus que infectaram o homem. Portanto, é fundamental respeitar-se este período, porque se não o fizéssemos, tendo um período de incubação de 14 dias, em qualquer altura poderia desenvolver-se a doença. E também se pensa que a doença, a partir do momento em que está ativa, o contágio será mais frequente. Embora também lhe devo dizer que há algumas suspeitas que as pessoas possam ser infecciosas antes de começarem a ter febre.

Sim, há dados da semana passada de investigação que apontavam que este vírus podia ser transmitido ainda antes desse estado de doença.

Exato. Mas são apenas hipóteses, porque, na verdade, uma área que necessita de um pouco mais de conhecimento é a relação entre este vírus, especificamente, e o hospedeiro. E, portanto, quais as células que possam receber o vírus, onde é que estão os receptores. E em relação à própria vacina, que eu vi a notícia há pouco tempo em relação ao Instituto Pasteur, já havia outros que tinham falado sobre isso. Também é fundamental conhecer esta relação entre o vírus e o hospedeiro para perceber a resposta imune que possa surgir. Tudo isso faz parte das muitas necessidades que temos neste momento com uma doença nova.

Mas depois deste período de quarentena, deixa de existir risco de contágio?

Em termos teóricos, sim. O que eu quero dizer com isso?

Noto a sua salva, quer dizer que se sabe ainda muito pouco, é isso.

É exatamente isso. Em nenhuma circunstância nós poderemos ser completamente perentórios em relação a uma doença que surge neste momento, que é um vírus novo, que embora pertença a uma família de outros vírus, que já teve também um contato entre os humanos e o seu reservatório essencial que seriam os morcegos, mas sendo um vírus novo, é difícil de ser perentório. Relembro que mesmo noutras circunstâncias, noutros vírus em que nós tínhamos estas ideias do ponto de vista da possibilidade de transmissão e de períodos de incubação bem estabelecidas, por exemplo, no Ebola, depois surgem casos de indivíduos que são portadores do vírus durante muito mais tempo. Por isso é que eu tenho alguma reserva em relação a dizer isso, mas a medicina funciona pela lei das probabilidades, e a probabilidade, neste momento, é que seja 14 dias e é com isso que temos que ficar.

É com isso que trabalham. Jorge Touguia, esta quarentena destes portugueses que chegaram da China é voluntária, cada um deles decidiu assim fazê-lo. O que um especialista diz sobre isto? Era importante que o Estado tivesse na lei a possibilidade de obrigar a quarentena em casos destes?

Em termos de saúde pública, sim. Neste caso, embora eu não seja de saúde pública e não conheça bem as nuances destas questões, mas na minha opinião, como infectologista, a partir do momento em que existe um risco pra saúde pública provocado por uma doença muito infecciosa e de fácil contágio, então temos que ter o cuidado com o resto dos nossos concidadãos. E a pessoa que possa ter essa doença deve ser isolada.

Em termos da progressão desta doença, acha que com os dados disponíveis já se atingiu o pico ou ainda estamos longe disso?

É uma pergunta muito difícil, mas olhando para o gráfico e olhando para a evolução do número de casos, eu diria que ainda estávamos na fase ascendente do pico. Não penso que tenhamos atingido o pico.

Porque ainda se está a tentar perceber exatamente que vírus é este. É isso que impede até que haja medidas de controle mais eficazes?

Sim, e estamos a trabalhar. Há pouco tempo também me perguntavam esta questão e realmente pode haver alguma confusão em relação a alguns aspectos da parte clínica e dos números que aparecem. Os números que aparecem são os números de casos, mas há alguma confusão, até em termos internacionais, se são o número de casos de pessoas infectadas ou se são o número de casos de pessoas com uma pneumonia por coronavírus.

Porque são coisas diferentes.

São coisas diferentes. As pessoas infectadas podem infectar outras pessoas, mas estes casos que nos aparecem são casos de pneumonia por coronavírus, que é realmente a forma mais grave de uma pneumonia viral. Estão a subir o número de casos, mas existem outras pessoas que podem ser contagiosas e que estarão, elas próprias, a poder disseminar a doença. Neste momento, pensa-se que a taxa de reprodutividade da doença será volta de 2.2, 2.5, quer dizer, uma pessoa que esteja infectada deverá infectar ou poderá infectar, se não houver nenhum tipo de precaução Entre duas a três pessoas.

