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Está com as manhãs do Observador, Manhãs 360. Seja bem-vindo no explicador de hoje. Temos ao telefone a nossa convidada, a investigadora na área da Educação e secretária-geral do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais do ISCTE, Isabel Flores. Bom dia, muito obrigada por estar conosco.
Bom dia, muito prazer, é todo meu.
A comunidade escolar passou, no espaço de pouco mais de dois meses, por uma enorme transformação e adaptação. Isabel Flores, que avaliação faz deste período?
Foi um período atribulado pra toda a gente. As escolas não foram exceção, mas no cômputo geral, os professores e as direções escolares mostraram uma capacidade enorme e uma vontade enorme de se quererem adaptar e de quererem continuar a prestar o serviço educativo, com todas as limitações que sabemos que existem, acima de tudo, numa sociedade extremamente desigual, em que a equidade ou as medidas de equidade se tornam mais difíceis à distância.
E essas desigualdades, naturalmente, que se agravaram, até pela simples dificuldade do acesso à internet ou não, ou da capacidade das famílias poderem ter um ou vários computadores. De alguma forma, o governo tentou colmatar essas dificuldades com o ensino à distância, através da televisão. Ficou garantido, de alguma forma, que essas desigualdades não fossem tão acentuadas?
É evidente que medidas como o Estudo em Casa pela televisão, como medidas que muitíssimas câmaras municipais foram assumindo essa responsabilidade da distribuição de equipamentos informáticos, são tentativas de reduzir alguma desigualdade e de dar o mínimo de oportunidade às crianças provenientes de agregados familiares com menos capacidade econômica. As questões da equidade são questões muito complexas, mesmo no ensino presencial. Porque mesmo no ensino presencial, nós sabemos que o estatuto socioeconômico das famílias continua em Portugal a ser um forte determinante sucesso. Ainda assim, a escola portuguesa tem feito um caminho ímpar na Europa a esse nível. Com a chegada desta pandemia, que é evidente uma situação inesperada pra toda a gente, portanto, não há ninguém que dissesse há dois meses: "Ah, eu já sabia que isto ia acontecer." Mas ninguém estava preparado pra isto. Todas as desigualdades e todas as injustiças sociais emergem com mais força e tornam-se mais visíveis, porque o trabalho que se vinha a tentar fazer é um trabalho muito presencial e tocar à distância crianças, quanto mais jovens, mais difícil. Portanto, sim, são boas medidas, é o que possivelmente foi o possível nesta fase. O governo está de parabéns, as câmaras municipais estão de parabéns, os diretores escolares, os professores, toda a comunidade educativa, os pais, que fizeram também um esforço enorme, porque de repente são também professores e grande parte deles não têm conhecimentos nem formação pra o serem. Se é uma situação ideal? Pois não.
Isabel Flores, vemos essas mudanças todas acontecendo muito rapidamente, no espaço dos últimos dois meses, a adaptar as escolas e o método de ensino mais tecnológico. Acha que quando a pandemia estiver ultrapassada, podemos aproveitar essas experiências, que podem ser adaptadas à realidade das escolas?
Eu acho que há aqui uma aprendizagem que foi fantástica pra toda gente. E não quer dizer que no futuro, quando a pandemia estiver controlada e nós possamos voltar a ter proximidade social, que passemos a um ensino à distância. Espero que não. Acho que a escola, o contato físico e o contato humano continuam a ser variáveis extraordinariamente importantes. No entanto, eu creio que vai haver muitos professores que vão integrar com mais frequência e com mais segurança ferramentas digitais no ensino e que percebem que essas ferramentas digitais, em alguns momentos, são facilitadoras das aprendizagens. Portanto, eu acho que foi um perder de medo, que foi precipitado por esta crise. E portanto, esse pode ser um aspecto positivo a tirar desta situação. Agora, eu não sou apologista de que o ensino básico, secundário e ainda mais pra trás, o pré-escolar e as creches, passem a ser feitas à distância numa fase em que possamos estar em contato social uns com os outros. Agora, sim, há ferramentas que vão emergir daqui e que são potenciadoras de aprendizagens diferentes e mais abrangentes.
Isabel Flores, é claro que o ensino presencial é sempre, diríamos, obrigatório e é o melhor modelo, mas qualquer mesmo, a Ministra da Educação não fecha a porta ao modelo misto, a partir de setembro, entre o presencial e o ensino à distância, no arranque do ano letivo. Isso é possível e é de alguma forma positivo para mitigar, de fato, a questão do distanciamento?
Pronto, o senhor ministro não fecha a porta a um modelo misto, até porque nós não sabemos o que é que vai acontecer no outono. Portanto, os cientistas vão nos informando que podemos muito bem esperar uma segunda vaga com carga viral grande quando regressarmos a um tempo mais frio. Nós não podemos fechar a porta a um modelo misto, inclusive a termos que voltar a ficar confinados durante os meses de outono e inverno. Não sabemos. E portanto, é muito bom sinal que o ministro e as direções gerais de educação Estejam a pensar em vários cenários. Um modelo misto será provavelmente o possível numa situação em que possivelmente não teremos que estar em confinamento absoluto como estivemos nos dois meses, mas que temos que manter este modelo de distanciamento a dois metros, salas com menos alunos. Portanto, neste modelo intermédio em que se calhar vamos estar a viver no outono, sim, vamos ter que adotar algo de e-learning, porque não é possível voltar à escola de turmas de 25, 28, que estão seis ou sete horas por dia na escola, que fazem recreios.
Isabel Flores, ainda antes da pandemia, esta era algumas das críticas mais importantes que se fazia ao modelo de ensino em Portugal. Turmas muito grandes, uma grande queixa dos professores e também aulas com uma duração muito longa, eventualmente excessiva. O que temos visto neste modelo agora é que temos aulas com cerca de 30 minutos, algumas com 45, eventualmente, mas temos, de facto, um ritmo diferente. Isso pode continuar até para além do b-learning?
Sim, quer dizer, a questão das turmas grandes, eu não corroboro muito com essa opinião.
Não partilha da ideia de que dificulta tão a aprendizagem.
Não, não há nenhuma evidência, ou há muito pouca evidência de que as turmas grandes dificultem a aprendizagem, se o método de ensino for o mesmo. A questão das turmas mais pequenas é os professores poderem adotar métodos de ensino de maior proximidade. E o que a literatura nos vai dizendo é que, de facto, turmas mais pequenas são relevantes pra crianças mais pequenas. Portanto, no primeiro ciclo, em que são muito dependentes de um apoio direto do professor. A partir daí, uma turma de 24 ou 27 não faz grande diferença.
E a duração do tempo de aulas?
As escolas já iam tendo autonomia para gerir o tempo de aulas. Mais uma vez, é a mesma coisa. Não é a duração em si, é a metodologia que se utiliza. É evidente que uma hora e meia a ouvir um discurso monocórdico de um professor é difícil pra toda gente, incluindo adultos, não é só pra crianças, é pra toda gente. Portanto, se o professor for capaz de dar uma aula de hora e meia em que intercala momentos mais expositivos com momentos mais participativos e mais de ação, aprendizagem centrada nos alunos, a aula de hora e meia funciona. Se estamos em um modelo simplesmente expositivo, pois sabemos que temos períodos de concentração limitados e, portanto, uma aula de hora e meia ou muito longa será com certeza mal aproveitada. Portanto, mais uma vez, não é o tempo em si, mas é o método. E isto é o mesmo com as turmas.
Claro, o método pode variar de professor pra professor, mas isso pode acontecer tanto com aulas de mais duração ou de menor duração. A questão é, reduzindo a duração e também o tamanho das turmas, é possível fazer grupos mais reduzidos de alunos e concentrar a matéria em blocos mais pequenos e garantir que o mesmo professor mantém o mesmo número de alunos e assim concentrar a parte letiva em aulas mais curtas.
Sim, é essa a perspetiva neste momento. Concordo que é possível, aliás, já há um tempo atrás nós vínhamos discutindo estas ideias, que é em vez de termos 25 alunos ou 27 a terem cinco tempos letivos de matemática por semana, todos ao mesmo tempo, se calhar podemos ter turmas mais pequenas a ter metade do tempo e se calhar a rentabilidade é a mesma e o resto do tempo cada um utiliza em trabalhos que os professores passam, de investigação, de pensamento e de estruturação individual. É possível, e penso que isso pode ser um modelo ganhador que pode ter alguma experimentação durante este período. Acho que há também uma oportunidade de mudar metodologias, que é uma das coisas que tem sido difícil de mudar ao longo do tempo.
E há aqui um desafio também para os professores. Há pouco falámos disso e da capacidade que eles tiveram, de facto, a adaptar-se e a fazer tele escola, mas estamos a falar de uma classe que tem uma média de idades elevada e que está a ser confrontada também pela primeira vez de uma forma inovadora com novas tecnologias. Exato, houve aqui um interruptor, houve um corte radical de um dia pro outro e tiveram que se adaptar. Que desafios é que eles têm pela frente?
Têm esses mesmo, os desafios da adaptação. Mas eu creio que sim, a média etária dos professores anda nos 50 anos. É evidente que há aqui uma questão de idade e há uma questão de personalidade. Eu encontro professores que às vezes têm 60 e tal anos e que se adaptam facilmente, porque têm uma personalidade de que vamos a isso, e professores mais novos que não se adaptam, mais velhos que não se adaptam. Portanto, não há aqui uma ligação clara com a idade. Eu acho que isso é um falso princípio que está por provar. O que nós vemos nesta fase é que, de facto, os professores com as limitações que têm, foram se adaptando e vão continuar a adaptar-se. Se há coisa boa que o sistema de ensino em Portugal tem, são professores extraordinariamente dedicados e com um nível de profissionalismo elevadíssimo. E isso é visível em todos os estudos PISA, em todos os estudos TALIS, que há quase duas décadas vêm sendo realizados, e é sempre o que emerge. Em Portugal, os professores são de uma dedicação e de um profissionalismo extremo e nesta fase continuam a sê-lo, continuam a demonstrá-lo. Eu tenho enormíssima admiração pela classe docente.
Isabel Flores no Explicador das Manhãs 360, é investigadora na área da educação e secretária-geral do Instituto para as Políticas Públicas e Sociais do ISCTE. Muito obrigada pelos seus esclarecimentos e por ter estado conosco na Rádio Observador.
Obrigada eu e obrigada por debaterem temas tão interessantes.
Muito obrigada, um bom dia.
Muito obrigada, bom dia.
Ficamos a 13 minutos das 11. Vamos de fim de semana. A Carla fica a um gabinete de crise pra gerir depois das 13h. É verdade, só relações.
Alguém tem que tratar dessas coisas importantes.
É verdade. Na segunda-feira, junta-se às manhãs 360 o Nelson Ferrara. Eu regresso na semana seguinte. Até lá, fica muito bem entregue com esta equipa incrível. Bom fim de semana. Bom fim de semana.
Bom fim de semana.
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