Isso é uma coisa que depois provoca uma evolução exponencial quase, não?

É verdade, mas por outro lado, há depois outro aspecto que é a virulência da doença é muito mais intensa, se se pode chamar assim, quando o vírus passa de uma espécie para outra. A partir do momento em que ele é passado na mesma espécie, ele vai perdendo gradualmente a sua virulência.

Até acabar, de alguma maneira, por ter uma grande epidemia.

Exatamente, que é isso que aconteceu com a maior parte das outras epidemias por vírus. Inclusivamente, vemos isso em relação aos vírus da gripe.

Ou seja, o que assistimos sempre, às tantas não é tanto a vacina de que já falamos e que podemos falar um pouco mais à frente, não é tanto pela vacina, mas é pelo próprio enfraquecimento do vírus.

Sim, absolutamente. Nós não podemos esperar por uma vacina para tentar controlar este surto epidémico. Nem vamos poder mesmo, de todo.

Perante tudo o que nos está a dizer, não deviam as autoridades chinesas ter atuado mais cedo para tentar controlar este surto?

Esse é sempre o problema quando se fala da China e os problemas que acontecem na China. Depois existem realmente suspeitas que provavelmente já havia transmissão muito mais cedo. Temos de contar também que uma pneumonia viral pode ser confundida com muitas outras pneumonias. E que, sobretudo, para suspeitar que existe uma pneumonia por um novo agente, é preciso que haja um bocadinho mais, um clique, uma faísca. Percebe? Portanto, é bem provável que já existissem casos provocados por este coronavírus, mas que fossem interpretados como outras pneumonias virais, inclusivamente por influenza, e que em muitos destes locais ninguém faz o diagnóstico etiológico. Isto é, ninguém vai fazer teste para saber se aquela pneumonia que nos aparece, que é a vigésima do dia, foi provocada por um vírus influenza ou não.

E então o que este novo coronavírus tem de diferente dos outros? Do que eu percebo.

Eu penso que não é o coronavírus que é diferente, é o que aconteceu às autoridades chinesas para pensarem que havia alguma coisa diferente. E penso que o buzilas, estou apenas a especular, eu não tenho nenhum dado sobre isto e provavelmente não existirá, mas aquilo que pode ter feito o clique, como eu lhe disse, foi a quantidade de casos que existiam vindos daquele mercado.

E, portanto, isso devia ser logo um sinal de alerta.

Exatamente. A partir do momento em que há muitos casos de pneumonia grave e em que eles associam isso a pessoas que trabalhavam ou que frequentavam aquele mercado, então aí há alguém que diz: "Aqui é uma coisa diferente, é uma coisa nova". E isso não é por serem os chineses, muitas vezes é o que acontece quando temos doenças novas em que terá que haver sempre alguém que pensa numa relação diferente, uma relação de causa e efeito diferente.

E agora que já temos este vírus há mais de um mês, quase um mês e meio, temos medidas de tentativa de controle, de proteção por parte da população. Perguntar-lhe se as máscaras são efetivamente eficazes perante surtos destes.

Depende do tipo de máscara e depende da proximidade que nós temos da pessoa que possa estar eventualmente infetada. Obviamente, quem está em contato com os doentes que estão a eliminar muitos vírus terão que ter máscaras mais evoluídas, digamos assim, com características de segurança mais evoluídas. Para o viajante que se desloca agora em vários aeroportos e que está a passar por zonas onde possa eventualmente haver alguém que possa estar a eliminar no espaço aberto estes vírus, as máscaras cirúrgicas serão suficientes.

Jorge Otávio, como é que a comunidade clínica, neste caso em Portugal, e científica se vai mantendo informada sobre aquilo que se passa na China? Há canais de comunicação próprios, publicações científicas? Como é que se mantém informado sobre as últimas que se sabe sobre este vírus?

É interessante perguntar isto, porque estas doenças novas trazem sempre informações novas e até a maneira como olhamos para a medicina e para estes casos de outra forma. Não tem a ver diretamente com aquilo que me perguntou sobre a nossa informação, mas há aqui um aspecto que do meu ponto de vista, é muito importante, do ponto de vista de saúde pública. Esta é a primeira vez que um país se fechou sobre ele próprio para impedir que houvesse transmissão de uma doença. E não estamos numa situação muito pior porque a China conseguiu bloquear grande parte da transmissão no seu próprio país. Ao mesmo tempo que deveríamos ter mais silêncio e mais dificuldade em termos de informação, nunca houve, que eu me lembre, em nenhuma das epidemias que eu já assisti, tanta informação a circular e mais que isso, tanta informação científica a ser publicada em revistas científicas de um dia para o outro. Nós neste momento pegamos na Lancet ou na New England ou nas grandes revistas de referência e não vemos qual é o número em termos do mês, vemos em termos do dia em que foi publicado, porque elas têm publicações online e nós digamos que o que temos mais é informação e provavelmente não temos tempo suficiente para ler tanta informação. Por outro lado, a John Hopkins, por exemplo, eu penso que certamente tem isso convosco, mas tem realmente um site fantástico que nos atualiza diariamente sobre o número de casos dentro da China, fora da China, por províncias, por países e é uma atualização que é permanente e que nos dá esta noção de como é que a situação está a evoluir.

E esses instrumentos são mais importantes que a Organização Mundial de Saúde no fornecimento de dados ao momento?

Sim, claramente. Aliás, eles vão buscar informação à Organização Mundial de Saúde, ou a CDC, ou CDC de Atlanta, às várias fontes que têm, à própria CDC da China. E essa informação eu uso-a bastante, porque considero que obviamente não será ao minuto. E, por exemplo, de ontem para hoje os números são muito parecidos, o que eu não acredito que também que esteja a funcionar, há a ideia de que exista um platô, que eu não acredito que seja o caso, portanto, é provavelmente falta de informação sobre casos. Mas é só para dizer que nós entramos no browser e carregamos no site e temos imediatamente esse tipo de informação. Portanto, existe muita informação, existe talvez a dificuldade em selecionar a informação que é realmente necessária.

E o esforço para desenvolver a vacina e toda a investigação é feito como? Pelas farmacêuticas privadas, por autoridades, a comunidade científica, todo mundo colabora?

Neste momento, o esforço é principalmente acadêmico. Isto é normalmente o que acontece. São centros acadêmicos que pegam nos nomes e que começam a trabalhar, até porque já terão, eventualmente, algum background em trabalhar com coronavírus. E só depois é que haverá alguma vontade das empresas farmacêuticas em pegar no trabalho e desenvolver. Agora, não é possível, no estado atual da legislação, ou pelo menos dos protocolos que temos em relação às vacinas, libertar uma vacina em poucas semanas. As vacinas precisam de várias fases de teste e, até para uma doença que tem uma mortalidade que anda volta dos 2%, as questões éticas ligadas à utilização de uma vacina sem controles seriam importantes.

Dizia que ainda é um processo demorado chegar a uma vacina para um vírus destes, mas mesmo que o vírus acabe por ser controlado e comece a diminuir o número de casos, é importante ter essa investigação de perceber se é possível chegar a uma vacina para combater? A nível de investigação, é importante conseguir chegar a essa vacina?

É importante por talvez duas razões. Primeiro, porque há muito mais coronavírus na natureza e sobretudo em reservatórios animais e estes países que consomem e que contactam com estes animais têm risco de haver um novo desenvolvimento. No fundo, no espaço de praticamente 20 anos, temos dois surtos por dois novos coronavírus e pelo meio, temos o outro aspecto que eu também acho importante, é que temos um outro coronavírus, que é o do Médio Oriente, onde as pessoas não têm feito muito por ele. Quer dizer, este coronavírus não aparece como um surto epidêmico porque não há uma transmissão tão mantida entre as pessoas, embora tenha existido um surto no Vietname, em que houve mais de 90 pessoas infetadas e aí teve uma evolução semelhante àquela que temos aqui em termos da propagação. E provavelmente seria interessante se tivesse uma vacina que pudesse cobrir este problema dos coronavírus. Agora, não nos enganemos, vão sempre surgir outros, se não é o coronavírus, vai ser outro, porque esta proximidade entre os animais e o homem é sempre cada vez mais mantida e os vírus vão cada vez mais facilmente ultrapassar a barreira da espécie.

Foi o explicador das manhãs 360, com Jorge Amato Guia, especialista em doenças infecciosas e medicina tropical. Muito obrigada pelos esclarecimentos e pela sua disponibilidade.

Muito obrigado.

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